domingo, 7 de fevereiro de 2010

Direito de escolha

Gosto muito dos livros de Maitena (Mulheres Alteradas, Superadas, Curvas Perigosas). Um dos motivos é que a autora traz à tona discursos que são cotidianamente silenciados. E o faz com muito bom humor. Raramente, encontram-se, nos espaços mais convencionais, discursos como estes sobre a amamentação:





Do livro “Mulheres Alteradas 5”, Maitena, Ed. Rocco. Trechos dos quadros “Aquelas coisas que ninguém te avisa na hora de você dar de mamar ao bebê”.

Por razões óbvias, tais discursos são apagados nas campanhas em prol da amamentação. Pertencem à região do interdito (aquilo que não se pode dizer). Mas não é “só” o discurso oposto que a obra de Maitena põe em circulação. Ela não nega nem exclui aqueles que são socialmente valorizados (o amor de mãe, a plenitude de se ter um filho, etc.). Nos quadros da autora, vários discursos convivem e, assim, explicitam a complexidade da realidade, que é muito mais rica e conflitante do que a visão maniqueísta quer fazer parecer.

É comum alguém se dizer indignado porque, por exemplo, uma mulher opta por não ter filhos. Tudo bem querer ter filhos. Tudo bem não querer. A falta de respeito à opção de uma pessoa apenas revela preconceito. Eu respeito quem quer ter filhos. Também respeito quem não quer. Só não consigo entender porque a decisão PESSOAL (ou a dois) de uma mulher (ou de um casal) deva indignar o outro.

Se algo me causa indignação, são os filhos colocados no mundo sem que os pais lhes ofereçam a menor estrutura. Muitos são postos para pedir esmolas nos semáforos. Também discordo das mães, pais ou casais que têm filhos para projetar neles seus próprios sonhos (sei que, em parte, isso é inevitável), que esperam deles aquilo que não conseguiram realizar. Que abrem mão de projetos pessoais para, depois, cobrar “tudo aquilo que fez por eles” ou “tudo que deixou de fazer por eles”. Que têm filhos (só) para não ter uma velhice solitária. Pobres essas crianças que já nascem com um “boleto de expectativas” para quitar, ainda que, às vezes, possuam até um plano de previdência desde recém-nascidas.

Também me soa autoritária uma afirmação do tipo “cesárea é um absurdo”. Escolher é legítimo e cada um é responsável por suas opções. Se a natureza é sábia, também proporcionou ao ser humano os avanços da medicina. [ESCLAREÇO: Contesto, especificamente, a afirmação “tal coisa é um absurdo”, que implica o julgamento “não deve ser feita”. Ou seja, não ponho em questão os benefícios do parto normal, apenas reitero a legitimidade de uma escolha.]

Ter ou não ter, eis a questão... Eu ainda não decidi. Poderão me lembrar que os óvulos não duram para sempre, mas ainda existe a adoção. Decido que, POR HORA, grávida de uma tese, seria cruel passar o estresse dessa fase para um bebê. Posso ser tachada de egoísta, segundo a noção clássica de egoísmo. Cada um paga um preço.

Também não sei que mundo os pequenos de hoje encontrarão pelo futuro. Com pouca água? Mais guerras? Mas eu juro que (ainda) não perdi toda a fé e esperança.

Outro dia, pensei numa coisa. A licença-maternidade foi uma conquista enorme da/para a mulher. Ainda precisamos brigar pelo aumento da licença-paternidade (que fosse pelo menos um mês!), tanto para que o homem possa vivenciar mais de perto o momento mágico de ser pai, quanto possa prestar mais assistência à sua mulher nesse período. E isso me fez pensar que, no mundo perfeito, também poderia haver a licença-tese. Por que essa também não poderia ser uma opção apoiada socialmente e até pelas leis trabalhistas?

Há três grávidas lindas no meu trabalho. Ou melhor, agora são duas, porque uma das minhas “sobrinhas” já nasceu. Admiro e respeito muito a escolha dessas minhas colegas.

Postado no meu blog do UOL em: 06/4/08

3 comentários:

  1. Comentário recebido:

    Oi Érika... eu não disse? Anotação na mão: promessa comprida! heheh... Achei ótimas as suas observações (como um bom melão, é claro - inclusive os parênteses, as chaves, tudo bem explicadiiiinho... heheh) sobre as pressões pelas quais passamos, diariamente! Concordo que não há mal nenhum em ter filhos ou não, amamentar ou não, passar por cesárea ou parto normal... Realmente, o que importa, é o respeito pelas escolhas alheias. E incluo os homens, os futuros pais ou não, nessa história. Afinal, quem vai carregar o bebê somos nós!!! Eles não aguentariam mesmo, né? Heheh... Beijos!!!
    Fernanda | fernandamoraesjornal@terra.com.br | 23/04/2008 21:40

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  2. Comentário recebido:

    Muito legal seu texto. Principalmente no que diz respeito a querer ou não ter filhos. E esse tipo de cobrança não pára nunca: eu, que tenho dois, hoje mesmo fui indagada por uma pessoa sobre quando teria o terceiro... Ou o famoso "não vai tentar uma menina?", que acho engraçado: quem pensa assim e tem o terceiro menino faz o que com ele? Joga no lixo?? Só queria comentar um pouquinho sobre cesárea: o problema é que muitos médicos (no caso da cesárea, dá pra dizer que, no Brasil, é a maioria deles) preferem fazer cesárea, o que é bastante complicado. Colocar mãe e bebê numa situação de cirurgia de grande porte sem necessidade deveria ser crime punido por lei! O Brasil é mundialmente conhecido como o país das cesáreas, em alguns hospitais particulares ela chega a representar mais de 95% dos partos. Isso é um problema de saúde pública sim, e acho que como tal deve ser tratado.
    E é uma covardia, porque os médicos usam de sua autoridade pra convencer as mulheres, às vezes na hora do parto, a fazer cesáreas, dizendo que o bebê pode vir a entrar em sofrimento, etc. É uma violência: você está ali, super insegura e fragilizada, o médico vem e te diz que tem algo estranho e que seu bebê pode estar sofrendo. Eu sei porque aconteceu comigo (e com váááááárias mulheres que conheço) e dá uma sensação horrível depois, por anos. Você sente que foi enganada. No segundo parto, se eu não estivesse muito mais segura, teriam feito isso de novo comigo. Quanto à amamentação, acho que se passa algo semelhante: já vi médico dizer pra mãe que o leite dela é fraco, que é preciso complementar (às vezes desde os primeiros dias de vida!), sendo que o corpo só vai produzir leite se o bebê estiver mamando.
    Acho legal dizer que a amamentação quase sempre demora um pouquinho pra se estabelecer (horários, jeito da criança pegar o peito (sem machucar e de modo eficiente), fortalecimento do bico do peito (que pode rachar, sangrar, e dói muito)), mas, depois que se estabelece, é uma maravilha pra mãe e pra criança. De novo, minha opinião é a de que se trata de um problema de saúde pública. Há muitas vozes ignorantes (e dessa vez os médicos não são os principais vilões, e sim as mães, sogras, etc.) que boicotam a amamentação. Já li uma pesquisa (não me lembro direito dos dados) que dizia que a grande maioria das mulheres foi "orientada" por sua mãe ou sogra a parar de amamentar ou dar mamadeira também, logo nos primeiros meses. E nessa hora a mulher precisa de muito apoio pra enfrentar os desafios, que não são poucos. Bem, foi mais um depoimentinho de alguém que observa essa questão bem de perto há 10 anos. São dois problemas de saúde pública. Beijos, Vida longa ao blog, Ana
    Ana Raquel | anaraquelms@gmail.com | 13/04/2008 10:10

    Resposta do Liquimix:
    Achei muito válido pôr aqui o comentário que a Ana me enviou por e-mail, pq, além de tudo, é opinião de uma mãe experiente. (Dividido em 3 por causa do espaço, vale ler na ordem!). Sobre a cesária, eu só quis dizer que acho errado alguém dizer "cesária é um absurdo, vc TEM QUE fazer normal..." Ou seja, não discordo da defesa do parto normal, de querer, escolher, mas ainda acho que a mulher tem direito a escolher uma cesária. E sobre a amamentação, foi interessante ler a visão da Ana, pois até hoje só vejo a situação contrária, gente obrigando, dizendo TEM QUE - TEM QUE - TEM QUE... para mim é até surpresa saber que tem gente "boicotando" a amamentação... E a Ana, que é uma mãezona, mostra que, sim, tem dor, etc., mas é bom "apesar de" (como diria Clarice Lispector) (E dizendo assim fica muito mais honesto do que nas propagandas e campanhas, onde tudo é inteiramente lindo). VALEU, ANA!

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  3. Comentário recebido:

    Somos muito presos ao discurso romântico e talvez até determinista, de que a mulher DEVE ser mãe só porque foi preparada biológicamente pra isso..os tempos mudam, a mulher mudou muito. Ainda quero ser mãe..é um dos meus sonhos, mas as vezes, me questiono, afinal, não sei nem se vou me casar! rss Em todo caso, vc está certa, um bebê não merece a pressão da vida acadêmica! hehe Bjos!
    Sue Ellen | sueellen.cruz@gmail.com | sueellencruz.blogspot.com | 07/04/2008 21:46

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