domingo, 7 de fevereiro de 2010

Língua, uma questão de discurso

Republicando...

Constatar que a língua é viva e tem funcionamento diferente (e mais complexo) do que faz parecer o estudo restrito às regras de norma padrão é apenas um primeiro passo. Além de romper com preconceitos sobre linguagem, as descobertas da Lingüística podem trazer também uma contribuição prática, muito bem-vinda para o ensino (e necessária em tempos de utilitarismo -- até exagerado).

Boas gramáticas mostram que grande parte das dúvidas dos falantes não são resolvidas de forma definitiva, por isso, apontam interpretações sobre usos variados da língua. Outras, mais conservadoras, tratam a questão como “é assim” e “não pode ser assado”. Tal atitude transforma a Língua Portuguesa numa matéria de “decoreba”, tida como chata para os alunos. Melhor seria se os estudantes fossem estimulados a compreender funcionamentos lingüísticos.

Um exemplo básico: quem estudou as famosas orações subordinadas vai se recordar de uma regra sobre as adjetivas: quando entre vírgulas, é explicativa. Sem vírgulas, é restritiva. Assim, “A menina que dança balé tem o corpo bonito” quer dizer que estou restringindo (especificando) a menina de quem falo. Quero elogiar o corpo da garota (de cujo nome, talvez, eu não me lembre), então, digo que se trata de tal menina que é dançarina. Já “A mulher moderna, que pratica esportes, tem o corpo bonito” quer dizer outra coisa: toda mulher que se exercita, em geral, tem o corpo bonito -- e isso a faz moderna. Note que não são as vírgulas ou a ausência delas que fazem da oração restritiva ou explicativa, mas sim as implicações discursivas do enunciado. Junto dessas singelas vírgulas, vem toda uma visão de mundo: o que é um corpo bonito; quem se movimenta, geralmente, é magro e isso é ser belo, etc.

Isso leva à constatação de que o trabalho com a língua em sala de aula pode (e deve) exigir raciocínio, interpretações, reflexões sobre os discursos que circulam na sociedade e de quais sentidos trazem atrelados. Muito mais estimulante do que decorar regras -- que, no fim das contas, podem ser consultadas em bons dicionários e gramáticas e acabam sendo memorizadas com o uso. O que há de mais relevante nessa abordagem é a possibilidade de estudar o discurso a partir da linguagem (e não a língua a partir do discurso estabilizado).

Convido o leitor a observar, nos textos, essas orações com “que” e encontrará pistas sobre sentidos implícitos. O estudioso Michel Pêcheux percebeu nelas um efeito muito interessante, o de forjar um discurso (não necessariamente verdadeiro) como inquestionável através de um “dado pressuposto”. Uma oração como “A crise que está a caminho podia ter sido evitada” não deixa espaço para o leitor duvidar de que a crise é iminente. Aula de Língua Portuguesa pode ser bem interessante e contribuir para uma formação crítica do cidadão.

P.S.: Dr. Manoel Corrêa, docente da USP e responsável inicial por minha paixão pela Lingüística, faz uma ressalva à minha afirmação de que a regência do verbo assistir preserva uma sutileza, já que, dificilmente, hoje, alguém confunde os sentidos de “assistir o paciente” e “assistir o filme”. Foi uma concessão, confesso. Faltou explicitar que essa regência (assistir ao) não faz falta alguma, pois ninguém confunde manga de camisa com fruta. Ela já desapareceu da fala culta informal e só é mantida em situações formais escritas. Em português claro, já era. A não ser que todo mundo passe a se policiar a partir deste instante (mas acho que há coisas mais relevantes para se fazer).

Érika de Moraes, jornalista e doutoranda em Lingüística pelo IEL/Unicamp.

Artigo publicado no Jornal da Cidade (Bauru, SP)em 17/09/08:
LINK: http://www.jcnet.com.br/busca/busca_detalhe2007.php?codigo=113269

Um comentário:

  1. [Rose] [rosevillela@uol.com.br]
    Que maravilha, adorei seus textos! Como você escreve bem! Vou indicá-los a várias pessoas, que conheço, que gostam da "lingua". beijos, Rose
    21/02/2008 18:08
    Comentário enviado por e-mail.

    [Ana Raquel] [anaraquelms@gmail.com]
    Érika, Gostei muito. Achei que você achou o tom certo da "divulgação científica". Ficou ótimo o seu comentário sobre o "assistir" do texto anterior. Tem recebido retorno dos leitores? Bjo, Ana.
    21/02/2008 17:46
    Comentário enviado por e-mail.

    [Serjones] [biscaldi@terra.com.br] [www.coracao-envenenado.blogspot.com]
    Érika, bem interessante a proposta do seu blog. Confesso que não li os textos, só dei uma passada de olho... qto ao professor Manoel, ele realmente é fantástico e devo muito a ele e aos conhecimentos que me trouxe (ainda que não me desse conta na época).
    23/01/2008 21:11

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