domingo, 14 de março de 2010

Isto não é um manifesto

Eu não gosto de enquadramentos. Nem de horários, mas sigo-os porque necessário. Não simpatizo com Dilma, nem depositei minhas esperanças no Lula, nem por isso deixei de torcer por seu governo, pois assim estaria torcendo por meu país. Não disse que não gosto nem que gosto, só que não depositei esperanças, nem descrenças. Eu não sofri qualquer decepção com os escândalos petistas porque nunca esperei a salvação. Também jamais acreditei que os escândalos começaram nesse governo e nesse partido, ah não! Eu não digo em quem voto, pois exerço o direito do voto secreto. Queria uma mulher presidente, mas esse não é meu critério de escolha. Como todo mundo, odeio pagar impostos, mas compreenderia se visse resultado, se não precisasse pagar meu convênio médico particular e se não visse idosos sem leito nos corredores de hospitais.

Eu não tenho paixões cegas. Eu não gosto de paixões cegas. Acho que as militâncias cansam, os exageros cansam. Falar incansavelmente de um só assunto cansa, mas quem sou para julgar as causas nas quais as pessoas acreditam? E eu acredito no direito de expressão. Abaixo-assinados e movimentos não deixam de ser um impulso de homogeneização, mas às vezes valiosos. Respeito as causas, assim como as diversidades. Só não quero sair pregando nada. Nem religião, nem política, nem futebol nem nada, nada mesmo. Com 16 anos, era boba e achava que acreditava em um partido político. Jovenzinha que era, achava que existia o MDB dos sonhos das Diretas Já e dos livros de história. Eu sou sãopaulina, mas creio que não vale a pena sofrer por futebol, que deveria ser algo lúdico para alegrar a vida.

Na causa da preservação do meio ambiente, eu acredito. Mesmo assim, não gostaria de me tornar repetitiva. Para mim, é pressuposto: poluir o ar é se matar e matar o outro, e o direito à vida está acima de tudo. Proporcionar queimadas me parece um dos crimes mais graves de todos. Não gosto de cigarro, mas não odeio quem fuma. Só não quero que fumem perto de mim, mas vou tentar falar menos disso, pois acho que todos já sabem (eu disse tentar). Gostaria de dizer que não gosto de fórmulas feitas, mas isso seria como dizer uma fórmula, vejam como é difícil. Mas o que não gosto mesmo é de visões fechadas: bonito X feio; claro X escuro; teórico X prático; Direita X Esquerda; Linguística X Semiótica; Apocalípticos X Integrados. Gosto de pluralidade e de visões amplas. Eu realmente não vejo graça em quem se contrapõe a um autor quando leu meio capítulo, mas também não vejo motivos para listar quantos livros se lê na vida. Vejo sentido em ler, apenas ler. Também em ouvir música, dançar, amar. Não gosto de esnobismo, mas pode haver quem me ache esnobe. Gosto da pluralidade. Vejo mais necessidade de consciência do que de leis, mas, infelizmente, vivemos no mundo da inconsciência e das leis.

Eu não gosto de viver num mundo em que o parecer se sobrepõe ao ser, mas é esse mundo que está disponível, então vivo. Eu não gosto mesmo é de falsa objetividade e da falsa pluralidade. Eu não gosto de falta de coragem de tomar posição. Uma matéria televisiva sobre possível lei contra fumar no trânsito: um entrevistado diz que “está certo”, outro que “é um absurdo” e o jornalismo cumpriu o seu papel. Cumpriu? Seu papel não era o “suposto” compromisso com a verdade? Já não existe uma lei que diz que se deve segurar o volante com as duas mãos, exceto para mudança de marcha? Precisaria de uma lei para falar ao celular, tomar sorvete, beber cerveja ou coca-cola enquanto dirige? Ainda tem quem jogue a lata de cerveja vazia no meio da rua, pela janela. É, eu não gostaria de me tornar repetitiva. Mas tenho sido movida a acreditar que, no mundo atual, não é exagero ter de repetir e repetir sobre a falta de bom senso e educação.

Entendo que ninguém é inteiramente mau ou inteiramente bom, mas creio que existam maldades que extrapolem. Jamais desejaria o mal a alguém, por mais que tivesse motivos para não gostar da pessoa. Não gostar, não ir com a cara não significa desejar o mal. Não gosto de mau gosto, por mais que o conceito de mau gosto seja relativo. Mau gosto, para mim, por exemplo, é tirar sarro de alguma fraqueza ou deficiência, como se todos não tivéssemos alguma. Mau gosto é zoar de coisa como a falta de um dedo do Lula. Caráter é denunciar a corrupção e não corromper. Gosto de coerência. Também acho mau gosto e infantilidade tirar sarro de idade, sendo que todo mundo, se tiver sorte, vai cruzar todas as décadas: os vintes, os trintas, os quarentas, setentas... Eu já achava isso aos quinze e continuo achando aos trinta. Acho que se deve respeitar a sabedoria e experiência dos mais velhos, assim como os mais velhos devem vislumbrar as ideias dos mais novos.

Odeio rótulos. Eu não sou socialista, nem direitista, nem egoísta, nem altruísta, nem ecologista, nem modernista ou cubista, nem qualquer ista. Mas tento ser coerente e acreditar no bem como posso, ainda que, em alguns momentos, o bem que está ao meu alcance seja não fazer nada para não atrapalhar. Incoerente é se dizer socialista e andar de carro zero, defender os artistas independentes e falsificar carteira de estudante para pagar meia, denunciar corrupção e dar um presentinho para conseguir algum benefício. Se eu pudesse, queria mudar o mundo, ainda que, como disse uma amiga sobre as aquarianas (terá algo a ver?), meus cabelos continuem desarrumados. Eu adoro os longos momentos em que me sinto poderosa, independente, inabalável, mas, como qualquer ser humano, também tenho fraquezas e, às vezes, queria ser “encantadora” “para que gostassem de mim”. Mas não adiantaria gostarem de mim se eu tivesse de ser perfeita o tempo todo. Não serviria. Quero mesmo é ser amada imperfeita, ao menos por uma única pessoa no mundo. E acho que sou por mais. Eu não gosto de fazer sempre a mesma coisa, mas a vida tem rotinas inevitáveis, outras deliciosas. Eu me apaixono todo dia pela mesma pessoa, pelos mesmos olhos verdes, pelo mesmo coração, de um menino tão perfeito e imperfeito quanto eu.

Não tenho a intenção de convencer ninguém de nada, mas busco levar às pessoas, através deste blog, assuntos que seriamente pesquiso e reflexões embasadas em meu olhar de analista. Blog não é best seller, mas eu escrevo, ainda que for para mim. Este texto ficou longo demais, mas só lerá quem quiser, por isso não deixa de ser democrático. Gosto da democracia. Décadas atrás, poderia ser banida só por um texto como este.

2 comentários:

  1. Oie,
    Li o seu texto e adorei! Tive a sensação de que são respostas a.... Na realidade, há ali uma profusão de vozes!!! Parece que 'algo' a incomodou e então o texto! Muiiito bom!
    As nossas "identidades" (na falta de uma expressão melhor...) são mesmo mto complexas, não cabem em rótulos formatados, que visam à conformação, à contenção! O seu texto me fez lembrar de uma passagem de um livro que estou lendo, "Comer, rezar, amar", em que a autora descobre, finalmente, qual é a "sua" palavra. "Antevasin". É uma palavra em sânscrito, que significa "aquele que mora na fronteira".
    "Durante estes últimos anos, passei muito tempo perguntando-me o que devo ser. Esposa? Mãe? Amante? Celibatária? Italiana? Glutona? Viajante? Artista? Iogue? Mas não sou nenhuma destas coisas, pelo menos não completamente. Sou apenas uma arisca antevasin - nem isso nem aquilo - uma aprendiz da fronteira em eterna mutação..." (Liz Gilbert. Comer, Amar, Rezar, p.213).
    Bjos e ótimo fim de semana!
    Fabiana

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  2. Erika, novamente quero parabenizá-la pelo excelente texto...
    Estou aqui me distraindo com essa leitura gostosa que você proporciona no seu blog.

    Concordo plenamente quando cita os rótulos que as pessoas titulam as outras, mas as incoerências cometidas por estas sempre caem por terra.

    Beijão . . .

    Gabriel Teixeira Silva

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