sexta-feira, 25 de junho de 2010

Meu jeito de vuvuzelar


Quando um carro corta a minha frente sem dar seta, eu buzino. Se passa no sinal vermelho, buzino. Coisa errada no trânsito, costumo buzinar. Só isso. Não xingo, mais nada. Não é um gesto premeditado, é o reflexo de apontar que uma regra importante foi rompida, que o desrespeito ocorreu, que o direito do outro foi podado. Meu marido pede que eu não buzine. Que um dia alguém pode estar bêbado, etc. Eu quero ouvi-lo. Já o ouvi. A razão ouviu. O reflexo precisa ser treinado. Uma amiga contou que se tornou muito mais contida no trânsito quando engravidou. Faz sentido: a responsabilidade por um outro ser.
Quando presencio injustiça, incoerência ou desrespeito de palavras, meu jeito de buzinar é um protesto fundamentado, teorizado. Ah, aquarianas... que queriam poder mudar o mundo ainda que não se entendam com seus cachos, que, cada dia, amanhecem de um jeito. No entanto, há situações em que simplesmente me calo. Me calo não por timidez muito menos por falta de argumentos. Me calo porque seria como falar uma outra língua, como um diálogo de surdos. Este pode ser um "sofrimento" de analista de discurso: enxergar de fora as formações discursivas divergentes - cada interlocutor, adepto de uma ideologia, não vai se render à outra, a não ser que tenha um coração grande. Mas eu não gosto de me calar, é como engolir todo o meu potencial. E, quem sabe, por isso eu buzine no trânsito.
Até não gosto do som das vuvuzelas. Mas, como Rosseau, sou obrigada a defender o direito de dizê-las.