sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

E nos casamos...

... em um mês.

Namorávamos há 8 anos, desde o segundo ano da faculdade de Jornalismo, na Unesp de Bauru. No meio desse tempo, ficamos um tempo “dando um tempo”. (Namoro longo... tem que ver se é para casar...) Só que o amor era sólido, amor de verdade, muito mais do que paixão. E resolvemos financiar um ap. Era um bom negócio, tínhamos juntado, em contas separadas, uma graninha legal para a entrada e terminaríamos de pagar em apenas 5 anos (que já se passaram!). Nada melhor do que começar a vida a dois sem aluguel. Entregue o apartamento, fizemos umas reforminhas para personalizar (textura na parede, armários planejados etc.). Como já tínhamos lugar para guardar, fomos comprando móveis e começamos a pensar na decoração (persianas etc.).
Em janeiro de 2005, já estava praticamente tudo pronto, só faltava um detalhe: e aí, o que iríamos fazer, casar ou simplesmente morar juntos?
Na nossa cabeça, havia uma data: fevereiro. Não queríamos uma festa sofisticada. Investimos nosso dinheiro no ap. Eu, Érika, tampouco me identificava com o corredor enorme de uma igreja e eu entrando com aquela calda e aquele vestido enorme que mais pareceria o bolo da noiva. Eu, uma mulher independente, cursando doutorado em Campinas, além de trabalhar para lá e para cá, dando aulas, fazendo correções em vestibulares e alguns freelas como jornalista. Eu, ainda por cima, uma pesquisadora de discursos sobre mulheres. Com todo respeito, não aceitaria a hipótese de “ser entregue” das mãos de um homem para outro, como manda o ritual, simbolizando a submissão da mulher (claro, cada um enxerga a sua simbologia).
Mas, enfim, sentíamos que faltaria uma data, uma foto, uma lembrança para eternizar. Então... tive a ideia de conversar com o Padre Beto, aqui em Bauru, para pedir uma bênção de casamento. Expressei minhas críticas em relação à igreja (resumidamente, para mim, amor eterno não se jura, se constrói no dia a dia). Ele propôs um matrimônio. Explicou que o ritual da igreja católica se resumia à bênção das alianças. O resto, que eu considerava machista, era uma invenção dos homens. Só precisaríamos de um casal de testemunhas de cada lado. Aceitamos. E ele se assustou com a data:

“Espere aí... você chega aqui, critica a igreja, decide casar, e quer um horário daqui a um mês!!”

O "puxão de orelha" do padre foi bem justo. Ele disse que, se eu conhecesse bem o catolicismo, saberia que os princípios eram belíssimos. Pena eu ter aprendido da maneira errada. Posso não ser a pessoa mais religiosa do mundo, mas tenho fé, acredito no bem. Cada palavra do Padre Beto (e pode ser apenas através de um tweet), para mim, além de trazer ensinamento, aquieta meu coração, pois me faz pensar que minhas ideologias não estão erradas. E que sou corajosa, por me despir de máscaras.
A data era importante para nós por diversos motivos. Era meu mês de férias da faculdade e o Ronaldo também já tinha marcado as férias no jornal. Apesar da bronca, o padre arrumou-nos um horário no dia 19 de fevereiro e até ajudou com dicas para os preparativos (sugeriu a Capela, o músico...).
Então, começamos a organização. Com um mês de antecedência, demos entrada no cartório (já havia informado que o prazo mínimo para os proclamas era de 20 dias). Não alterei meu sobrenome, por que o faria? Ao menos, atualmente, também se faz a pergunta sobre a mudança de nome para o homem. O próprio padre sugerira o religioso com efeito civil: além de econômico, era uma opção bem prática. Faltava uma coisa sem a qual não teria casamento...

O curso de noivos!!!
Precisávamos arrumar um curso de noivos super-hiper rápido. Comecei a telefonar nas igrejas... Em sua maioria, os cursos estavam agendados para datas posteriores ao nosso casamento. Alguns deles duravam dois ou até cinco fins de semana. Em Bauru, todas as tentativas foram esgotadas e nada... Cheguei a pensar que tudo iria por água abaixo. Uma amiga (a ex-aluna Raquel, que trabalhava na diocese) ajudou-me a pesquisar em outras cidades. Conseguimos um curso em Marília, a uns 100 km de Bauru. Beleza! Etapa vencida.
(Em tempo, infelizmente, foi um curso ruim, com frases do tipo "É da natureza do homem sustentar a casa. A mulher, se possível, fica em casa cuidando dos filhos, pelo menos até os 5 anos. Depois vai trabalhar SE PRECISAR" - acreditem se quiser! E o Ronaldo bem baixinho no meu ouvido: "você sabe que não é assim, mas sabe que hoje precisamos do certificado". Pois é, às vezes, por sobrevivência, é preciso uma máscara. Foi pena não ter dado tempo de fazer o curso na Paróquia Universitária de Bauru, tenho certeza de que teria sido diferente.).


A Capela...
Então, passamos a resolver outros detalhes. Havíamos decidido que a cerimônia seria na Capela da Universidade do Sagrado Coração (onde eu cursei Letras!), um lugar acolhedor e repleto de espiritualidade. Nem precisava decorar, apenas algumas flores e tudo já era lindo. A irmã Rosenilde, então responsável pela capela (a USC é dirigida por religiosas) nos ajudou, providenciando um tapete para a entrada, além do genoflexório e, é claro, o carinho. Sorridente, não recriminou a nossa pouca antecedência: “Deus está dizendo que é a hora”. Foi tão acolhedor ouvir isso que senti como se Deus mesmo estivesse me dizendo. E nunca me esqueci da calma que aquela irmã me transmitiu.
Seriam poucos convidados, cerca de trinta. Basicamente, pais, padrinhos e amigos muito próximos. Queríamos algo aconchegante. Não era questão de escolher as pessoas. Realmente, se fôssemos convidar todas as que têm significado em nossa vida, seriam bem mais. Os padrinhos-testemunhas foram nossos irmãos.


A música...
Ficou combinado que eu e Ronaldo entraríamos juntos na Capela, representando a decisão madura de duas pessoas de ficarem unidas com as bênçãos de Deus (a meu ver, algo bem mais compatível aos direitos iguais entre homens e mulheres).
Contratamos o saxofonista Leandro, indicado pelo padre Beto. Houve tempo de ir com a minha irmã assistir a um casamento em que ele tocou. Chorei emocionada naquele casamento de quem em nem conhecia, enquanto no meu, depois, a alegria seria tanta que me fez segurar bem a maquiagem. Aprovamos. E ele até aprendeu a tocar “All you need is love”, a meu pedido, para encerrar a cerimônia de maneira descontraída. Essa é a música-tema de nosso casamento! Não quis entrar com a marcha nupcial. Foi “Pompa e circunstância” (não deu tempo de pensar em algo mais original). Daminha? Não, o brilho tem que ser da noiva, rsss... E não tinha criança na família.
Certas coisas são assim. Sem eu saber previamente, o saxofone era o instrumento que mais combinaria com minha história de amor.

O Buffett...
Pesquisamos as possibilidades e fechamos com um buffett que tinha um salão menor (vip, do jeito que gosto!), superaconchegante para o nosso número de convidados (Comissaria Bauru). Não contratamos decorador. Nós mesmos nos encarregamos de encomendar flores. Recomendaram-nos uma boleira que fez um bolo delicioso, sem aquele gosto exagerado de glacê de padaria. Fui tendo algumas ideias: encomendei balas de coco, pois, embrulhadas na cor salmão (como a parede do Buffet e a textura do nosso ap.), dariam graça à mesa. Também encomendei docinhos e, na véspera do casamento, eu mesma daria laços nas caixinhas com docinhos dentro, que seriam as lembranças. Quase tudo encaminhado.


O traje...
Ronaldo resolveu bem rápido: foi a uma loja, comprou terno, camisa, gravata, sapato. Homem é mais fácil, né!
Tudo encaminhado, “só” faltava o meu vestido, a vinte dias do casamento. Tentei ver trajes para segundo aluguel, opção que seria a mais rápida: não gostei de nada, tudo rodado demais, enfeitado demais, eu me sentia um bombom embrulhado. Não valiam o preço que custavam. Fui a São Paulo. Sorte que, a essa altura, já estava acostumada ir à Capital a trabalho e sabia me virar por lá. Uma amiga (a Fabiana) me fez companhia até a Rua das Noivas. Nada de vestido que desse certo. Mas não sejamos pessimistas: voltei de lá com as luvas, cristaizinhos e uma tiara bem legal para fazer o arranjo de cabelo que eu havia visto numa revista. Eu dormiria na casa de minhas amigas Ana e Tânia. Então, contei a elas o motivo da minha viagem:
- Compras...
- Encontrou o que queria?
- Era algo difícil... vestido de noiva.
- E quando é o casamento?
- 19 de fevereiro.
- Do ano que vem?
- Não, no próximo mês.
- E você não tem vestido???

Imaginem a cara de espanto das minhas amigas. E eu ainda mantinha a tranquilidade. Afinal, no fim tudo costumava dar certo. Foi difícil cursar duas faculdades ao mesmo tempo, e cursei. Foi dureza o mestrado, e defendi minha tese. Tinha aprendido a ser otimista com a vida. Em Bauru, havia uma costureira (indicada pela amiga Perla) que poderia fazer o vestido. Ela própria aconselhava que seria melhor encontrar algo pronto, mas era uma possibilidade. Eu havia visto um tecido legal em Campinas, cetim italiano (no fim de janeiro, eu estava lá a trabalho, corrigindo a segunda fase do vestibular Unicamp, ah, e trouxe as sandálias brancas de uma loja campineira perto da casa da Tati!). Levei uma amostra para Bauru, mas o de Bauru era feio. Tecelagens diferentes! Minhas amigas disseram:
- Cê tá louca!!! Você não volta para Bauru sem levar pelo menos o tecido!
Começou a maratona. Elas me convenceram a dormir mais uma noite em São Paulo (ainda bem!), pesquisaram na Internet, fizeram telefonemas... e descobriram que havia na Capital uma loja da mesma rede da de Campinas. Pesquisaram a linha de ônibus que era preciso pegar para ir até a loja. A Tania foi comigo no dia seguinte bem cedo e até atrasou para o trabalho dela (uma odisseia). Comprei tecido para uns dois vestidos. Melhor garantir!
Voltei para Bauru com o tecido e minhas amigas ficaram em Sampa rezando para a costureira fazer a tempo (nos reencontraríamos no dia do casamento).


Em Bauru, fui à costureira (Genilda). Uma senhora calma, evangélica, pacienciosa, uma maravilha! Costurou superbem, quando minha mãe viu a prova foi um alívio (afinal, era uma aposta, nunca tínhamos feito costura com ela). Não deu tempo de fazer bordado. Eu também não insisti, pois, na verdade, os modelos da bordadeira não me agradaram muito. No final, o vestido ficou muito próximo do que eu queria. Bastou um tecido bonito e um corte bem feito. Simples, levemente rodado, decote princesa, alcinhas de verão. Procurei caprichar nos acessórios: além da tiara de São Paulo, um conjunto de colar e brincos de strass comprados em Bauru, já que não teria bordado. Meu buquê foi de orquídeas (em tonalidades vivas e mais claras) e rosas na cor champanhe. Modéstia à parte, fiquei um encanto, rsss... (realmente acredito nas pequenas alegrias e milagres da vida!).


Ainda deu tempo de pesquisar hotel para indicar para os convidados, visitar o local, negociar descontos...

O casamento foi fofo, saiu quase tudo conforme esperávamos. Atrasei um pouco por causa da cabeleireira (outra história...) e levei uma bronquinha do padre, mas ele realizou um casamento lindo demais! Viajamos depois para o Aguativa, resort no Paraná, onde pudemos descansar da correria do último mês.
Nossas lembranças são lindas: as fotos foram feitas por um amigo e fotógrafo genial, o Quioshi, fotojornalista, colega de trabalho do Ronaldo. O álbum ficou bem espontâneo. Na véspera, fechamos contrato com filmagem: deu vontade de assistir à cerimônia depois. Filmamos apenas na Capela e nos Jardins da Universidade. Quanto ao Buffett, consideramos que todos ficariam mais à vontade sem câmaras e luzes. Deu tudo incrivelmente certo. E aqui estamos, felizes, construindo nosso amor eterno. O convite, eu mesma tinha feito no computador com a seguinte frase:
“All you need is love... liberté, égalité, fraternité!”
(não me pergunte o que significa além da tradução literal, mas é coisa de aquariana...)

Somos eternamente gratos a pessoas que deram uma contribuição muito grande à loucura de organizar um casamento (ainda que simples) em um único mês. Em especial, ao Padre Beto, ao Quioshi Goto, às amigas Fabiana, Ana, Tânia, Perla. Aos amigos que vieram de outras cidades para presenciar uma pequena cerimônia. Aos nossos pais e padrinhos-irmãos, pela compreensão da loucurinha que nos faz tão felizes.

Claro que, de vez em quando, temos uma "tweet fight". Sabe como é, eu sou sãopaulina e ele, corintiano. Mas isso já estava previsto pelo queridíssimo Padre Beto. Crises só fortalecem o amor.



"Amar alguém significa querer estar perto, mas também desejar a liberdade do outro, que o outro seja ele mesmo. E liberdade significa ser transparente. Onde há transparência, há choque, há conflito, porque vocês não representam, não usam máscaras. Mas vocês terão segurança ao lado um do outro."
"O amor não é a fusão de duas metades, mas é a aproximação de dois inteiros."
(Das sábias palavras de Padre Beto, naquele dia lindo de nossas vidas)

E aqui estamos.
É emocionante rever minha agenda de 2005, com todos os detalhes se resolvendo, porque Deus escrevia certo.

10 comentários:

  1. Que casamento mais malucoooo!!
    Mas como você bem diz no texto, "coisa de aquariana"!
    Arrazou na loucura, deve ter sido um mês incrível e que vão guardar para o resto da vida - mais do que muitos outros casais!

    Mas pode ter certeza que as coisas que fazemos no ápice da vontade - para não dizer "impulso" -costumam ser uma aventura deliciosa! Parabéns pelo belo casamento e pelas lembranças mágicas que ficaram!

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  2. Perfeito Erika!!!!!!!!!
    Que Deus continue abençoando a vida de vcs!!!!

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  3. "Foi a tradução do verdadeiro significado do casamento. A emoção, a correria, o ônibus errado na volta que me fez chegar no trabalho com mais de 2 horas de atraso no dia q fomos comprar o tecido e ainda descobrir no meio da festa que minha blusa estava do lado contrário. Valeu cada segundo disso tdo e o melhor é saber que estão felizes e juntos. Bjos"
    Tania.

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  4. Verdade, Tania, provoquei todo esse atraso no seu trabalho! Mas, o que dizer...? Que não tem preço o que os amigos fazem pela gente. E que você também faz parte dessa história maluca e cheia de amor.
    Beijos, amiga!

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  5. "Não conhecia a história...adorei!"
    Vanessa Matos

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  6. Oi Érika! Achei fantástico seu relato!
    Aproveitei e dei uma espiadinha no site, e vi o tópico sobre amamentação e parto...
    Tenho algumas figurinhas pra trocar com vc, e assim que Manu der um tempinho, passo no blog pra te contar. Bjo.
    Ká Valentin

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  7. Cara amiga,
    O mais bonito não é a loucura, mas sim a pureza do sentimento que os une! Fico contente por compartilhar esse momento, sei que é uma forma de reafirmar o amor, mas serve como exemplo a tantos que duvidam que isso possa ocorrrer.
    Sei que esse sentimento de união e confiança existe!
    Bjs!
    Lígia Beatriz

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  8. Olá Érika, quanto tempo, que história bonita...no final tudo dá certo mesmo! Estou te seguindo no seu blog, visite o meu e diga o que acha.
    Grande beijo
    Rose Villela
    psicóloga e sexóloga

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  9. Muito bom, Érika! E que vocês continuem felizes por muitos e muitos anos.

    Beijos,

    Ana.

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  10. Érika, achei tudo lindo e bem a sua cara! Parabéns por realizar mais um sonho seu, do seu jeito... Desejo à vc e Ronaldo muitas felicidades. Beijos, Susi Claudia

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