domingo, 16 de outubro de 2011

Minha primeira entrevista

Fiz essa entrevista aos meus 12 anos, para um trabalho da escola relacionado à profissão que queria seguir. A indicação era que entrevistássemos um profissional da área de nosso interesse. E lá fui eu no inesquecível "Diário de Bauru" entrevistar um também inesquecível personagem do jornalismo bauruense. Havia marcado um horário, com ajuda da minha mãe (afinal, eu tinha 12 anos!). Cheguei com um roteirinho. Nasralla sentou-se diante da máquina de escrever e disse que iria datilografando as repostas para mim, que seria mais prático. E não posso me esquecer de que ele fez isso com uma rapidez impressionante! E sem qualquer errinho de digitação (opa, datilografia...), sem precisar voltar o texto e copiar e colar as palavras para outro lugar do papel. Saí da redação feliz da vida com as minhas laudas em mãos (que hoje mostro aqui digitadas), não sem antes ser apresentada à redação do Diário. De lá para cá, 20 anos.


Entrevista realizada para trabalho escolar

(6.ª série – Ernesto Monte)

Por Érika de Moraes

Entrevistado: Eduardo Nasralla: jornalista, então editor-chefe do “Diário de Bauru”.

1. Qual o seu nome completo?

Eduardo Nasralla.

2. Além de jornalista e editor-chefe do DB, você exerce outra profissão?

Não exerço outra profissão.

3. Por que você escolheu a profissão de jornalista?

Comecei a trabalhar logo aos 14 anos, vendendo livros. Vendi centenas de enciclopédias. Depois passei num concurso e fui trabalhar num banco. Não gostei. A rotina, a burocracia, o horário e a baixa remuneração me deixaram profundamente irritado. Saí de lá, fui para a Brahma de Agudos. Gostei e ganhei dinheiro. Entretanto, conversando com amigos jornalistas, um dia, resolvi me submeter a um teste. Fiquei três meses trabalhando de graça, até que resolveram me contratar, por salário inferior ao piso da categoria. Mas eu gostava. Acho que foi fundamental, para a carreira, a facilidade que eu tinha com o português, especificamente, nas redações escolares do ginásio e colégio. Os professores de então souberam estimular este dom e eu já estou exercendo a profissão há 13 anos.

4. Sempre no Diário de Bauru ou você já passou por outros jornais?

Iniciei no “Jornal da Cidade”, transferi-me para o “DIÁRIO DE BAURU”, onde trabalhava como repórter, das 14 às 21 horas, enquanto na parte da manhã, trabalhava com a equipe do noticioso “O Vanguardão”, da rádio Jovem Auri-Verde. Já fui, também, assessor de Imprensa da Prefeitura Municipal (durante a curta gestão do prefeito Edison Gasparini), e, depois, assumi a editoria do “DIÁRIO DE BAURU”. Saí do “DIÁRIO DE BAURU” e assumi a editoria do jornal “O Comércio de Jahu”, em Jaú; fiz assessoria de Imprensa para o vice-governador Orestes Quércia, em 86 e retornei, posteriormente, ao “DIÁRIO DE BAURU”, para assumir a editoria novamente. Já fui correspondente, em Bauru, do “Jornal da República” e tive publicadas matérias no jornal “Folha de São Paulo”, também.

5. No DB você escreve a coluna “Picles”. Por que “Picles”?

Sou o autor da coluna diária “Picles”. Resolvi escolher esse nome porque a coluna tem uma certa dose de “veneno”. Os comentários políticos ali inseridos, vez ou outra, causam “indigestão” aos políticos e, nada mais indigesto do que um vidro de “Picles”, daí a escolha do nome. Para muitos leitores, é a melhor coluna do jornal. Para muitos outros, algo que não deve ser lido. Mas isso é conseqüência da profissão: espinhos e rosas.

6. Você vai a fundo nas suas reportagens. Faz denúncias, críticas, cobra muito das pessoas no seu trabalho. Você não tem medo?

Olha, realmente eu costumo buscar a essência dos atos, dos fatos. Não me limito apenas a reportar o que está ocorrendo, mas tento transmitir ao leitor porque isto está ocorrendo. É uma tarefa árdua: num primeiro instante, surge a revolta. Depois, porém, o trabalho pode ser reconhecido. Ou não. Tem o “Caso Dedê”, como exemplo. Em 1979, época do “Crime da Igreja”, eu já apontava o envolvimento do então policial civil com o tráfico de drogas e o mundo do crime. Na época, fui tido como “inimigo” da polícia. Sofri pesadas críticas, processos, foi um inferno. Anos mais tarde, porém, consegui provar que ele chefiava uma quadrilha de ladrões de autos, usando a estrutura policial como base para acobertá-lo. O fato causou profundas remodelações nos quadros da Polícia Civil. Aí sim houve reconhecimento dos leitores, da comunidade, recebi uma infinidade de prêmios, fui homenageado com jantares. Mas a tudo isso reagi com naturalidade. Afinal, poderia ter sido apedrejado, também...

7. Então, já foi criticado por ser muito verdadeiro?

Recebi e recebo muitas críticas. Recebo-as como recebo os elogios. São decorrentes. O bom jornalista de hoje pode ser o péssimo de amanhã, dependendo dos interesses em jogo. Ouço as críticas e vou dormir com elas. Reflito, faço auto-análise. Eu erro também. Recebo os elogios e faço auto-análise. Às vezes, apesar de elogiado, eu chego à conclusão de que ainda deixei algo a desejar.

8. Suas matérias costumam repercutir muito, como a que você fez com o arquiteto Jurandir Bueno Filho. Existe uma matéria que marcou muito na sua carreira de jornalista?

O “Caso Dedê” marcou profundamente a minha carreira. Aquilo afetou até a minha vida familiar. Recebi ameaças, as crianças iam para a escola sob vigilância policial, alguns policiais me olhavam torto e fui processado por sete vezes pelo policial envolvido, que não se conformava em ser chamado de “chefe de quadrilha”. Hoje o policial está preso, cumpre pena de quatro anos, que pode ser ampliada e consegui comprovar todas as denúncias que haviam sido formuladas pelo jornal. As reportagens denunciavam os fatos antes das próprias investigações policiais. Este foi o caso que marcou minha carreira, pelo perigo, pelo árduo trabalho realizado e pelo final.

9. Fale alguma coisa sobre a economia e a política brasileira. [transição dos anos 80 para os 90]

O momento político que o país atravessa é grave. Estamos numa fase de transição, saindo da ditadura para a democracia. Existem sérios problemas de natureza econômica, como a inflação que corrói salários e descontrola a economia, herdados de um regime que se instalou no poder à força. Temos, porém, uma nova Constituição, uma esperança de melhores dias e temos que lutar para enfrentar as dificuldades, nunca perdendo de vista a necessidade de darmos sustentação ao regime democrático, às eleições. O povo pode votar errado, como já disse o Pelé, mas é só votando que ele aprende. Não ao retrocesso, eu diria.

10. Em tudo que fazemos precisamos aplicar umas “gotinhas de amor”. Você concorda comigo ou acha que amor é coisa só da juventude?

O amor é essencial a tudo. Nem sempre a gente consegue dosar isso ou transmitir isso. Mas o amor é a alavanca de uma série de coisas. Houvesse mais amor no mundo, Lennon não teria sido assassinado, os Estados Unidos não teriam arrasado com o Vietnã, enfim, faltou amor. O mundo vive, hoje, uma crise de diálogo. É a era da televisão, da informação veloz, do pouco espaço para as conversas em casa, enfim, da crise da comunicação entre os homens. Amor é coisa de jovem, diriam alguns, mas é mais notado entre os velhos.

11. Admiro muito a sua carreira e a sua coragem. Você aconselharia outra pessoa a seguir sua profissão?

É lógico que eu aconselharia, muito embora deva advertir que não é uma profissão das mais rendosas. É uma profissão que não tem horário de trabalho definido. Você trabalha em casa, recebendo uma informação por telefone ou uma visita fora de hora. Você trabalha mais horas do que qualquer outro trabalhador e, nem por isso, ganha fortunas. É apaixonante, porém, poder colaborar com outras pessoas, fazer algo pela comunidade, conviver com pessoas dos mais variados segmentos, enfim, é uma carreira apaixonante. Alguns requisitos são necessários, porém: apurar a gramática, ter uma redação clara, apegar-se à verdade e saber transmiti-la, pelo rádio, jornal ou televisão.