domingo, 29 de abril de 2012

Anne Frank não pode ser esquecida!


"Vou colocar de um modo mais claro, já que ninguém acreditará que uma garota de treze anos seja completamente sozinha no mundo. E não sou. Tenho pais amorosos e uma irmã de dezesseis anos, e há umas trinta pessoas que posso chamar de amigas. (...) Tenho uma família, tias amorosas e uma casa boa. Não; na superfície parece que tenho tudo, a não ser um único amigo de verdade. (...) Foi por isso que comecei o diário." (Anne Frank)

Uma menina de treze anos. Uma menina comum, ou nem tão comum assim, mas dotada de uma inteligência e uma sensibilidade especiais. De qualquer forma, seus sentimentos eram os de uma adolescente; e que menina (ou mesmo mulher) não se identifica com os instantes de solidão de uma adolescente? Apenas não são todos que conseguem expressar com palavras, ou com a mesma intensidade.


Seu diário começa no contexto de uma vida quase comum. Ou nem tanto, já que para os judeus, nos anos de 1940, era assim:

"os judeus deveriam usar uma estrela amarela; os judeus eram proibidos de andar nos bondes; os judeus eram proibidos de andar de carro, mesmo que fossem carros deles; os judeus deveriam fazer suas compras entre três e cinco horas da tarde; os judeus só deveriam frequentar barbearias e salões de beleza de proprietários judeus; os judeus eram proibidos de sair às ruas entre oito da noite e seis da manhã; os judeus eram proibidos de comparecer a teatros, cinemas ou qualquer outra forma de diversão; os judeus eram proibidos de frequentar piscinas, quadras de tênis, campos de hóquei ou qualquer outro campo de atletismo; os judeus eram proibidos de ficar em seus jardins ou nos de amigos depois das oito da noite; os judeus eram proibidos de visitar casas de cristãos; os judeus deveriam frequentar escolas judias etc. Você não podia fazer isso nem aquilo, mas a vida continuava. Jacque [amiga de Anne] sempre me dizia: 'Eu não ouso fazer mais nada, porque tenho medo de que não seja permitido.'" (Anne Frank)

E a vida de Anne fica ainda mais incomum quando passa a morar com mais seis, depois sete, pessoas no chamado “Anexo”, no Prinsengracht 263, em Amsterdam. No total, são oito no esconderijo, ajudados por benfeitores futuramente penalizados por isso.

Com a vida no Anexo, é natural que os pensamentos - e os escritos de Anne, cheios de qualidades literárias, fiquem mais densos:

"Vejo nós oito, no Anexo, como se fôssemos um retalho de céu azul rodeado por nuvens negras e ameaçadoras. O trecho perfeitamente redondo onde estamos ainda é seguro, mas as nuvens se aproximam, e o círculo entre nós e o perigo que se aproxima está cada vez se apertando mais." (Anne Frank)

Não, o diário de Anne não é só feito de dor. Também de sabedoria.

"Acho estranho os adultos discutirem tão facilmente e com tanta frequência sobre coisas são mesquinhas." (Anne Frank)

São muitos seus conflitos com a mãe, mas ainda maior é a certeza de que todos na família se amavam. Se o Anexo foi uma realidade terrível, foi a forma de o amoroso pai de Anne manter sua família protegida pelo maior tempo possível. Quantas famílias, hoje, não geram filhos inconsequentes e os deixam à mercê do destino, sem acesso a cultura ou afeto.

A proteção possível, à Anne não faltou. A cultura que ela teve, especialmente através dos livros, em seus breves 15 anos, certamente ultrapassa a da maioria dos jovens – e adultos – de hoje, quem sabe pela falta de oportunidade e incentivo.

A doce e intensa menina não deixou de ser doce e intensa nos tempos de Anexo. A doce e intensa menina terminou transportada de Auschwitz a Bergen-Belsen e jaz, ao que tudo indica, em uma vala comum. Nem se sabe ao certo a data de sua morte, provavelmente ocorrida em fevereiro ou março de 1945, pouco antes do fim da segunda grande guerra.

A sensível menina, por um acaso do destino, nasceu na Alemanha e judia, mas é justo que hoje sua "casa" (ou seu museu, ou seu Anexo) esteja na Holanda, terra que a adotou e a protegeu enquanto pôde. Os pensamentos de Anne percorrem o mundo todo, e deixam a lição do quanto é necessário ser tolerante e ter a humildade de saber que ninguém é melhor do que ninguém. Os alemães são cruéis? NÃO! Foi só uma triste coincidência Anne ter nascido naqueles tempos de passividade diante dos caprichos de um ditador. Qualquer ser humano tem o potencial de ser cruel. Por isso, a história de Anne NÃO PODE ser esquecida.


Toda vez que releio “O diário de Anne Frank” – a cada vez com uma nova maturidade – não deixo de me emocionar com as mesmas coisas. A história de Anne é a história dos campos de concentração, dos milhares que morreram precocemente por exaustão ou nas câmaras de gases, de Olga Benário e muitos outros. Mas a história de Anne é a história de Anne, individual e única, inteligente, espirituosa, ÚNICA. A minha querida Anne... uma jovem mulher, doce e intensa.

Entre outras coisas, Anne desejou ser compreendida apenas como uma adolescente. Eu a compreendo. De certa forma, é bom não esquecer o que é ser uma adolescente, de cujos sentimentos não se deve zombar. Por isso, não deixa de ser um privilégio estar com jovens, escrevendo ou lecionando para eles.

Foi Anne quem disse (mas é como se eu pudesse dizer que as palavras são minhas):

"As pessoas podem mandar você calar a boca, mas não podem lhe impedir de ter uma opinião. Não se pode proibir ninguém de ter opinião, não importa que seja uma pessoa muito jovem!" (Anne Frank)
 

Por isso, especialmente se você é jovem (e ainda mais especialmente se você é meu aluno, rs), digo com toda a minha convicção: LEIA O MÁXIMO QUE PUDER. Só assim conquistará as suas PRÓPRIAS OPINIÕES, que serão mais fortes em você do que qualquer restrição. RETORNE À HISTÓRIA, desvende o “CÁLICE”, o cale-se de Chico Buarque. Não deixe que tirem isso de você. Porque facilitar as coisas é tirar isso tudo isso de você.
 
Retornar à história é entender as circunstâncias que construíram o nosso presente. Isso não é pura teoria. É VIDA.
 
Se você é menina ou mulher, leia a biografia de grandes mulheres (grandes justamente por seus defeitos e virtudes), só para ter uma ideia do quanto você é capaz. Anne. Olga. Tarsila. Pagu. Marilyn. Madonna. Kate Middleton. As muçulmanas. Eu. VOCÊ.
 
Você já leu "O Diário de Anne Frank"?


Imagem diário:
Copyright Anne Frank House
Photographer Cris Toala Olivares
2010

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Em sala de aula

Alunos de Relações Internacionais debatem o Preconceito Linguístico


Alunos da disciplina Análise do Discurso, ministrada por mim na Universidade Sagrado Coração, debateram em sala de aula o tema preconceito linguístico. A disciplina faz parte do currículo dos cursos de Comunicação Social e é optativa para os alunos de Relações Internacionais, que a procuraram com o incentivo do coordenador do curso, Professor Daniel Freire e Almeida, devido à importância das questões de linguagem para a profissão do internacionalista.

Linguagem - um tema amplo

Os estudantes se prepararam para um seminário em que discutiram as ideias propostas por Marcos Bagno, autor dos livros Preconceito Linguístico, A Língua de Eulália, A norma oculta, entre outros. A discussão, realizada a partir de argumentação, análises de textos e até teatro, modificou o conceito de linguagem dos alunos, que passam a perceber que a língua vai muito além das regras de norma padrão. A proposta foi discutir o tema como uma questão discursiva e social.

Com as teorias estudadas, fica claro que o preconceito linguístico está ligado a preconceitos sociais, geográficos e políticos. O intuito não é desfavorecer o ensino de norma padrão, mas entender que mesmo os supostos erros têm explicações históricas. Por exemplo, um falante que troca L por R (exemplo: “crasse” por “classe”) estaria reproduzindo naturalmente um fenômeno histórico da língua. Num passado remoto, a palavra “escravo”, por exemplo, derivou do latim “sclavu”, já que houve uma tendência de transformação do L em R em línguas latinas. Esse fenômeno só não continua acontecendo porque a influência atual da escrita o segura.

Peculiaridades

Entre outros fatos de linguagem, os alunos também discutiram a questão de que a modalidade escrita é diferente da oral, por isso é um mito pensar que “se fala de um jeito porque se escreve do mesmo jeito”. O aluno Lucas exemplificou com a palavra “jail”, do inglês: “se houvesse uma associação entre o jeito de falar e escrever, leríamos a palavra com a fonética da nossa língua, e não estaria de acordo com a fonética da língua inglesa”.

Complemento com o exemplo do francês: os franceses não pronunciam os “s” finais da maioria das palavras, e isso foi incorporado pela norma padrão francesa, enquanto os falantes do português sofrem preconceito por não pronunciar os ‘s’ finais das palavras, ainda que isso aconteça na conversação informal mesmo de falantes escolarizados e de classes sociais privilegiadas.

Questão social

Uma questão enfatizada pelos alunos foi o fato de que é preciso ler a respeito dos estudos científicos sobre linguagem para compreendê-los. A aluna Mariane comentou que, ao ler o título do capítulo que dizia ser um mito que “é preciso saber gramática para falar e escrever bem”, tendeu a discordar do autor. No entanto, ao ler o livro todo, compreendeu a proposta do autor. Marcos Bagno não afirma em momento algum de sua obra que a escola não deve ensinar a gramática normativa, mas que esse ensino precisa assumir uma dinâmica diferente para produzir um verdadeiro efeito.

Minha experiência como corretora de redação dos vestibulares Unicamp e do Enem comprova esse fato. Durante cerca de 11 anos, a escola foca o ensino de língua portuguesa na nomenclatura de regras gramaticais. Essa atitude não forma um bom escritor, um bom usuário da língua, o que é refletido, entre outros aspectos, na má qualidade de muitas redações em vestibulares e nas deficiências de escrita de muitos alunos que chegam à universidade.

Por uma educação consistente

Qual a solução? Abandonar o ensino de norma padrão? Não, mas reformulá-lo. O primeiro passo para isso é compreender as questões de linguagem como questões sociais, compreender que não são as nomenclaturas que constroem uma língua, mas sim a própria sociedade.

A discussão a respeito do tema é um passo importante, mas é evidente que muitos outros fatores estão envolvidos, como a exclusão social e a necessidade de valorização da educação no país. Os professores de ensino fundamental e médio precisam ter condições adequadas para o ensino e isso só acontecerá com a real valorização da educação pela sociedade.

Uma sociedade crítica tem parâmetros, inclusive, para questionar a própria mídia. Por exemplo, no ano passado, um livro foi massacrado porque supostamente “defendia o ensino do português errado” (leia aqui). O que aconteceu? O livro, em uma página, expunha a existência do preconceito linguístico, o que não é novidade para os estudos científicos de linguagem, e em todas as suas outras páginas, propunha exercícios de norma padrão. Então, como dizer que esse livro estava propondo o ensino do “português errado”? Porém a mídia “vendeu” essa ideia e muitos cidadãos a repetiram, sem questioná-la. Exatamente o que a aluna Mariane enfatizou sobre a importância de aprofundar-se na leitura, e não fazer um julgamento apenas pelo título de um livro ou capítulo.






Mais do que regras gramaticais

Na disciplina de Análise do Discurso, os alunos estudam a linguagem como algo complexo, envolvido por discursos implícitos, ideologias e repertórios distintos, conforme as culturas dos falantes.

Numa negociação entre um país capitalista e um socialista, por exemplo, a grande divergência não será a possível diferença de idioma, mas o fato de que cada um deles compartilha de uma ideologia, uma crença diferente. Asseguro: muitas vezes, será difícil chegar a um acordo não por causa da diferença da língua, mas do discurso, ou seja, da ideologia compartilhada por cada um dos países. São discussões, portanto, relevantes para o universo das relações internacionais, assim como da comunicação e da sociedade em geral.

Érika de Moraes
Jornalista e professora Dra. em Linguística