domingo, 11 de janeiro de 2015

Je suis Charlie?

Meu artigo publicado no Jornal da Cidade deste domingo.

Je suis Charlie?

Érika de Moraes

“Je suis Charlie” pode ter se tornado um slogan repetido sem reflexão. Sensibilizo-me pelas vidas que foram interrompidas, assim como me solidarizo com muitos muçulmanos que são estigmatizados por sua crença e associados a terroristas sem que o sejam. Notícias dão conta, inclusive, da morte de cidadão muçulmano, o policial Ahmed Merabet, entre as vítimas do ataque ao Charlie Hebdo. Sensibilizar-me pelas vidas não significa que, de uma hora para outra, eu possa me definir como um certo tipo de humor. 

Não me cabe julgar até que ponto tal humor é ou não desrespeitoso, só um amplo debate poderia iluminar esta questão e nada justificaria a retaliação com morte. O humor tem uma especificidade: a natureza de uma publicação humorística é diferente, por exemplo, das falas do ex-candidato Levy Fidelix, já que este ultraja a comunidade gay no espaço que, para ele, é o da “seriedade”. O fato mostra que o tema “liberdade de expressão” é mais complexo do que possa parecer a olho nu.

Complementarmente, é meu direito de cidadã decidir se sou ou não Charlie, sem que isto contradiga com o repúdio ao atentado terrorista. Os tempos atuais comumente fazem parecer que, se você não está de um lado, está necessariamente do outro, o que agrava o ensejo de eliminar aquele que pensa diferente. Nesse aspecto, acho válida uma das charges que circularam, a de Bernardo Erlich, segundo a qual “o mundo está tão sério que humor se tornou profissão de risco”. 

Freud, ao teorizar sobre o humor, percebeu que há uma relação inversa entre o riso e o desenvolvimento de afeto: quanto mais me identifico (e me solidarizo) com certo tema, menor é minha capacidade de rir dele. Existe, é claro, o chamado riso chapliniano, aquele em que se “ri de tristeza”. O estudo do clássico de Freud sobre o humor mostra que a dificuldade de rir de uma situação constrangedora, que para outros pode parecer muito engraçada, está relacionada à propensão em colocar-se no lugar de quem é alvo do riso. Se tenho essa habilidade de compreender o que o outro sente com uma charge que ofende sua crença, não terei o mesmo ímpeto de rir dela. 

Longe disso está defender que charges não devessem existir ou, ainda mais, que possam justificar o assassinato de pessoas. A questão é que os discursos já se confundem e trazem à tona o endurecimento, como na voz de Marine Le Pen, que pede a suspensão de Schengen, um dos símbolos do espírito democrático europeu. 

É importante refletir sobre se acreditamos realmente no slogan que repetimos. Ao pé da letra, não sou Charlie porque, pessoalmente, não sou o humor que praticam. Ao mesmo tempo, sou Elsa Cayat, para citar o nome da única mulher que morreu entre os profissionais da revista humorística. Sou apenas alguém que ama a língua francesa e também aprecia a dança árabe. E, mesmo amando o francês, as primeiras palavras que me vieram à mente no dia 7 de janeiro foram em inglês, as de John Lennon: “Imagine all the people...”. Que ocorra em paz a Marcha Republicana deste domingo, pois esta República já derramou muito sangue, a começar pelo da Rainha hoje venerada em museus franceses.

A autora é doutora em linguística e docente 
da Faac (Unesp, Bauru)

Link para a publicação:
Jornal da Cidade

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