sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Bauru e meu céu-poesia


No fim de tarde, é laranja

E vai se tornando rosa e mistura com o azul da noite

Pôr do sol sempre me fascinou. Já escrevi por aqui que, entre as lembranças dos lugares que visito, as que mais ficam na memória tem um raio de sol desenhando algo no céu ou refletindo num rio ou mar. Gravo na memória tão intensamente que essas fotografias me fazem pensar que posso desafiar o tempo e o espaço, deixando uma de mim em cada um dos lugares que amei.

Há algum tempo, observo com certa intriga o quanto as pessoas, bauruenses ou não, admiram o pôr de sol de Bauru. Meus ex-colegas de trabalho postam da janela da empresa as cores que se pintam no céu de nossa cidade, ex-alunos também se recordam que levaram o retrato destes desenhos como lembrança de sua passagem pela Unesp.

Flagrantes do céu na rodovia, enquanto o amor dirigia, até chegarmos ao céu rosado

Lápis rosa desenha o céu

Algumas vezes, me perguntei: como não notei isso antes? Talvez porque Narciso possa achar mais comum do que especial o que é espelho. Entendi, então, que a percepção de quem vinha de fora era diferente porque tinha outro parâmetro de comparação. Eu, porém, cresci com esse céu. Desde criança, associei o céu não só à cor azul, mas ao rosa, ao laranja, ao vermelho, ao lilás, ao violeta e às mil nuances que estão entre esses tons. 

Céu, para mim, sempre foi tudo isso, tal qual o desfecho de uma peça de teatro a que assisti no Sesc com minha mãe, na infância, em que o Lilás era um cara triste que vivia sozinho até conhecer todas as outras cores, depois de ter uma conversa com o Branco e o Preto, estes sim acostumados a serem na deles. Mas não o Lilás, ele só foi feliz depois do encontro.

O céu da Capital Paulista, aprendi que era cinza. Mas só mais tarde, bem mais tarde, foi que descobri outros céus de cores também fascinantes. E, sim, o céu de Bauru é bem especial. Talvez eu não possa afirmar que é o “céu mais bonito do mundo”, pelo mesmo motivo que não sei se, em San Gimigiano, na Itália, provei o melhor gelato do mundo (teria que provar todos os sorvetes e ver todos os céus). Mas entendi que este céu, este com que convivo desde pequena e que vigiou meus passos como “Bem-te-vi”, este meu céu, é céu-poesia.

A física, simplificadamente, diz que a luz é branca (soma de todas as cores) e é a atmosfera que filtra os raios do sol e nos faz enxergar diferentes cores ao longo do dia. A nossa percepção tem relação com as partículas presentes na atmosfera, incluindo poeira, poluição e gotículas de água.

Mas a gente pode pensar também que, em cada céu ou reflexo nas águas, as cidades revelam a sua poesia. E, convenhamos, Bauru que de rio só tem o de mesmo nome, merecia esse céu.

Em cada pôr do sol, mora um sonho e uma saudade. 

Meu laranja, um quê de nostalgia

Da paróquia Universitária, nuances do porvir


Texto: Érika de Moraes

Um comentário:

  1. Pôr do sol... hora do crepúsculo, quando tudo fica ainda mais vivo. As cores, os sons, as sombras...

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