sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Como explicar pro Fernandinho?

Mais uma crônica para encarar preconceitos.
Texto da estudante Amanda Casagrande (Jornalismo, Unesp)

Como explicar pro Fernandinho?

por Amanda Casagrande Mela   

     Um homem, uma mulher e o filho. Era a tradicional família brasileira do século XXI. Os pais andavam preocupados em como explicar a situação pro filho de 8 anos. Nessa idade, a mentalidade ainda estava se formando e eles estavam  com medo que a notícia confundisse ou influenciasse o menino Fernando. Tão criança, não sabia nada da vida ainda, coitadinho. Precisava aprender a lidar com a situação.
     A mãe ficou indignada ao saber que sua irmã aceitou numa boa. Ela, por sua vez, levou dias pra digerir a situação e até relutou bastante diante da "escolha" do sobrinho. O pai de Fernandinho ficou pasmo no início, mas depois comentou com a mulher: "eu sempre soube que uma hora isso ia acontecer, o seu sobrinho sempre teve jeito pra essas coisas".
     Depois de algumas noites mal dormidas, o casal decidiu que seria o pai que contaria ao filho. Acharam que seria melhor o Fernandinho ouvir isso de uma figura mais imponente. Talvez ele nem fosse influenciado pela situação se um homem másculo o bastante lhe desse a notícia.
     - Filho, o papai quer te falar uma coisa. Seu primo William vai viajar com a gente, mas vai acompanhado.
     Os dois ficaram em silêncio. Fernandinho, que estava jogando UFC com o olhar fixo no videogame, nem deu bola pro que tinha acabado de ouvir. Mas o pai continuou mesmo assim:
      - Ele vai levar o namorado para o Guarujá com a gente.
    O jogo foi pausado quase que instantaneamente. Bastou o garoto apertar um único botão do controle que estava em suas mãos. Ele olhou pro pai com o rosto confuso.
     - Mas pai... Como assim?
     - Eu sei que é estranho, mas...
     - Muito estranho. A mamãe falou que íamos pra Ubatuba. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

CRÔNICA - O desfile das divas

Produção do meu aluno Wesley Anjos (Jornalismo, Unesp)
Um texto para enfrentar preconceitos!
profa. Érika

O desfile das divas

por Wesley Anjos

Todo final de ano era assim: as famílias reunidas na praia e a Zezé se metendo a falar do tal do feminismo. Lourdinha sempre torcia o nariz com desdém. Dessa vez, com cara de quem comeu e não gostou nadinha, pôs-se logo a argumentar:  “Credo! Deus que me livre dessa pouca vergonha. Outro dia vi uma tal Marcha das Vadias. Se elas gostam de se aparecer como vadias, por que não gostam de ser tratadas como tal? Safadeza, isso sim!”.
- Você reproduz o discurso que eles querem que reproduzamos, sem ao menos perceber.
-  Muito pelo contrário. Aprendi com a minha mãe, que aprendeu com a minha avó.
-  Que assim como você reproduziram sem reclamar o que os machistas queriam!
Sônia tratou logo de falar da beleza da praia. Queria era evitar que a discussão se estendesse. Todo ano era igual. Para que discutir? Para que arrumar mais problemas? As coisas não podiam ficar como estavam? Não podia, não! Não para Zezé, que acreditava que o machismo era uma doença que só podia ser curada se fosse medicada. Mas, devido à insistência de Sônia, as quatro acabaram entrando no assunto. O sol, o mar, a areia... Ah! Aquilo tudo era bom demais. Até que, espere aí! Foi Teresa quem se exaltou dessa vez:
- Olha o biquíni daquela rapariga ali, todo enterrado naquele lugar. Essa não é moça de respeito.
-  E o que seria uma moça de respeito?
-  Ora, sabemos muito bem que pra homem tem mulher pra casar e mulher só pra molhar o biscoito. Essas biscates servem pra isso.
- Por isso que tem tanto homem traindo. Culpa dessas vagabundas! – opinou Lourdinha.
Para quê? Zezé ficou com a cara de um bicho e tratou logo de contra-argumentar:
-  Pois fique sabendo que, no caso, quem se comprometeu com um casamento que tem de zelar por ele. Parem de reproduzir esses discursinhos machistas! Então querem dizer que o homem trai e não tem culpa por isso?
- Ora, agora preciso falar – Teresa tentava justificar. – Homem é homem. A gente sabe que homem tem a carne fraca.
- É sempre assim! Eles sempre usam essa desculpa e a culpa cai sempre nas nossas costas. Não percebem?
-  Ah, isso é – disse Teresa.
-  É bem verdade – concordou Lourdinha.
-  Pois queria eu ter esse corpinho para desfilar de biquíni – riu Sônia. – Depois dos quarenta a gente entrega pra Cristo.
Foi então que Zezé retirou a tanga e a blusinha. Exibiu o seu biquíni com orgulho. Como é que ela tinha coragem de mostrar aquelas estrias e celulites? Depois de dois filhos e certa idade, mulher nenhuma era mais a mesma, disseram logo as outras três.
-  As marcas do meu corpo são lindas, assim como ele. Elas refletem as mudanças que ele passou. E cada etapa dessa vida valeu muito a pena.
Pegou a sua bolsa. Retirou um estojo e um espelhinho. Passou um batom vermelho e distribuiu para as demais. Quando se deram conta, estavam todas passeando com as bocas pintadas e os corpos à mostra. Aquela brincadeira fez com que se sentissem divas. E o eram. Zezé não deixava de repetir que é preciso ter muita coragem e força para ser mulher nesse mundo, para lidar com os mistérios do seu corpo e com aqueles seres que mijavam em pé e queriam ditar as regras.
* * * * *
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

CRÔNICA - A morte e a letra "M"

A estudante Isabela Holl (Jornalismo, Unesp) escreve sobre o tempo, sobre a vida...

A morte e a letra “M” 

por Isabela Holl 

     João tinha 6 anos quando tirou a roupa, abriu a porta do box e ligou o chuveiro. Assim que a água tocou o seu corpo, seu coração disparou, sua respiração ficou mais rápida e, naquele momento, tomou consciência de uma coisa: um dia ele iria morrer. 
     Talvez você, leitor, já tenha experimentado esta sensação única e difícil de descrever. É quando seu organismo, seu cérebro e seu coração percebem que são efêmeros. O pânico se espalha aos poucos; célula por célula. É normal ter pensamentos como “Isso não é justo!”, “ Isso não pode ser verdade!” ou “Por que, Deus?”. 
     E, para piorar ainda mais, temos o Senhor Tempo. Ele não costuma ajudar, pois ele tem a mania de passar rápido demais. Atualmente, um estranho fenômeno acontece: o Tempo parece realmente ter perdido a paciência. Não se sabe muito bem o motivo, mas ele está correndo cada vez mais rápido. Isso faz com que as crianças logo virem adolescentes e os adolescentes virem adultos e por aí vai. 
     Assim aconteceu com João, já estava grandinho, mas ainda não tinha superado muito bem esse papo de morte. "Realmente não é justo, 9 meses de gestação, 22 anos na escola e o resto da vida construindo uma carreira. Por que, se vamos morrer?". Se revoltava, também, quando lia aquele clichê "vieste do pó e ao pó retornarás", João teimava: "não me lembro de ter vindo de pó algum e sim da barriga da minha mãe, onde estava bem úmido por sinal". Ele concluiu que era necessário aproveitar a vida, já que todos iríamos, um dia, chegar ao fim. 
     Mas ele foi se tornando adulto e daqueles bem ocupados. E foi esquecendo esse assunto, afinal, tinha muita papelada do escritório para analisar e aquela pós graduação que deveria fazer. Uma vez, uma mulher apareceu na sua vida, mas ela acabou indo embora, porque ele não tinha muito tempo para ela, assim como não tinha tempo para os finais de semana ou para qualquer outra coisa. 
     João tinha 50 anos quando olhou para o relógio, faltava meia hora para o fim do expediente. Assim que tirou seus olhos do relógio, seu coração disparou, sua respiração ficou mais rápida, e naquele momento, tomou consciência de uma coisa: um dia ele iria morrer. E se permitiu refletir um pouco sobre sua vida. Tinha passado tempo demais no escritório, pouco tempo viajando, vendo os amigos ou fazendo qualquer coisa ao ar livre. E tinha aquela moça, como ela chamava mesmo? Mariana? Márcia? Era alguma coisa com a letra “M”, não conseguia se lembrar há quanto tempo ela tinha ido embora. 
     Decidiu que iria recuperar o tempo perdido e, pela primeira vez, se permitiu sair mais cedo do trabalho. Andou pelo quarteirão animado consigo mesmo e sem pensar em nada. As pessoas na rua ouviram um estrondo e rapidamente olharam para ver o que tinha acontecido. Um letreiro velho decidiu que era a hora de despencar e justamente em cima do João. Ele ergueu o pescoço e pôde ver a letra que o acertara: era um “M”. Lembrou que o nome da moça era Mariana e não deu tempo de lembrar mais nada. 
     Realmente não é justo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

CRÔNICA - O ano em que avistamos uma nova primavera

Crônica politizada da minha aluna Gabriella Soares dos Santos (Jornalismo / Unesp) sobre o louco ano de 2015.
Profa. Érika

O ano em que avistamos uma nova primavera

por Gabriella Soares dos Santos 

Analisando as principais manchetes dos jornais de 2015, consigo observar que esse foi um ano dramático e que ficará marcado para todos, seja pelos seus momentos positivos, seja pelos negativos. Nesse sentido – e admito de início: assumo aqui uma postura positiva –, é impossível não perceber que esse ano significou um marco para os mais diversos movimentos e as mais diversas causas ao redor do mundo.
Vimos atentados terroristas abalarem os pilares da democracia ocidental ao mesmo tempo em que testemunhamos o maior movimento migratório desde a Segunda Guerra Mundial com suas trágicas consequências. Vimos a corrupção em sua forma mais clara, junto com o mar de lama que dela se originou, destruir fauna, flora e vidas. Observamos e sofremos com a violência policial, que, de tão frequente, se tornou impossível de ser ignorada, seja contra negros nos Estados Unidos ou contra professores e alunos no Brasil. Nesse ano, vimos um pouco de tudo.
Entretanto, foi também em 2015 que presenciamos uma nova primavera dos povos, como muitos colocaram. Mulheres, homossexuais, negros, trabalhadores, cidadãos: todos eles tomaram as ruas e promoveram ações para defender seus direitos assim como aquilo em que acreditam. A população tomou as ruas em São Paulo contra o aumento das tarifas de transporte; no Paraná, os professores lutam pelos seus direitos trabalhistas, enquanto no Chile são os alunos que tomam as ruas pela educação; as mulheres são firmes e constantes ao reivindicarem seus direitos individuais, políticos e sociais em todo o mundo e em Nova York vemos a questão negra voltar a ser central.
O sentimento que prevalece após esses acontecimentos é a esperança de que essa nova Primavera tenha um caráter muito mais duradouro do que suas antecessoras. Que as demandas expressas no ano passado não sejam colocadas em prática de forma tão efêmera e descompromissada como ocorreu nas revoluções liberais de 1848. Também é um desejo que vejamos resultados mais animadores do que aqueles que a maioria dos países que participaram da primavera árabe podem observar atualmente, seja no contexto político, social ou dos próprios direitos humanos. O melhor fruto que pode vir do protagonismo dos movimentos sociais nesse último ano é a possibilidade de não termos como voltar atrás, é a possibilidade de não retrocedermos; é o maior desejo de qualquer um que esteja lutando ou que saiba valorizar a luta por uma sociedade verdadeiramente democrática.
Quero acreditar que a única opção lógica que nos resta é seguirmos em frente. Não vejo como uma alternativa fecharmos os olhos, não agora que eles foram abertos, escancarados, mesmo nos momentos e para aqueles que não desejavam. Ignorar a violência policial não é mais a única opção, pelo contrário. Se os acontecimentos no Paraná, em São Paulo, no Rio de Janeiro e nos Estados Unidos nos ensinaram alguma coisa é que o silêncio não é mais viável, ou pelo menos não deveria ser.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Uma foto para registrar Chá Líquido

Já visitei algumas cidades imaginárias.
Com a aluna Karina, conheci Chá Líquido.
Espiei-a pela janela do trem e voltei para cá.
Afinal, amanhã tenho aulas com esses alunos criativos!
Profa. Érika


Uma foto para registrar Chá Líquido

por Karina Francisco

Era dezembro na cidade de Chá Líquido, Ana estava caminhando pelas ruas a apreciar e fotografar os enfeites natalinos. Ela ainda não se adaptara totalmente à nova cidade, em que todos estavam sempre correndo, em busca do que comprar, do que consumir, do que fazer para ganhar dinheiro, fugindo de compromissos profundos demais. Era muito frio se comparado a Ferra Maciço, onde nascera. Mas ela tinha sua câmera, e com ela ficava horas registrando seus pensamentos e sentimentos.
Ana continuou seu caminho, seu namorado estava atrasado como sempre, parecia nunca se importar com horários, compromissos ou qualquer assunto que demorasse muito a acabar. Ana não ligava, achava engraçada essa aversão de seu namorado em se apegar a objetos ou indivíduos. Ele era uma boa pessoa mesmo assim, valia uma foto.
Desistindo de esperar no frio, Ana entrou na loja de sua mãe, que vendia quitutes e estava sempre cheia de ávidos consumidores imediatistas e ansiosos por devorar as comidas tão gostosas do lugar. Em meio a tantos gordinhos, Ana sempre se sentiu excluída, pois era magrinha e ativa, constantemente correndo para lá e para cá, em busca de uma boa fotografia.
Em sua escola, todos a achavam esquisita, perguntavam se ela não tinha nada para se ocupar, ou o que estudar. Todos estavam sempre apressados pelos corredores, mas corriam contra o tempo, pois havia muita tarefa a ser feita. Ana sempre investia em sua felicidade e suas fotos na antiga cidade. Tinha poucos amigos, os quais valorizava muito. As pessoas ajudavam umas às outras e sempre havia trabalho para todos em Ferro Maciço. Mas aqui, em Chá Líquido, as quantidades é que valiam, e ninguém parecia realmente se importar com o outro, pois a competição é que regia as regras da cidade.
Para ajudar sua mãe no movimento da loja, Ana foi fazer uma entrega especial na casa de um cliente, e após tirar algumas fotos com sua máquina, decidiu visitar seu pai na empresa onde tinha começado a trabalhar, motivo pelo qual toda a família teve de se mudar.
A empresa era grandiosa e, sem ser notada, Ana foi entrando. Mas seu pai estava ocupado demais para atendê-la, dizia a ela que alguém precisava ganhar dinheiro. Ana achou esquisito, para ela seu pai já tinha conseguido dinheiro demais em Chá Líquido, mas ele respondeu-lhe que “ainda era pouco, sempre é pouco.”
Mesmo assim, Ana gostava da cidade. Via oportunidades aos montes, outdoors sempre convidativos, muito entretenimento agitando o município. O lazer e o descompromisso pareciam reinar. Porém, a pressão era demais, seus pais e namorado queriam que ela se adaptasse, que buscasse ascender profissionalmente, ganhar muito dinheiro e comprar tudo que desejasse, além de largar a câmera, pois não havia futuro nela. Ana não desejava comprar nada, apenas correr livre pelos campos com suas fotos, mas não a deixavam.
Um dia, ao acordar, percebeu que sua máquina havia sumido. Foi procurar e não encontrou nem suas fotos, que com tanto amor arquivara. Desesperada, Ana começou a chorar, queria de volta sua câmera e seus álbuns, os quais tinham sido todos vendidos, lhe disseram. Em uma insensata e louca procura, ela andou a cidade toda, perguntou a todos que conhecia e não encontrou nem vestígios. Ana tinha medo de se esquecer do que estava nas fotos, sua antiga cidade e amigos, seus valores e felicidades.
Ana ficou sem rumo por um tempo, a andar no meio dos apressados, sozinha e deprimida. Seus pais, para fazê-la ocupar a cabeça, a matricularam na faculdade de Direito e em outros tantos projetos de trabalho. Ana se atarefou tanto que não teve mais tempo para lembrar de sua câmera. Ela, agora, tinha compromissos, aspirações, objetivos e nada do que viera ou fora antigamente importava mais.
Ana cresceu e conseguiu tudo o que queria desde que entrara na faculdade: casou, teve filhos, comprou casa e carro. E em um belo dia, remexendo no porão, encontrou sua câmera e seus álbuns escondidos embaixo do assoalho. Ao olhá-los, Ana gritou:

- Preciso de mais um saco de lixo aqui em cima, por favor!

sábado, 23 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Surpresa de Ano Novo

Surpresa de Ano Novo

por Lívia Reginato

     Todo ano já sei que aquele momento está chegando, começo a pressentir pelo cheiro de panetone no ar, quando sinto o primeiro aroma de frutas secas, já vou me preparando psicologicamente...
     Chega parente de todo canto, a casa fica cheia, tem gente para brincar comigo e matar a saudade em todos os cômodos, é uma alegria só! Sempre fico feliz quando lembram de mim e ganho algum mimo. Corro de um lado para outro tentando dar atenção a todos, mas é uma tarefa difícil.
     Peixe assado, salada de lentilha, pernil, bacalhau, torta de romã, outros cheiros vão me animando ao passar dos dias. Às vezes, vou tentar pegar alguma bolinha da árvore de natal, mas tem sempre alguém para me tirar de perto de lá, acabo deixando para depois. Se eu der sorte, consigo pegar um pedaço grande de pernil, é só esperar com cautela, ficar no lugar certo, olhar com jeitinho para a pessoa certa e pronto: sempre funciona.
    Mas quando chega a noite e todo mundo vai dormir, me encolho na minha cama, sabendo o que está por vir. Tento não fazer nenhum barulho, a casa está cheia, não quero incomodar. Ano passado dei umas resmungadas e acordei um dos bebês, acabou que ninguém dormiu. Este ano vou me controlar, eu prometi.
     Os dias passam nesse clima agitado. À certa altura, minha mãe arruma a mesa de jantar com um pano bem bonito que era da vó dela. O dia é de fartura, todos muito felizes, tem comida boa e música o dia todo. Mas eu sei o que está por vir, mesmo que eu tente aproveitar, uma vozinha lá no fundo da minha mente me lembra, a noite vai chegar...
    Uma das crianças vem brincar comigo, como cresceu! Me distraio por uns segundos, mas o relógio começa a badalar: uma, duas, três, quatro. Já sei que chegou a hora: corro para debaixo da cama da minha mãe. Cinco, seis, sete. Cubro meus ouvidos com minhas patas, tento não chorar. Oito, nove, dez, onze...
     Doze.
     Todos gritam aclamando o ano novo, mas algo está diferente, escuto barulhos ao fundo, mas não são como nos outros anos. Minha mãe vem me buscar, eu não quero sair, pode ser que tenha atrasado, tenho medo.
    Ela consegue me tirar de debaixo da cama, me leva para a sacada da casa, tem mais gente lá brindando e se abraçando. Mas quando vejo o céu, ah! Que lindo é o céu! Cheio de luzes, brilhando por toda parte, escuto alguns estrondos, mas é só isso, e luzes e mais luzes piscam por todos os lados vindo do parque Vitória Régia. Eu lato com alegria, que coisa linda! Minha mãe faz carinho na minha cabeça.
     Que venha 2016!

* Pela primeira vez, a queima de fogos da cidade de Bauru utilizou explosivos que fazem menos barulho, para o bem-estar dos pets e das crianças.

****
Notinha da professora Érika:
Tenho algo em comum com os pets de estimação: nunca gostei do barulho dos fogos de artifício!!!
Esta foi uma ótima iniciativa da cidade de Bauru, que avançou pelo menos no que diz respeito a esta questão. É pena que muitos cidadãos continuem soltando rojões de maneira desastrosa e perigosa, sem preparo ou planejamento.

Lívia Reginato é estudante de jornalismo na Unesp, Bauru.
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Almas dançantes

Hoje, a crônica é da estudante Giovana Murça Pastori (Jornalismo, Unesp), uma reflexão poética sobre a vida e o cantar dos pássaros.
Boa leitura!
Profa. Érika

Almas dançantes

por Giovana Murça Pastori      

São 6 horas da tarde. Pela rua movimentada passam veículos barulhentos e a fumaça cinza anuncia o horário do rush.
Um ônibus sobe a rua do cemitério e, dentro dele, muitas pessoas se espremem a fim de somente voltar para casa ao final de mais um dia cansativo de trabalho. As pessoas vão com semblantes fechados, cansados e sérios, a maioria infeliz, descontente com tudo a sua volta e com sua vida.
O ônibus passa pelo cemitério e aquelas pessoas lembram-se de seus parentes falecidos, lembram que a vida é curta, e que aquele é o destino de todos: a morte. Mas somente lembram, passam e esquecem.
 Enquanto isso, dentro do cemitério, quanta ironia, um bando de passarinhos voa sem parar, de um lado para o outro, por cima das sepulturas, brincam com toda tristeza, melancolia, depressão de um lugar esquecido pelos vivos, zombam da morte, dançam alegremente sobre o choro de quem ficou.
E quem ficou agora está naquele ônibus que passa pelo cemitério, com cara de tédio e tristeza, e bem ali do outro lado estão os passarinhos como almas dançantes em cima das sepulturas, como uma festa dos mortos que passa despercebida.
Todos os dias, no horário do rush, aqueles passarinhos tentam mostrar a alegria da vida, o real sentido para viver, mas aquelas pessoas daquele ônibus nunca os percebem, e somente continuam voltando pra casa, como se não soubessem que um dia serão elas que descerão naquele ponto do cemitério e serão zombadas por um bando de passarinhos dançantes, que riem não só da morte, mas sim da falta de vida daquelas pessoas com semblantes fechados, naquele ônibus lotado de tanta vida sem vida.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

CRÔNICA - À labuta, filhos da escola

A crônica da estudante Beatriz Milanez (Jornalismo, Unesp) me fez lembrar de uma canção do Balão Mágico, lá da infância, que dizia assim:
Amigo, companheiro de colégio, hoje eu canto de alegria por de novo te encontrar. Nas férias, eu brincava todo dia, mas no fundo o que eu queria era mesmo estar aqui...
Vamos ler?
Nos próximos dias, tem mais.
Profa. Érika

À labuta, filhos da escola

por Beatriz Milanez

      Não foram poucas as vezes que ouvi aquele clichê: “passar no vestibular é fácil, o difícil mesmo é sair da faculdade”. É de se confessar que custei a acreditar, e só fui me dar conta de que era a verdade assim que o despertador tocou pela terceira vez, quando cansei de apertar o botão “soneca”. Os cinco minutinhos a mais tinham se transformado em quase quinze. Só quinze. Ainda com a voz embargada e a cara amassada, tentei contar quantos dias ainda faltavam pro final. Tentativa falha, claro. O sono era demais.
      No começo, as coisas são mais fáceis. Até mesmo os dias de ócio – as tão famigeradas férias –, reclamando sobre me sentir inútil e estar desesperada para fazer algo, me deixaram saudade. No fim, falta de tempo e inúmeras xícaras – quando não, copos – de café. Chego até a me questionar se realmente gosto da cafeína ou se foi ela que finalmente tomou conta do meu corpo, assim, sem pedir licença. Pilhas de textos a ler; listas infinitas de contas a fazer; seminários à espera de atenção acompanhados do medo da exposição frente ao professor e aos amigos; medo que acaba em frio na barriga e suor gelado, daquele que arrepia a espinha. Provas, tcc, textos, listas, tcc, provas... Parece não ter fim. Quantos dias faltavam pro final?
      “Mas você só estuda”. Talvez seja esse o pensamento dos professores. A teoria de que eles acreditam que só existe a matéria deles também é aceita. Uma pena não ser a realidade, não é mesmo? Seria ótimo se dedicar a uma única coisa, sem deixar acumular outras e outras e mais outras. Sim, quase me esqueci dela, a procrastinação. Quantas foram as coisas que deixei pra depois? Tantas, que até perdi a conta. Quase sempre bate um arrependimento. “Deveria ser mais organizada e ter feito antes” ou “no próximo semestre vou mudar” são palavras que passam em qualquer cabeça agora, inclusive na minha. Mas sei que elas vão me deixar, assim que acabar, quase que instantaneamente.
     Ser estudante não é tarefa fácil. Os bastidores da labuta são refletidos no espelho, literalmente. O que dizer sobre o tamanho das olheiras? E das dores nas costas? E olha que ainda somos jovens. Sim, somos tão jovens. Renato Russo tinha razão. Mas acredito que se esquecera de cantar – ou avisar – que o futuro bate na porta rápido demais, sem dar tempo de pensar. Assim, lancei outra teoria: a nossa preguiça é apenas um modo de evitarmos o que nos espera lá na frente. Não estamos preparados, estamos? Acho que faz sentido.
     Agora, acabou. O mundo saiu de nossas costas e podemos, enfim, dormir sem nos preocupar com o acordar. Horas a fio destinadas a nada. Nada. Horas, dias, semanas e, em alguns casos, meses para fazer nada. É tempo de relaxar, jogar conversa fora – seja com os outros ou com a própria mente – e esperar. Ainda tem mais, muito mais. No entanto, por hora, é isso. Quem é que se cansa de férias? Mente vazia, sem correria, sem noites em claro, sem festas, sem reclamações, sem a zoeira com os amigos, sem professores pra reclamar, sem... Ah. E agora, quantos dias faltam pro final?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Filhos da Pátria

Meus alunos do curso de Jornalismo (Unesp) produziram belas crônicas para a aula de Técnica Redacional II, cada um com seu lirismo e estilo.
Pedi autorização deles para divulgar aqui no blog e, assim, guardá-las também como lembrança.
Vamos começar com a da estudante Amanda de Assis Araújo, que deu voz ao nosso Pai-Filho-País.
Profa. Érika

PS: outras turmas também produziram ótimos textos. Agora, veio a ideia de mostrar por aqui, em vez de guardar para "algum dia montar um livro".

Filhos da Pátria
por Amanda de Assis Araújo

Cada dia vivo com inúmeros problemas de saúde: sejam eles econômicos, sociais ou políticos e, infelizmente, sempre preciso de outras pessoas para resolvê-los por mim. Atualmente, meu maior problema está na área da política, porque sofro com corrupção, desvio de verbas, falta de governabilidade e as pessoas escolhidas para resolverem esses problemas para mim não estão dando conta. Uma delas tem o título de Presidente da República Federativa do Brasil e é considerada minha maior cuidadora, mas não a única, como a maioria das pessoas imaginam. E, no caso, Brasil sou eu.
Estou passando por um novo e, ao mesmo tempo, velho problema: o mesmo que ocorreu em 1992, mas com motivos e dimensões diferentes. Naquele ano, ocorreu o impeachment, aquele negócio todo complicado que procura tirar um dos meus filhos da Pátria do poder, o Presidente, que nessa época era o Fernando Collor. Esse impeachment foi motivado, entre outros fatores, pelo fato de que Collor estava confiscando o saldo das poupanças bancárias de toda a minha população, com o argumento de acabar com a inflação, além de muitos outros problemas que estavam ocorrendo na época. Não concordei com nada disso e, mesmo assim, não tinha o que eu fazer. Porque foi esse mesmo povo que escolheu esse Presidente para tomar conta de mim.
Agora estou enfrentando novos problemas. Dilma Rousseff foi escolhida para ser a pessoa que possui o cargo mais importante no que diz respeito a cuidar de mim, o Brasil. O povo foi lá, votou, ela ganhou pela segunda vez e, agora, a maioria está infeliz e quer fazer esse tal de impeachment de novo. Mas o que as pessoas não entendem é que a dimensão do que está acontecendo comigo hoje é totalmente diferente do que aconteceu em 1992. Estou vivendo uma fase em que meu problema não está só com minha maior cuidadora, a Presidente, e sim com inúmeras outras pessoas que também cuidam de mim, em graus diferentes da Dilma e que também foram escolhidas para os papéis que estão representando.
Para esse novo impeachment, que pode ou não acontecer, os motivos são: imperícia, negligência, imprudência, pedaladas fiscais, omissão sobre alguns assuntos da Petrobrás. E eu estou ficando cada vez mais confuso e irritado com tudo isso. As pessoas não percebem que a Presidente não é a única que não está sabendo cuidar direito de mim e que outros indivíduos fazem parte desses problemas que tenho diariamente, inclusive os que somente me habitam e não possuem uma função de governar.
Tudo isso me faz refletir: será que todos os meus problemas podem ser curados apenas com a saída da Presidente? Ou será que todos que foram eleitos para serem responsáveis pela minha saúde deveriam sair e começaríamos tudo de novo com pessoas novas? Ou, talvez, será que eu cuido melhor de mim mesmo sem a ajuda deles?