quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Filhos da Pátria

Meus alunos do curso de Jornalismo (Unesp) produziram belas crônicas para a aula de Técnica Redacional II, cada um com seu lirismo e estilo.
Pedi autorização deles para divulgar aqui no blog e, assim, guardá-las também como lembrança.
Vamos começar com a da estudante Amanda de Assis Araújo, que deu voz ao nosso Pai-Filho-País.
Profa. Érika

PS: outras turmas também produziram ótimos textos. Agora, veio a ideia de mostrar por aqui, em vez de guardar para "algum dia montar um livro".

Filhos da Pátria
por Amanda de Assis Araújo

Cada dia vivo com inúmeros problemas de saúde: sejam eles econômicos, sociais ou políticos e, infelizmente, sempre preciso de outras pessoas para resolvê-los por mim. Atualmente, meu maior problema está na área da política, porque sofro com corrupção, desvio de verbas, falta de governabilidade e as pessoas escolhidas para resolverem esses problemas para mim não estão dando conta. Uma delas tem o título de Presidente da República Federativa do Brasil e é considerada minha maior cuidadora, mas não a única, como a maioria das pessoas imaginam. E, no caso, Brasil sou eu.
Estou passando por um novo e, ao mesmo tempo, velho problema: o mesmo que ocorreu em 1992, mas com motivos e dimensões diferentes. Naquele ano, ocorreu o impeachment, aquele negócio todo complicado que procura tirar um dos meus filhos da Pátria do poder, o Presidente, que nessa época era o Fernando Collor. Esse impeachment foi motivado, entre outros fatores, pelo fato de que Collor estava confiscando o saldo das poupanças bancárias de toda a minha população, com o argumento de acabar com a inflação, além de muitos outros problemas que estavam ocorrendo na época. Não concordei com nada disso e, mesmo assim, não tinha o que eu fazer. Porque foi esse mesmo povo que escolheu esse Presidente para tomar conta de mim.
Agora estou enfrentando novos problemas. Dilma Rousseff foi escolhida para ser a pessoa que possui o cargo mais importante no que diz respeito a cuidar de mim, o Brasil. O povo foi lá, votou, ela ganhou pela segunda vez e, agora, a maioria está infeliz e quer fazer esse tal de impeachment de novo. Mas o que as pessoas não entendem é que a dimensão do que está acontecendo comigo hoje é totalmente diferente do que aconteceu em 1992. Estou vivendo uma fase em que meu problema não está só com minha maior cuidadora, a Presidente, e sim com inúmeras outras pessoas que também cuidam de mim, em graus diferentes da Dilma e que também foram escolhidas para os papéis que estão representando.
Para esse novo impeachment, que pode ou não acontecer, os motivos são: imperícia, negligência, imprudência, pedaladas fiscais, omissão sobre alguns assuntos da Petrobrás. E eu estou ficando cada vez mais confuso e irritado com tudo isso. As pessoas não percebem que a Presidente não é a única que não está sabendo cuidar direito de mim e que outros indivíduos fazem parte desses problemas que tenho diariamente, inclusive os que somente me habitam e não possuem uma função de governar.
Tudo isso me faz refletir: será que todos os meus problemas podem ser curados apenas com a saída da Presidente? Ou será que todos que foram eleitos para serem responsáveis pela minha saúde deveriam sair e começaríamos tudo de novo com pessoas novas? Ou, talvez, será que eu cuido melhor de mim mesmo sem a ajuda deles?

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