quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

CRÔNICA - À labuta, filhos da escola

A crônica da estudante Beatriz Milanez (Jornalismo, Unesp) me fez lembrar de uma canção do Balão Mágico, lá da infância, que dizia assim:
Amigo, companheiro de colégio, hoje eu canto de alegria por de novo te encontrar. Nas férias, eu brincava todo dia, mas no fundo o que eu queria era mesmo estar aqui...
Vamos ler?
Nos próximos dias, tem mais.
Profa. Érika

À labuta, filhos da escola

por Beatriz Milanez

      Não foram poucas as vezes que ouvi aquele clichê: “passar no vestibular é fácil, o difícil mesmo é sair da faculdade”. É de se confessar que custei a acreditar, e só fui me dar conta de que era a verdade assim que o despertador tocou pela terceira vez, quando cansei de apertar o botão “soneca”. Os cinco minutinhos a mais tinham se transformado em quase quinze. Só quinze. Ainda com a voz embargada e a cara amassada, tentei contar quantos dias ainda faltavam pro final. Tentativa falha, claro. O sono era demais.
      No começo, as coisas são mais fáceis. Até mesmo os dias de ócio – as tão famigeradas férias –, reclamando sobre me sentir inútil e estar desesperada para fazer algo, me deixaram saudade. No fim, falta de tempo e inúmeras xícaras – quando não, copos – de café. Chego até a me questionar se realmente gosto da cafeína ou se foi ela que finalmente tomou conta do meu corpo, assim, sem pedir licença. Pilhas de textos a ler; listas infinitas de contas a fazer; seminários à espera de atenção acompanhados do medo da exposição frente ao professor e aos amigos; medo que acaba em frio na barriga e suor gelado, daquele que arrepia a espinha. Provas, tcc, textos, listas, tcc, provas... Parece não ter fim. Quantos dias faltavam pro final?
      “Mas você só estuda”. Talvez seja esse o pensamento dos professores. A teoria de que eles acreditam que só existe a matéria deles também é aceita. Uma pena não ser a realidade, não é mesmo? Seria ótimo se dedicar a uma única coisa, sem deixar acumular outras e outras e mais outras. Sim, quase me esqueci dela, a procrastinação. Quantas foram as coisas que deixei pra depois? Tantas, que até perdi a conta. Quase sempre bate um arrependimento. “Deveria ser mais organizada e ter feito antes” ou “no próximo semestre vou mudar” são palavras que passam em qualquer cabeça agora, inclusive na minha. Mas sei que elas vão me deixar, assim que acabar, quase que instantaneamente.
     Ser estudante não é tarefa fácil. Os bastidores da labuta são refletidos no espelho, literalmente. O que dizer sobre o tamanho das olheiras? E das dores nas costas? E olha que ainda somos jovens. Sim, somos tão jovens. Renato Russo tinha razão. Mas acredito que se esquecera de cantar – ou avisar – que o futuro bate na porta rápido demais, sem dar tempo de pensar. Assim, lancei outra teoria: a nossa preguiça é apenas um modo de evitarmos o que nos espera lá na frente. Não estamos preparados, estamos? Acho que faz sentido.
     Agora, acabou. O mundo saiu de nossas costas e podemos, enfim, dormir sem nos preocupar com o acordar. Horas a fio destinadas a nada. Nada. Horas, dias, semanas e, em alguns casos, meses para fazer nada. É tempo de relaxar, jogar conversa fora – seja com os outros ou com a própria mente – e esperar. Ainda tem mais, muito mais. No entanto, por hora, é isso. Quem é que se cansa de férias? Mente vazia, sem correria, sem noites em claro, sem festas, sem reclamações, sem a zoeira com os amigos, sem professores pra reclamar, sem... Ah. E agora, quantos dias faltam pro final?

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