sábado, 23 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Surpresa de Ano Novo

Surpresa de Ano Novo

por Lívia Reginato

     Todo ano já sei que aquele momento está chegando, começo a pressentir pelo cheiro de panetone no ar, quando sinto o primeiro aroma de frutas secas, já vou me preparando psicologicamente...
     Chega parente de todo canto, a casa fica cheia, tem gente para brincar comigo e matar a saudade em todos os cômodos, é uma alegria só! Sempre fico feliz quando lembram de mim e ganho algum mimo. Corro de um lado para outro tentando dar atenção a todos, mas é uma tarefa difícil.
     Peixe assado, salada de lentilha, pernil, bacalhau, torta de romã, outros cheiros vão me animando ao passar dos dias. Às vezes, vou tentar pegar alguma bolinha da árvore de natal, mas tem sempre alguém para me tirar de perto de lá, acabo deixando para depois. Se eu der sorte, consigo pegar um pedaço grande de pernil, é só esperar com cautela, ficar no lugar certo, olhar com jeitinho para a pessoa certa e pronto: sempre funciona.
    Mas quando chega a noite e todo mundo vai dormir, me encolho na minha cama, sabendo o que está por vir. Tento não fazer nenhum barulho, a casa está cheia, não quero incomodar. Ano passado dei umas resmungadas e acordei um dos bebês, acabou que ninguém dormiu. Este ano vou me controlar, eu prometi.
     Os dias passam nesse clima agitado. À certa altura, minha mãe arruma a mesa de jantar com um pano bem bonito que era da vó dela. O dia é de fartura, todos muito felizes, tem comida boa e música o dia todo. Mas eu sei o que está por vir, mesmo que eu tente aproveitar, uma vozinha lá no fundo da minha mente me lembra, a noite vai chegar...
    Uma das crianças vem brincar comigo, como cresceu! Me distraio por uns segundos, mas o relógio começa a badalar: uma, duas, três, quatro. Já sei que chegou a hora: corro para debaixo da cama da minha mãe. Cinco, seis, sete. Cubro meus ouvidos com minhas patas, tento não chorar. Oito, nove, dez, onze...
     Doze.
     Todos gritam aclamando o ano novo, mas algo está diferente, escuto barulhos ao fundo, mas não são como nos outros anos. Minha mãe vem me buscar, eu não quero sair, pode ser que tenha atrasado, tenho medo.
    Ela consegue me tirar de debaixo da cama, me leva para a sacada da casa, tem mais gente lá brindando e se abraçando. Mas quando vejo o céu, ah! Que lindo é o céu! Cheio de luzes, brilhando por toda parte, escuto alguns estrondos, mas é só isso, e luzes e mais luzes piscam por todos os lados vindo do parque Vitória Régia. Eu lato com alegria, que coisa linda! Minha mãe faz carinho na minha cabeça.
     Que venha 2016!

* Pela primeira vez, a queima de fogos da cidade de Bauru utilizou explosivos que fazem menos barulho, para o bem-estar dos pets e das crianças.

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Notinha da professora Érika:
Tenho algo em comum com os pets de estimação: nunca gostei do barulho dos fogos de artifício!!!
Esta foi uma ótima iniciativa da cidade de Bauru, que avançou pelo menos no que diz respeito a esta questão. É pena que muitos cidadãos continuem soltando rojões de maneira desastrosa e perigosa, sem preparo ou planejamento.

Lívia Reginato é estudante de jornalismo na Unesp, Bauru.
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