quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

CRÔNICA - A morte e a letra "M"

A estudante Isabela Holl (Jornalismo, Unesp) escreve sobre o tempo, sobre a vida...

A morte e a letra “M” 

por Isabela Holl 

     João tinha 6 anos quando tirou a roupa, abriu a porta do box e ligou o chuveiro. Assim que a água tocou o seu corpo, seu coração disparou, sua respiração ficou mais rápida e, naquele momento, tomou consciência de uma coisa: um dia ele iria morrer. 
     Talvez você, leitor, já tenha experimentado esta sensação única e difícil de descrever. É quando seu organismo, seu cérebro e seu coração percebem que são efêmeros. O pânico se espalha aos poucos; célula por célula. É normal ter pensamentos como “Isso não é justo!”, “ Isso não pode ser verdade!” ou “Por que, Deus?”. 
     E, para piorar ainda mais, temos o Senhor Tempo. Ele não costuma ajudar, pois ele tem a mania de passar rápido demais. Atualmente, um estranho fenômeno acontece: o Tempo parece realmente ter perdido a paciência. Não se sabe muito bem o motivo, mas ele está correndo cada vez mais rápido. Isso faz com que as crianças logo virem adolescentes e os adolescentes virem adultos e por aí vai. 
     Assim aconteceu com João, já estava grandinho, mas ainda não tinha superado muito bem esse papo de morte. "Realmente não é justo, 9 meses de gestação, 22 anos na escola e o resto da vida construindo uma carreira. Por que, se vamos morrer?". Se revoltava, também, quando lia aquele clichê "vieste do pó e ao pó retornarás", João teimava: "não me lembro de ter vindo de pó algum e sim da barriga da minha mãe, onde estava bem úmido por sinal". Ele concluiu que era necessário aproveitar a vida, já que todos iríamos, um dia, chegar ao fim. 
     Mas ele foi se tornando adulto e daqueles bem ocupados. E foi esquecendo esse assunto, afinal, tinha muita papelada do escritório para analisar e aquela pós graduação que deveria fazer. Uma vez, uma mulher apareceu na sua vida, mas ela acabou indo embora, porque ele não tinha muito tempo para ela, assim como não tinha tempo para os finais de semana ou para qualquer outra coisa. 
     João tinha 50 anos quando olhou para o relógio, faltava meia hora para o fim do expediente. Assim que tirou seus olhos do relógio, seu coração disparou, sua respiração ficou mais rápida, e naquele momento, tomou consciência de uma coisa: um dia ele iria morrer. E se permitiu refletir um pouco sobre sua vida. Tinha passado tempo demais no escritório, pouco tempo viajando, vendo os amigos ou fazendo qualquer coisa ao ar livre. E tinha aquela moça, como ela chamava mesmo? Mariana? Márcia? Era alguma coisa com a letra “M”, não conseguia se lembrar há quanto tempo ela tinha ido embora. 
     Decidiu que iria recuperar o tempo perdido e, pela primeira vez, se permitiu sair mais cedo do trabalho. Andou pelo quarteirão animado consigo mesmo e sem pensar em nada. As pessoas na rua ouviram um estrondo e rapidamente olharam para ver o que tinha acontecido. Um letreiro velho decidiu que era a hora de despencar e justamente em cima do João. Ele ergueu o pescoço e pôde ver a letra que o acertara: era um “M”. Lembrou que o nome da moça era Mariana e não deu tempo de lembrar mais nada. 
     Realmente não é justo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário