quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

CRÔNICA - Dias claros como a neve

Crônica da estudante Larissa Borges Caliari (Jornalismo - Unesp) inspirada em notícia real.

Dias claros como a neve

por Larissa Borges Caliari

Acordo de manhãzinha e sinto o dia frio, ouço o papai chamando a mamãe para olhar a paisagem da janela. Ela se anima e ouço seus passos quando levanta da cama correndo. Os dois falam sobre a neve, em como ela deixou a paisagem branquinha durante a noite. Os dias mais frios são sempre muito animados aqui em casa. A voz da mamãe se torna mais doce e calma, e a do papai mais confiante e serena.
Fico imaginando como é a paisagem, me esforço para enxergar a mamãe e o papai, vejo o vulto deles, abraçados, olhando um para o outro. Então, eles caminham em minha direção, sinto o perfume do papai, que acabou de tomar banho para ir ao trabalho. Ele coloca um cobertor quentinho em cima de mim, enquanto a mamãe coloca a mamadeira em minha boca. Ouço o som de lenha queimando na lareira, de água fervendo para o chá, da batedeira funcionando. Logo em seguida, sinto o ambiente aconchegante, o cheiro de chá e de biscoitos assando.
Percebo tudo a minha volta, mas tem coisas que não são muito claras para mim. Como o cabelo brilhante da mamãe, que o papai diz que fica lindo com aquela touca azul-marinho, ou a diferença de cor entre o cabelo e a barba dele, que ela diz ser um charme único. As cores, formas e movimentos se confundem diante do meu olhar, mas sei que os dois são as pessoas mais bonitas que já vi.
O papai sai pra trabalhar logo de manhã, e mamãe vai perto da hora do almoço, quando a vovó chega com seus passos lentos e silenciosos e me pega no colo por horas, como todos os dias. A sua roupa é macia, o perfume suave e a voz sempre reconfortante. Hoje ela está mais feliz, percebo a ansiedade em seus movimentos e imagino que deve ser por causa da neve, que alegra os dias da família toda.
Percebo que está ficando tarde, os dois não chegaram na hora de costume. O dia já está se tornando noite e o frio aumenta com o repousar do sol. Então o portão se abre, ouço a conversa animada e os passos apressados. Mamãe entra e pergunta por mim para vovó, que aponta em minha direção. Eles vêm até o berço com uma caixinha embrulhada de presente. Estão conversando comigo, mostram o embrulho, desembrulham e abrem. Tiram de lá uns óculos, como o da vovó, e percebo que aqueles são pra mim quando papai traz em direção ao meu rosto. Ele prende atrás da minha cabeça e encaixa nos olhos.
Vejo tudo com clareza, as imagens são mais coloridas e brilhantes, papai e mamãe estão mais bonitos que antes, flocos branquinhos estão passando pela janela, é a neve! Vejo como é felpudo o casaco macio da vovó, como a pele macia da mamãe é branquinha e como o cabelo cheiroso do papai é encaracolado. Não consigo conter minha felicidade, sorrio para os três e eles sorriem de volta para mim! As risadas agora também são mais bonitas.


Notícia que inspirou esta crônica: campanha arrecada armações de óculos para pessoas de baixa renda.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

CRÔNICA - Vinte e três

Será que somos apenas um conjunto de números?
Ou seres humanos, com nomes, sonhos, planos, emoções e algo mais...
Texto singelo produzido pela estudante Clara Tadayozzi (Jornalismo - Unesp)

Vinte e três
por Clara Tadayozzi
  
- Ela era bonita? – perguntou, depois de certa hesitação.
- Para mim, a mais bela de todas – ele respondeu com visível ternura.
Naquele quarto frio de hospital, a visita diária às vezes trazia assuntos inusitados.
Ele prosseguiu relatando o pouco que sobrou de uma vida memorável.
- Nunca me esqueço do dia em que pedi sua mão. Namorávamos já havia algum tempo, às escuras. Ela era apenas um ano mais nova do que eu.
Nunca senti tanto receio em toda a minha vida; seu pai era tido com respeito, temido por todos os peraltas da cidade.
E eu, para a surpresa de todos, acabei sendo aceito naquela humilde família.
Logo criamos nossa pequena rotina, naquela vida adorável de recém-casados.
Aos fins de semana, costumávamos sair para comer fora e depois pegar um cinema. Pegávamos carona com o metrô e ficávamos entre curtas carícias durante o longo percurso.
Quando o filme terminava, eu já aguardava a doce pergunta: "Voltemos a pé?", e com um breve sorriso, assentia com a cabeça.
Logo pegava o seu par de sapatos, e saíamos a caminhar sob o céu noturno.
Não tínhamos pressa alguma, esperávamos o belo amanhecer naquelas familiares ruas de São Paulo.
Havia uma feira pela manhã, próxima a nossa singela residência. Eu comprava sempre dois pastéis para o desjejum. E então, voltávamos para casa e dormíamos até mais tarde.
Foram os dias mais felizes da minha existência.
Quando soube que ela estava grávida, tratei de encontrar um ofício a mais, e logo aumentei nossa pequena casa.
Providenciei tudo o que um pai poderia proporcionar a uma querida filha. Obtive ajuda de diversos amigos e, por fim, um mundo isento de necessidades e repleto de amor a aguardava, ansioso por conhecê-la.
Lamentavelmente, nunca teve a chance. Por um falho ato médico, subitamente perdi tudo o que tinha de valor neste mundo, até mesmo antes de ganhar. Um maldito fórceps, uma inestancável hemorragia.
Há quem me cobre processos jurídicos, mas dinheiro algum as traria de volta.
Foi como se o meu querido órgão cardiovascular se partisse em milhões de pedaços, que até hoje não consegui reunir. O lindo enxoval foi doado, com porções de minha alma embutidas.
Parei de viver por um eterno período de tempo. Nunca deixei de sentir a imensa dor que se apossa do corpo em grandes perdas.
Saí pelo mundo, a vagar por entre as cidades mal distribuídas; conheci os cantos deste país, e até de outros. Mergulhei em diferentes oceanos, presenciei acontecimentos inesquecíveis. Jamais algo me preencheu novamente.
A menina escutava comovida, sem saber como organizar as palavras que lhe surgiam na mente, para saírem adequadas da boca.
Lacrimejava, mas impedia que caíssem de seus olhos as gotas ansiosas por nascer.
Deu um sincero beijo em suas mãos calejadas e manteve-se em silêncio.
- Sou o número vinte e três da lista de transplantes – ele então lhe disse.