segunda-feira, 23 de maio de 2011

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Mais um link sobre a polêmica do livro didático:
(artigo do prof. Sírio Possenti no Estadão)
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,analisar-e-opinar-sem-ler,722479,0.htm

Reproduzo, abaixo, manifesto da Abralin
Associação Brasileira de Linguística


Língua e ignorância

Nas duas últimas semanas, o Brasil acompanhou uma discussão a respeito do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC. Diante de posicionamentos virulentos externados na mídia, alguns até histéricos, a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA - ABRALIN - vê a necessidade de vir a público manifestar-se a respeito, no sentido de endossar o posicionamento dos linguistas, pouco ouvidos até o momento.

Curiosamente é de se estranhar esse procedimento, uma vez que seria de se esperar que estes fossem os primeiros a serem consultados em virtude da sua expertise. Para além disso, ainda, foram muito mal interpretados e mal lidos.


O fato que, inicialmente, chama a atenção foi que os críticos não tiveram sequer o cuidado de analisar o livro em questão mais atentamente. As críticas se pautaram sempre nas cinco ou seis linhas largamente citadas. Vale notar que o livro acata orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) em relação à concepção de língua/linguagem, orientações que já estão em andamento há mais de uma década. Além disso, não somente este, mas outros livros didáticos englobam a discussão da variação linguística com o intuito de ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado. Portanto, em nenhum momento houve ou há a defesa de que a norma culta não deva ser ensinada. Ao contrário, entende-se que esse é o papel da escola, garantir o domínio da norma culta para o acesso efetivo aos bens culturais, ou seja, garantir o pleno exercício da cidadania. Esta é a única razão que justifica a existência de uma disciplina que ensine língua portuguesa a falantes nativos de português.


A linguística se constituiu como ciência há mais de um século. Como qualquer outra ciência, não trabalha com a dicotomia certo/errado. Independentemente da inegável repercussão política que isso possa ter, esse é o posicionamento científico. Esse trabalho investigativo permitiu aos linguistas elaborar outras constatações que constituem hoje material essencial para a descrição e explicação de qualquer língua humana.


Uma dessas constatações é o fato de que as línguas mudam no tempo, independentemente do nível de letramento de seus falantes, do avanço econômico e tecnológico de seu povo, do poder mais ou menos repressivo das Instituições. As línguas mudam. Isso não significa que ficam melhores ou piores. Elas simplesmente mudam. Formas linguísticas podem perder ou ganhar prestígio, podem desaparecer, novas formas podem ser criadas. Isso sempre foi assim. Podemos ressaltar que muitos dos usos hoje tão cultuados pelos puristas originaram-se do modo de falar de uma forma alegadamente inferior do Latim: exemplificando, as formas "noscum" e "voscum", estigmatizadas por volta do século III, por fazerem parte do chamado "latim vulgar", originaram respectivamente as formas "conosco" e "convosco".

Outra constatação que merece destaque é o fato de que as línguas variam num mesmo tempo, ou seja, qualquer língua (qualquer uma!) apresenta variedades que são deflagradas por fatores já bastante estudados, como as diferenças geográficas, sociais, etárias, dentre muitas outras. Por manter um posicionamento científico, a linguística não faz juízos de valor acerca dessas variedades, simplesmente as descreve. No entanto, os linguistas, pela sua experiência como cidadãos, sabem e divulgam isso amplamente, já desde o final da década de sessenta do século passado, que essas variedades podem ter maior ou menor prestígio. O prestígio das formas linguísticas está sempre relacionado ao prestígio que têm seus falantes nos diferentes estratos sociais. Por esse motivo, sabe-se que o descon hecimento da norma de prestígio, ou norma culta, pode limitar a ascensão social. Essa constatação fundamenta o posicionamento da linguística sobre o ensino da língua materna.

Independentemente da questão didático-pedagógica, a linguística demonstra que não há nenhum caos linguístico (há sempre regras reguladoras desses usos), que nenhuma língua já foi ou pode ser "corrompida" ou "assassinada", que nenhuma língua fica ameaçada quando faz empréstimos, etc. Independentemente da variedade que usa, qualquer falante fala segundo regras gramaticais estritas (a ampliação da noção de gramática também foi uma conquista científica). Os falantes do português brasileiro podem fazer o plural de "o livro" de duas maneiras: uma formal:os livros; outra informal: os livro. Mas certamente nunca se ouviu ninguém dizer "o livros". Assim também, de modo bastante generali zado, não se pronuncia mais o "r" final de verbos no infinitivo, mas não se deixa de pronunciar (não de forma generalizada, pelo menos) o "r" final de substantivos. Qualquer falante, culto ou não, pode dizer (e diz) "vou comprá" para "comprar", mas apenas algumas variedades diriam 'dô' para 'dor'. Estas últimas são estigmatizadas socialmente, porque remetem a falantes de baixa extração social ou de pouca escolaridade. No entanto, a variação da supressão do final do infinitivo é bastante corriqueira e não marcada socialmente. Demonstra-se, assim, que falamos obedecendo a regras. A escola precisa estar atenta a esse fato, porque precisa ensinar que, apesar de falarmos "vou comprá" precisamos escrever "vou comprar". E a linguística ao descrever esses fenômenos ajuda a entender melhor o funcionamento das línguas o que deve repercutir no processo de ensino.


Por outro lado, entendemos que o ensino de língua materna não tem sido bem sucedido, mas isso não se deve às questões apontadas. Esse é um tópico que demandaria uma outra discussão muito mais profunda, que não cabe aqui.


Por fim, é importante esclarecer que o uso de formas linguísticas de menor prestígio não é indício de ignorância ou de qualquer outro atributo que queiramos impingir aos que falam desse ou daquele modo. A ignorância não está ligada às formas de falar ou ao nível de letramento. Aliás, pudemos comprovar isso por meio desse debate que se instaurou em relação ao ensino de língua e à variedade linguística.

Maria José Foltran
Presidente da Abralin
Secretaria Abralin/Gestão UFPR 2009-2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Polêmica

Breve consideração sobre a polêmica da língua

Queridos, muitos estão solicitando um posicionamento meu sobre a "polêmica a respeito do livro adotado pelo MEC", etc. Especialmente alunos e ex-alunos, o que me deixa feliz pelo interesse. Não é possível opinar em poucas palavras, já que o assunto não se esgotaria nem mesmo em um Congresso. Assim como não se esgotou mesmo depois de tantos debates, já que essa questão não é nova, apenas entrou em moda a partir de um factual. Como Doutora em Linguística, é óbvio que compreendo a língua como algo muito mais complexo do que um conjunto de regras de norma padrão (prefiro não chamar de culta, em oposição à inculta). É óbvio também que defendo o ensino de norma padrão (meus alunos sabem que sou exigente com isso, creio). Penso que seja uma boa oportunidade para se ler Marcos Bagno, Sírio Possenti...
Não julgaria (ainda que me coubesse julgar) aqueles que compreenderam mal as colocações do livro didático, já que a minha visão, hoje, é fruto de cerca de 15 anos de estudo de Análise do Discurso de linha francesa e outras disciplinas da Linguística e, desses anos, a maior lição é a humildade de não me achar a “dona da verdade”. Aos que me acharem velha por causa dos 15 anos, justifico que me interessei pela AD já no início da graduação, rss... É, sim, mas o tempo passa e fico grata que, hoje, alguns ex-alunos me escrevam felizes por, já cerca de 8 anos antes dessa polêmica, terem discutido o Preconceito Linguístico em minhas aulas. Talvez alguns não tenham compreendido, não por falta de inteligência, mas porque é preciso coração aberto para ouvir e assimilar um ponto de vista que não é o seu próprio ou aquele defendido a ferro e fogo por visões mais conservadoras, aquele em que eu mesma acreditei quando adolescente, por pura falta de informação.
Essa é a vantagem de amadurecer. É o conforto por perceber uma leve ruga no canto do olho, mas saber que o tempo não foi em vão.
Não me debruçarei mais sobre a polêmica por pura e simples falta de tempo para dar a esse assunto a dimensão que ele merece. E por considerar que outros linguistas, de longas estradas, estão dando bem conta do recado (meu papel será mais o de indicar leituras).
Só antes gostaria de enfatizar que não é uma questão de prós e contras. Esta deveria ser a maior lição: sair desse debate de mocinhos ou vilões. Língua é questão tão complexa que, por isso mesmo, gera mal-entendidos. É necessário fazer um esforço para não compreender o ponto de vista alheio como um “simulacro” (um conceito de Maingueneau).
Espero ter contribuído um pouco com os que me perguntaram por e-mail, DM, etc., sem ter ofendido ninguém.
Que o maior número possível de brasileiros tenha acesso à norma padrão, mas que se tenha consciência de que essa norma a que chamamos de padrão é uma escolha cultural (assim como nossa sociedade escolhe usar certas roupas, de preferência de grifes). A escolha poderia ser (ou ter sido, no decorrer da história da língua) diferente, a exemplo dos franceses que escrevem “Les livres” mas pronunciam “Le livre” (ou seriam uns “caipirões” os franceses?).

Indico algumas leituras:
O posicionamento da Ação Educativa é esclarecedor:
http://www.acaoeducativa.org.br/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=2604&Itemid=2

Também o texto de Sírio Possenti, o professor tão exigente que demorou para me aceitar como orientanda no mestrado. Mas que me ensinou a pescar muitos peixes (sem nunca ter pescado um por mim) até o fim do doutorado.
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5137669-EI8425,00-Aceitam+tudo.html

(Para ver os links, copiar e colar a URL no navegador)

Só mais uma notinha (embora muito óbvia). Na página do livro malhado feito Judas não há justificativa para a manchete que suscitou a polêmica: “Livro usado pelo MEC ensina aluno a falar errado”. Frise-se: quem diz isso é o portal IG, jamais coisa parecida foi escrita por algum linguista. Do ponto de vista da comunicação, tamanha má interpretação é bem mais grave do que erro de concordância. O que se repete e se polemiza é o título da nota, não a obra em si. Meus alunos vão se lembrar do conceito de “citação e destacabilidade”, de Maingueneau. Porque há mais coisas interessantes e aprofundadas para se estudar em relação à linguagem do que sonha a vã filosofia...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Nostalgifutoria

Um poeminha meu, escrito em 2000, assim, meio blues.
Mas, quer saber? Que a nostalgia se converta mesmo em poesia e que a vida seja primavera. E tudo bem se hoje escrevo menos poemas e tomo mais capuccino no Shopping.
Na medida do possível, a literatura é algo a que tenho muita vontade de me dedicar. Sem pressa. Sem cobrança.

Nostalgifutoria

Queria
Voltar no tempo e viver tudo de novo
Viver o que não vivi?
De novo o que não vivi?
De novo o que já sofri?
Queria, mas queria.
Viveria, não sofreria, aprenderia.
Futuro do pretérito: querer impossível.
Eu queria.
Ah, se queria...

by Érika

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