terça-feira, 12 de maio de 2020

Linkando as coisas: Fonética, Fonologia, Sociolinguística, Comunicação...


Talvez os capítulos de Fonética e Fonologia sejam dos mais desafiadores, mesmo para estudantes de Letras e Linguística.

Quem se depara pela primeira vez com símbolos fonéticos pode sentir um ‘travamento’ do tipo ‘isso parece matemática’ (Obs. Eu, particularmente, gostava da matemática, mesmo escolhendo Humanas, mas deixemos isso para outra conversa. Latim é puro raciocínio. Que bacana seria se o ensino tivesse mantido noções de latim, como minha mãe teve, mesmo tendo conseguido estudar apenas até o fundamental).

Vencida essa primeira barreira, um conhecimento, mesmo que básico, de leitura fonética pode trazer várias contribuições, entre as quais: habilidade em consultas em dicionários sobre pronúncia de palavras; conhecimento histórico sobre as línguas etc. Além desses benefícios práticos, há uma questão mais fundamentadora e relevante:

Conhecer a profundidade e complexidade das diversas vertentes da Linguística é um caminho preciso para se combater o preconceito linguístico. Não meramente por empatia ou por respeitar a falta de acesso do outro a uma cultura letrada (e esses já seriam bons motivos), mas por compreender que, mesmo variações que ‘parecem erradas’ têm razões científicas que as justificam, ainda que ‘não gostemos’ (E por que não gostaríamos? Porque, de certa forma, parecem não representar a ‘nossa’ classe social, o ‘nosso’ tempo histórico, os limites de nossos muros, enfim... Mas procura-se uma razão supostamente linguística: “é feio”. A língua, em si, dificilmente é feia ou bonita. Ela é o que é. Mas é sentida diferentemente em nossos ouvidos, esses sim culturalmente moldados).

Um exemplo, bastante citado pelo Bagno, é a influência da vogal “i” no fonema correspondente à letra “t”, dental como em “tatu”, que se transforma no som fricativo alveolar, como em titia. Responsável por isso é a presença da vogal alta [i] posterior. Na palavra “oito”, também há uma vogal alta [i], só que anterior à letra “t”, o que leva, intuitivamente, falantes de algumas regiões a pronunciarem algo como “otcho”. Não há razão científica para considerar que seja uma pronúncia “menos justificável”, apenas não é convencionada como a pronúncia padrão da língua portuguesa ‘oficial’. (ver p. 153 do texto de Angel Corbera Mori)

E quando a ‘Creusa’ pronuncia ‘crasse’ em vez de ‘classe’ está intuitivamente fazendo o que as línguas já fizeram em processos históricos que transformaram palavras do Latim como “Sclavu” em “escravo”. Aliás, também preenchemos essa ‘vogal ausente’ do “S Mudo”, porque nosso aparelho vocal busca um conforto maior do que aquele permitido pela pronúncia de uma consoante sozinha. Processos históricos, muitos deles pautados na “lei do menor esforço”, traçaram o caminho de Vossa Mercê a Você, passando por Vosmecê. Apenas processos históricos, embora teimosos que somos (arrogantes, talvez) acreditemos que a forma melhor é a do nosso tempo.

Se quiséssemos fazer uma comparação entre mundo real e oficial, poderíamos, talvez, pensar nos índices de inflação. Atualmente, há uma inflação baixa, medida por gráficos e tabelas. Há outra, expressa no preço do feijão das prateleiras. Você pode ‘querer’ acreditar no gráfico oficial impresso no jornal, mas ele não vai pagar o seu feijão. É a vida real, dura e sem muros.

Se não somos foneticistas ou fonólogos, não precisamos necessariamente saber de cor os nomes de todos os fonemas, de acordo com seus pontos de articulação. Entender a ‘atuação’ deles pode ser de grande valia em situações específicas, como diferenciar um caso grave de dislexia de uma ‘simples’ troca de fonemas equivalentes como p/b; f/v. Bem, não tão ‘simples’ assim, mas algo que se pode identificar, facilitando o aprendizado de uma língua materna ou estrangeira.

Ah, as cartilhas... todas elas baseadas nos métodos silábicos que, convenhamos, funcionam em boa medida. Até que aparecem as diferentes formas de representar, na escrita gráfica, o fonema [z], por exemplo. Pode ser com a letra z, s, x... Embora existam gramáticos que tentem traçar alguma lógica, a forma mais produtiva de apreensão é o contato direto com a escrita e a leitura. E, quando necessário, uma boa consulta aos dicionários.

Apesar das aparentes dificuldades, mesmo uma criança consegue entender algumas noções básicas de fonética (não precisam decorar nomes, por favor). Gosto de dar o exemplo, por ser didático, sobre o porquê de “m vir antes de p e b”. São os três sons bilabiais de nossa língua, enquanto o “n” (alveolar ou linguodental) “dá a mãozinha para as outras letras”. Claro que desconfiei que essa história de o “m” dar a mãozinha só para duas outras letrinhas era um conto de fadas (em termos técnicos, uma explicação aleatória), mas, vejam que bacana, há uma explicação científica que até mesmo uma criança em fase de alfabetização pode compreender: “Veja, Enzo, como mexemos os lábios ao falar esses sons” (como os dois novos sobrinhos estão para chegar, o exemplo fica em homenagem ao meu primogênito). As crianças são mais inteligentes do que pensamos, acreditem! (Outra digressão: meu trabalho de mestrado foi um estudo sobre jornalismo voltado para crianças).

Falando em crianças, também gosto de ressaltar o quanto são inteligentes quando dizem “eu fazi”. Fazem um raciocínio lógico por conta própria: eu parto, eu parti... eu como, eu comi... eu corro, eu corri... eu faço, eu fazi... Ensinamos, então, a exceção: eu fiz. Basta ensinar com carinho e fica tudo bem. Spoiler do tópico Sintaxe: “eu fazi” é um exemplo genuíno de gramática espontânea da língua.
Quem nos dera, desde a infância, tivéssemos contato ao menos com a fonética de todas as línguas. Assim, não teríamos dificuldade de pronunciar sons que nos são estranhos, que, depois de adultos, já não entendemos mais como “moldar” a sua articulação. Americano sofre com nossos sons nasais. E nós sofremos com muitos outros. Professores de língua estrangeira, por sua vez, buscam estratégias para que falantes aprendam sons que não existem em sua própria língua materna, como o “i com boca de u” da palavra “menu”, em francês.

Há também algumas ideias da psicofonética em jogo (teoria de Sapir), embora tenha prevalecido a concepção do fonema como “um conceito linguístico e não psicológico” (Mori, p. 152). Para “brincar” um pouco com a teoria de Sapir, vejam o filme “A Chegada”. Alguns linguistas gostaram, outros nem tanto... mas ao menos houve um toque de ciência linguística na produção cinematográfica.



Imagem do Filme 'A Chegada' - Divulgação 

Vários pontos interessantes no capítulo Fonologia. Faço questão de ressaltar um deles: no início, o fonema foi visto como “menor unidade linguística” (antes da sílaba, da palavra, da frase, do texto...). “No entanto, há uma série de evidências mostrando que são determinadas propriedades dos sons e não os fonemas que seriam os primitivos da Fonologia” (Mori, p. 140). Ou seja, como a física descobrindo que há partículas menores do que prótons e elétrons, mostrando que a ciência precisa estar sempre abertas a novas descobertas.

Há uma expressão, famosa em Economia, segundo a qual um evento inesperado é um “Cisne Negro” (porque houve um tempo em que somente cisnes brancos eram conhecidos, até que alguém visse o primeiro negro). Um exercício de lógica: é preciso ter cuidado para não associar a frase “até hoje eu só vi cisnes brancos” à ideia “só existem cisnes brancos”. Enfim, dizem que Covid-19 é o maior Cisne Negro da História Contemporânea, embora alguns cientistas já alertassem para uma pandemia mundial de grande impacto.

Por fim, um exercício de humildade na conclusão da autora: “apresentamos uma breve introdução aos conceitos considerados básicos pela teoria fonológica”, “abrindo a porta para posteriores estudos” (Mori, p. 177). Mesmo com tantos conceitos apresentados no capítulo, ainda não estamos habilitados a fazer a transcrição de uma língua indígena desconhecida, sem grafia catalogada. Mas... temos bons elementos para compreender que a complexidade da linguagem vai muito além de regras de etiqueta normativa, que envolvem lutas de poder (refletidas no preconceito linguístico) e afetam todos os processos de comunicação.

Fica aqui o convite para pensarmos o quanto a reflexão sobre os caminhos históricos da linguagem, representados em parte por sua Fonética e Fonologia, podem ser de grande valia nas mais variadas profissões. Gladis e Luiz Carlos Cagliari citam a Medicina, a Fonoaudiologia, Engenharia de Comunicação, Ciência da Computação, Artes Cênicas e Cinematográficas.

Pensemos no Jornalismo e nas Relações Públicas: profissões que vão conversar com todas as outras, divulgar as especificidades das mais diversas situações e instituições, enfrentando a difícil tarefa de abordar temas densos e repletos de particularidades para um público mais abrangente.

Embora eu saiba que, muitas vezes, seja difícil argumentar com quem já tem uma posição diferente, devido ao que Maingueneau denomina conceitualmente de ‘interincompreensão’ (spoiler de Análise do Discurso), isso não deve servir de desculpa para não tentar. Antes de tudo, há a busca de domínio do tema. Há os desafios, esses sim levam ao aprendizado. Eu mesma, aqui, sou uma analista de discurso fazendo o exercício de abordar outros tópicos da Linguística, como a Fonética e a Fonologia, de um modo que se tornem mais acessíveis. Quantos caminhos podemos trilhar! As relações, somos nós que continuaremos a construir. 

Érika de Moraes - professora, jornalista e doutora em Linguística



O texto citado, de Angel Corbera Mori, encontra-se no livro "Introdução à Linguística: domínios e fronteiras" - Vol 1, organizado por Fernanda Mussalim e Anna Christina Bentes. Editora Cortez, 2003.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

DIA DO TRABALHO


Em meus primeiros anos escolares, ‘últimos’ anos de ditadura, os livros repetiam como papagaios: “o trabalho dignifica o homem”. À época, nem havia abertura para questionar o quão patriarcal este termo HOMEM.

Logo, descobri que o trabalho não só dignifica, mas também oprime.

Felizmente, encontrando dentro de mim a posição do EQUILÍBRIO (onde me encontro numa sensação de solitude, num mundo polarizado), consegui reconciliar as coisas: o trabalho pode, sim, DIGNIFICAR, quando ele possibilita um ponto comum entre servir dignamente a coletividade e, a um só tempo, contemplar nossa própria subjetividade.

Nem sempre (e não para todos) o espaço de subjetividade é possível. Eu mesma (privilegiada por ter podido estudar) luto por ele todos os dias. Não é fácil encontrar o lugar da subjetividade, sem abrir mão da empatia e da sensibilidade com o outro. Pender para qualquer um dos lados é uma linha tênue.

O trabalho ‘pode’ dignificar. O trabalho ‘pode’ oprimir. Pode, não necessariamente promove uma das coisas. O trabalho pode até enriquecer, mas isso não é de ‘bom tom’ dizer. Não entendo por quê: não vejo o que pode ser mais digno do que a ascensão social e financeira por meio do trabalho (e não da sorte, da corrupção, do embuste ou da canalhice). Mas não é de bom tom dizer: o trabalhador ‘deve’ ser humilde, está escrito em alguma tábua que algum opressor inventou. É tão fácil jogar o oprimido, sem emprego, contra o trabalhador (assim, escondem-se os reais privilégios). [Trato um pouco disso em meu artigo crítico destinado ao ethos de Nathalia Arcuri: muitos problemas em sua formação discursiva, mas também méritos.]

Apenas esperaria a construção de um mundo mais EQUILIBRADO. Não vejo o que poderia ser mais socialmente sensível (valor ‘tipicamente’ da esquerda) e meritocrático (valor ‘tipicamente’ da direita) do que a oportunidade de trabalho e ascensão por meio dele.

Defender EQUILÍBRIO nos dias de hoje é ser apedrejado, e não tenho menor vocação pra Geni, portanto, deveria calar-me. É justamente isso que oprime: ter que calar para ser ‘aceito’.

O trabalho ‘pode’ dignificar. ‘Pode’ também oprimir. ‘Pode’ até enriquecer (não num sentido totalizante e monopolizador, mas promovendo segurança e qualidade de vida). Mas só há grupo de pertencimento para quem acredita em UMA das coisas.

São tempos tão difíceis e de ressignificação, que as questões aqui postas podem até parecer banais. Só não nos enganemos. A experiência atropelada do trabalho remoto JÁ IMPACTOU O FUTURO, para o bem e para o mal, porém a SENSIBILIDADE HUMANA vai continuar sendo essencial. E precisaremos ter muito tato (pensei em dizer força, luta ou bom-senso, mas achei que tato contemplaria melhor o equilíbrio de que falo, sempre considerando que palavras não são precisas) para fazer parte da ressignificação (sobreviver a ela?).

Que o trabalho dignifique, oprima menos (pareceu-me irrealista escrever ‘não oprima’), promova segurança. Proporcione o bem à coletividade e permita algum espaço às subjetividades.

Tenho ouvido muito que (apesar dos pesares) a humanidade está em comunhão por uma solução comum à crise Covid. Eu me pergunto se serão esquecidos os membros da equipe científica que criarem a vacina ou, ainda, aqueles que trabalharem por ela (deveríamos medir o mérito pelos esforços, não apenas pelos resultados). Eu me pergunto se terão uma aposentadoria digna.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

TEXTO-ORAÇÃO PARA A SEXTA-FEIRA SANTA DE 2020


(da minha cabeça e coração)

Pai Nosso, eis que precisamos reaprender a rezar.

Se o Pai é “Nosso”, não posso apenas pedir por minha família e amigos. Peço por toda a humanidade, por todas as nacionalidades, e me deparo com o paradoxo: alguns sofrerão mais, sendo matematicamente impossível aliviar a todos na mesma medida. Diante desse conflito, quais as palavras certas para rezar sem egoísmo, na minha pequenez humana, preocupada com família e amigos? Como rezar direito, sabendo que alguns serão Cordeiro de Deus?

Que possamos aprender com a dor do outro, mas que não sejamos tão indiferentes ao sofrimento alheio. Que humildemente reconheçamos nossos limites, sabendo que somos o Outro do outro.

Não sei exatamente como é Deus, mas mantenho a confiança no Bem. Sempre muito inspirada por minha mãe nesta Terra, mantenho confiança em Maria, nossa mãe no Céu.

Mantenho confiança nos médicos, profissionais de saúde e pesquisadores, inspirados pela Luz do Bem. Tomemos as vacinas disponíveis, em conjunto com as orações. Deus é tão bom que inspira a Ciência. As da saúde e as demais ciências, iluminação do ser humano.

Seja feita a Vossa Vontade, a vontade do Bem, em nossa Terra. E, se humildemente puder ouvir a nossa vontade, que nos ajude a atravessar, com o alívio possível. Não é de Deus (do Bem) que vem o mal, então, “brotai em nós um coração que seja puro”.

O Pão Nosso de cada dia nos dai hoje. Como lembrou um especialista em Economia (!), o pão é “nosso” e não “meu”. Lembremo-nos disso, sem deixar de reconhecer as idiossincrasias - minha avozinha dizia que “filhos eram como os dedos das mãos”.

Perdoai as nossas ofensas e nos ensinai a perdoar a quem nos tenha ofendido, porque esta arte do perdão é das mais difíceis. Não ouso dizer “assim como perdoamos”, seria mais correto “como tentamos perdoar”.

Mas livrai-nos do mal. Amém.

E intercedei por nós, Mãe Maria, que é cheia de Graça, bendita entre as mulheres, força feminina neste mundo tão masculino que até criou um sexo para Deus. Bendito é o fruto do vosso ventre, abençoai todos os Filhos e Filhas e todos os ventres. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores. Intercedei para que a hora da morte tenha seu tempo e permita seus ritos. Cuidai de nós, Humanidade, na Vida e na Morte. Permitindo a licença poética na Ave Maria, ajudai a preservar as vidas de quem tanto ama a Vida e a reconhece como Dom para o bem. Amém.

Não sei rezar, faço alguns versos. Faço alguns versos, como quem reza.

Érika de Moraes

quinta-feira, 19 de março de 2020

A Aula de Barthes

Saudade de estar em sala de aula com meus alunos. Tempos de quarentena.

Nesse momento em que não é possível, pensei em palavras de grandes autores que eu pudesse compartilhar - com meus estudantes e com a vida. Lembrei-me desta famosa “Aula” de Roland Barthes, mais um clássico para os estudos de linguagem.

No último texto, apontei que Saussure já previa a “luta de sentidos” como inerente à linguagem. Barthes, aqui, fala em “Vozes ‘autorizadas’, que se autorizam a fazer ouvir o discurso de todo poder: o discurso da arrogância” (p. 11).

Um texto belíssimo, uma lição de humildade e uma astúcia: já que a língua tem esse ‘defeito’ (de não ser precisa, de provocar sentidos múltiplos, de despertar lutas de sentidos), para Barthes, o que podemos fazer, é “jogar” com ela: “porque é no interior da língua que a língua deve ser combatida, desviada: não pela mensagem de que ela é o instrumento, mas pelo jogo das palavras de que ela é o teatro” (p. 17).

Para mim, o que há de mais bonito neste texto é a consciência de que meu desafio, como professora, é ensinar “o que não sei”. Ensiná-los a “aprender a aprender”, a pesquisar. Deixarei, ao final, as palavras de Barthes.

Recomendo fortemente a leitura de Barthes.

Uma questão para reflexão: Como agem as vozes que se colocam como “autorizadas” para o discurso da verdade? Qual o papel da dúvida para a Ciência? E para a Comunicação institucional, para fazermos um link com as Relações Públicas: uma empresa/instituição deve impor sua verdade ou mostrar-se, humildemente, portadora de uma das vozes possíveis? Como preparar a sociedade para valorizar as perguntas, hipóteses que levam a posições fundamentadas? (são reflexões, não questões que necessitem de respostas ponto a ponto).


“Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de desaprender, de deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos. Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível.”
(Roland Barthes, “A Aula” de 1977).


terça-feira, 17 de março de 2020

Saussure e lutas de sentidos

Dialogando com meus alunos...


Dando continuidade ao estudo de Saussure (“Curso de Linguística Geral”), vamos refletir sobre a “luta de sentidos” que atravessa a constituição da linguagem. (vejam p. 21 do texto em discussão)

No entendimento de Saussure, o “ato individual” é embrião da linguagem e, além dele, está o “fato social” onde haveria “uma espécie de meio-termo”: os mesmos signos unidos aos mesmos conceitos. Nisso, dá-se uma “cristalização social” – sobre a qual diz Saussure: “Pois é bem provável que todos não tomem parte do mesmo modo”.

Disso, podemos pensar que há uma RELAÇÃO DE FORÇAS no estabelecimento de sentidos que ganharão o status de “oficial” na sociedade. (Esse tema será sofisticado nas teorias discursivas posteriores a Saussure).

Pensando na divisão proposta por Saussure “Língua/Fala” (Langue/Parole), a língua seria como um “tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade”. MAS HÁ LUTA DE FORÇAS NO ESTABELECIMENTO DE SENTIDOS!

Podemos pensar nesses conceitos em torno da própria crise do coronavírus que vivenciamos na atualidade – e sem dúvidas marcará a história deste século. Qual sentido tem a pandemia na sociedade? Quais impactos são ressaltados por diferentes setores da sociedade?

Poderíamos, ainda, pensar na luta de sentidos atribuídos ao termo “Educação”. O que é educar? Formação humanística? Treinamento para mercado de trabalho? Capacitação? (vejam, por exemplo, publicidade de escolas, cursos EaD, treinamentos etc.)

PROPONHO que reflitam sobre essas questões e escrevam um pequeno comentário ou resenha. Guardem no caderno para futuros debates e acréscimos. 

Alternativamente, deixo a proposta aqui no blog LIQUIMIX, onde vocês podem me deixar um comentário sobre o tema. É uma alternativa para interagirmos nesse momento de trabalho remoto. (Este é um canal informal - a participação é voluntária e não obrigatória. Mas quem sabe possa ser um lugar criativo de encontro... )

Ainda sobre esta página específica de Saussure a que me refiro, gostaria de fazer um alerta sobre o parágrafo:

“A parte psíquica não entra tampouco em jogo (...) é sempre individual e dela o indivíduo é sempre senhor”.

Esta concepção do indivíduo como “senhor de sua fala” será revogada pelas teorias posteriores. A teoria do discurso reconhecerá a influência de posições ideológicas e inconscientes. É importante entender que essa ruptura com Saussure é respeitosa: compreende-se que foi preciso o impulso inicial de Saussure para firmar a teoria linguística. Passo extremamente importante para o avanço da Linguística.

Boas leituras! Bom trabalho!

Profa. Érika 


terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Sapiens - um livro para ser lido e estudado


Uma narrativa instigante sobre nosso passado e uma reflexão perturbadora sobre nosso presente e futuro. Leitura poderosa - ao menos para duvidarmos da "verdade irrefutável" de uma doutrina, qualquer uma delas.

Muito cuidado ao ler trechos isolados do livro e citar apenas as partes que interessam. Vale encarar suas 550 páginas e prestar atenção em suas próprias "ordens imaginadas".

Uma das leituras experienciadas em 2019.

Érika

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Hibisco Roxo e a magia da leitura



Silenciosa. Assim é a doce Kambili, nigeriana de 15 anos. O silêncio de quem não quer incomodar a imperfeição do mundo ou, em outras palavras, não quer perturbar o mundo com suas feridas e sussurros interiores. Kambili é de família rica (como assim, rico tem sofrimento?). Seu pai é benfeitor querido do povo, reconhecido omelora, Aquele que Faz pela Comunidade. Enquanto Papa fazia pela comunidade, o avô, pai do Papa, andava desnutrido e de shorts puídos, já que não merecia benfeitoria por ser “pagão”. Pagão ou tradicionalista, porque tudo sempre tem ao menos dois lados e diversos matizes e, para tristeza de Deus, crença cega sempre trouxe desavença. O Papa também batia na Mama – espancava, na verdade, cenas que a narradora descreve de modo tão sutil que eu, leitora, quase chego a pensar que minha interpretação está equivocada, que estou imaginando demais. Será possível? De onde minha mente levanta essa cruel hipótese?
(Pausa para reflexão. Havia lido uma reportagem em revista brasileira sobre mulheres nigerianas que vinham ao Brasil para tratamento de fertilização, mesmo já tendo filhos, porque não aumentar a prole significaria ser expulsa da casa rumo à ardência do inferno. Essas e outras notícias trazem um pouco de contexto sobre a sociedade narrada no livro, sua topografia.)
As colegas de escola de Kambili acham que ela seja metida, pois quase não fala com ninguém. Silenciosa. Se atrasar para chegar ao carro ou não for a primeira da turma [sempre achei chato e mal colocado esse negócio de “primeiro da turma”, é muito melhor estar num grupo de estímulos recíprocos do que perder-se em vã competição de ilusórios reis na barriga, mas deixemos esta elucubração para outro momento], as consequências são... vejam no livro. Por trás, ou nos entremeios dos não ditos de Kambili, há um turbilhão de palavras e sentimentos, há construções e reelaborações de sentidos, há sonho e vigília. Poderia falar muito sobre a sutileza com que Chimamanda tece o romance, poderia falar do primeiro amor platônico, delicado e inocente em sua possibilidade impossível. E gostaria ainda de traçar comentários sobre cada uma das personagens, a Mama, o irmão Jaja, a Tia Ifeoma, professora universitária cujo olhar nos ajuda a contrabalancear os pontos de vista.  

“Você baixa a voz quando fala. Você sussurra.”
(Amaka à Kambili)

A função primordial da vida

Deixando as descobertas de enredo para o(a) leitor(a) – garanto que você vai adorar! – falarei um pouco mais sobre a narradora. Narrar é assumir um ponto de vista. María Teresa Andruetto, escritora argentina, diz: “escrever é um modo de olhar muito intenso”. Da escrita, desponta um narrador, o olho na cena, a quem compete dar alma e vida à ficção. “O olho de quem narra se detém no particular, porque a ficção é o reino do detalhe”. E assim é que a ficção é a mais pura vida, pois literatura é “o lugar do que é, não o do que deveria ser”. Por que ler literatura em vez de um livro sobre a História e a Cultura da África, se quero entender outras mentes? A razão é justamente percorrer outras mentes, coisa que só é possível via arte da palavra, elaboração do signo, dança do significado no significante. Às vezes eu me pergunto até que ponto teorizar não faria perder o bonde da sensibilidade, é quando a literatura resgata.
Literatura não tem uma função simples de ser traduzida porque tem a função mais primordial da vida: “é a invenção de histórias o que nos permite abstrair-nos do mundo para dar-lhe um sentido”, ainda citando Andruetto. (E a cabeça já vai amarrando com Freud, Lacan, Jung e, mais recentemente, Hillman...)
Ler é tão importante quanto respirar. É tão triste ver quanta gente sobrevive amarrada a um balão de falso oxigênio de vida, acreditando no utilitarismo stricto sensu.
Não à toa, pesquisas demonstram que a Literatura está diretamente relacionada à empatia. É mágico: eu não preciso ter a mesma cor da pele de Kambili para me sentir tão ligada a ela nessa convivência de 320 páginas. É como uma amiga que passou um tempo importante em minha vida, mas ambas seguiremos em frente por caminhos distintos, eternamente modificadas pelo Encontro, sem jamais esquecer uma da outra.
Estou absolutamente convencida de que a união por meio da Literatura construiria um mundo melhor. Se ela traz empatia, o leitor ou leitora há de concordar que isso está bem em falta no mundo. [O que eu mais temo é a voz de uma confissão: “está mesmo faltando empatia, e isso é bom, certíssimo, cada um que se vire mesmo, os mais fortes sobreviverão”.] Mas...
E se alguém ainda desejar um mundo mais empático? E se esse alguém for você, e começar tendo empatia pelo que aqui escrevo?

“Queria dizer às meninas que meu cabelo era de verdade, que eu não usava extensões, mas as palavras não saíam. (...) Queria conversar com elas, rir com elas, rir tanto até começar a pular no mesmo lugar como elas faziam, mas meus lábios insistiram em permanecer fechados. Como eu não quis gaguejar, comecei a tossir e corri para o banheiro.” (Chimamanda dando voz à Kambili)

UM DESAFIO DE LEITURA – para quem tiver muque
Em trabalho de sala de aula, alunas minhas apresentaram dados de uma pesquisa que dizia que a média de leitura do brasileiro era muito pequena, dois vírgula um pouquinho de livro por ano. Minha primeira reação: nossa, quanta gente lendo nada, já que os que leem uns 20 por ano estão puxando a média para cima...
Percebemos que, mesmo entre os universitários, o índice geral de leitura é baixo, excetuando os textos teóricos obrigatórios – muitas vezes, lidos parcialmente e de modo fragmentado. Eu também leio menos ficção e obras diversas do que gostaria, diante da necessidade de muita leitura acadêmica. Fora o fator tempo, os olhos não são de ferro. Mas... Desde o início deste ano, me propus um desafio: ler ao menos 10 páginas por dia de algo “não obrigatório”. Preferencialmente, literatura como a de Chimamanda, mas também valem aqueles das listas de mais vendidos, afinal, é preciso conhecer para tomar posição.
10 páginas por dia representam um livro de 300 páginas por mês. Representam uma média de no mínimo 12 livros por ano. E, se me pergunta, sim, caso não possa ler 10 páginas em um dos dias, pode compensar com 20 no outro. Nessa brincadeira, eu li 23 livros de janeiro a julho. Linguística não conta (no meu caso, por ser obrigação profissional). O prêmio é a leitura em si.
Claro que seria bacana resenhar cada um dos livros (aliás, a escrita é relevante para a autoelaboração da leitura), mas viver é priorizar. Ficam as anotações em post-its. Les brouillons.

Se quiser experimentar as 10 páginas por dia, garanto que será uma experiência transformadora para muito melhor. 

PS: Faz tempo que queria registrar essa resenha. Por sincronicidade, publico hoje, dia do Escritor. 

Referências
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Hibisco Roxo. Tradução Julia Romeu. 12 reimpr. SP: Companhia das Letras. [2003] 2019.
ANDRUETTO, María Teresa. Por uma literatura sem adjetivos. 4 reimp. Tradução de Carmem Cacciarro. SP: Pulo do Gato. [2009] 2017.