terça-feira, 12 de maio de 2020

Linkando as coisas: Fonética, Fonologia, Sociolinguística, Comunicação...


Talvez os capítulos de Fonética e Fonologia sejam dos mais desafiadores, mesmo para estudantes de Letras e Linguística.

Quem se depara pela primeira vez com símbolos fonéticos pode sentir um ‘travamento’ do tipo ‘isso parece matemática’ (Obs. Eu, particularmente, gostava da matemática, mesmo escolhendo Humanas, mas deixemos isso para outra conversa. Latim é puro raciocínio. Que bacana seria se o ensino tivesse mantido noções de latim, como minha mãe teve, mesmo tendo conseguido estudar apenas até o fundamental).

Vencida essa primeira barreira, um conhecimento, mesmo que básico, de leitura fonética pode trazer várias contribuições, entre as quais: habilidade em consultas em dicionários sobre pronúncia de palavras; conhecimento histórico sobre as línguas etc. Além desses benefícios práticos, há uma questão mais fundamentadora e relevante:

Conhecer a profundidade e complexidade das diversas vertentes da Linguística é um caminho preciso para se combater o preconceito linguístico. Não meramente por empatia ou por respeitar a falta de acesso do outro a uma cultura letrada (e esses já seriam bons motivos), mas por compreender que, mesmo variações que ‘parecem erradas’ têm razões científicas que as justificam, ainda que ‘não gostemos’ (E por que não gostaríamos? Porque, de certa forma, parecem não representar a ‘nossa’ classe social, o ‘nosso’ tempo histórico, os limites de nossos muros, enfim... Mas procura-se uma razão supostamente linguística: “é feio”. A língua, em si, dificilmente é feia ou bonita. Ela é o que é. Mas é sentida diferentemente em nossos ouvidos, esses sim culturalmente moldados).

Um exemplo, bastante citado pelo Bagno, é a influência da vogal “i” no fonema correspondente à letra “t”, dental como em “tatu”, que se transforma no som fricativo alveolar, como em titia. Responsável por isso é a presença da vogal alta [i] posterior. Na palavra “oito”, também há uma vogal alta [i], só que anterior à letra “t”, o que leva, intuitivamente, falantes de algumas regiões a pronunciarem algo como “otcho”. Não há razão científica para considerar que seja uma pronúncia “menos justificável”, apenas não é convencionada como a pronúncia padrão da língua portuguesa ‘oficial’. (ver p. 153 do texto de Angel Corbera Mori)

E quando a ‘Creusa’ pronuncia ‘crasse’ em vez de ‘classe’ está intuitivamente fazendo o que as línguas já fizeram em processos históricos que transformaram palavras do Latim como “Sclavu” em “escravo”. Aliás, também preenchemos essa ‘vogal ausente’ do “S Mudo”, porque nosso aparelho vocal busca um conforto maior do que aquele permitido pela pronúncia de uma consoante sozinha. Processos históricos, muitos deles pautados na “lei do menor esforço”, traçaram o caminho de Vossa Mercê a Você, passando por Vosmecê. Apenas processos históricos, embora teimosos que somos (arrogantes, talvez) acreditemos que a forma melhor é a do nosso tempo.

Se quiséssemos fazer uma comparação entre mundo real e oficial, poderíamos, talvez, pensar nos índices de inflação. Atualmente, há uma inflação baixa, medida por gráficos e tabelas. Há outra, expressa no preço do feijão das prateleiras. Você pode ‘querer’ acreditar no gráfico oficial impresso no jornal, mas ele não vai pagar o seu feijão. É a vida real, dura e sem muros.

Se não somos foneticistas ou fonólogos, não precisamos necessariamente saber de cor os nomes de todos os fonemas, de acordo com seus pontos de articulação. Entender a ‘atuação’ deles pode ser de grande valia em situações específicas, como diferenciar um caso grave de dislexia de uma ‘simples’ troca de fonemas equivalentes como p/b; f/v. Bem, não tão ‘simples’ assim, mas algo que se pode identificar, facilitando o aprendizado de uma língua materna ou estrangeira.

Ah, as cartilhas... todas elas baseadas nos métodos silábicos que, convenhamos, funcionam em boa medida. Até que aparecem as diferentes formas de representar, na escrita gráfica, o fonema [z], por exemplo. Pode ser com a letra z, s, x... Embora existam gramáticos que tentem traçar alguma lógica, a forma mais produtiva de apreensão é o contato direto com a escrita e a leitura. E, quando necessário, uma boa consulta aos dicionários.

Apesar das aparentes dificuldades, mesmo uma criança consegue entender algumas noções básicas de fonética (não precisam decorar nomes, por favor). Gosto de dar o exemplo, por ser didático, sobre o porquê de “m vir antes de p e b”. São os três sons bilabiais de nossa língua, enquanto o “n” (alveolar ou linguodental) “dá a mãozinha para as outras letras”. Claro que desconfiei que essa história de o “m” dar a mãozinha só para duas outras letrinhas era um conto de fadas (em termos técnicos, uma explicação aleatória), mas, vejam que bacana, há uma explicação científica que até mesmo uma criança em fase de alfabetização pode compreender: “Veja, Enzo, como mexemos os lábios ao falar esses sons” (como os dois novos sobrinhos estão para chegar, o exemplo fica em homenagem ao meu primogênito). As crianças são mais inteligentes do que pensamos, acreditem! (Outra digressão: meu trabalho de mestrado foi um estudo sobre jornalismo voltado para crianças).

Falando em crianças, também gosto de ressaltar o quanto são inteligentes quando dizem “eu fazi”. Fazem um raciocínio lógico por conta própria: eu parto, eu parti... eu como, eu comi... eu corro, eu corri... eu faço, eu fazi... Ensinamos, então, a exceção: eu fiz. Basta ensinar com carinho e fica tudo bem. Spoiler do tópico Sintaxe: “eu fazi” é um exemplo genuíno de gramática espontânea da língua.
Quem nos dera, desde a infância, tivéssemos contato ao menos com a fonética de todas as línguas. Assim, não teríamos dificuldade de pronunciar sons que nos são estranhos, que, depois de adultos, já não entendemos mais como “moldar” a sua articulação. Americano sofre com nossos sons nasais. E nós sofremos com muitos outros. Professores de língua estrangeira, por sua vez, buscam estratégias para que falantes aprendam sons que não existem em sua própria língua materna, como o “i com boca de u” da palavra “menu”, em francês.

Há também algumas ideias da psicofonética em jogo (teoria de Sapir), embora tenha prevalecido a concepção do fonema como “um conceito linguístico e não psicológico” (Mori, p. 152). Para “brincar” um pouco com a teoria de Sapir, vejam o filme “A Chegada”. Alguns linguistas gostaram, outros nem tanto... mas ao menos houve um toque de ciência linguística na produção cinematográfica.



Imagem do Filme 'A Chegada' - Divulgação 

Vários pontos interessantes no capítulo Fonologia. Faço questão de ressaltar um deles: no início, o fonema foi visto como “menor unidade linguística” (antes da sílaba, da palavra, da frase, do texto...). “No entanto, há uma série de evidências mostrando que são determinadas propriedades dos sons e não os fonemas que seriam os primitivos da Fonologia” (Mori, p. 140). Ou seja, como a física descobrindo que há partículas menores do que prótons e elétrons, mostrando que a ciência precisa estar sempre abertas a novas descobertas.

Há uma expressão, famosa em Economia, segundo a qual um evento inesperado é um “Cisne Negro” (porque houve um tempo em que somente cisnes brancos eram conhecidos, até que alguém visse o primeiro negro). Um exercício de lógica: é preciso ter cuidado para não associar a frase “até hoje eu só vi cisnes brancos” à ideia “só existem cisnes brancos”. Enfim, dizem que Covid-19 é o maior Cisne Negro da História Contemporânea, embora alguns cientistas já alertassem para uma pandemia mundial de grande impacto.

Por fim, um exercício de humildade na conclusão da autora: “apresentamos uma breve introdução aos conceitos considerados básicos pela teoria fonológica”, “abrindo a porta para posteriores estudos” (Mori, p. 177). Mesmo com tantos conceitos apresentados no capítulo, ainda não estamos habilitados a fazer a transcrição de uma língua indígena desconhecida, sem grafia catalogada. Mas... temos bons elementos para compreender que a complexidade da linguagem vai muito além de regras de etiqueta normativa, que envolvem lutas de poder (refletidas no preconceito linguístico) e afetam todos os processos de comunicação.

Fica aqui o convite para pensarmos o quanto a reflexão sobre os caminhos históricos da linguagem, representados em parte por sua Fonética e Fonologia, podem ser de grande valia nas mais variadas profissões. Gladis e Luiz Carlos Cagliari citam a Medicina, a Fonoaudiologia, Engenharia de Comunicação, Ciência da Computação, Artes Cênicas e Cinematográficas.

Pensemos no Jornalismo e nas Relações Públicas: profissões que vão conversar com todas as outras, divulgar as especificidades das mais diversas situações e instituições, enfrentando a difícil tarefa de abordar temas densos e repletos de particularidades para um público mais abrangente.

Embora eu saiba que, muitas vezes, seja difícil argumentar com quem já tem uma posição diferente, devido ao que Maingueneau denomina conceitualmente de ‘interincompreensão’ (spoiler de Análise do Discurso), isso não deve servir de desculpa para não tentar. Antes de tudo, há a busca de domínio do tema. Há os desafios, esses sim levam ao aprendizado. Eu mesma, aqui, sou uma analista de discurso fazendo o exercício de abordar outros tópicos da Linguística, como a Fonética e a Fonologia, de um modo que se tornem mais acessíveis. Quantos caminhos podemos trilhar! As relações, somos nós que continuaremos a construir. 

Érika de Moraes - professora, jornalista e doutora em Linguística



O texto citado, de Angel Corbera Mori, encontra-se no livro "Introdução à Linguística: domínios e fronteiras" - Vol 1, organizado por Fernanda Mussalim e Anna Christina Bentes. Editora Cortez, 2003.

Nenhum comentário:

Postar um comentário