domingo, 11 de novembro de 2012

Enem; Linguagem; O Globo; equívocos, equívocos...


Faz algum tempo que não escrevo sobre linguagem aqui no blog. Afinal, viver não é só falar de trabalho. Quem quiser apreciar, fique à vontade para espiar meus textos do marcador VIAGEM – é por isso que este blog é um mix.


Como linguista, porém, senti-me invocada a falar sobre uma das reportagens que saíram a respeito de questões sobre linguagem do Enem 2012. Não vou discutir aqui a qualidade das questões, pois isso demandaria uma longa análise. Vou me ater à reportagem publicada no jornal O Globo, que pode ser conferida neste LINK, para discutir uma espécie de "incompreensão constitutiva" no diálogo entre jornalistas e linguistas.

Antes de qualquer comentário, quero dizer que, para discutir esse assunto de maneira um pouco mais eficiente, é necessário que todas as partes cedam um pouco.

Não considero produtivo desmoralizar o jornalismo. Com todas as suas imensas falhas, das quais Escola Base é um dos mais famosos exemplos, ele ainda cumpre um papel de popularização, denúncia etc. Com muitos e muitos defeitos, com muito abuso de poder, diga-se.

Quando escolhi estudar jornalismo, entre outros motivos, foi por acreditar que ele era melhor do que a ditadura sem imprensa “livre” (muitas aspas; quanto mais estudei, mais percebi a quantidade de aspas. Liberdade era o meu sonho de adolescência.). Podemos acreditar, quem sabe, que estejamos em uma fase de “aprendizado de democracia”, de uma democracia brasileira que (re)começou elegendo o Collor. Nossa democracia, no máximo, é uma adolescente.

Se, por um lado, jornalistas pensam que sabem mais do que sabem, por outro, cientistas também podem ser irredutíveis.

Tenho uma colega que é excelente assessora de imprensa (qualquer um que tenha precisado de contato com a assessoria do Centrinho, de Bauru, pode corroborar o que digo) e um dos exemplos que ela cita é que os profissionais de saúde têm muita resistência a chamar o palato de céu da boca; então, ela explica que isso não compromete o sentido e vai ajudar a popularizar o conhecimento.

Fico me perguntando se há uma forma de popularizar o conhecimento teórico sobre linguagem. Se nós, linguistas, não estamos deixando de ceder, deixando de chamar o palato de céu da boca e contribuindo para sermos compreendidos apenas por nós mesmos.

Colunistas como Sírio Possenti fazem um ótimo trabalho. Com alcance bem menor, também já publiquei artigos aqui no marcador LINGUAGEM e em jornal local. Em alguns momentos, também, existem encontros felizes entre jornalistas e fontes, havendo boa vontade de ambos os lados.

Compreendo que é muito difícil falar na condição de fonte jornalística, pois o resultado pode sair muito diferente daquilo que queríamos dizer. Mas, se fonte e jornalista dialogarem minimamente (sem que a intenção seja meramente corroborar uma tese prévia), o resultado pode ser satisfatório. É o que penso sobre uma entrevista que a jornalista Rose Araújo fez comigo para a revista Na Mochila (publiquei AQUI). Pode ser que algum linguista leia e me diga: “Érika, você simplificou o assunto!”. Pode até ser que pequei em algo, mas sinto que fiz a minha parte em popularizar conhecimento, no caso, com a interferência de uma boa jornalista. A pauta inicial era sobre vícios de linguagem. Com diálogo, o assunto aprofundou-se.

Ninguém pense que é fácil buscar o equilíbrio. Nesse momento, sou obrigada a fazer uma não-defesa dos jornalistas (e eu sou jornalista por formação e atuação) e também uma não-defesa de como a Linguística chega até a imprensa, muitas vezes, por culpa nossa, linguistas (e sou linguista por formação e atuação).

Simplificação tem limites

Eis um trecho da matéria de O Globo:

“Num enunciado, o texto de referência foi redigido com marcas orais características da análise do discurso, conteúdo específico de cursos de Letras e Comunicação”.

Meu primeiro impulso foi dizer SOCORRO! Tentarei me explicar. O trecho associa (reduz) “marcas orais de linguagem” a um “conteúdo específico, a Análise do Discurso”. A área da Linguística que estuda “marcas orais” ou linguagem coloquial é a Sociolinguística. A Análise do Discurso – ou deveria dizer “as”, pois são várias linhas e diversas abordagens – se ocupa de complexidades de outra ordem, que vou evitar reduzir neste texto a um “ou seja”. Indico aos leitores o capítulo de Fernanda Mussalim sobre Análise do Discurso, no livro “Introdução à Linguística – Domínios e Fronteiras”, Vol. 2, da Cortez Editora. Pode-se, ainda, recorrer a Dominique Maingueneau, Sírio Possenti, Eni Orlandi, aos clássicos de Pêcheux e Foucault. Se o jornalista tivesse escrito “Sociolinguística” em vez de “Análise do Discurso”, ficaria um pouco mais coerente, ainda assim bem redutor, algo equivalente a: “A medicina, que é o estudo dos remédios”.

Não sei se é culpa da incompreensão entre jornalista e fonte, mas, na fala entre aspas de uma entrevistada, professora mestre pela Sorbonne, está assim: 

“Há um desequilíbrio e um foco exagerado na linguagem coloquial. (...) Do ponto de vista gramatical, nada é pedido praticamente.”

Como professora (Doutora pela Unicamp), devo esclarecer que gramática não se opõe à linguagem coloquial. A linguagem coloquial tem a sua gramática própria, que é diferente da gramática escrita normativa. Poderia ser dito que o Enem deixou de cobrar exercícios de gramática normativa, tradicional, mas não que “nada praticamente é pedido do ponto de vista gramatical”. Por definição conceitual, se estamos no campo da linguagem, necessariamente estamos no campo da gramática, entendida em sentido amplo, não como sinônimo de “norma padrão”.

Acredito que os leitores não especializados sejam suficientemente inteligentes para entender que há uma diferença entre “gramática intuitiva da língua” e “gramática normativa”, desde que nós, especialistas, nos esforcemos um pouco para explicar a trivial distinção entre Língua e Norma.

Sobre a polêmica de um livro recomendado pelo MEC resgatada nesta matéria de O Globo, já escrevi AQUI.

Sobre a pergunta de outro professor entrevistado pela matéria: “as universidades querem alunos que tenham capacidade para ler e escrever textos acadêmicos e científicos ou querem alunos que saibam reconhecer variedades linguísticas?”, responderia que não há incompatibilidade entre esses dois quereres. E ponderaria que a escola (e o Enem etc.) deveria(m) enfatizar cuidadosamente a ambos. Não é raro, infelizmente, que a balança penda desequilibradamente para um dos lados. Atualmente, a realidade das Universidades, de modo geral, é que os alunos têm muita dificuldade de redação. E, de modo geral, as aulas de Língua Portuguesa do ensino fundamental e médio priorizaram os exercícios de gramática normativa, de forma isolada ao treino de redação.


Respeito Bagno, discordo do tom

Por outro lado, a postura de Marcos Bagno (que muito admiro e estimulo meus alunos a lerem – até obrigo, por razões do ofício) também não contribuiu (pelo menos nesse caso) para o esclarecimento dos fatos junto ao grande público. 

Entendo que é dificílimo falar com jornalistas. Que a maioria dos profissionais de comunicação não deve ter lido os livros Preconceito Linguístico, A Língua de Eulália, A Norma Oculta etc. Que, se leram, podem ter lido apenas trechos, como fizeram com o “Por um mundo melhor”. Que leram e entenderam que “Bagno defende o português errado”. Enfim, Bagno já deve ter esgotado sua paciência com boas razões. Já li críticas destrutivas, arrogantes, ofensivas e infundadas sobre o trabalho deste autor. Ainda assim, acredito que devamos tentar ser ouvidos, tentar explicar (de novo), e não reagir com acusação pessoal ao jornalista, mesmo que, por hipótese, ele mereça.

Jornalistas, por sua vez, por mais defeitos que tenham (tantos e tantos) são alvos fáceis de acusações de todo tipo (vide “Mil erros de Português”, de Sacconi, livro de princípios totalmente opostos aos de Bagno e que elege, no tom, os jornalistas como alvos de deboche).

Meus alunos leem textos de Análise do Discurso e leem Bagno. Muitas vezes, sofro por pensar que a mensagem não atinge a todos, embora eu me esforce, mas fica bem difícil com o número alto de alunos na sala de aula (mais de 60). Sempre digo a eles que, por favor, leiam Bagno “com o coração aberto para um novo ponto de vista”, que não o leiam como um simulacro (“a defesa do português errado”). Penso que, pelo menos, planto uma semente. 

Com todo meu apreço e admiração por Bagno, também diria a ele que tentasse (sei que é difícil) ter a paciência de explicar o ponto de vista da sociolinguística aos jornalistas e, consequentemente, ao grande público. Esse deveria ser o nosso desafio, afinal, nós mesmos (especialistas em linguagem) já estamos convencidos. 

De qualquer forma, sou imensamente grata ao trabalho de Bagno, que permite excelentes discussões em sala de aula.

O desafio é ensinar quem não sabe ou quem tem mais dificuldade de saber. Como uma professora de dança que ensine com dedicação não somente àquela aluna que já nasceu com gingado, mas também àquela que sonha em dançar bonito, embora seja melhor com os livros. E, aproveitando a metáfora, ainda que o passo não esteja perfeito, um movimento de dança pode ser expressivo em seu conjunto assim como há várias formas de expressar-se em uma língua. 

Equilíbrio e diálogo

Entendo que o desafio de falar sobre linguagem é imenso, porque todo mundo (especialmente jornalista) efetivamente acredita que sabe o que é linguagem na mesma proporção em que se declara ignorante em física. Confunde-se o conhecimento empírico com o científico sobre linguagem. E é uma ferida muito grande para o “ego eu” aceitar que linguagem não é exatamente aquilo que pensava ser, enquanto não saber física parece que não dói. Parece justo, porque a língua é parte de nossa identidade.

É por isso que, nas palavras de uma colega com quem dialoguei sobre o assunto, “os estudos da linguagem não se dão a entender a um amplo público”.

Fico, então, numa posição de equilibrista e também difícil para o meu “ego-eu”. Como jornalista e cidadã, considero absolutamente relevante popularizar o conhecimento científico sobre linguagem (não sei se as questões do Enem resolvem, pois penso que o tema seja de complexidade maior). Como linguista, sinto-me no grupo dos quase sempre “incompreendidos”.

Os fatos me levaram, neste texto, a posicionar-me, em certo sentido, contra jornalista, contra fonte e até mesmo contra (o tom, não o argumento de) um linguista por mim absolutamente respeitado. E isso não significa que me coloco como “dona da verdade”. É uma tentativa de olhar como analista do discurso, de enxergar “do lado de fora de um ou de outro posicionamento ideológico”, tentativa esta que pode ser vã se eu for lida por qualquer um dos vieses ideológicos. Seria o caso de pedir para que o leitor me lesse “com o coração aberto” (talvez esta seja uma forma simplificada de estimular uma leitura de analista de discurso) e tentar perceber a questão de fora de um dos pontos de vista ideológicos. Possível? No mínimo, difícil. Posso ser bem incompreendida, mas pelo menos tentei.

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