segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Portugal: um reencontro com nossa história


        Entre cores de Lisboa, em Belém, próximo ao Mosteiro dos Jerônimos

Por alguma razão, Portugal não era, em princípio, o primeiro país na minha lista de prioridades a conhecer. Tenho uma paixão louca pela França, lembra? Ainda antes de sonhar com a França, foi Londres que fisgou meu coração, desde os primeiros cursos de inglês e a primeira lembrança de uma imagem do Big Ben num livrinho de ilustrações a colorir. Se pudesse, conheceria todo e qualquer lugarzinho do mundo, mas demorei bastante para criar coragem e condições (acho que nessa ordem - pois a coragem inventa as condições). Meu desabrochar como cidadã do mundo começou com o intercâmbio a Noruega, em 2009, uma surpresa mais do que agradável.

A Portugal eu queria ir, mas ainda não planejava. Talvez porque me soasse estranhamente familiar, apesar da localização do outro lado do Atlântico. E a oportunidade de ir à "Pátria Mãe" (como por aqui já foi chamada em tempos de colonização) surgiu neste ano, ao me inscrever para um Congresso e deixar rolar. 

Devo dizer que voltei mudada. Ou melhor, pisar do lado de lá me mudou imediatamente, abriu meus olhos para aspectos que enxergava de forma mais ofuscada. Se gostei mais do que de outro país que já conheci, é difícil dizer, pois cada um tem a sua beleza, que é incomparável. Mas, ao contrário de antes, agora Portugal é um dos primeiros lugares da lista que eu indico para conhecer. 

Há muito a contar sobre lá, o que vou pincelar nos próximos posts. Muito do que vi, do que li, do que ainda não vi e ficará para a próxima, que certamente haverá. Cada arquitetura grandiosa ou cada pequena folha caída de outono, como contei no post logo abaixo. 

É que de Portugal a gente ouve falar muito, especialmente nas aulas de História e de Literatura. E, como costumam compreender os que cursaram as primeiras séries escolares nos anos 80, na época, eu ainda não me imaginava apta a chegar tão longe. Ou até imaginava, mas ao modo daqueles sonhos vagos e inconcretos: um dia, quem sabe, talvez. Meu sonho mais óbvio e sólido era bem mais modesto: preparar-me para uma boa faculdade, o que, no Brasil daquelas décadas (80 - 90), estava longe de ser uma obviedade. 

E então eu lia Fernando Pessoa, deslumbrada, sem ainda conseguir me projetar a olhar o Rio que era maior do que o da aldeia do poeta, e mais ainda da minha! E que poeta, um dos primeiros que me cativou. 

Eu estudava a história do Brasil e memorizava tudo como informações um pouco vazias: Brasil Colônia, Brasil Império, Brasil República...

Agora, emoção é pouco para descrever qual a sensação de estar ali, na margem do Tejo, a mirar o ponto exato de onde saiu a Caravana de Cabral para cá. E que audácia, naqueles tempos! O mesmo Tejo de Fernando Pessoa. 

Retornando ao Brasil, peguei para reler o 1808 de Laurentino Gomes e tudo faz muito mais sentido. Pequenos detalhes, como ler que o arquivista real vivia em Belém, antes de migrar para o Brasil ao encontro da Família Real, e pensar... sei onde é, estive em Belém!

        Brasileira descobrindo Portugal, pertinho do Padrão do Descobrimento, altura do Tejo da qual partiam as embarcações a desbravar o Atlântico


Não há como ver tanto ouro nas paredes e tetos das igrejas e museus portugueses e deixar de pensar: nosso ouro, do Brasil! Não adianta, porém, reclamar isso à guia, que não foi ela ou a geração dela que esteve aqui colhendo nossas preciosidades. Ao menos, lá, pode-se reencontrar com a história, a arquitetura e valores de uma outra época. Aqui no Brasil, sabe-se que o próprio palácio onde viveu o Rei D. João VI, no Rio de Janeiro, ao fugir do exército de Napoleão, não foi preservado e, por mais que possa parecer bobagem para alguns, a preservação da História e da Cultura também faz parte de nossos direitos humanos. Sabe-se que a corte portuguesa, àquela época, explorou os recursos do Brasil para sustentar seus luxos - estou aqui bem envolvida com a leitura de Laurentino. Por outro lado, a decisão de vir para cá também agregou valores positivos à nossa história, como a construção de um sentimento de identidade como nação brasileira. 

Por mais que a corte portuguesa tenha tido seus tipos pitorescos, há sempre outro lado da moeda de ouro que vai além dos personagens caricatos do filme Carlota Joaquina de Carla Camurati. Gosto de pensar nos reis e rainhas também como seres humanos, o que me leva logo à sensação de que o luxo também tem seu fardo. Penso especialmente nos princepezinhos que se tornariam nossos D. Pedro I e II, cujos destinos foram traçados quando estavam em idade de brincar. 

Mesmo trazendo tantas imagens de Portugal, há muito ainda a se dizer com palavras. E a principal delas é SAUDADE - esta que não tem tradução precisa em outros idiomas senão o português, e que parece expressar um sentimento que nos une, apesar das diferenças entre o português que lamenta em um fado e o brasileiro que vibra no carnaval. 

E é da SAUDADE que vem a maior identificação que sinto. Conhecer Portugal é trazer de volta, na bagagem, eternas saudades do lado de lá. Porém, estar lá também é incompletude, porque fica a falta do Brasil. Dar vazão ao coração de viajante é descobrir as saudades eternas, o desejo de estar sempre, ao mesmo tempo, em um e mais dos lindos lugares sonhados, mas também no seu espacinho brasileiro. É descobrir um coração que nunca mais estará completo em qual seja o lugar, afinal, é coração de viajante. 

Se Portugal nos ensina a saudade, que nos ensine também a mirar o futuro. A lição que o país nos deixa é dura: foi destaque na era das grandes navegações e perdeu rumos em um mundo cujo avanço não mais dependia dos ventos. Foi um país científica e tecnologicamente atrasado, por extremismos religiosos (D. José, irmão mais velho de D. João VI e primeiro herdeiro do trono, morreu de varíola porque a mãe Maria I achava que vacina era pecado, era interferir na vontade de Deus - e Deus não dá ao homem a inteligência de inventar a prevenção e a cura? ). 

Portugal se deslumbrou com as riquezas da natureza brasileira e instituiu a dependência da economia extrativista. E até hoje o Brasil não trata os recursos como inesgotáveis? O que o Brasil faz hoje com o dinheiro da aposentadoria de amanhã? Que o Brasil tente aprender algo com os erros de sua “Pátria Mãe”, onde hoje os salários sofrem redução e as aposentadorias correm altos riscos. Será que aprende? Ou se acomoda, porque o sol aqui parece sempre brilhar. 

        Torre de Belém: símbolo da defesa do território marítimo


Diferentemente, a Noruega, possuindo um único recurso - o petróleo - construiu a partir dele o primeiro IDH do mundo. Ainda assim, sofreu. Acostumou-se à sensação de segurança (que deveria ser um direito de todo cidadão), o que pode ter facilitado o lamentável atentado de 2011. Isso me faz pensar – uma triste conclusão – que o sentimento de alerta em que vive o brasileiro é necessário em qualquer parte do mundo. 

Recebemos tantas outras influências. Somos uma misturinha boa. Nosso clima tropical reflete alegria e hospitalidade. Adoramos banho tal qual um bom índio. E, inegavelmente, de todas as influências, a portuguesa foi imensamente forte. Reconciliemo-nos com o lado de lá, sem complexo de Colônia - foram outros tempos. Hoje, o que fica, é que o povo português é um nosso semelhante, tão parecido conosco. E que nos recebe bem, como fizemos com a corte de D. João VI em 1808. 

Ao saber que a corte portuguesa estava chegando ao Brasil, o governador de Pernambuco despachou ao mar o pequeno barco Três Corações, que, quase milagrosamente, encontrou as naus portuguesas, levando uma carga caju, pitanga, outras frutas e refrescos. Para os passageiros há dois meses no oceano, privados de uma alimentação saudável, foi um alento:

"Eram espécies tropicais, de aspecto, consistência e sabor como jamais tinham experimentado em Portugal. E foi assim, nas formas dos frutos de sua pródiga e exuberante natureza, que o Brasil se apresentou a D. João e sua corte refugiada dos tormentos da guerra na Europa." (Laurentino Gomes, 1808)

E o que poderia ser mais poético que um fim de tarde ao pôr do sol português, no alto do Castelo de São Jorge? Felicidade é ter estado lá.





Poesia, também, é colorir com suas próprias tintas as imagens dos diversos lugares, como fiz com o Big Ben no livrinho de pintar de infância.  

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