segunda-feira, 7 de abril de 2014

E Pedro se viu sozinho

Foi num dia 7 de abril, em 1831, que um menino chamado Pedro de Alcântara, aos 5 anos de idade, viu-se solitário ao acordar naquela que deveria ser apenas mais uma manhã comum na vida de uma criança. Na madrugada, o Imperador Pedro I vira-se forçado pelas circunstâncias a abdicar o trono brasileiro, refugiando-se na fragata que o transportaria para Portugal, levando consigo a segunda esposa Amélia e a filha Maria da Glória, futura rainha de Portugal. Para trás, ficaram cinco órfãos reais, entre eles o pequeno príncipe que viria a ser D. Pedro II. Não houve tempo para despedidas. Dali em diante, pai e filho teriam contato apenas por cartas, as quais se encontram hoje no acervo do Museu Imperial de Petrópolis, “uma das trocas de correspondências mais tristes já registradas na história brasileira”, nas palavras de Laurentino Gomes.

Meu querido pai e meu senhor, quando me levantei e não achei a Vossa Majestade Imperial e a mamãe para lhe beijar a mão, não podia me consolar nem posso, meu querido papai. Peço a Vossa Majestade Imperial que nunca se esqueça deste filho que sempre há de guardar a obediência, respeito e amor ao melhor dos pais (...)” (Gomes, 1822, p. 294)

A mãe a que o pequeno Pedro se refere é a madrasta Amélia, já que a Princesa Leopoldina falecera quando ele tinha apenas um ano de idade. Na ausência de mãe e pai, o menino cresceu melancólico, aos cuidados de educadores políticos que o preparavam para assumir o trono aos 14 anos de idade, quando teve início o Segundo Reinado do Brasil.

O pai lhe responde a esta e a tantas outras cartas, conta-lhe sobre as lágrimas, por deixar “filhos, pátria e amigos” e segue seu rumo, remodelando as histórias de Portugal e do Brasil. As cartas se equilibram entre as emoções familiares e a correspondência contida, de Estado, de quem tem consciência do papel político que ocupa.

Pedro pai orienta o filho Pedro a estudar. E o menino, obediente e apegado às próprias esperanças, dedica-se com primor aos conhecimentos. Torna-se um culto e honrado Imperador, que viveu por aquela que tornou praticamente a sua única família, a Pátria-Mãe, Brasil. Prova de seu prestígio é que até mesmo o proclamador oficial da República, Marechal Deodoro, pessoalmente o respeitava. Aliás, uma República que foi proclamada na condição de um golpe, assim como outros a que o Brasil assistiria, como o de 1964, sem qualquer participação popular. Em 1889, foi o povo brasileiro que se viu, também, órfão do governante com que estava acostumado, já que o Imperador Pedro II, que na infância perdera pai e mãe, ao fim da vida, foi destituído de sua Pátria. Ao morrer na Europa, precisamente em Paris, é enterrado com um travesseiro contendo terra do Brasil, que levara consigo como última relíquia. (“É terra de meu país; desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha pátria.” - Gomes, 1889, p. 301)

Mas estas histórias de reinados e república estão bem contadas nos livros de Laurentino Gomes (1808, 1822, 1889). O que este 7 de abril me faz pensar é num desejo que, acredito, embora não tenha lido nos livros, o menino Pedro deve ter alimentado. Não posso afirmar com certeza, mas minha intuição diz que, naquele triste 7 de abril, Pedro de Alcântara formulou um plano secreto. Apesar de que todos lhe diziam não mais haver esperanças de rever o pai, imagino que o menino não tenha julgado impossível que, mais velho, pegaria um navio rumo a Portugal, onde reencontraria a família. Ora, para as crianças, nenhum sonho é impossível. Pode-se construir um trem-bala imaginário e chegar a qualquer lugar, enquanto, simultaneamente, estuda-se, prepara-se para romper futuras e reais fronteiras. Tanto é que D. Pedro II, adulto, viajou muito, foi um verdadeiro diplomata.

Só que o tempo pode ser cruel. Seu pai, o Pedro I, viveu apenas até 1834, sem deixar tempo para concretizar a aventura do filho. Mas que filho não teria sonhado em rever seu pai? E, assim, Pedro II foi um homem honrado, culto e triste; preferia livros a festas. Sobretudo, foi brasileiro. Seu sonho de adulto, também a ele negado, foi morrer no Brasil. Somente em 1921, trinta anos após sua morte, o governo brasileiro concedeu o direito de que seus restos mortais fossem trasladados para a catedral de Petrópolis, para onde o menino voltou.

Érika de Moraes

Versão resumida desta crônica publicada no Jornal da Cidade em 07/04/2014.

Leia também minha crônica dedicada a D. Pedro I