domingo, 7 de junho de 2015

Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo

Resenha (com licença poética) 

Sinto o cheiro do tubo de metal do ônibus ao ler o livro, embora este cheiro seja hoje quase apenas uma lembrança. Ninguém morre por andar de ônibus, mas minha cidade tem linhas ruins e eu andava em 8 por dia, lembrança amarga, porque me tomava tempo de vida. Mas não é dos "meus" ônibus que vou falar.

É do trajeto de Pedro, personagem do livro Passageiro do Fim do Dia, de Rubens Figueiredo. O trajeto, do centro à periferia, é longo, muito longo. Tão longo que, entre congestionamentos, dúvidas e solavancos, Pedro traça um filme de sua vida. A sua e a das outras personagens que cruzam seu caminho, como a humilde e sonhadora namorada Rosane. São lembranças vindas das leituras, dos desatinos, dos acidentes, dos conhecidos. Lembranças vividas ou contadas que se misturam com divagações. O trajeto é longo, longo, sem fim. É como o tempo de uma vida. Não serão mesmo tantas horas de vidas que se passam dentro de um ônibus? Tempo que poderia ser de leitura confortável, sem o pular das pupilas junto aos trancos das grandes rodas. Tempo que poderia ser de alongamento e esporte, para um corpo mais saudável. Corpos espremidos e até violados em horários de maior fluxo (vide o caso real da repórter do R7 no metrô de SP).

Ônibus.

A cada minuto livre do feriado, retornei ao ônibus. Não o real, mas o da ficção de Rubens Figueiredo.

Conheci o autor carioca Rubens Figueiredo em uma palestra dele aos estudantes de Jornalismo da Unesp de Bauru, isso há quase 20 anos. Debatemos com ele O Livro dos Lobos, que muito me impressionara, em suas fantasias que soavam tão reais. A visita do escritor me marcou. Hoje, sei de forma mais consciente que, além de ter merecido alguns Jabutis, Rubens é simplesmente “o cara”. Professor e um dos maiores tradutores brasileiros, especialmente da literatura russa, ainda assim uma pessoa generosa, que se deu ao trabalho, há quase vinte anos, de responder às cartas de uma estudante de jornalismo, curiosa a respeito de sua literatura, inquieta, insatisfeita com o término da palestra. Era tanto a apreender, a debater!

E era naquele meu tempo que o tempo era (ainda mais) escasso, uma boa parte dele desperdiçada nos ônibus e a certeza de que eram eles o caminho para o porvir. Mas não é sobre meus ônibus... –  ah, como não me lembrar agora do charmoso bondinho de Portugal ao pensar, hoje, em transporte público? Como não resignificar, depois de tantas andanças?

O fato foi que tomei contato agora com o Passageiro do Fim do Dia (publicado em 2010, vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2011), de Rubens Figueiredo e li-o nos quatro dias de emenda do feriado de Corpus Christ. Um leitor mais rápido (a exemplo de meu marido, quando tem vontade) teria lido em um dia e meio, mas eu respiro entre palavras. A média dos leitores, acredito, pode até ter certa preguiça: o livro não é dividido em capítulos, não se rende à receita multimidiática da atualidade. É um longo trajeto de ônibus.

Pelo que li em entrevistas, Rubens acredita que a Literatura deva ampliar nossa compreensão da realidade social, o que ele promove sem dispensar a arte. Alguns defendem que literatura deva ser arte pela arte. Como faz Rubens, é arte que ensina vida.

“Queria escrever um livro sobre a desigualdade social. Mas não era um livro para mostrar a desigualdade social. Concebi o livro como uma forma de conhecimento dos processos que geram, produzem, reproduzem, justificam, legitimam e fazem esquecer a desigualdade. O que estava em jogo era a percepção da desigualdade, a dificuldade que nós temos de perceber a desigualdade, a força dos mecanismos sociais que levam a nossa consciência a assimilar a desigualdade como algo dado, algo natural, que não é objeto de questionamento.”
Rubens Figueiredo, em entrevista para Univesp TV

PS: não por acaso, os escritos de Rubens Figueiredo retornam à minha consciência neste momento em que acabo de lançar meu primeiro livro de contos. Quando me perguntaram sobre influências, lembrei-me instintivamente de Clarice Lispector. Um pouco mais a fundo no inconsciente, encontrei Rubens como uma das melhores memórias literárias.

Érika de Moraes

terça-feira, 2 de junho de 2015

O desenho e a leitura

O desenho e a leitura
Érika de Moraes

Em princípio, não vi os livros de colorir como algo ruim. Ganhei de minha irmã o “Jardim Secreto” e achei não só desestressante, como propõe a capa, mas até poético. Parecia que Papai Noel havia atendido ao meu pedido de natal: eu pedira uma caixa de lápis de cor para pintar a vida.

Perceber que tais livros estavam se tornando um fenômeno de massa trouxe a necessidade de uma reflexão a respeito da influência das técnicas de marketing sobre o consumidor.  Se o livro “Jardim Secreto” traz desenhos autorais, assinados por uma ilustradora que convida o público a neles interferir, logo vieram os genéricos. Pintar ‘qualquer coisa’ se tornou antiestresse, segundo o marketing, mensagem carregada de apelo comercial (e que se exime da análise sobre o porquê do tal estresse generalizado).

Recentemente, matéria do UOL TAB questionou: o que diz sobre nós o fato de que o livro mais vendido na atualidade é um livro de colorir para adultos? Uma primeira resposta que vem à mente é uma necessidade de desaceleração, de desligar o computador e, em vez de dividir-se entre quinze ou mais abas abertas, concentrar-se em uma atividade, descansar os pensamentos. Positivo, desde que não seja a única prática realizada em momentos de ócio criativo (e a leitura, a leitura da palavra?).

A autora Johanna Basfard, de “Jardim Secreto” e “Floresta Encantada”, concorda com a ideia de que os livros de pintura proporcionam um descanso do mundo online, segundo afirmou ao “The New York Times” e reproduziu o UOL TAB. Não parece, porém, do ponto de vista do marketing, ser um brinde à concentração que os livros de colorir e/ou interativos estejam propondo, e sim uma certa aproximação com a chamada linguagem digital, a única que, atualmente, “merece a atenção humana”, conforme menciona criticamente a matéria do UOL TAB, ainda no que se refere ao apelo de vendas.

É singelo que as crianças, nativas digitais, aprendam intuitivamente a usar as plataformas touch, desde que tenham, também, a capacidade de folhear livros de papel – pesquisas têm apontado até mesmo o prejuízo da habilidade motora devido à supervalorização de games (e touchs) em relação aos brinquedos concretos de montar (e aos livros tradicionais). Por parte de muitos jovens, por sua vez, percebe-se um interessante movimento de resgate da leitura dos clássicos, uma convivência saudável entre a valorização da chamada linguagem multimidiática e a consciência de que o modo tradicional de ler proporciona uma reflexão aprofundada sobre a realidade.  

Há, ainda, uma outra faceta: o desenho e a pintura, como arte, devem ser atividades tão valorizadas quanto a escrita ou a matemática. Sou de um tempo em que a escola (ao menos a pública) não valorizava o artístico e só quem tivesse recursos financeiros poderia praticar a dança, a música e outras artes. Os prejuízos disso são irrecuperáveis. Contornáveis na vida adulta, mas irrecobráveis em relação ao potencial que uma criança tem de desenvolver habilidades.

Equilíbrio é a palavra. Pintar pode ser muito bom, sim, e até antiestresse. Mas ler um bom livro é e sempre será uma ação recompensadora do ponto de vista da aquisição de experiência.

A autora é jornalista, doutora em Linguística e docente da Faac (Unesp, Bauru).

Publicado no Jornal da Cidade, Bauru: acesse o link