terça-feira, 2 de junho de 2015

O desenho e a leitura

O desenho e a leitura
Érika de Moraes

Em princípio, não vi os livros de colorir como algo ruim. Ganhei de minha irmã o “Jardim Secreto” e achei não só desestressante, como propõe a capa, mas até poético. Parecia que Papai Noel havia atendido ao meu pedido de natal: eu pedira uma caixa de lápis de cor para pintar a vida.

Perceber que tais livros estavam se tornando um fenômeno de massa trouxe a necessidade de uma reflexão a respeito da influência das técnicas de marketing sobre o consumidor.  Se o livro “Jardim Secreto” traz desenhos autorais, assinados por uma ilustradora que convida o público a neles interferir, logo vieram os genéricos. Pintar ‘qualquer coisa’ se tornou antiestresse, segundo o marketing, mensagem carregada de apelo comercial (e que se exime da análise sobre o porquê do tal estresse generalizado).

Recentemente, matéria do UOL TAB questionou: o que diz sobre nós o fato de que o livro mais vendido na atualidade é um livro de colorir para adultos? Uma primeira resposta que vem à mente é uma necessidade de desaceleração, de desligar o computador e, em vez de dividir-se entre quinze ou mais abas abertas, concentrar-se em uma atividade, descansar os pensamentos. Positivo, desde que não seja a única prática realizada em momentos de ócio criativo (e a leitura, a leitura da palavra?).

A autora Johanna Basfard, de “Jardim Secreto” e “Floresta Encantada”, concorda com a ideia de que os livros de pintura proporcionam um descanso do mundo online, segundo afirmou ao “The New York Times” e reproduziu o UOL TAB. Não parece, porém, do ponto de vista do marketing, ser um brinde à concentração que os livros de colorir e/ou interativos estejam propondo, e sim uma certa aproximação com a chamada linguagem digital, a única que, atualmente, “merece a atenção humana”, conforme menciona criticamente a matéria do UOL TAB, ainda no que se refere ao apelo de vendas.

É singelo que as crianças, nativas digitais, aprendam intuitivamente a usar as plataformas touch, desde que tenham, também, a capacidade de folhear livros de papel – pesquisas têm apontado até mesmo o prejuízo da habilidade motora devido à supervalorização de games (e touchs) em relação aos brinquedos concretos de montar (e aos livros tradicionais). Por parte de muitos jovens, por sua vez, percebe-se um interessante movimento de resgate da leitura dos clássicos, uma convivência saudável entre a valorização da chamada linguagem multimidiática e a consciência de que o modo tradicional de ler proporciona uma reflexão aprofundada sobre a realidade.  

Há, ainda, uma outra faceta: o desenho e a pintura, como arte, devem ser atividades tão valorizadas quanto a escrita ou a matemática. Sou de um tempo em que a escola (ao menos a pública) não valorizava o artístico e só quem tivesse recursos financeiros poderia praticar a dança, a música e outras artes. Os prejuízos disso são irrecuperáveis. Contornáveis na vida adulta, mas irrecobráveis em relação ao potencial que uma criança tem de desenvolver habilidades.

Equilíbrio é a palavra. Pintar pode ser muito bom, sim, e até antiestresse. Mas ler um bom livro é e sempre será uma ação recompensadora do ponto de vista da aquisição de experiência.

A autora é jornalista, doutora em Linguística e docente da Faac (Unesp, Bauru).

Publicado no Jornal da Cidade, Bauru: acesse o link

Nenhum comentário:

Postar um comentário