quinta-feira, 19 de maio de 2011

Polêmica

Breve consideração sobre a polêmica da língua

Queridos, muitos estão solicitando um posicionamento meu sobre a "polêmica a respeito do livro adotado pelo MEC", etc. Especialmente alunos e ex-alunos, o que me deixa feliz pelo interesse. Não é possível opinar em poucas palavras, já que o assunto não se esgotaria nem mesmo em um Congresso. Assim como não se esgotou mesmo depois de tantos debates, já que essa questão não é nova, apenas entrou em moda a partir de um factual. Como Doutora em Linguística, é óbvio que compreendo a língua como algo muito mais complexo do que um conjunto de regras de norma padrão (prefiro não chamar de culta, em oposição à inculta). É óbvio também que defendo o ensino de norma padrão (meus alunos sabem que sou exigente com isso, creio). Penso que seja uma boa oportunidade para se ler Marcos Bagno, Sírio Possenti...
Não julgaria (ainda que me coubesse julgar) aqueles que compreenderam mal as colocações do livro didático, já que a minha visão, hoje, é fruto de cerca de 15 anos de estudo de Análise do Discurso de linha francesa e outras disciplinas da Linguística e, desses anos, a maior lição é a humildade de não me achar a “dona da verdade”. Aos que me acharem velha por causa dos 15 anos, justifico que me interessei pela AD já no início da graduação, rss... É, sim, mas o tempo passa e fico grata que, hoje, alguns ex-alunos me escrevam felizes por, já cerca de 8 anos antes dessa polêmica, terem discutido o Preconceito Linguístico em minhas aulas. Talvez alguns não tenham compreendido, não por falta de inteligência, mas porque é preciso coração aberto para ouvir e assimilar um ponto de vista que não é o seu próprio ou aquele defendido a ferro e fogo por visões mais conservadoras, aquele em que eu mesma acreditei quando adolescente, por pura falta de informação.
Essa é a vantagem de amadurecer. É o conforto por perceber uma leve ruga no canto do olho, mas saber que o tempo não foi em vão.
Não me debruçarei mais sobre a polêmica por pura e simples falta de tempo para dar a esse assunto a dimensão que ele merece. E por considerar que outros linguistas, de longas estradas, estão dando bem conta do recado (meu papel será mais o de indicar leituras).
Só antes gostaria de enfatizar que não é uma questão de prós e contras. Esta deveria ser a maior lição: sair desse debate de mocinhos ou vilões. Língua é questão tão complexa que, por isso mesmo, gera mal-entendidos. É necessário fazer um esforço para não compreender o ponto de vista alheio como um “simulacro” (um conceito de Maingueneau).
Espero ter contribuído um pouco com os que me perguntaram por e-mail, DM, etc., sem ter ofendido ninguém.
Que o maior número possível de brasileiros tenha acesso à norma padrão, mas que se tenha consciência de que essa norma a que chamamos de padrão é uma escolha cultural (assim como nossa sociedade escolhe usar certas roupas, de preferência de grifes). A escolha poderia ser (ou ter sido, no decorrer da história da língua) diferente, a exemplo dos franceses que escrevem “Les livres” mas pronunciam “Le livre” (ou seriam uns “caipirões” os franceses?).

Indico algumas leituras:
O posicionamento da Ação Educativa é esclarecedor:
http://www.acaoeducativa.org.br/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=2604&Itemid=2

Também o texto de Sírio Possenti, o professor tão exigente que demorou para me aceitar como orientanda no mestrado. Mas que me ensinou a pescar muitos peixes (sem nunca ter pescado um por mim) até o fim do doutorado.
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5137669-EI8425,00-Aceitam+tudo.html

(Para ver os links, copiar e colar a URL no navegador)

Só mais uma notinha (embora muito óbvia). Na página do livro malhado feito Judas não há justificativa para a manchete que suscitou a polêmica: “Livro usado pelo MEC ensina aluno a falar errado”. Frise-se: quem diz isso é o portal IG, jamais coisa parecida foi escrita por algum linguista. Do ponto de vista da comunicação, tamanha má interpretação é bem mais grave do que erro de concordância. O que se repete e se polemiza é o título da nota, não a obra em si. Meus alunos vão se lembrar do conceito de “citação e destacabilidade”, de Maingueneau. Porque há mais coisas interessantes e aprofundadas para se estudar em relação à linguagem do que sonha a vã filosofia...

Um comentário:

  1. Fabricia Romanini19 de maio de 2011 15:55

    Como você mesma disse, nem em um seminário, chegar-se-ia a uma conclusão. O que acho importante, sobretudo para as crianças e os jovens, é a leitura. Não apenas para que aprendem o português corrente, mas para abrir as idéias. Ler, com certeza, leva a novos ângulos de novas e velhas questões. Imagine um clube do livro imenso... aliás, não sei o motivo de ninguém na Net ter feito em big clube do livro (pelo menos, não que eu saiba). beijos e espero ouvi-la em novas e velhas polemicas.

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