terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

CRÔNICA - Vinte e três

Será que somos apenas um conjunto de números?
Ou seres humanos, com nomes, sonhos, planos, emoções e algo mais...
Texto singelo produzido pela estudante Clara Tadayozzi (Jornalismo - Unesp)

Vinte e três
por Clara Tadayozzi
  
- Ela era bonita? – perguntou, depois de certa hesitação.
- Para mim, a mais bela de todas – ele respondeu com visível ternura.
Naquele quarto frio de hospital, a visita diária às vezes trazia assuntos inusitados.
Ele prosseguiu relatando o pouco que sobrou de uma vida memorável.
- Nunca me esqueço do dia em que pedi sua mão. Namorávamos já havia algum tempo, às escuras. Ela era apenas um ano mais nova do que eu.
Nunca senti tanto receio em toda a minha vida; seu pai era tido com respeito, temido por todos os peraltas da cidade.
E eu, para a surpresa de todos, acabei sendo aceito naquela humilde família.
Logo criamos nossa pequena rotina, naquela vida adorável de recém-casados.
Aos fins de semana, costumávamos sair para comer fora e depois pegar um cinema. Pegávamos carona com o metrô e ficávamos entre curtas carícias durante o longo percurso.
Quando o filme terminava, eu já aguardava a doce pergunta: "Voltemos a pé?", e com um breve sorriso, assentia com a cabeça.
Logo pegava o seu par de sapatos, e saíamos a caminhar sob o céu noturno.
Não tínhamos pressa alguma, esperávamos o belo amanhecer naquelas familiares ruas de São Paulo.
Havia uma feira pela manhã, próxima a nossa singela residência. Eu comprava sempre dois pastéis para o desjejum. E então, voltávamos para casa e dormíamos até mais tarde.
Foram os dias mais felizes da minha existência.
Quando soube que ela estava grávida, tratei de encontrar um ofício a mais, e logo aumentei nossa pequena casa.
Providenciei tudo o que um pai poderia proporcionar a uma querida filha. Obtive ajuda de diversos amigos e, por fim, um mundo isento de necessidades e repleto de amor a aguardava, ansioso por conhecê-la.
Lamentavelmente, nunca teve a chance. Por um falho ato médico, subitamente perdi tudo o que tinha de valor neste mundo, até mesmo antes de ganhar. Um maldito fórceps, uma inestancável hemorragia.
Há quem me cobre processos jurídicos, mas dinheiro algum as traria de volta.
Foi como se o meu querido órgão cardiovascular se partisse em milhões de pedaços, que até hoje não consegui reunir. O lindo enxoval foi doado, com porções de minha alma embutidas.
Parei de viver por um eterno período de tempo. Nunca deixei de sentir a imensa dor que se apossa do corpo em grandes perdas.
Saí pelo mundo, a vagar por entre as cidades mal distribuídas; conheci os cantos deste país, e até de outros. Mergulhei em diferentes oceanos, presenciei acontecimentos inesquecíveis. Jamais algo me preencheu novamente.
A menina escutava comovida, sem saber como organizar as palavras que lhe surgiam na mente, para saírem adequadas da boca.
Lacrimejava, mas impedia que caíssem de seus olhos as gotas ansiosas por nascer.
Deu um sincero beijo em suas mãos calejadas e manteve-se em silêncio.
- Sou o número vinte e três da lista de transplantes – ele então lhe disse.

Nenhum comentário:

Postar um comentário