terça-feira, 16 de maio de 2017

Bibliothéque (en France)

Sala de estudos na biblioteca da Université Paris-Sorbonne

Quando temos a oportunidade de nos aproximar de outras culturas, uma das melhores experiências é observar. Simplesmente observar, sem achar que a outra é melhor ou pior do que a nossa. Refletir. Algo que observo na vida acadêmica daqui (Paris, França) é a importância das bibliotecas como espaços de estudo. Nas aulas a que assisto (mestrado ou graduação – como um estágio para mim), o professor propõe reflexões. Os alunos mantêm uma postura respeitosa: anotam, fazem perguntas quando têm interesse, não comparecem e arcam com a ausência quando não tem. E é nas bibliotecas que o aprendizado se solidifica, ambiente intenso de estudo e concentração. A meu ver, a beleza histórica desses ambientes contribui muito para esse foco, inspira.

O professor é importante, porque sinaliza caminhos, mas ele não mastiga nada. No exame, as salas lotam, o professor cobra – faz parte. Os jovens universitários são como quaisquer outros: sentam-se no chão, deixam escrituras eventualmente impróprias nos banheiros, falam muito ao celular (nunca na aula ou na biblioteca). Mas eles têm uma espécie de “botão” de concentração que liga nas aulas e nas bibliotecas. E talvez isso venha de uma cultura contemplativa adquirida desde a infância e relacionada à oportunidade de crescer em um ambiente onde, desde crianças, visitam museus e outros pontos culturais, com pais e professores.

Desde a primeira vez que vim a Paris, fiquei impressionada com um pequeno grupo de crianças no Museu D’Orsay, absolutamente atentas à professora, que as estimulava a observarem as vestimentas infantis em um quadro antigo, a observarem as diferenças em relação aos tempos atuais. Fiquei ali encantada, aprendendo com a aula da professora, pois, infelizmente (e repito, não é para dizer que um país é melhor ou pior), em geral, não tivemos essa oportunidade em nossa infância no Brasil, especialmente nas cidades desprovidas de museus.

Se vou a um concerto, tem sempre uma criança mais concentrada do que eu, já que ela não tem a minha cabeça de adulto “pensando na pesquisa enquanto ouve a música”. Intuitivamente, ela já sabe que a música deixará marcas de criatividade para as futuras pesquisas, acadêmicas ou não, o desbravar do mundo. Se vou a uma livraria, sempre me deparo com uma cena interessante de criança, diante de algum livro, exclamando uma das típicas expressões francesas de admiração: “Super!” (oxítona), “Oh la la”, “Magnifique”. Et... c’est magnifique!

Em contrapartida, o parisiense tem muito, também, dessa coisa apressada do paulistano, mas é como eu disse, um botão que liga e desliga. Sei que em São Paulo, capital, há oportunidades semelhantes, mas a minha comparação com cidade do interior faz sentir falta desses ambientes contemplativos. E, mérito nosso de brasileiro, ainda assim, com menos oportunidades, nós lutamos e buscamos. Ainda que tenhamos que, maduros, aprender a ter a concentração adquirida por uma criança europeia na infância. 

* Érika de Moraes - atualmente, realizo estágio de Pesquisa pós-doutoral na Université Paris-Sorbonne, na França.

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