quarta-feira, 29 de junho de 2016

Reinos desunidos


O resultado do referendum inglês pela saída do Reino Unido da União Europeia – o chamado Brexit – trouxe ao mundo a sensação de estar presenciando um daqueles momentos históricos em que a linha do tempo irrompe em um marco. Em tais circunstâncias, não é difícil esquecer que a história de fato é constituída nas peculiaridades do dia a dia de cada cidadão.
Qual a semelhança entre a experiência inglesa e a brasileira nas últimas eleições? Ambas trazem à tona as benesses e as controvérsias da democracia: esta não é a vontade de todos, mas de uma maioria. É questionado, porém, o próprio conceito de maioria quando os resultados mostram sociedades divididas. Por um lado, a democracia tem a sua legitimidade (e qual seria a alternativa a ela, se não a de recair em regimes totalitaristas?), por outro, um resultado como o britânico – 51,9 a 48,1% – representa um empate técnico. E, havendo empate, existe realmente a vontade de uma maioria? Ou existem vontades opostas que convivem no mesmo tempo e espaço?
O mapa da votação britânica mostrou claramente uma divisão: Escócia optaria pela permanência na União Europeia, enquanto Inglaterra e País de Gales escolhem a saída do bloco. O governo escocês, então, já fala em um novo referendum pela independência da Escócia em relação ao Reino Unido, seria a desunião provocando mais desunião. Outra aparente divisão seria por faixa etária, conforme expressam os jovens, especialmente pelo termômetro das mídias sociais, ao lamentar que viverão o futuro escolhido primordialmente por uma população acima dos 65 anos.
Modelos existem. A Noruega, por exemplo, campeã no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano, não faz parte da União Europeia. Cidadãos europeus do bloco comum usufruem da livre circulação e, simultaneamente, experimentam dificuldades sociais como o desemprego e falhas nos serviços de saúde, além do fantasma do terrorismo associado, justa e injustamente, às facilidades da imigração. Pode ser, como dizem alguns analistas, que cidadãos do Reino Unido, ao vivenciar problemas que afetavam diretamente sua qualidade de vida, optaram por uma via diferente, sem saber se seria necessariamente melhor, e acordaram, de um dia para o outro, com a questão assustadora: e agora?
Fato é que o “golpe inglês” contra a União Europeia já representa uma ferida no mais belo – e utópico – ideal pós-guerra, o de um mundo sem fronteiras. É, porém, mais fácil desconstruir fronteiras físicas do que ideológicas. O que é união, se não respeito e convivência com concepções e vontades distintas? O avesso da união é a destruição do outro cujo pensamento é divergente. E, nesse viés, vale menos a contagem de votos do que quem tem a arma de fogo mais potente. Valem menos as vidas e a preservação da história, seja em Palmira, na Síria, em Paris ou numa casa noturna de Orlando.
Nesse momento (ou sempre?), há mais perguntas do que respostas. O que queremos para o mundo? O que queremos para o Brasil? Quais medidas são necessárias para que não prevaleçam decisões radicais? Como promover mudança sem radicalização? Em tempos de desunião (ou será esta uma característica da humanidade e não de nossos tempos?), é preciso muito cuidado com discursos radicalizadores baseados em preconceitos. É fácil para alguém mal intencionado pregar o preconceito com a falsa máscara do protecionismo de fronteiras físicas e ideológicas. Que seja esta uma lição para o Brasil, se houver tempo.

Érika de Moraes é Doutora em Linguística, com ênfase em Análise do Discurso, pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

Artigo publicado originalmente no Blog do Estadão em 27/06/2016.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Língua, ideologia e empoderamento

O dia da Língua Portuguesa (5/5) é uma oportunidade para refletirmos sobre o significado social e político da linguagem em nossas vidas. Língua (não só a portuguesa) não se resume a um conjunto de normas de padronização (embora tais normas tenham funções importantes em termos de unidade e historicidade).
Dizer que a língua não se resume às normas não implica negá-las ou minimizar a importância de aprendê-las, mas mostrar que seu conceito é muito mais amplo. Tomemos como exemplo o tema da aprovação, por deputados do estado de Alagoas, de lei que obrigaria professores a manter “neutralidade” em sala de aula, impedindo-os de “doutrinar” alunos em assuntos políticos, religiosos e ideológicos. Além da inconstitucionalidade, que pode ser discutida em âmbito jurídico, tal lei parte de um pressuposto equivocado, o de que existiria uma forma de linguagem desprovida de ideologia.
Com o nome “Escola Livre”, uma lei como essa, a rigor, imprime a censura nas salas de aula. Assim como a censura durante a ditadura militar instituía-se de forma arbitrária, somente por meio da arbitrariedade é possível decidir o que é ou não ideológico do ponto de vista linguístico-discursivo. Para quem se alinha a uma ideologia mais à direita, propostas voltadas ao social, à abertura de oportunidades mais igualitárias são vistas como ideológicas, esquerdistas, assistencialistas. Já para quem se identifica com ideias mais à esquerda, qualquer proposta que faça lembrar argumentos da direita - um exemplo, a defesa da meritocracia - será vista como equivocada e demonizada.
Ora, qual a ideia certa? Qual a errada? Equivocado é acreditar que exista uma visão ideológica, outra neutra. Errado, de um ponto de vista teórico-científico, é supor que exista alguma maneira de interagir com a língua desprovida de ideologia. Digo interagir (e não usar) porque a língua não é mera ferramenta, é elemento constitutivo da identidade dos sujeitos. É por meio dela (seja qual for o idioma) que o ser humano significa sua própria existência e o mundo ao seu redor. É por isso que o domínio pleno da língua materna é empoderador. E, provavelmente, é pela mesma razão que a valorização do ensino e do professor seja tão precária em nosso país (é preciso vontade política de empoderar).
Num Estado democrático e laico, os pensamentos religiosos e políticos devem ser livremente debatidos e opiniões divergentes devem ser respeitadas. Acreditar, porém, que existam argumentos neutros é pura falácia. A língua não é um instrumento promotor de ideologia, ela é ideologia, é vida. E isso não é um mal, é uma característica, da mesma natureza que o respirar. É redundante, portanto, dizer que alguém se comunica ideologicamente por meio da língua.
Em celebração ao dia da língua, tento mostrar que ela é assunto muito mais interessante - sério e necessário - do que fazem parecer os simples lamentos de que a mal tratamos com concordâncias equivocadas. Não defendo equívocos normativos - em cerca de doze anos de ensino fundamental e médio, as escolas deveriam ter condições para corrigi-los. Mais grave, porém, é essa visão deturpada do que seja linguagem, a exemplo de como a veem os deputados de Alagoas. Infelizmente, eles não estão sozinhos.

Érika de Moraes é Doutora em Linguística, com ênfase em Análise do Discurso, pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

***Artigo originalmente publicado no Estadão Noite de 3 de maio de 2016