domingo, 16 de outubro de 2011

Minha primeira entrevista

Fiz essa entrevista aos meus 12 anos, para um trabalho da escola relacionado à profissão que queria seguir. A indicação era que entrevistássemos um profissional da área de nosso interesse. E lá fui eu no inesquecível "Diário de Bauru" entrevistar um também inesquecível personagem do jornalismo bauruense. Havia marcado um horário, com ajuda da minha mãe (afinal, eu tinha 12 anos!). Cheguei com um roteirinho. Nasralla sentou-se diante da máquina de escrever e disse que iria datilografando as repostas para mim, que seria mais prático. E não posso me esquecer de que ele fez isso com uma rapidez impressionante! E sem qualquer errinho de digitação (opa, datilografia...), sem precisar voltar o texto e copiar e colar as palavras para outro lugar do papel. Saí da redação feliz da vida com as minhas laudas em mãos (que hoje mostro aqui digitadas), não sem antes ser apresentada à redação do Diário. De lá para cá, 20 anos.


Entrevista realizada para trabalho escolar

(6.ª série – Ernesto Monte)

Por Érika de Moraes

Entrevistado: Eduardo Nasralla: jornalista, então editor-chefe do “Diário de Bauru”.

1. Qual o seu nome completo?

Eduardo Nasralla.

2. Além de jornalista e editor-chefe do DB, você exerce outra profissão?

Não exerço outra profissão.

3. Por que você escolheu a profissão de jornalista?

Comecei a trabalhar logo aos 14 anos, vendendo livros. Vendi centenas de enciclopédias. Depois passei num concurso e fui trabalhar num banco. Não gostei. A rotina, a burocracia, o horário e a baixa remuneração me deixaram profundamente irritado. Saí de lá, fui para a Brahma de Agudos. Gostei e ganhei dinheiro. Entretanto, conversando com amigos jornalistas, um dia, resolvi me submeter a um teste. Fiquei três meses trabalhando de graça, até que resolveram me contratar, por salário inferior ao piso da categoria. Mas eu gostava. Acho que foi fundamental, para a carreira, a facilidade que eu tinha com o português, especificamente, nas redações escolares do ginásio e colégio. Os professores de então souberam estimular este dom e eu já estou exercendo a profissão há 13 anos.

4. Sempre no Diário de Bauru ou você já passou por outros jornais?

Iniciei no “Jornal da Cidade”, transferi-me para o “DIÁRIO DE BAURU”, onde trabalhava como repórter, das 14 às 21 horas, enquanto na parte da manhã, trabalhava com a equipe do noticioso “O Vanguardão”, da rádio Jovem Auri-Verde. Já fui, também, assessor de Imprensa da Prefeitura Municipal (durante a curta gestão do prefeito Edison Gasparini), e, depois, assumi a editoria do “DIÁRIO DE BAURU”. Saí do “DIÁRIO DE BAURU” e assumi a editoria do jornal “O Comércio de Jahu”, em Jaú; fiz assessoria de Imprensa para o vice-governador Orestes Quércia, em 86 e retornei, posteriormente, ao “DIÁRIO DE BAURU”, para assumir a editoria novamente. Já fui correspondente, em Bauru, do “Jornal da República” e tive publicadas matérias no jornal “Folha de São Paulo”, também.

5. No DB você escreve a coluna “Picles”. Por que “Picles”?

Sou o autor da coluna diária “Picles”. Resolvi escolher esse nome porque a coluna tem uma certa dose de “veneno”. Os comentários políticos ali inseridos, vez ou outra, causam “indigestão” aos políticos e, nada mais indigesto do que um vidro de “Picles”, daí a escolha do nome. Para muitos leitores, é a melhor coluna do jornal. Para muitos outros, algo que não deve ser lido. Mas isso é conseqüência da profissão: espinhos e rosas.

6. Você vai a fundo nas suas reportagens. Faz denúncias, críticas, cobra muito das pessoas no seu trabalho. Você não tem medo?

Olha, realmente eu costumo buscar a essência dos atos, dos fatos. Não me limito apenas a reportar o que está ocorrendo, mas tento transmitir ao leitor porque isto está ocorrendo. É uma tarefa árdua: num primeiro instante, surge a revolta. Depois, porém, o trabalho pode ser reconhecido. Ou não. Tem o “Caso Dedê”, como exemplo. Em 1979, época do “Crime da Igreja”, eu já apontava o envolvimento do então policial civil com o tráfico de drogas e o mundo do crime. Na época, fui tido como “inimigo” da polícia. Sofri pesadas críticas, processos, foi um inferno. Anos mais tarde, porém, consegui provar que ele chefiava uma quadrilha de ladrões de autos, usando a estrutura policial como base para acobertá-lo. O fato causou profundas remodelações nos quadros da Polícia Civil. Aí sim houve reconhecimento dos leitores, da comunidade, recebi uma infinidade de prêmios, fui homenageado com jantares. Mas a tudo isso reagi com naturalidade. Afinal, poderia ter sido apedrejado, também...

7. Então, já foi criticado por ser muito verdadeiro?

Recebi e recebo muitas críticas. Recebo-as como recebo os elogios. São decorrentes. O bom jornalista de hoje pode ser o péssimo de amanhã, dependendo dos interesses em jogo. Ouço as críticas e vou dormir com elas. Reflito, faço auto-análise. Eu erro também. Recebo os elogios e faço auto-análise. Às vezes, apesar de elogiado, eu chego à conclusão de que ainda deixei algo a desejar.

8. Suas matérias costumam repercutir muito, como a que você fez com o arquiteto Jurandir Bueno Filho. Existe uma matéria que marcou muito na sua carreira de jornalista?

O “Caso Dedê” marcou profundamente a minha carreira. Aquilo afetou até a minha vida familiar. Recebi ameaças, as crianças iam para a escola sob vigilância policial, alguns policiais me olhavam torto e fui processado por sete vezes pelo policial envolvido, que não se conformava em ser chamado de “chefe de quadrilha”. Hoje o policial está preso, cumpre pena de quatro anos, que pode ser ampliada e consegui comprovar todas as denúncias que haviam sido formuladas pelo jornal. As reportagens denunciavam os fatos antes das próprias investigações policiais. Este foi o caso que marcou minha carreira, pelo perigo, pelo árduo trabalho realizado e pelo final.

9. Fale alguma coisa sobre a economia e a política brasileira. [transição dos anos 80 para os 90]

O momento político que o país atravessa é grave. Estamos numa fase de transição, saindo da ditadura para a democracia. Existem sérios problemas de natureza econômica, como a inflação que corrói salários e descontrola a economia, herdados de um regime que se instalou no poder à força. Temos, porém, uma nova Constituição, uma esperança de melhores dias e temos que lutar para enfrentar as dificuldades, nunca perdendo de vista a necessidade de darmos sustentação ao regime democrático, às eleições. O povo pode votar errado, como já disse o Pelé, mas é só votando que ele aprende. Não ao retrocesso, eu diria.

10. Em tudo que fazemos precisamos aplicar umas “gotinhas de amor”. Você concorda comigo ou acha que amor é coisa só da juventude?

O amor é essencial a tudo. Nem sempre a gente consegue dosar isso ou transmitir isso. Mas o amor é a alavanca de uma série de coisas. Houvesse mais amor no mundo, Lennon não teria sido assassinado, os Estados Unidos não teriam arrasado com o Vietnã, enfim, faltou amor. O mundo vive, hoje, uma crise de diálogo. É a era da televisão, da informação veloz, do pouco espaço para as conversas em casa, enfim, da crise da comunicação entre os homens. Amor é coisa de jovem, diriam alguns, mas é mais notado entre os velhos.

11. Admiro muito a sua carreira e a sua coragem. Você aconselharia outra pessoa a seguir sua profissão?

É lógico que eu aconselharia, muito embora deva advertir que não é uma profissão das mais rendosas. É uma profissão que não tem horário de trabalho definido. Você trabalha em casa, recebendo uma informação por telefone ou uma visita fora de hora. Você trabalha mais horas do que qualquer outro trabalhador e, nem por isso, ganha fortunas. É apaixonante, porém, poder colaborar com outras pessoas, fazer algo pela comunidade, conviver com pessoas dos mais variados segmentos, enfim, é uma carreira apaixonante. Alguns requisitos são necessários, porém: apurar a gramática, ter uma redação clara, apegar-se à verdade e saber transmiti-la, pelo rádio, jornal ou televisão.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

La isla bonita


Quem circula pela vida acadêmica sabe que publicações são muito importantes para o currículo. Melhor ainda quando dá para unir necessidade com prazer, escrevendo sobre algo que nos apaixone. Assim foi com meu artigo sobre Pagu. Assim foi durante os 5 anos em que estive grávida de minha tese (tá, com algumas crises de desinspiração). Assim foi com minha reportagem sobre a Noruega (trechos aqui e aqui e também aqui). E assim é poder unir cultura pop com teoria séria.
Por isso, esse meu novo artigo, com análise de clipe de Madonna, tem gostinho de estudo com paixão. E creio que paixão é assim, algo mais quali do que quanti (só que o mundo é quanti, né colega Vítor!).

De qualquer forma, aí está meu mais recente artigo, apresentado no Confibercom 2011 (Eca/USP) e agora aqui publicado:

http://confibercom.org/anais2011/pdf/110.pdf


Nele, analiso a imagem do sentido-sujeito Madonna e a representação que faz da América Latina em La Isla Bonita, com respaldo em estudos culturais e na Análise do Discurso francesa, dialogando com o Círculo de Bakhtin. Complexo? Superpop, rss...

Também apresentei neste ano uma análise de "Like a Prayer", em Assis (aguardando publicação).

E assim vou. Circulando pelo pop e pelo crítico. Sem preconceitos, como acredito que deva ser a comunicação. Quebrando (ou tentando quebrar) alguns tabus.
Um dos elogios mais legais que ouvi este ano foi de uma aluna que me disse que se surpreendeu pela professora ter um blog de moda (o irmão deste).
Sou apaixonada pela AD, teoria densa e ampliadora de visões de mundo, o que não quer dizer que meus ícones sejam apenas os óculos, os livros e a má postura diante do computador (um estereotipinho de professor, não?). Só posso ser feliz com AD+balé+amor+livros+lazer+viagens+etc.+etc.+etc. (...). O mundo deveria ser mais quali. (Slow Science já!!!).
Quando estudo-escrevo-teorizo-analiso, é com paixão e seriedade. Só acredito que o mundo deveria girar de um jeito que o horário comercial desse conta do trabalho.
Mas la isla é bonita!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

estilo FASHION mix

Um convitinho...

... pra você dar uma passada no blog irmão (caçula) do Liquimix:

estilo FASHION mix







Anote:
http://www.estilofashionmix.blogspot.com

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Meu naufrágio no Submarino.com





O PrtScn acima se refere a um e-mail promocional do Submarino.com que recebi no dia 6/4/2011, anunciando frete grátis nas compras de livros acima de R$ 29,00 realizadas naquele dia.
Comprei um livro acima desse valor (R$ 30,90), em 6/4/2011, portanto teria direito ao frete grátis. Mas, no fechamento do pedido, houve cobrança do frete (R$ 5,49) por erro de sistema. Por chat, fui orientada a solicitar reembolso do frete. Como estava precisando do livro, aceitei finalizar a compra, pagar e solicitar o reembolso.
Em seguida, vem uma novelinha:

CAPÍTULO 1
- mandei e-mail relatando o ocorrido, citando a oferta recebida por e-mail
- recebi resposta com as políticas gerais de frete do Submarino.com, avisando que o valor de meu pedido não entrava nessas políticas (foi desconsiderado que se tratava de um frete promocional).

CAPÍTULO 2
- Escrevi tentando explicar o ocorrido novamente.
- Em 6/6/2011, recebi a seguinte resposta

Olá Erika,

Em atenção ao seu contato referente ao pedido 193026647 , informamos que não foi possível localizar a promoção mencionada em seu contato.

Sendo assim, pedimos gentilmente que nos encaminhe o print promocional recebido para vale.submarino@submarino.com.br e outro de confirmação para promocoes@submarino.com.br para que possamos realizar as verificações necessárias.

Informamos que não visualizamos arquivos em anexo.

Assim que nos encaminhar ligar no telefone 4003-5544.

Aguardamos seu retorno e nos colocamos a sua disposição!

Atenciosamente,

DIANE CONCEIÇÃO
Promoções Submarino
www.submarino.com.br


CAPÍTULO 3
- Até aí já deu para cansar a paciência, não?
Céus, como eu poderia ser mais clara, se havia encaminhado o próprio e-mail com a divulgação do frete grátis naquele dia?
Afinal, meu tempo perdido já custou bem mais caro. Então, mandei um e-mail menos simpático:

Prezada Diane,

Em resposta ao e-mail abaixo, pergunto:
o e-mail que repasso abaixo não é suficiente como "prova"? (já o fiz anteriormente)
Não me importo com os 6,00 reais de frete cobrados indevidamente (já que comprei através de um e-mail - repassado abaixo - que prometia frete grátis acima de 29,00). Mas me importo com o RESPEITO AO CLIENTE.
Não tenho mais tempo para resolver isso.
Se o Submarino desejar manter a credibilidade, por favor, me liguem (eu não vou ligar, pois já enviei vários e-mails).
Att.
Érika - (deixei número do telefone)

E olha como até fui legal: ainda reencaminhei, novamente, a oferta que o Submarino.com não consegue localizar.


CAPÍTULO 4
Nada de o Submarino.com esforçar-se para recuperar a credibilidade. E olha que eu esperei um bom tempo antes de escrever este post.

Seguinte: não estou chateada por uns poucos reais. MAS RESPEITO AO CLIENTE NÃO TEM PREÇO.

Creio que o leitor já entendeu. Não sou eu que vou ficar provando ao Submarino.com que eles me devem mais do que 5,49: devem respeito.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Direitos da Mulher!

Artigo meu no JC de hoje, 30/6/2011.
O fato ocorreu nesta semana.
Érika

30/06/2011
Direitos da mulher
O Brasil acaba de reconhecer legalmente o casamento homossexual e ainda possui tantas marcas de desigualdade de gêneros. Deparei-me com uma delas ao comparecer ao Poupatempo com a simples finalidade de atualizar meu RG, que ainda era o de adolescente. Entreguei toda a documentação e, para minha surpresa, o atendente rasurou o meu RG antigo (antes mesmo que eu tivesse o novo em mãos). Perguntei o porquê: “é um procedimento padrão”, ouvi. Com espanto, argumentei: “mas meu marido renovou o dele há uma semana e não houve rasura. Qual a explicação?” O atendente chamou a supervisora que, meio constrangida, deu a explicação: “Porque você é mulher. Nosso Código Civil mudou - atualmente, tanto o homem quanto a mulher podem ou não alterar o sobrenome ao casar. Mas nossas regras ainda são antigas”.

Não importa o fato de querer ou não preservar um RG de adolescência (irrisório, diante de problemas da vida), mas fiquei chocada com o simbolismo em questão. Não alterei meu sobrenome. Respeito a escolha de cada um(a), mas não compreendo gestos de mão única se os sentimentos se vivem a dois. Amar não é mudar de identidade. Acho lindo o sobrenome de meu marido, Schiavone, mas sou simplesmente Érika de Moraes, aquela que ele escolheu amar e vice-versa. Somos casados no civil e religioso, sob o testemunho das sábias palavras de Padre Beto: “O amor não é a fusão de duas metades, mas é a aproximação de dois inteiros.” (Relato do casamento em meu blog: http://liquimix.blogspot.com/2011/02/e-nos-casamos.html).

Relevo muitas coisas: pessoas duvidarem de que sou casada devido ao sobrenome pequeno (e daí?), outras me julgarem por eu ser casada e não ter batedeira em casa. Podem rir, é cômico mesmo: qual a relação entre amor e batedeira? Mas não vou deixar de relatar, no intuito de despertar a atenção da sociedade, o que ouvi: “Porque você é mulher”. E ouvi mais: “Se seu marido comparecesse aqui com a certidão de nascimento, esta seria aceita. No seu caso, apenas a de casamento.” Ora, como isso seria possível, se o cartório reteve a certidão de nascimento de ambos ao substituí-la pela de casamento? Qual a lógica da diferença no aceite da documentação, se, hoje, meu marido e eu carregamos o mesmo número de registro civil?

Meu tema efetivo não é papel, mas a dignidade dos gêneros. Minha tese de doutorado abordou os discursos sobre a mulher. Em vários congressos nos quais apresentei trabalhos, ouvi: “Mas a sociedade mudou”. Mudou mesmo. A mulher conquistou o direito de votar (o que é historicamente muito recente) e temos uma Presidente eleita. Mas os ranços se revelam nos pequenos gestos simbólicos e esses ainda têm muito a evoluir.

No meio profissional, sou cercada por mulheres fortes e líderes. E ainda mães. E ainda belas. Mesmo assim, na sociedade, percebo o quanto uma atitude sensível é desprestigiada diante de uma racional, como se o modelo de perfeição devesse ser relacionado ao padrão supostamente masculino. Por muitos momentos, tive o ímpeto de defender a licença-paternidade de pelo menos um mês, para que o homem também pudesse usufruir desse momento em família, como ocorre em alguns países. Mas encontrei um contra-argumento prudente em Susan Pinker (O Paradoxo Sexual, Editora Best Seller): no exemplo acadêmico, mulheres em licença amamentam e cuidam dos filhos, enquanto homens aproveitam esse tempo para publicar artigos e livros, o que só aumenta a desigualdade.

Nossa sociedade não está preparada para a igualdade. Sugiro atenção às regras sociais arbitrariamente constituídas. Se você, mulher, é aprovada em concurso público, pode lhe ser solicitado um exame de papanicolau para admissão; pergunte se ao homem será exigido o exame de próstata. Quantas rasuras ainda serão necessárias para que as identidades de homens e mulheres sejam reconhecidas em suas especificidades, mas equivalentes em termos de direitos e deveres?



A autora, Érika de Moraes, é jornalista e doutora em Linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL/Unicamp), tendo defendido a tese “A representação discursiva da identidade feminina em quadros humorísticos”. Tese disponível para download: http://migreme.net/1c1v
Érika de Moraes

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Citação e destacabilidade

Artigo meu no "Jornal da Cidade" (Bauru)
Edição de 2/6/2011

Também disponível no link:

http://www.jcnet.com.br/busca/busca_detalhe2011.php?codigo=208771


Citação e destacabilidade

Os conceitos expressos no título deste artigo são de Dominique Maingueneau, um dos mais atuais Analistas do Discurso. Alice Krieg-Planque, outra autora francesa, também teoriza sobre atividades profissionais que favorecem a destacabilidade de enunciados e, entre elas, sem dúvidas, está a imprensa. Um exemplo prático: uma manchete de abril de 2010 foi “Ministro da Saúde recomenda sexo contra hipertensão”. No interior da matéria, o enunciado contextualizado: “Dancem, façam sexo, mantenham o peso, façam atividades físicas e, principalmente, meçam a pressão”. Ou seja, sexo foi um dos itens recomendados pelo Ministro, não o principal (na construção do enunciado, medir a pressão tem peso maior), mas foi aquele destacado no título, pelo inusitado. Os títulos jornalísticos estão entre o que Cremilda Medina chama de Apelos Verbais. Até aí, nada grave, desde que o público entenda que esse funcionamento da imprensa pode favorecer a manipulação.

Foi o que ocorreu com a polêmica sobre o livro didático Por uma vida Melhor, aprovado pelo MEC. A partir de matéria do Portal IG, intitulada “Livro usado pelo MEC ensina aluno a falar errado”, o livro se tornou o novo Judas e apanhou de quase todo mundo. Boa parte da sociedade se indignou com o fato de um livro supostamente propor o ensino do “português errado”. Frise-se aqui o óbvio: jamais alguma coisa parecida com “ensinar o português errado” foi autorizada pelo MEC ou dita pelo livro. O que os parâmetros curriculares propõem é reconhecer a variação linguística e, a partir disso, ensinar o português padrão. A imprensa basicamente leu e divulgou uma única página do bendito livro. Sabe o que o restante do livro traz? Inúmeros “exercícios que pedem a conversão de formas faladas ou informais em formas escritas e formais”, segundo o professor Sírio Possenti, no excelente artigo “Analisar e opinar. Sem ler”, publicado no Estadão em 22/05/2011. No entanto, quase todo mundo repetiu e polemizou não o livro, mas o discurso a que a imprensa deu destaque. E tamanha má interpretação é bem mais grave do que erro de norma padrão (prefiro este termo à “norma culta”, por oposição à inculta).

Os estudos de variação linguística são antigos. Investiguem-se, no Brasil, as obras de Marcos Bagno e Magda Soares, por exemplo. Também recomendo fortemente que se leiam gramáticas. Frise-se: gramáticas, não manuais resumidos (uma sugestão: Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra). Assim, será possível entender melhor o funcionamento da linguagem. Não pretendo convencer ninguém a respeito da variação linguística em um pequeno artigo. Como linguista, por um lado, não me cabe julgar se uma forma de expressão é bonita ou feia, por outro, compreendo a língua como algo muito mais complexo do que um conjunto de regras de norma padrão. Parafraseando o professor Sírio Possenti, um botânico não deixaria de catalogar uma planta porque não a achou bonitinha. Como profissional, cabe-me utilizar e cobrar a norma padrão, oficial (meus alunos sabem que sou exigente com isso).

Também recomendo o texto “Jornalistas com deficit de letramento”, escrito pelo professor Weden e veiculado no blog de Luis Nassif. Há outros artigos circulando e alguns que continuam brigando com o enunciado destacado, sem entender (por má fé? Por incompreensão?) que se trata de destacabilidade ou de um simulacro (um outro conceito de Maingueneau: para os curiosos, indico “Gêneses do Discurso”, “Cenas da Enunciação” ou o mais recente “Doze conceitos em AD”). Espero ter contribuído um pouco, sem ter ofendido ninguém. Sugiro: leia o máximo que puder e tire suas próprias conclusões. Porque há mais coisas interessantes e aprofundadas para se estudar em relação à linguagem do que sonha a vã filosofia.


A autora, Érika de Moraes, é jornalista, mestre e doutora em linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp, e docente da Universidade Sagrado Coração, Bauru - e-mail: erika.moraes@usc.br
Érika de Moraes

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Mais dados

Mais um link sobre a polêmica do livro didático:
(artigo do prof. Sírio Possenti no Estadão)
http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,analisar-e-opinar-sem-ler,722479,0.htm

Reproduzo, abaixo, manifesto da Abralin
Associação Brasileira de Linguística


Língua e ignorância

Nas duas últimas semanas, o Brasil acompanhou uma discussão a respeito do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC. Diante de posicionamentos virulentos externados na mídia, alguns até histéricos, a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA - ABRALIN - vê a necessidade de vir a público manifestar-se a respeito, no sentido de endossar o posicionamento dos linguistas, pouco ouvidos até o momento.

Curiosamente é de se estranhar esse procedimento, uma vez que seria de se esperar que estes fossem os primeiros a serem consultados em virtude da sua expertise. Para além disso, ainda, foram muito mal interpretados e mal lidos.


O fato que, inicialmente, chama a atenção foi que os críticos não tiveram sequer o cuidado de analisar o livro em questão mais atentamente. As críticas se pautaram sempre nas cinco ou seis linhas largamente citadas. Vale notar que o livro acata orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) em relação à concepção de língua/linguagem, orientações que já estão em andamento há mais de uma década. Além disso, não somente este, mas outros livros didáticos englobam a discussão da variação linguística com o intuito de ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado. Portanto, em nenhum momento houve ou há a defesa de que a norma culta não deva ser ensinada. Ao contrário, entende-se que esse é o papel da escola, garantir o domínio da norma culta para o acesso efetivo aos bens culturais, ou seja, garantir o pleno exercício da cidadania. Esta é a única razão que justifica a existência de uma disciplina que ensine língua portuguesa a falantes nativos de português.


A linguística se constituiu como ciência há mais de um século. Como qualquer outra ciência, não trabalha com a dicotomia certo/errado. Independentemente da inegável repercussão política que isso possa ter, esse é o posicionamento científico. Esse trabalho investigativo permitiu aos linguistas elaborar outras constatações que constituem hoje material essencial para a descrição e explicação de qualquer língua humana.


Uma dessas constatações é o fato de que as línguas mudam no tempo, independentemente do nível de letramento de seus falantes, do avanço econômico e tecnológico de seu povo, do poder mais ou menos repressivo das Instituições. As línguas mudam. Isso não significa que ficam melhores ou piores. Elas simplesmente mudam. Formas linguísticas podem perder ou ganhar prestígio, podem desaparecer, novas formas podem ser criadas. Isso sempre foi assim. Podemos ressaltar que muitos dos usos hoje tão cultuados pelos puristas originaram-se do modo de falar de uma forma alegadamente inferior do Latim: exemplificando, as formas "noscum" e "voscum", estigmatizadas por volta do século III, por fazerem parte do chamado "latim vulgar", originaram respectivamente as formas "conosco" e "convosco".

Outra constatação que merece destaque é o fato de que as línguas variam num mesmo tempo, ou seja, qualquer língua (qualquer uma!) apresenta variedades que são deflagradas por fatores já bastante estudados, como as diferenças geográficas, sociais, etárias, dentre muitas outras. Por manter um posicionamento científico, a linguística não faz juízos de valor acerca dessas variedades, simplesmente as descreve. No entanto, os linguistas, pela sua experiência como cidadãos, sabem e divulgam isso amplamente, já desde o final da década de sessenta do século passado, que essas variedades podem ter maior ou menor prestígio. O prestígio das formas linguísticas está sempre relacionado ao prestígio que têm seus falantes nos diferentes estratos sociais. Por esse motivo, sabe-se que o descon hecimento da norma de prestígio, ou norma culta, pode limitar a ascensão social. Essa constatação fundamenta o posicionamento da linguística sobre o ensino da língua materna.

Independentemente da questão didático-pedagógica, a linguística demonstra que não há nenhum caos linguístico (há sempre regras reguladoras desses usos), que nenhuma língua já foi ou pode ser "corrompida" ou "assassinada", que nenhuma língua fica ameaçada quando faz empréstimos, etc. Independentemente da variedade que usa, qualquer falante fala segundo regras gramaticais estritas (a ampliação da noção de gramática também foi uma conquista científica). Os falantes do português brasileiro podem fazer o plural de "o livro" de duas maneiras: uma formal:os livros; outra informal: os livro. Mas certamente nunca se ouviu ninguém dizer "o livros". Assim também, de modo bastante generali zado, não se pronuncia mais o "r" final de verbos no infinitivo, mas não se deixa de pronunciar (não de forma generalizada, pelo menos) o "r" final de substantivos. Qualquer falante, culto ou não, pode dizer (e diz) "vou comprá" para "comprar", mas apenas algumas variedades diriam 'dô' para 'dor'. Estas últimas são estigmatizadas socialmente, porque remetem a falantes de baixa extração social ou de pouca escolaridade. No entanto, a variação da supressão do final do infinitivo é bastante corriqueira e não marcada socialmente. Demonstra-se, assim, que falamos obedecendo a regras. A escola precisa estar atenta a esse fato, porque precisa ensinar que, apesar de falarmos "vou comprá" precisamos escrever "vou comprar". E a linguística ao descrever esses fenômenos ajuda a entender melhor o funcionamento das línguas o que deve repercutir no processo de ensino.


Por outro lado, entendemos que o ensino de língua materna não tem sido bem sucedido, mas isso não se deve às questões apontadas. Esse é um tópico que demandaria uma outra discussão muito mais profunda, que não cabe aqui.


Por fim, é importante esclarecer que o uso de formas linguísticas de menor prestígio não é indício de ignorância ou de qualquer outro atributo que queiramos impingir aos que falam desse ou daquele modo. A ignorância não está ligada às formas de falar ou ao nível de letramento. Aliás, pudemos comprovar isso por meio desse debate que se instaurou em relação ao ensino de língua e à variedade linguística.

Maria José Foltran
Presidente da Abralin
Secretaria Abralin/Gestão UFPR 2009-2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Polêmica

Breve consideração sobre a polêmica da língua

Queridos, muitos estão solicitando um posicionamento meu sobre a "polêmica a respeito do livro adotado pelo MEC", etc. Especialmente alunos e ex-alunos, o que me deixa feliz pelo interesse. Não é possível opinar em poucas palavras, já que o assunto não se esgotaria nem mesmo em um Congresso. Assim como não se esgotou mesmo depois de tantos debates, já que essa questão não é nova, apenas entrou em moda a partir de um factual. Como Doutora em Linguística, é óbvio que compreendo a língua como algo muito mais complexo do que um conjunto de regras de norma padrão (prefiro não chamar de culta, em oposição à inculta). É óbvio também que defendo o ensino de norma padrão (meus alunos sabem que sou exigente com isso, creio). Penso que seja uma boa oportunidade para se ler Marcos Bagno, Sírio Possenti...
Não julgaria (ainda que me coubesse julgar) aqueles que compreenderam mal as colocações do livro didático, já que a minha visão, hoje, é fruto de cerca de 15 anos de estudo de Análise do Discurso de linha francesa e outras disciplinas da Linguística e, desses anos, a maior lição é a humildade de não me achar a “dona da verdade”. Aos que me acharem velha por causa dos 15 anos, justifico que me interessei pela AD já no início da graduação, rss... É, sim, mas o tempo passa e fico grata que, hoje, alguns ex-alunos me escrevam felizes por, já cerca de 8 anos antes dessa polêmica, terem discutido o Preconceito Linguístico em minhas aulas. Talvez alguns não tenham compreendido, não por falta de inteligência, mas porque é preciso coração aberto para ouvir e assimilar um ponto de vista que não é o seu próprio ou aquele defendido a ferro e fogo por visões mais conservadoras, aquele em que eu mesma acreditei quando adolescente, por pura falta de informação.
Essa é a vantagem de amadurecer. É o conforto por perceber uma leve ruga no canto do olho, mas saber que o tempo não foi em vão.
Não me debruçarei mais sobre a polêmica por pura e simples falta de tempo para dar a esse assunto a dimensão que ele merece. E por considerar que outros linguistas, de longas estradas, estão dando bem conta do recado (meu papel será mais o de indicar leituras).
Só antes gostaria de enfatizar que não é uma questão de prós e contras. Esta deveria ser a maior lição: sair desse debate de mocinhos ou vilões. Língua é questão tão complexa que, por isso mesmo, gera mal-entendidos. É necessário fazer um esforço para não compreender o ponto de vista alheio como um “simulacro” (um conceito de Maingueneau).
Espero ter contribuído um pouco com os que me perguntaram por e-mail, DM, etc., sem ter ofendido ninguém.
Que o maior número possível de brasileiros tenha acesso à norma padrão, mas que se tenha consciência de que essa norma a que chamamos de padrão é uma escolha cultural (assim como nossa sociedade escolhe usar certas roupas, de preferência de grifes). A escolha poderia ser (ou ter sido, no decorrer da história da língua) diferente, a exemplo dos franceses que escrevem “Les livres” mas pronunciam “Le livre” (ou seriam uns “caipirões” os franceses?).

Indico algumas leituras:
O posicionamento da Ação Educativa é esclarecedor:
http://www.acaoeducativa.org.br/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=2604&Itemid=2

Também o texto de Sírio Possenti, o professor tão exigente que demorou para me aceitar como orientanda no mestrado. Mas que me ensinou a pescar muitos peixes (sem nunca ter pescado um por mim) até o fim do doutorado.
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5137669-EI8425,00-Aceitam+tudo.html

(Para ver os links, copiar e colar a URL no navegador)

Só mais uma notinha (embora muito óbvia). Na página do livro malhado feito Judas não há justificativa para a manchete que suscitou a polêmica: “Livro usado pelo MEC ensina aluno a falar errado”. Frise-se: quem diz isso é o portal IG, jamais coisa parecida foi escrita por algum linguista. Do ponto de vista da comunicação, tamanha má interpretação é bem mais grave do que erro de concordância. O que se repete e se polemiza é o título da nota, não a obra em si. Meus alunos vão se lembrar do conceito de “citação e destacabilidade”, de Maingueneau. Porque há mais coisas interessantes e aprofundadas para se estudar em relação à linguagem do que sonha a vã filosofia...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Nostalgifutoria

Um poeminha meu, escrito em 2000, assim, meio blues.
Mas, quer saber? Que a nostalgia se converta mesmo em poesia e que a vida seja primavera. E tudo bem se hoje escrevo menos poemas e tomo mais capuccino no Shopping.
Na medida do possível, a literatura é algo a que tenho muita vontade de me dedicar. Sem pressa. Sem cobrança.

Nostalgifutoria

Queria
Voltar no tempo e viver tudo de novo
Viver o que não vivi?
De novo o que não vivi?
De novo o que já sofri?
Queria, mas queria.
Viveria, não sofreria, aprenderia.
Futuro do pretérito: querer impossível.
Eu queria.
Ah, se queria...

by Érika

Passou por aqui? Visite também: http://estilofashionmix.blogspot.com

sábado, 23 de abril de 2011

Sábado


Quase todos os sábados, Ronaldo e eu almoçamos, damos uma volta e fazemos uma parada na Kopenhagen, onde ele toma um expresso e eu, um capuccino repleto de chocolate. A diferença foi que, hoje, enquanto eu olhava fotos na máquina fotográfica, chegou um senhorzinho todo extrovertido e simpático e disse "xá comigo". Foi pegando a máquina e batendo esta foto, que transformou o momento em imagem.
Durante a semana, Ronaldo e eu não almoçamos juntos devido a horários diferentes. O sábado é nosso e não tem preço.

E meus coelhinhos desejam a todos uma Feliz Páscoa!

domingo, 17 de abril de 2011

Páscoa Tricolor

Um coelhinho da Páscoa tricolor já passou por aqui e deixou um ovo do SPFC, em homenagem ao meu momento "Amo Rogério Ceni - Torcedora fanática".



Amenidades num blog de assuntos sérios (Linguagem, Brasil e demais marcadores). Por isso, um Liquimix.

Ah, passe lá no estilofashiommix para ver meus sapatinhos mágicos.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Bonner-Bernardes



Sem tanto glamour, aqui em casa é basicamente uma família assim, casal de jornalistas. Ah, também tem umas joaninhas e cia. Família Moraes-Schiavone (não necessariamente nessa ordem, rsss...).

Esses adesivinhos estão dando o que falar. Facilitam sequestro? Pode ser. Já estão batidíssimos? Talvez. Incomodam? Por quê? Pudera serem só eles o problema, e não as desestruturas.

Recebi por e-mail alguns que representam tragédias, como a família Nardoni ou a do goleiro Bruno. Preferi não reproduzir no blog por se tratar de Humor Negro sobre casos sérios, embora sejam corpus válidos para análises. Mas esse corpus me fez refletir:
Serão, em alguns casos, os adesivos a representação familiar de "fachada"? (não estou generalizando).

sábado, 2 de abril de 2011

Vida Mix

Ausência não se justifica, mas não custa esclarecê-la. É preciso administrar o tempo, com boa vontade. Fato é que esta blogueira tem dois empregos e dois blogs (um só marido, ufa!). Então, às vezes, o Liquimix fica meio de lado por causa do Estilo Fashion Mix ou vice-versa. Outras vezes, os dois ficam abandonados por motivos de força maior.
Enfim, se você passou por aqui e gosta do que escrevo, convido para espiar também o

http://estilofashionmix.blogspot.com



Ele ainda é um bebezinho! E a ideia para o terceiro blog já está aqui na cabeça. Ai ai ai...

domingo, 27 de março de 2011

Papo de linguagem

Recentemente (quer dizer, no fim de 2010 - o tempo é que tem passado rápido), a jornalista Rose Araújo fez comigo uma entrevista sobre assuntos relacionados à linguagem, para a revista Na Mochila, uma publicação bacana distribuída em escolas particulares.
Gostei de participar, pois as perguntas foram instigantes e me deram oportunidade de opinar, com base no arsenal teórico que estudo, sobre assuntos repletos de "achismos" em nossa sociedade.
Como circulo entre o jornalismo e a carreira acadêmica, passo por essa peculiaridade de ora entrevistar, ora ser entrevistada. De certa forma, os dois processos se iluminam um com o outro. Com autorização da colega Rose, publico a entrevista aqui.

MAIS SOBRE LINGUAGEM NO ARQUIVO DO LIQUIMIX. MARCADOR "LINGUAGEM".





Segue na íntegra.

O que é o gerundismo?
Chama-se de gerundismo o uso indiscriminado de uma espécie de gerúndio composto, como em "vou estar escrevendo".

Como ele se propagou e se tornou tão popular?
Foi, provavelmente, a linguagem de telemarketing que o tornou popular. Alguns acreditam que tenha sido fruto de traduções equivocadas e literais de manuais em inglês, mas esta não é uma versão comprovada.

Como o gerundismo é visto pelos linguistas?
A Linguística, em linhas gerais, propõe o estudo científico da língua. Diferentemente da gramática tradicional, não trata a língua como uma questão de etiqueta ("está certo" ou "está errado"), mas procura descrever e entender os fenômenos linguísticos. Se encararmos o chamado gerundismo de forma não preconceituosa, não vamos tachá-lo como uma "praga", mas procurar entender suas razões. O que parece incomodar não é a estrutura linguística em si, mas os efeitos de sentido que essas formas carregam. "Vou estar enviando" soa como algo que demorará a ser enviado; "vamos estar resolvendo" soa como algo que nunca será resolvido. São as estratégias e artimanhas do telemarketing. O problema é o excesso. Não fossem usadas excessivamente, talvez essas construções, que eu própria chamaria de "gerúndio futuro composto", poderiam ser aceitas como um tempo verbal legítimo da Língua Portuguesa. Mas a questão é muito interessante, pois mostra que, indo a fundo, o problema não é um modo de dizer, mas os sentidos envolvidos.

Do ponto de vista semântico, o que ele quer dizer?
Por sua estrutura verbal, carrega o sentido de uma ação contínua futura. No entanto, conforme os contextos e o uso excessivo, adquiriu o sentido de "enrolação". Então, é compreensível que as pessoas o abominem. Só é preciso entender que, cientificamente, o problema não está na expressão, mas no seu uso e, principalmente, no seu uso excessivo.

O gerundismo parece não ser uma expressão do cotidiano, das conversas entre amigos ou vizinhos. Você acredita que é uma forma de "enfeitar" a linguagem?
Também é uma hipótese. Assim como, às vezes, comete-se uma "hipercorreção" - que é quando a pessoa erra se esforçando para acertar, como no caso de "houveram", uma concordância verbal incorreta do ponto de vista da norma culta, mas que pode passar despercebida e chocar menos que o gerundismo. É provável que alguns falantes explorem o gerundismo como uma linguagem empolada, rebuscada, o que é confundido com sofisticação. Nesse caso, temos um problema de estilo. Não é porque o gerundismo é um fenômeno compreensível que ele está estilisticamente liberado. Na maioria das vezes, um "vou enviar" é muito mais eficiente, objetivo e honesto do que um "vou estar enviando". Assim como, no momento da revisão de um texto, procuramos limpar palavras repetidas, checar padrões de linguagem... Ao falar, simplicidade é sempre um bom estilo.

Você cita em seu artigo que "o perigo é defender que esse tipo de construção está sempre errado". Em qual momento ele está correto?
Você me pergunta o que vou fazer durante a tarde de amanhã e eu te respondo: "vou estar preparando aulas". É uma ação contínua, passarei a tarde toda preparando as aulas. É um longo trabalho... Nesse contexto, o que propus chamar de "gerúndio futuro composto" é legítimo, não é "gerundismo" (no sentido de vício de linguagem).


Sobre a linguagem chamada internetês:


Na internet, a linguagem tem vida própria. Tanto que já ganhou nome próprio: internetês. Qual a sua opinião sobre esse estilo de escrita?
É um gênero textual como outro: a carta, o artigo, a redação jornalística, o gênero acadêmico, os quadrinhos. Talvez possa se dizer que é o gênero mais popular da atualidade.

Você acha que ele é prejudicial à língua portuguesa?
Não, não acho. O que é prejudicial à Língua Portuguesa são as falhas da Educação, a começar da básica. A linguagem da internet é mais uma possibilidade para o professor trabalhar em sala de aula, propor o debate, instigar a reflexão sobre língua. É importante ressaltar que o aluno precisa dominar todos os outros gêneros. Ele deve utilizar a linguagem de internet na internet, ou até ficaria excluído do grupo. Mas ele precisa dominar os outros gêneros, o que deve ser exercitado na redação escolar, mas também através de leituras e de incentivo dos pais. Se a maioria dos estudantes chega ao fim do ensino médio sem dominar a escrita, não é culpa do tal internetês. É uma falha da educação (escolar e familiar). Presenciei (e presencio) muito de perto os problemas de escrita da juventude em minha experiência como professora e corretora de redação de vestibulares e Enem. O pesquisador Sírio Possenti, da Unicamp (que foi meu professor e orientador) costuma lembrar que, nos seus tempos de juventude, sempre fazia anotações rápidas e resumidas (algo parecido com um internetês antes da geração web, um "rascunhês"), nem por isso esse se tornou o seu texto padrão. São linguagens diferentes. Só que o estudante não pode dominar só a linguagem de internet. A escola e a família precisam estimulá-lo a dominar os mais diversos gêneros textuais.

Você acha que os pais devem temer o internetês?
Não há motivo para temor. Os pais precisam temer as falhas da educação brasileira, que levam uma população a eleger o Tiririca. Não dá para falar de língua sem falar de política e sociedade! O grande pecado do Lula não é ter - ou ter tido - algumas falhas com o português padrão. Mas Lula tem uma história política convincente, é um estadista respeitado mundialmente. Mas não vou justificar que ele defenda o Tiririca. Que história política tem o Tiririca? Porém, a culpa nem é de Lula ou de Tiririca. É da sociedade. A sociedade precisa lutar por uma educação melhor para o país. E não vamos colocar a culpa no internetês ou no gerundismo... Se tiver algum "culpado linguístico", seriam mais os puristas, que acreditam que ensino de língua se resuma a “decorebas” de norma padrão. Ensino de língua deveria incluir discussões de temáticas sociais visando um domínio amplo de redação. Tem tudo para ser algo lúdico, divertido, prazeroso, podendo ganhar o respeito e o interesse das crianças e jovens. O domínio das normas deveria ser uma consequencia. Todo mundo deveria ler Marcos Bagno (Preconceito Linguístico, A Língua de Eulália, A Norma Oculta, etc.). Mas tem que ler sem preconceito para entender a proposta.

Como os pais e professores podem usar esse estilo de escrita para ensinar a língua portuguesa?
Reforçando a questão de que cada gênero corresponde a diferentes circunstâncias. Explorando o lado lúdico. A criança ou o jovem pode, por exemplo, ser instigado a escrever um pequeno livro em que misture linguagem convencional com linguagem de internet, esta última em e-mails que a personagem escreva no decorrer da história. Pode-se inspirar no modelo da ótima série de livros para adolescentes, "Poderosa", de Sérgio Klein, que utiliza recursos desse tipo. Uma leitura sugerida, aliás.

Sobre o uso correto da língua portuguesa em casa:


Quando a criança conjuga verbos de uma maneira errada (troca "eu sei" por "eu sabo", por exemplo), como deve ser a postura dos pais?
Como em outros casos, a postura deve ser sempre carinhosa, mas a correção deve ser feita, desde a primeira ocorrência. Sugiro algo como "repete com a mamãe/o papai: eu sei". Sempre com muitos sorrisos e carinho! Se a criança for pequena, ela pode cometer o mesmo erro outras vezes, e a atitude deve ser sempre a mesma, até a criança gravar a forma correta. Jamais dizer em tom agressivo algo como "É ‘eu sei’! Eu já te falei!". Jamais desprestigiar a criança, prejudicar a sua autoconfiança e suas descobertas na busca por ampliar vocabulário pela tentativa e erro. Os pais precisam ter consciência de que uma criança que diz "eu fazi" é inteligente, e não burra. Veja só: sem ninguém ensinar, ela faz uma associação natural com a língua: eu parto/eu parti; eu como/eu comi; eu faço/eu fazi. Ela aprende uma regra, o que é louvável, e precisa ser ensinada, aos poucos e com carinho, que as regras têm exceções. Precisamos deixar a criança questionar a língua, como em Marcelo, Marmelo e Materno: por que se chama faca e não cortador? Assim, ela aprende que, em língua, existem funcionamentos organizados, mas também convenções.

A partir de qual idade é possível corrigir a criança quanto ao uso correto da língua portuguesa?
Como eu disse, sempre que a criança pronunciar algo incorreto do ponto de vista padrão, é legal repetir a forma correta, desde a primeira vez que aconteça. Sempre com carinho, sem exigências. Se a criança for pequena e não quiser repetir a forma correta, não tem problema. Com o tempo, ela vai compreender. Quando eu era muito pequena, insisti com a minha mãe que o programa do Jô Soares se chamava ‘Vivo ou morto’ e não ‘Viva o Gordo’. Vivo ou morto era uma brincadeira que eu conhecia, fazia parte do meu repertório, das minhas referências infantis. Minha mãe não conseguiu me convencer, então, deixou o tempo passar. Com o tempo, talvez quando aprendi a ler, entendi. É uma história engraçada para mim. Poderia ser um trauma se minha mãe me repreendesse por não saber o nome correto do programa.

Quando a criança está formando o vocabulário, é normal que ela invente palavras ou erre na concordância. Muitos pais acham bonitinho o erro e não corrigem. Qual a sua opinião sobre isso?
Muitas vezes, o erro é uma solução criativa para a língua. A criança não deve ser podada, especialmente quanto às palavras inventadas. É assim que surgem os neologismos, além de ser uma forma de explorar o lúdico. Mas é importante apresentar à criança a forma convencional. Se a criança chamar a colher de comedor, dá para brincar com a situação: ‘verdade, a gente usa pra comer, mas ela se chama colher’. Dependendo da idade, a criança vai perguntar por quê. Podemos até dizer que há coisas na vida que não têm muita explicação, que alguém inventou assim e a forma pegou. E, em língua, muitas vezes é isso mesmo.


Entrevista por: Rose Araújo.
Fonte: Érika de Moraes, Doutora em Linguística pelo Instituto de Estudos de Linguagem (IEL) da Unicamp.

sábado, 12 de março de 2011

Think different!


Pegada de quê? Adulto, criança, gato ou macaco?

Uma animada colega, agrônoma cheia de garra chamada Gisele, que foi comigo à Noruega, costumava dizer que não perdia tempo lavando roupa na mão, botava tudo na máquina. Ah, o que menos tenho nessa vida é tempo sobrando, mas morro de dó de estragar minhas peças mais delicadas com rendinhas e afins (sorte que minha mãe me ajuda muito, até hoje, a conservá-las!). Essa minha mesma colega faz movie maker e tem paciência de montar caprichosamente belos álbuns personalizados de fotos, tipo scrapbook, coisa que muita gente acharia perda de tempo. A queridíssima amiga Fá, por exemplo, que mora em Brasília, não se conforma que eu faço agenda e, um dia, me perguntou se eu jogava fora quando acabava o ano (imagine!!! Rsss). Já a Fer Moraes, outra mulher trabalhadora e ocupada, gosta de cuidar das roupas à mão, para conservar as peças mais queridinhas, e tem incrível talento para artesanato.

Moralzinha da história: cada um valoriza o tempo de uma forma diferente, e certas coisas têm valor especial a depender do olhar da pessoa.

O tempo. Eu adoro tê-lo, mas não para ficar à toa. E há coisas que me passam a sensação de tempo inaproveitado, tipo baralho ou mesa de sinuca - claro, para muitas pessoas, isso é divertidíssimo e eu respeito. Para mim, leitura é uma das melhores formas de fazer render o tempo. Também um bom filme ou uma dança.

Tudo depende do ponto de vista. Certa vez, Ronaldo deixou o carro no estacionamento/lavacar e os funcionários ficaram se perguntando:
- Mas essa marca no vidro parece pegada de macaco!
- Imagine, tá louco! Quem é que vai ter carro com pegada de macaco? Deve ser gato ou criança...

Rolou praticamente uma aposta por lá.
Era pegada de macaco. Tínhamos ido ao Simba Safári, em São Paulo - como diz a propaganda do Omo, a vida é para se sujar um pouco. Se o primeiro apostador não tivesse pensado no improvável...
Ou seja, melhor pensar duas vezes antes de rir do ponto de vista alheio.


Quando a apple chegou, computador deixou de ser muito bege.

sábado, 5 de março de 2011

Em transição lunar


[imagens da web]

Desde pequena, por indicação de uma cabeleireira, corto cabelo na Lua Nova. Não é uma questão de vida ou de morte, mas, como cabelo é algo que dá para esperar (até porque os meus estão quase sempre longos, ondulados e esvoaçantes), penso que não custa nada e criei uma ideologia própria: sei lá, na Lua Minguante pode ficar minguado; na Cheia, ainda mais cheião; na Crescente, crescer rápido e frágil. Se a Lua influencia as marés, não é?...

Pois, conversando com a minha amiga Vitória, jornalista e mui conhecedora de Astrologia, ela pesquisou a minha Lua Natal. E me disse que, além de ser aquariana, com ascendente em Sagitário e Lua em Leão (quem conhece um pouco da Astrologia, sabe que esta é uma combinação bem louca-rebelde-desvairada-libertária-totalcrazy... não fosse uma Vênus em Capricórnio segurando as pontas!), nasci num dia de transição lunar, da Crescente para a Cheia. Assim, essa transição lunar é a minha "Lua Natal".

Se mulheres já são de fases, imaginem uma nascida em transição!

Segundo a Vi, "reza a lenda" que cuidados com a beleza (corte, hidratação, etc.), quando feitos na Lua Natal, dão resultados mais satisfatórios. E é claro que eu fiquei doida para experimentar!!! Assim, estou bem propensa a guardar no armário, ao menos por uma vez, a minha lenda lunar de infância para vestir a roupa de festa da Lua Natal. A espera de 18 de março... No mínimo, vale pelo lúdico.



Eu, astrologicamente, na leitura da Vitória
(em resposta à minha pergunta sobre por que eu não voava de asa-delta, tendo os signos solar e ascendente que tenho. Se bem que construí asas e tentei voar aos cinco anos (me ralei e culpei os EUA por terem inventado o desenho do Homem Pássaro).
(e vai nas palavras dela - que é um doce! - para ninguém achar que sou pretensiosa, rss...)

"Não é a sua Lua que está num signo mais calminho e sim boa parte do seu ascendente. Você tem o Sol em Aquário e o ascendente em Sagitário, mas ele fica nos últimos graus e pertence ao terceiro decanato, por isso, a sua Casa 1 é quase que integralmente no signo de Capricórnio, o que segura um pouco os ímpetos. Você nasceu num domingo, dia regido pelo Sol, por isso, sua personalidade é bem "solar", digo, expansiva. A Lua estava na fase crescente e no signo de Leão, portanto seu signo Lunar também é regido pelo elemento Fogo e esses detalhes também reforçam seu lado mais dinâmico, extrovertido e seu magnetismo pessoal. Mais uma curiosidade: você nasceu num ano de Júpiter, por isso, deve ser generosa, alto-astral e otimista.
Mais umas coisinhas que podem ser interessantes para você saber:
Sua Vênus é capricorniana e está na Casa 1, sinal de que você é bem vaidosa e gosta de cuidar da aparência nos mínimos detalhes, mas também é rígida consigo e as vezes não fica contente com a sua imagem. Você atrai homens com temperamento Terra, ou seja, mais realistas, responsáveis e que têm os pés no chão. {P.S. da Érika: não é que esse é o Ronaldo???}
Seu Marte está em Gêmeos, na Casa 6, tornando você um pouco impulsiva e apressada para fazer as coisas no trabalho, mas é dinâmica e está atuando numa área que tem tudo a ver com o signo que rege o trabalho em seu Horóscopo: Gêmeos. Você pode se interessar por caras que se parecem com o perfil geminiano - inteligentes, bem relacionados, conversadores e que estejam sempre em sintonia com tudo o que acontece no mundo. Você se sente atraída por signos do Ar. {P.S. da Érika. Para casar é Terra que não sou boba nem nada!!! Rss...}
Na pontuação dos elementos, seu mapa está assim:
FOGO = 6 pontos
TERRA = 4 pontos
AR = 4 pontos
ÁGUA = 2 pontos
Isso significa que o seu padrão de comportamento e seu tipo psicológico predominante é o Fogo, força Yang, que lhe dá muita energia para tudo. Você é confiante, age pelo instinto, não tem medo de se arriscar em situações novas e gosta de viver tudo com muita paixão. Seu segundo elemento é Terra, com 4 pontos, o que poderia refrear um pouco a sua porção impetuosa, mas na soma dos elementos Ar e Fogo, que são da mesma polaridade (Yang) são mais fortes, por isso, você é ATIVA e não receptiva. De Água, tem pouco, apenas 2 pontos e isso pode denunciar até uma certa dificuldade de expor suas emoções, pois esse elemento é a representação do sentimento."

Valeu, Vi!!!

Bom, esta sou eu astrologicamente. Mas, como dizem os cientistas, também tem a genética, o ambiente, a TPM...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Meu potinho de flores


Na verdade, é um potinho de pétalas. Pétalas de flores graciosas de momentos doces da minha vida. Começou com pedacinhos do meu buquê de noiva. Uma a uma, novas pétalas foram surgindo em aniversário de vida, de casamento ou num dia qualquer, surpresa meiga. Sempre vieram acompanhadas do carinho do Ronaldo.
Gosto de flores, apesar de achar triste o fato de que elas murcham. É a vida. E o potinho foi um jeito que encontrei de guardar um pouco delas, consciente de que as melhores lembranças estão ali dentro dos meus pensamentos. Esse potinho também me lembra uma metáfora de vida, cultivo de amor.

Já que falei de como foi meu casamento no post anterior e, aqui, continuo a falar de amor, seguem mais algumas palavras memoráveis do Padre Beto.

Citando trechos marcantes da I carta de João ("Amemo-nos uns aos outros"; "Quem não ama não chegou a conhecer a Deus, porque Deus é amor."), Padre Beto chama atenção para uma ideia significativa: "Ninguém jamais viu a Deus". Muito tempo se pode gastar tentando entender o que é Deus (ou quem é, se é o não é...). Independentemente de crenças, Deus existe discursivamente, há o repertório de Deus na sociedade. Mas, para muito além disso, Padre Beto, naquele dia especial, nos chamou a atenção para o fato de que, se não podemos ter a vivência visual de Deus, "somos capazes de experimentá-lo através da experiência do amor", de modo que o amor nos aproxima de Deus, independentemente de sabermos defini-lo (seria "Lo", mas creio que não seja respeito linguístico o que falte a este mundo). "Deus, através da experiência concreta do amor entre duas pessoas, começa a fazer presença entre nós", diz Padre Beto. Entre outras palavras:

"Cuidem do amor que surgiu entre vocês. O amor vai precisar de tempo, de um local exato. Deverão dedicar um espaço e um tempo ao sentimento que surgiu entre vocês".
Cuidamos, assim como do potinho de flores, mesmo precisando driblar a falta de tempo.
"Casar não é somente amor. É também sinal de coragem, de fé na vida."


Padre Beto teve a delicadeza de celebrar por nós uma cerimônia realista, "antenada", poética, sem resquício de machismos. Mesmo assim, ficou uma brincadeirinha entre nós (Ronaldo e eu). Há um trecho padrão a ser lido que fala sobre a esposa "adornar o lar". Vez ou outra, Ronaldo me traz, então, uma florzinha para adornar o lar junto comigo. E, justamente por ter muitas atividades fora de casa, por não ser uma obrigação ficar em casa, adoro quando tenho um tempinho (raro) para... não necessariamente adornar, mas curtir o lar.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

E nos casamos...

... em um mês.

Namorávamos há 8 anos, desde o segundo ano da faculdade de Jornalismo, na Unesp de Bauru. No meio desse tempo, ficamos um tempo “dando um tempo”. (Namoro longo... tem que ver se é para casar...) Só que o amor era sólido, amor de verdade, muito mais do que paixão. E resolvemos financiar um ap. Era um bom negócio, tínhamos juntado, em contas separadas, uma graninha legal para a entrada e terminaríamos de pagar em apenas 5 anos (que já se passaram!). Nada melhor do que começar a vida a dois sem aluguel. Entregue o apartamento, fizemos umas reforminhas para personalizar (textura na parede, armários planejados etc.). Como já tínhamos lugar para guardar, fomos comprando móveis e começamos a pensar na decoração (persianas etc.).
Em janeiro de 2005, já estava praticamente tudo pronto, só faltava um detalhe: e aí, o que iríamos fazer, casar ou simplesmente morar juntos?
Na nossa cabeça, havia uma data: fevereiro. Não queríamos uma festa sofisticada. Investimos nosso dinheiro no ap. Eu, Érika, tampouco me identificava com o corredor enorme de uma igreja e eu entrando com aquela calda e aquele vestido enorme que mais pareceria o bolo da noiva. Eu, uma mulher independente, cursando doutorado em Campinas, além de trabalhar para lá e para cá, dando aulas, fazendo correções em vestibulares e alguns freelas como jornalista. Eu, ainda por cima, uma pesquisadora de discursos sobre mulheres. Com todo respeito, não aceitaria a hipótese de “ser entregue” das mãos de um homem para outro, como manda o ritual, simbolizando a submissão da mulher (claro, cada um enxerga a sua simbologia).
Mas, enfim, sentíamos que faltaria uma data, uma foto, uma lembrança para eternizar. Então... tive a ideia de conversar com o Padre Beto, aqui em Bauru, para pedir uma bênção de casamento. Expressei minhas críticas em relação à igreja (resumidamente, para mim, amor eterno não se jura, se constrói no dia a dia). Ele propôs um matrimônio. Explicou que o ritual da igreja católica se resumia à bênção das alianças. O resto, que eu considerava machista, era uma invenção dos homens. Só precisaríamos de um casal de testemunhas de cada lado. Aceitamos. E ele se assustou com a data:

“Espere aí... você chega aqui, critica a igreja, decide casar, e quer um horário daqui a um mês!!”

O "puxão de orelha" do padre foi bem justo. Ele disse que, se eu conhecesse bem o catolicismo, saberia que os princípios eram belíssimos. Pena eu ter aprendido da maneira errada. Posso não ser a pessoa mais religiosa do mundo, mas tenho fé, acredito no bem. Cada palavra do Padre Beto (e pode ser apenas através de um tweet), para mim, além de trazer ensinamento, aquieta meu coração, pois me faz pensar que minhas ideologias não estão erradas. E que sou corajosa, por me despir de máscaras.
A data era importante para nós por diversos motivos. Era meu mês de férias da faculdade e o Ronaldo também já tinha marcado as férias no jornal. Apesar da bronca, o padre arrumou-nos um horário no dia 19 de fevereiro e até ajudou com dicas para os preparativos (sugeriu a Capela, o músico...).
Então, começamos a organização. Com um mês de antecedência, demos entrada no cartório (já havia informado que o prazo mínimo para os proclamas era de 20 dias). Não alterei meu sobrenome, por que o faria? Ao menos, atualmente, também se faz a pergunta sobre a mudança de nome para o homem. O próprio padre sugerira o religioso com efeito civil: além de econômico, era uma opção bem prática. Faltava uma coisa sem a qual não teria casamento...

O curso de noivos!!!
Precisávamos arrumar um curso de noivos super-hiper rápido. Comecei a telefonar nas igrejas... Em sua maioria, os cursos estavam agendados para datas posteriores ao nosso casamento. Alguns deles duravam dois ou até cinco fins de semana. Em Bauru, todas as tentativas foram esgotadas e nada... Cheguei a pensar que tudo iria por água abaixo. Uma amiga (a ex-aluna Raquel, que trabalhava na diocese) ajudou-me a pesquisar em outras cidades. Conseguimos um curso em Marília, a uns 100 km de Bauru. Beleza! Etapa vencida.
(Em tempo, infelizmente, foi um curso ruim, com frases do tipo "É da natureza do homem sustentar a casa. A mulher, se possível, fica em casa cuidando dos filhos, pelo menos até os 5 anos. Depois vai trabalhar SE PRECISAR" - acreditem se quiser! E o Ronaldo bem baixinho no meu ouvido: "você sabe que não é assim, mas sabe que hoje precisamos do certificado". Pois é, às vezes, por sobrevivência, é preciso uma máscara. Foi pena não ter dado tempo de fazer o curso na Paróquia Universitária de Bauru, tenho certeza de que teria sido diferente.).


A Capela...
Então, passamos a resolver outros detalhes. Havíamos decidido que a cerimônia seria na Capela da Universidade do Sagrado Coração (onde eu cursei Letras!), um lugar acolhedor e repleto de espiritualidade. Nem precisava decorar, apenas algumas flores e tudo já era lindo. A irmã Rosenilde, então responsável pela capela (a USC é dirigida por religiosas) nos ajudou, providenciando um tapete para a entrada, além do genoflexório e, é claro, o carinho. Sorridente, não recriminou a nossa pouca antecedência: “Deus está dizendo que é a hora”. Foi tão acolhedor ouvir isso que senti como se Deus mesmo estivesse me dizendo. E nunca me esqueci da calma que aquela irmã me transmitiu.
Seriam poucos convidados, cerca de trinta. Basicamente, pais, padrinhos e amigos muito próximos. Queríamos algo aconchegante. Não era questão de escolher as pessoas. Realmente, se fôssemos convidar todas as que têm significado em nossa vida, seriam bem mais. Os padrinhos-testemunhas foram nossos irmãos.


A música...
Ficou combinado que eu e Ronaldo entraríamos juntos na Capela, representando a decisão madura de duas pessoas de ficarem unidas com as bênçãos de Deus (a meu ver, algo bem mais compatível aos direitos iguais entre homens e mulheres).
Contratamos o saxofonista Leandro, indicado pelo padre Beto. Houve tempo de ir com a minha irmã assistir a um casamento em que ele tocou. Chorei emocionada naquele casamento de quem em nem conhecia, enquanto no meu, depois, a alegria seria tanta que me fez segurar bem a maquiagem. Aprovamos. E ele até aprendeu a tocar “All you need is love”, a meu pedido, para encerrar a cerimônia de maneira descontraída. Essa é a música-tema de nosso casamento! Não quis entrar com a marcha nupcial. Foi “Pompa e circunstância” (não deu tempo de pensar em algo mais original). Daminha? Não, o brilho tem que ser da noiva, rsss... E não tinha criança na família.
Certas coisas são assim. Sem eu saber previamente, o saxofone era o instrumento que mais combinaria com minha história de amor.

O Buffett...
Pesquisamos as possibilidades e fechamos com um buffett que tinha um salão menor (vip, do jeito que gosto!), superaconchegante para o nosso número de convidados (Comissaria Bauru). Não contratamos decorador. Nós mesmos nos encarregamos de encomendar flores. Recomendaram-nos uma boleira que fez um bolo delicioso, sem aquele gosto exagerado de glacê de padaria. Fui tendo algumas ideias: encomendei balas de coco, pois, embrulhadas na cor salmão (como a parede do Buffet e a textura do nosso ap.), dariam graça à mesa. Também encomendei docinhos e, na véspera do casamento, eu mesma daria laços nas caixinhas com docinhos dentro, que seriam as lembranças. Quase tudo encaminhado.


O traje...
Ronaldo resolveu bem rápido: foi a uma loja, comprou terno, camisa, gravata, sapato. Homem é mais fácil, né!
Tudo encaminhado, “só” faltava o meu vestido, a vinte dias do casamento. Tentei ver trajes para segundo aluguel, opção que seria a mais rápida: não gostei de nada, tudo rodado demais, enfeitado demais, eu me sentia um bombom embrulhado. Não valiam o preço que custavam. Fui a São Paulo. Sorte que, a essa altura, já estava acostumada ir à Capital a trabalho e sabia me virar por lá. Uma amiga (a Fabiana) me fez companhia até a Rua das Noivas. Nada de vestido que desse certo. Mas não sejamos pessimistas: voltei de lá com as luvas, cristaizinhos e uma tiara bem legal para fazer o arranjo de cabelo que eu havia visto numa revista. Eu dormiria na casa de minhas amigas Ana e Tânia. Então, contei a elas o motivo da minha viagem:
- Compras...
- Encontrou o que queria?
- Era algo difícil... vestido de noiva.
- E quando é o casamento?
- 19 de fevereiro.
- Do ano que vem?
- Não, no próximo mês.
- E você não tem vestido???

Imaginem a cara de espanto das minhas amigas. E eu ainda mantinha a tranquilidade. Afinal, no fim tudo costumava dar certo. Foi difícil cursar duas faculdades ao mesmo tempo, e cursei. Foi dureza o mestrado, e defendi minha tese. Tinha aprendido a ser otimista com a vida. Em Bauru, havia uma costureira (indicada pela amiga Perla) que poderia fazer o vestido. Ela própria aconselhava que seria melhor encontrar algo pronto, mas era uma possibilidade. Eu havia visto um tecido legal em Campinas, cetim italiano (no fim de janeiro, eu estava lá a trabalho, corrigindo a segunda fase do vestibular Unicamp, ah, e trouxe as sandálias brancas de uma loja campineira perto da casa da Tati!). Levei uma amostra para Bauru, mas o de Bauru era feio. Tecelagens diferentes! Minhas amigas disseram:
- Cê tá louca!!! Você não volta para Bauru sem levar pelo menos o tecido!
Começou a maratona. Elas me convenceram a dormir mais uma noite em São Paulo (ainda bem!), pesquisaram na Internet, fizeram telefonemas... e descobriram que havia na Capital uma loja da mesma rede da de Campinas. Pesquisaram a linha de ônibus que era preciso pegar para ir até a loja. A Tania foi comigo no dia seguinte bem cedo e até atrasou para o trabalho dela (uma odisseia). Comprei tecido para uns dois vestidos. Melhor garantir!
Voltei para Bauru com o tecido e minhas amigas ficaram em Sampa rezando para a costureira fazer a tempo (nos reencontraríamos no dia do casamento).


Em Bauru, fui à costureira (Genilda). Uma senhora calma, evangélica, pacienciosa, uma maravilha! Costurou superbem, quando minha mãe viu a prova foi um alívio (afinal, era uma aposta, nunca tínhamos feito costura com ela). Não deu tempo de fazer bordado. Eu também não insisti, pois, na verdade, os modelos da bordadeira não me agradaram muito. No final, o vestido ficou muito próximo do que eu queria. Bastou um tecido bonito e um corte bem feito. Simples, levemente rodado, decote princesa, alcinhas de verão. Procurei caprichar nos acessórios: além da tiara de São Paulo, um conjunto de colar e brincos de strass comprados em Bauru, já que não teria bordado. Meu buquê foi de orquídeas (em tonalidades vivas e mais claras) e rosas na cor champanhe. Modéstia à parte, fiquei um encanto, rsss... (realmente acredito nas pequenas alegrias e milagres da vida!).


Ainda deu tempo de pesquisar hotel para indicar para os convidados, visitar o local, negociar descontos...

O casamento foi fofo, saiu quase tudo conforme esperávamos. Atrasei um pouco por causa da cabeleireira (outra história...) e levei uma bronquinha do padre, mas ele realizou um casamento lindo demais! Viajamos depois para o Aguativa, resort no Paraná, onde pudemos descansar da correria do último mês.
Nossas lembranças são lindas: as fotos foram feitas por um amigo e fotógrafo genial, o Quioshi, fotojornalista, colega de trabalho do Ronaldo. O álbum ficou bem espontâneo. Na véspera, fechamos contrato com filmagem: deu vontade de assistir à cerimônia depois. Filmamos apenas na Capela e nos Jardins da Universidade. Quanto ao Buffett, consideramos que todos ficariam mais à vontade sem câmaras e luzes. Deu tudo incrivelmente certo. E aqui estamos, felizes, construindo nosso amor eterno. O convite, eu mesma tinha feito no computador com a seguinte frase:
“All you need is love... liberté, égalité, fraternité!”
(não me pergunte o que significa além da tradução literal, mas é coisa de aquariana...)

Somos eternamente gratos a pessoas que deram uma contribuição muito grande à loucura de organizar um casamento (ainda que simples) em um único mês. Em especial, ao Padre Beto, ao Quioshi Goto, às amigas Fabiana, Ana, Tânia, Perla. Aos amigos que vieram de outras cidades para presenciar uma pequena cerimônia. Aos nossos pais e padrinhos-irmãos, pela compreensão da loucurinha que nos faz tão felizes.

Claro que, de vez em quando, temos uma "tweet fight". Sabe como é, eu sou sãopaulina e ele, corintiano. Mas isso já estava previsto pelo queridíssimo Padre Beto. Crises só fortalecem o amor.



"Amar alguém significa querer estar perto, mas também desejar a liberdade do outro, que o outro seja ele mesmo. E liberdade significa ser transparente. Onde há transparência, há choque, há conflito, porque vocês não representam, não usam máscaras. Mas vocês terão segurança ao lado um do outro."
"O amor não é a fusão de duas metades, mas é a aproximação de dois inteiros."
(Das sábias palavras de Padre Beto, naquele dia lindo de nossas vidas)

E aqui estamos.
É emocionante rever minha agenda de 2005, com todos os detalhes se resolvendo, porque Deus escrevia certo.