sábado, 11 de agosto de 2012

14 de Julho em Paris

Paris - o dia 6

O 14 de Julho...

Meu sonho/plano inicial era viajar em maio, o que não deu certo. Em primeiro lugar, porque queria muito, muito ver as tulipas. Vi-as na Noruega em 2009 e queria ver os campos da Holanda. Tulipas, só na Primavera Europeia, elas são extremamente sensíveis ao clima.

Reconfigurei o sonho para julho. Já não podia esperar mais um ano. A vida é bem complexa, como todos sabem: se não há trabalho, não há dinheiro para realizar sonhos. Se há muito trabalho, pode não sobrar qualquer tempo ou energia. E, assim, os sonhos vão ficando. Eu realmente não poderia esperar mais um ano ou meu coração sufocava. Julho foi incrível, apesar de eu não ter visto uma tulipinha sequer. Mas ainda as verei!

Definido o mês de julho, organizei o calendário de tal forma a estar em Paris no Dia 14 de Julho. É o dia mais especial para os franceses, o dia em que se comemoram a queda da Bastilha e a Independência. O único dia do ano em que a noite termina com queima de fogos na Torre Eiffel, o que não acontece nem mesmo na virada do ano (dizem que o Réveillon é meio morno em Paris, mas eu passaria um lá mesmo assim!).

Para este dia, um sábado, não teríamos uma programação. Seguiríamos a cidade em sua festa patriótica.

Pela manhã, seguimos para a Champs-Elysées, onde o desfile militar começaria às 10h. Havia um trecho fechado, com arquibancadas, para autoridades e convidados. De outro modo, o jeito era encontrar um cantinho entre o povo francês e turistas, erguer a cabecinha, ficar na pontinha dos pés e ver o máximo que se podia do desfile. Ainda que a visão pudesse ser até melhor da TV, era gratificante estar lá.



Após o desfile, almoçamos e demos mais uma volta na Champs-Elysées, mais uma espiadinha no Arco do Triunfo. Algumas lojas estavam abertas, então, uma passadinha na L'Occitane, alguns lenços e souvenirs...


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Uma curiosidade sobre o 14 de Julho é que os quartéis de bombeiros também se abrem para festas. O dinheiro arrecadado é destinado a melhorias para as condições de trabalho dos bombeiros. Dizem que a festa é a alegria dos solteiros e solteiras...
Nesse dia, o Louvre também teve entrada gratuita, bem como um espetáculo na famosa Ópera Garnier (não pesquisei como funcionaria a distribuição de ingressos). 

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Nesta tarde, como eu disse a Ronaldo, "morgamos" um pouco. Descansamos no hotel. Era importante poupar energias para aproveitar a noite e prosseguir a viagem. Nem todo dia precisaria ser tão cheio de programação quanto o primeiro. Não é perda de tempo dar-se o direito de descansar um pouco para curtir melhor o que vem depois. Se tiver de bater ponto todo dia à mesma hora, a viagem deixa de ser passeio. Importante é fazer seus dias felizes.

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Mais um jantar no Cafe Madeleine antes de nos dirigirmos ao metrô a caminho da grande festa.

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Chegamos por volta de 21h na praça da École Militaire para aguardar a queima de fogos na Torre. Alguns chegam bem antes e acampam nas praças desde a tarde com cestas de piquenique. Mas o horário em que chegamos foi bom.

De repente, estávamos diante da Torre Eiffel, no meio de todo o povo francês e muitos turistas. O espetáculo de fogos começou às 23h e estendeu-se até 23h40. Quarenta minutos ininterruptos com a Torre se destacando entre os fogos coloridos que coreografafam canções diversas, desde La Vie em Rose a I Can't take my eyes of you (I love you, baby), passando por Y.M.C.A.




Sem hipérbole, foi a festa mais incrível que já vi na minha vida, de derrubar lágrimas. Aquilo sim era uma verdadeira festa de formatura, de consagração por uma história que a gente constrói, um sonho que realiza.

Cada um tem a sua história. Digo apenas que sou da geração das "crianças dos anos 80", que não pegaram tempos fáceis. O Brasil tinha uma inflação impraticável, distribuição de renda e oportunidades era algo ainda muito mais distante do que é hoje. Até o fim dos anos 90 ou começo dos 2000, só fazia uma faculdade quem era muito guerreiro. Não é tudo fácil e perfeito agora, mas um pouco diferente: a democracia brasileira já não é a criança ingênua que elegeu o Collor, é uma adolescente que ainda precisa aprender muito para vencer a corrupção, deu alguns passos. De qualquer forma, eu tive o melhor que a vida pôde me dar: os estudos. Mas o ser humano é imperfeito, sonhador, inquieto e sente falta do que não pode ter. Como é bom ver que tudo valeu e vale a pena! Como é gratificante a sensação de que tudo não caiu do céu, mas vem da garra, da luta, do estabelecimento de prioridades. E como é bem melhor você ganhar da vida, dos que cuidam de você, um limão e um espremedor do que uma limonada pronta.

Os franceses dividiram generosamente sua festa comigo. Minha grande festa!



Tenho a triste consciência de que muitas pessoas nunca poderão presenciar uma grande festa como esta, embora muitas outras torrem dinheiro com aparências. É que, ainda que não se tenha tudo, é necessário ter um mínimo de condições para seguir em frente: alimento, estudo, pais que cuidem de você. Por isso, acredito muito mais nos ideias sociais da França - liberté, egalité, fraternité - do que naquela coisa isolada do self made man. Claro que é preciso garra, claro que é preciso labuta. Claro que é preciso inteligência para unir oportunidade ao que saber fazer com ela. É comprovado, porém, que o desenvolvimento da inteligência também vem do alimento - literal e metafórico.

Isso não diz respeito somente a mim. É social. E a França, também com suas imperfeições, talvez entenda um pouco mais disso, historicamente.

Vivas ao 14 de julho!



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Findos os fogos, iríamos embora de metrô. Nós e toda Paris que ali estava. Imagine quanta gente nas ruas, voltando ao mesmo tempo para casa! Estava tudo organizado, com guardas nas ruas. Não vi nada que inspirasse falta de segurança. Inevitavelmente, entrar numa estação de metrô parecia bastante complicado e sufocante. Até os pontos de táxi estavam com fila e o trânsito bem parado. Preferimos caminhar pelas ruas, que estavam cheias de gente e iluminadas, apesar do horário, quase meia-noite. Nosso hotel não era tão longe e, quando vimos, já estávamos tão perto que nem valia a pena procurar outra estação de metrô. Foram uns 40 minutos de caminhada (depois de 40 admirando a Torre e outras duas horas esperando por ela, em pé). Menos cansaço do que beleza! Voltar a pé foi a melhor decisão. Em vez do metrô fechado, paradinhas nas pontes para apreciar o Sena e a Torre, cada vez mais pequenina. Já era uma despedida. No dia seguinte, partiríamos de Paris. Mas ainda há o que contar nos próximos posts.



PS: fotos dos fogos com o braço ao alto e os olhos na Torre. Uma boa dica de viagem: cuidado para não aproveitar os melhores momentos apenas pelas lentes da câmera fotográfica.
PS 2: a natureza é tão sábia que a chuva dos dois dias anteriores deu trégua para contribuir com essa festa.

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