A Aula de Barthes

Saudade de estar em sala de aula com meus alunos. Tempos de quarentena.

Nesse momento em que não é possível, pensei em palavras de grandes autores que eu pudesse compartilhar - com meus estudantes e com a vida. Lembrei-me desta famosa “Aula” de Roland Barthes, mais um clássico para os estudos de linguagem.

No último texto, apontei que Saussure já previa a “luta de sentidos” como inerente à linguagem. Barthes, aqui, fala em “Vozes ‘autorizadas’, que se autorizam a fazer ouvir o discurso de todo poder: o discurso da arrogância” (p. 11).

Um texto belíssimo, uma lição de humildade e uma astúcia: já que a língua tem esse ‘defeito’ (de não ser precisa, de provocar sentidos múltiplos, de despertar lutas de sentidos), para Barthes, o que podemos fazer, é “jogar” com ela: “porque é no interior da língua que a língua deve ser combatida, desviada: não pela mensagem de que ela é o instrumento, mas pelo jogo das palavras de que ela é o teatro” (p. 17).

Para mim, o que há de mais bonito neste texto é a consciência de que meu desafio, como professora, é ensinar “o que não sei”. Ensiná-los a “aprender a aprender”, a pesquisar. Deixarei, ao final, as palavras de Barthes.

Recomendo fortemente a leitura de Barthes.

Uma questão para reflexão: Como agem as vozes que se colocam como “autorizadas” para o discurso da verdade? Qual o papel da dúvida para a Ciência? E para a Comunicação institucional, para fazermos um link com as Relações Públicas: uma empresa/instituição deve impor sua verdade ou mostrar-se, humildemente, portadora de uma das vozes possíveis? Como preparar a sociedade para valorizar as perguntas, hipóteses que levam a posições fundamentadas? (são reflexões, não questões que necessitem de respostas ponto a ponto).


“Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de desaprender, de deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos. Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível.”
(Roland Barthes, “A Aula” de 1977).


Comentários

  1. O texto de Barthes faz um paralelo com o que vivemos nos dias atuais, ao meu ver, essa dominância que a linguagem possui para controlar as pessoas é usada de maneira desonesta, tal qual contrária ao que o profissional de relações públicas representa (informar ao público a verdade e ter transparência), vemos nos dias de hoje, autoridades do nosso país fazerem discursos com informações falsas que colocam a vida de muitas pessoas em risco, visando lucro, sendo que quem é colocado em risco nem receberá esse lucro que tanto dizem. Triste de ver como uma ciência tão bonita e necessária como a linguagem, acaba sendo usada de maneira tão suja.

    Abraços!

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    Respostas
    1. Olá, fico grata em receber o comentário (faltou deixar seu nome! mas sei que é aluno ou aluna)
      A linguagem é mesmo bonita e necessária. Se usada de maneira "suja", os argumentos não se sustentam. Sigamos em frente!

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