terça-feira, 16 de maio de 2017

Bibliothéque (en France)

Sala de estudos na biblioteca da Université Paris-Sorbonne

Quando temos a oportunidade de nos aproximar de outras culturas, uma das melhores experiências é observar. Simplesmente observar, sem achar que a outra é melhor ou pior do que a nossa. Refletir. Algo que observo na vida acadêmica daqui (Paris, França) é a importância das bibliotecas como espaços de estudo. Nas aulas a que assisto (mestrado ou graduação – como um estágio para mim), o professor propõe reflexões. Os alunos mantêm uma postura respeitosa: anotam, fazem perguntas quando têm interesse, não comparecem e arcam com a ausência quando não tem. E é nas bibliotecas que o aprendizado se solidifica, ambiente intenso de estudo e concentração. A meu ver, a beleza histórica desses ambientes contribui muito para esse foco, inspira.

O professor é importante, porque sinaliza caminhos, mas ele não mastiga nada. No exame, as salas lotam, o professor cobra – faz parte. Os jovens universitários são como quaisquer outros: sentam-se no chão, deixam escrituras eventualmente impróprias nos banheiros, falam muito ao celular (nunca na aula ou na biblioteca). Mas eles têm uma espécie de “botão” de concentração que liga nas aulas e nas bibliotecas. E talvez isso venha de uma cultura contemplativa adquirida desde a infância e relacionada à oportunidade de crescer em um ambiente onde, desde crianças, visitam museus e outros pontos culturais, com pais e professores.

Desde a primeira vez que vim a Paris, fiquei impressionada com um pequeno grupo de crianças no Museu D’Orsay, absolutamente atentas à professora, que as estimulava a observarem as vestimentas infantis em um quadro antigo, a observarem as diferenças em relação aos tempos atuais. Fiquei ali encantada, aprendendo com a aula da professora, pois, infelizmente (e repito, não é para dizer que um país é melhor ou pior), em geral, não tivemos essa oportunidade em nossa infância no Brasil, especialmente nas cidades desprovidas de museus.

Se vou a um concerto, tem sempre uma criança mais concentrada do que eu, já que ela não tem a minha cabeça de adulto “pensando na pesquisa enquanto ouve a música”. Intuitivamente, ela já sabe que a música deixará marcas de criatividade para as futuras pesquisas, acadêmicas ou não, o desbravar do mundo. Se vou a uma livraria, sempre me deparo com uma cena interessante de criança, diante de algum livro, exclamando uma das típicas expressões francesas de admiração: “Super!” (oxítona), “Oh la la”, “Magnifique”. Et... c’est magnifique!

Em contrapartida, o parisiense tem muito, também, dessa coisa apressada do paulistano, mas é como eu disse, um botão que liga e desliga. Sei que em São Paulo, capital, há oportunidades semelhantes, mas a minha comparação com cidade do interior faz sentir falta desses ambientes contemplativos. E, mérito nosso de brasileiro, ainda assim, com menos oportunidades, nós lutamos e buscamos. Ainda que tenhamos que, maduros, aprender a ter a concentração adquirida por uma criança europeia na infância. 

* Érika de Moraes - atualmente, realizo estágio de Pesquisa pós-doutoral na Université Paris-Sorbonne, na França.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Paris em 3 dias

Esse roteiro foi feito pelo casal Érika & Ronaldo, a pedido de um amigo que só tinha 3 dias para visitar a bela Paris e precisava de sugestões bem práticas.

PRIMEIRO DIA:
A sugestão é pegar o metrô e descer na Champs-Elysées, caminhar até o Arco do Triunfo e subir lá para ver a vista (pode comprar o passe antes na Fnac na própria Champs Elysées ou usar o Paris Museum Pass), depois caminhar a pé até a Torre Eiffel. Da Torre, pode seguir para o museu D'Orsay - de metrô ou batobus. Batobus é o mais legal para ir curtindo o Rio Sena! De lá, pode ir ao Jardin de Louxembourg.

SEGUNDO DIA:
Se gostar de museu, ir ao Louvre logo pela manhã. Depois, passear pelo jardim do Louvre, pode lanchar no próprio jardim (tem barracas de crepe, por exemplo). Se der tempo, tomar chocolate Angelina, na rua lateral do Louvre. De lá, pode ir à praça do Concorde, em frente ao jardim, caminhar até igreja Madeleine, ir às lojas de macarons da região: Fauchon et Laudurée.

TERCEIRO DIA:
Ir à Sacre-Coeur e visitar o bairro, Montmartre, onde fica o Moulin Rouge, o Café Deux Moulin (da Amélie Poulain)... de lá, pegar o metrô e ir à Notre Dame. Na região da Notre Dame, tem a livraria Shakespeare & Company, o sorvete Berthilon... É uma região muito legal, tipicamente parisiense!

Não deixe de caminhar pelas margens do Sena observando as pontes, é lindo e gratuito! E à noite, escolher algum bistrô...

* Para ideias mais completas, navegue no blog pela tag "Paris" ou "França"

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O Incrível Hulk Azul

O Incrível Hulk Azul
(Sobre crianças, trabalho, profissões...)

- Vem na minha casa, tia!
- A tia logo vai!
- Vem amanhã!
- A tia vai daqui uns dias, antes tem que trabalhar.
- Pra ganhar din din, né! Você traz um Hulk azul?

A mamãe dele já explicou que não é para pedir as coisas. Mas é compreensível, ele só tem dois aninhos. E eu faço parte do ainda pequeno círculo de pessoas que, ele sabe muito bem, o querem feliz e amado. E observem o que ele pediu primeiro: presença.
Claro que a titia apaixonada está doida para encontrar um Hulk azul (ele me disse que tem “na barraquinha”), mas parece que ele me escolheu para uma missão um pouco difícil (será que vale pintar um verde com tinta azul? Ou escolher um Smurf bem bravo com cara de Hulk?). Para quem não está atualizado, já existe Hulk vermelho, o que deve ter levado meu sobrinho a imaginá-lo de todas as cores.
A história do Hulk me fez pensar sobre como vamos construindo a ideia de trabalho nas crianças. O primeiro impulso do adulto é colocar o trabalho como algo necessário para ganhar dinheiro. Não deixa de ser: precisamos dele para nosso sustento e para realizar outros sonhos que necessitam de respaldo material. Mas já fiquei pensando em logo tentar explicar ao meu sobrinho sobre outras motivações. Em parte, ele já sabe, pois brinca de mecânico, engenheiro, médico, super-herói, dinossauro (mas, modéstia à parte, sua maior alegria - pelo menos na minha frente - e colocar-se atrás da cortina, com os pezinhos visíveis, e gritar: procura eu Ékataaaaaa!!!).
Enfim, explicar que a gente precisa, sim, do dinheiro, mas que o trabalho que escolhemos pode trazer realização, sentido de vida! Sem hipocrisia. Não quer dizer que trabalhamos somente por amor. Mas que, se escolhemos de acordo com nossas motivações, o trabalho pode trazer tanta satisfação quanto qualquer outra atividade prazerosa. E também não quer dizer que qualquer trabalho do mundo não tenha lá suas partes chatas.
Meu sobrinho é uma criança feliz, a família não é do tipo que compensa falta de afeto com coisas materiais - embora os tios babões não resistam dar presentinhos, ele fica tão feliz com um desenho numa folha de papel quanto com algo mais caro. Na verdade, fica muito mais feliz com coisas que o dinheiro não compra, como ver um arco-íris ou ganhar um pouco do nosso tempo.
Mas a gente sabe que tem aí uma geração de crianças que não está aprendendo muito bem sobre valores. Então, no nosso mundinho encantado, sei que o possível de minha presença é meu maior presente. E, como logo ele irá à escolinha, imagino que será mais fácil explicar a ele: a titia também é professora, também precisa dar atenção aos alunos! E, no seu mundinho encantado, ele vai me imaginar tão querida quanto as professorinhas da pré-escola. E, no meu mundinho encantado, isso vai me ajudar a me lembrar, todos os dias, por que vou continuar amando meu trabalho.
[... mesmo quando o Cláudio de Moura Castro escreve artigo denegrindo a imagem do professor, enquanto ninguém contesta o mérito das categorias com mega salários e auxílio moradia maior que o salário inteiro de muitos professores. Em terra de desvalorização da educação, professor é vilão.]
Por enquanto, tudo isso é um pouco complicado para meu sobrinho. Tudo tem seu tempo. É fase de sonhos: todas as profissões têm igual valor. É cedo demais para ele entender que alguns trabalham muito, outros lucram mais. Que a vida impõe sacrifícios, mas não igualmente para todos.
No mundinho encantado dele, a professora da escolinha será tão valorizada quanto a doutora médica, tão merecedora quanto os demais trabalhadores. Assim como a tia da merenda etc.
É tempo de Hulk azul para nós.
E tomem cuidado, seus malvados, pois, se continuarem se aproveitando dos mais fracos, o Hulk azul vai pegar vocês!!!!
Quem pensa que estou brincando, saiba que é mais fácil o Hulk azul aparecer na terra do que alguns corações serem dignos.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Reinos desunidos


O resultado do referendum inglês pela saída do Reino Unido da União Europeia – o chamado Brexit – trouxe ao mundo a sensação de estar presenciando um daqueles momentos históricos em que a linha do tempo irrompe em um marco. Em tais circunstâncias, não é difícil esquecer que a história de fato é constituída nas peculiaridades do dia a dia de cada cidadão.
Qual a semelhança entre a experiência inglesa e a brasileira nas últimas eleições? Ambas trazem à tona as benesses e as controvérsias da democracia: esta não é a vontade de todos, mas de uma maioria. É questionado, porém, o próprio conceito de maioria quando os resultados mostram sociedades divididas. Por um lado, a democracia tem a sua legitimidade (e qual seria a alternativa a ela, se não a de recair em regimes totalitaristas?), por outro, um resultado como o britânico – 51,9 a 48,1% – representa um empate técnico. E, havendo empate, existe realmente a vontade de uma maioria? Ou existem vontades opostas que convivem no mesmo tempo e espaço?
O mapa da votação britânica mostrou claramente uma divisão: Escócia optaria pela permanência na União Europeia, enquanto Inglaterra e País de Gales escolhem a saída do bloco. O governo escocês, então, já fala em um novo referendum pela independência da Escócia em relação ao Reino Unido, seria a desunião provocando mais desunião. Outra aparente divisão seria por faixa etária, conforme expressam os jovens, especialmente pelo termômetro das mídias sociais, ao lamentar que viverão o futuro escolhido primordialmente por uma população acima dos 65 anos.
Modelos existem. A Noruega, por exemplo, campeã no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano, não faz parte da União Europeia. Cidadãos europeus do bloco comum usufruem da livre circulação e, simultaneamente, experimentam dificuldades sociais como o desemprego e falhas nos serviços de saúde, além do fantasma do terrorismo associado, justa e injustamente, às facilidades da imigração. Pode ser, como dizem alguns analistas, que cidadãos do Reino Unido, ao vivenciar problemas que afetavam diretamente sua qualidade de vida, optaram por uma via diferente, sem saber se seria necessariamente melhor, e acordaram, de um dia para o outro, com a questão assustadora: e agora?
Fato é que o “golpe inglês” contra a União Europeia já representa uma ferida no mais belo – e utópico – ideal pós-guerra, o de um mundo sem fronteiras. É, porém, mais fácil desconstruir fronteiras físicas do que ideológicas. O que é união, se não respeito e convivência com concepções e vontades distintas? O avesso da união é a destruição do outro cujo pensamento é divergente. E, nesse viés, vale menos a contagem de votos do que quem tem a arma de fogo mais potente. Valem menos as vidas e a preservação da história, seja em Palmira, na Síria, em Paris ou numa casa noturna de Orlando.
Nesse momento (ou sempre?), há mais perguntas do que respostas. O que queremos para o mundo? O que queremos para o Brasil? Quais medidas são necessárias para que não prevaleçam decisões radicais? Como promover mudança sem radicalização? Em tempos de desunião (ou será esta uma característica da humanidade e não de nossos tempos?), é preciso muito cuidado com discursos radicalizadores baseados em preconceitos. É fácil para alguém mal intencionado pregar o preconceito com a falsa máscara do protecionismo de fronteiras físicas e ideológicas. Que seja esta uma lição para o Brasil, se houver tempo.

Érika de Moraes é Doutora em Linguística, com ênfase em Análise do Discurso, pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

Artigo publicado originalmente no Blog do Estadão em 27/06/2016.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Língua, ideologia e empoderamento

O dia da Língua Portuguesa (5/5) é uma oportunidade para refletirmos sobre o significado social e político da linguagem em nossas vidas. Língua (não só a portuguesa) não se resume a um conjunto de normas de padronização (embora tais normas tenham funções importantes em termos de unidade e historicidade).
Dizer que a língua não se resume às normas não implica negá-las ou minimizar a importância de aprendê-las, mas mostrar que seu conceito é muito mais amplo. Tomemos como exemplo o tema da aprovação, por deputados do estado de Alagoas, de lei que obrigaria professores a manter “neutralidade” em sala de aula, impedindo-os de “doutrinar” alunos em assuntos políticos, religiosos e ideológicos. Além da inconstitucionalidade, que pode ser discutida em âmbito jurídico, tal lei parte de um pressuposto equivocado, o de que existiria uma forma de linguagem desprovida de ideologia.
Com o nome “Escola Livre”, uma lei como essa, a rigor, imprime a censura nas salas de aula. Assim como a censura durante a ditadura militar instituía-se de forma arbitrária, somente por meio da arbitrariedade é possível decidir o que é ou não ideológico do ponto de vista linguístico-discursivo. Para quem se alinha a uma ideologia mais à direita, propostas voltadas ao social, à abertura de oportunidades mais igualitárias são vistas como ideológicas, esquerdistas, assistencialistas. Já para quem se identifica com ideias mais à esquerda, qualquer proposta que faça lembrar argumentos da direita - um exemplo, a defesa da meritocracia - será vista como equivocada e demonizada.
Ora, qual a ideia certa? Qual a errada? Equivocado é acreditar que exista uma visão ideológica, outra neutra. Errado, de um ponto de vista teórico-científico, é supor que exista alguma maneira de interagir com a língua desprovida de ideologia. Digo interagir (e não usar) porque a língua não é mera ferramenta, é elemento constitutivo da identidade dos sujeitos. É por meio dela (seja qual for o idioma) que o ser humano significa sua própria existência e o mundo ao seu redor. É por isso que o domínio pleno da língua materna é empoderador. E, provavelmente, é pela mesma razão que a valorização do ensino e do professor seja tão precária em nosso país (é preciso vontade política de empoderar).
Num Estado democrático e laico, os pensamentos religiosos e políticos devem ser livremente debatidos e opiniões divergentes devem ser respeitadas. Acreditar, porém, que existam argumentos neutros é pura falácia. A língua não é um instrumento promotor de ideologia, ela é ideologia, é vida. E isso não é um mal, é uma característica, da mesma natureza que o respirar. É redundante, portanto, dizer que alguém se comunica ideologicamente por meio da língua.
Em celebração ao dia da língua, tento mostrar que ela é assunto muito mais interessante - sério e necessário - do que fazem parecer os simples lamentos de que a mal tratamos com concordâncias equivocadas. Não defendo equívocos normativos - em cerca de doze anos de ensino fundamental e médio, as escolas deveriam ter condições para corrigi-los. Mais grave, porém, é essa visão deturpada do que seja linguagem, a exemplo de como a veem os deputados de Alagoas. Infelizmente, eles não estão sozinhos.

Érika de Moraes é Doutora em Linguística, com ênfase em Análise do Discurso, pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

***Artigo originalmente publicado no Estadão Noite de 3 de maio de 2016

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Do lar, da luta e da lua


O enunciado da revista Veja, causador de polêmicas e brincadeiras nas redes sociais, não teria tanta relevância se considerado isoladamente: exalta um tipo de mulher - a bela, recatada e do lar, esposa de um homem de sorte. A personalidade retratada na matéria merece todo o nosso respeito como ser humano, como todas as mulheres e homens o merecem, inclusive a esposa de um político ou a Presidente da República. Criticar o governo é um exercício democrático (poderíamos criticar suas bases, por exemplo, a aliança PT-PMDB); já ofender pessoalmente um governante, com xingamentos, é algo bem diferente.
Da mesma forma, ponderar o enunciado de Veja não significa desrespeito às mulheres belas (somos todas, em nossas lutas e biótipos), recatadas e do lar. Exercer uma profissão, aliás, não implica deixar de ter um papel fundamental no lar e, nesse aspecto, os maridos também são dos lares. Um dos dois, homem ou mulher, teria todo o direito de escolher exercer apenas uma das funções, mas os tempos são difíceis e, para a maioria de nós, esta possibilidade soa bastante irrealista. Hipoteticamente temos a escolha, porém, é do trabalho fora do lar que vem nossa renda, com os devidos impostos retidos na fonte. Assim, dividir a responsabilidade no sustento e no cuidado com o lar é mais do que uma opção para a maioria dos brasileiros, é uma necessidade.
A questão-chave, sobretudo, é inserir o enunciado em seu tempo, espaço e circunstâncias. Sabe-se que os direitos das mulheres são conquistas historicamente recentes. Sabe-se, também, que a referida revista tem um posicionamento ideológico claro (o que nem seria um problema), o qual busca referendar por meio das sutilezas da linguagem. A linguagem permite que se diga sem dizer, por meio dos implícitos, os quais podem ser reconstituídos com a inserção, nas análises, das condições históricas de produção dos enunciados.
Estabelecido o quadro, circulam fotografias de mulheres de todo o país, acompanhadas da hashtag #belarecatadaedolar. Do tema, já muito comentado, chamo a atenção para um efeito de sentido: de modo geral, a foto de bar tornou-se representativa da necessidade feminina de explicitar que pode ser o que quiser. Compreensível: a quebra de estereótipos exige rupturas drásticas que, ao menos temporariamente, constroem dualidades redutoras (algo em comum com Petralha X Coxinha). O ponto é: não seria outra forma (inconsciente) de dizer que ter liberdade é assumir certo papel, tipicamente associado ao mundo masculino?
A sociedade “aceitou” a mulher no mercado de trabalho (com as conhecidas restrições: salários mais baixos em média, menos mulheres em funções de liderança etc.), mas está longe de aceitar a sensibilidade (culturalmente associada à feminilidade). É como se eu precisasse dizer: “sou mulher, mas sou firme, não choro”. Avançado seria um mundo em que homens e mulheres se sentissem no pleno direito de chorar quando quisessem. Em que pudéssemos ser tão aceitos num dia de lágrimas quanto num dia de firmeza. Que não precisássemos negar o lar nem as lutas para nossa autoafirmação. E, licença poética, que pudéssemos apreciar a lua sem tantas preocupações.

Érika de Moraes é Doutora em Linguística, com ênfase em Análise do Discurso, pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

***Artigo originalmente publicado no Estadão Noite de 25 de abril de 2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

Minha carta às crianças do Brasil


Queridas crianças,


Escrevo para vocês.

Se ainda for pequena, papai, mamãe, titia ou algum responsável poderá ler para você.
Este mundo está complicado. Tem violência em toda parte. Brigas por política aqui no Brasil, atentados terroristas do outro lado do mundo. Tem mosquito, dengue e zika.
Mas, acalme-se.
Vou dizer por que vai dar tudo certo.
Vai dar certo por causa de VOCÊ. Você pode construir um mundo melhor.
Eu não sou mãe, mas sou titia, professora, amiguinha e tenho uma irmã mais nova. Brinquei com ela de tudo, de boneca a escolinha.
Sou professora dos maiores, dos jovens que já estão na faculdade. Também sou pesquisadora e escrevo alguns textos que poucas pessoas leem, mas sempre que alguém me diz que leu e aprendeu algo, fico muito feliz, porque não escrevo apenas para contar ponto no Lattes (não se preocupe em entender esse Lattes agora, é coisa do mundo dos adultos). Já escrevi sobre desenhos de crianças palestinas, sobre a Mona Lisa e outras coisinhas mais. Agora, é com você que quero conversar.
Tenha muito amor no seu coração porque o amor só traz de volta mais amor. Tente obedecer a seus responsáveis, porque eles querem o seu bem. Mas, se algum dia, papai, mamãe ou vovó gritar com você, pode ser que essa pessoa só esteja precisando de um abraço seu. Eu sei, é difícil de entender. Mas é que alguns adultos, às vezes, brigam com as crianças porque também precisam de amor. Tente fazer um cafuné na mamãe, dê um beijinho na testa do vovô. Eu não sei quem cuida de você, mas diga para essa pessoa que é bom tê-la por perto.
Não deseje a morte, não tenha ódio de ninguém. Você pode pensar diferente de outras pessoas, pode até não gostar de algumas, mas não pode desejar o mal. Não pode, porque todo mundo é um ser humano e merece respeito.
Você pode não gostar das ideias do outro. E é verdade que existem pessoas que praticam o mal, não quero que você seja uma delas. Porque se você, criança, for uma pessoa boa, um dia só teremos pessoas boas no mundo.
Pode ser que alguém já tenha magoado você muito, muito. Eu sei. É difícil entender. Mas saiba que todo mundo comete erros e, infelizmente, alguém pode ter errado com você.
Desejo, sinceramente, que você só tenha pessoas boas e amáveis ao seu lado. Tudo que você precisa nesse momento é de amor, de sorrisos, de alimento, de educação. Tenho alguns conselhos práticos para você.


CONSELHOS DE UMA AMIGA MAIS VELHA...

Estude. Estudar não é uma coisa chata que você deve fazer por obrigação. É algo maravilhoso, que vai abrir muitas portas e janelas pelo mundo. Estudando agora, mais tarde você vai ter mais chances de ter um bom emprego e de realizar sonhos, como viajar, conhecer lugares lindos. Há crianças que terão menos oportunidades do que você, agarre as suas e, se puder, ajude as outras.

Folheie livros de papel. Eu sei que a tecnologia é muito legal (eu mesma estou escrevendo em um tablet), mas não perca o encanto dos livros. Se você ainda não sabe ler, não tem problema. Folheie, invente suas próprias histórias com as figuras. E, quando puder ler, vai ver quanta coisa incrível poderá descobrir!

Tenha um caderno. Não deixe o caderno morrer! Mesmo que sua escola for ultramoderna e você utilizar computador, saiba que os cadernos são mágicos. Podem pular fadas e duendes de dentro deles, tudo depende da sua imaginação. Na voz de um poeta, o caderno faz um pedido a você: "só peço a você um favor, se puder, não me esqueça num canto qualquer". Você pode atender o pedido do caderno!

Treine a letra cursiva. Ela é linda, dá firmeza às mãos e aos pensamentos. Pode ser que alguém tenha dito que a letra manuscrita já não é importante ou necessária por causa do computador. Eu não concordo. Se alguém disser que a letra de mão não é útil, eu rebato: o mundo não precisa só de coisas úteis!

Esse é outro conselho. Duvide de que existe uma real separação entre o útil e o inútil. Não pense que só as coisas práticas e imediatas são importantes. Um exemplo: tomar banho e se alimentar é importante, é útil para a sua saúde. Ter um tempo sozinho ou sozinha, consigo mesmo(a), também é muito importante! É assim que as ideias aparecem, que você fica mais inteligente e criativo.

Deixe a imaginação rolar. Desenhe coisas bonitas e coloridas. Mas, se tiver vontade de desenhar algo triste, desenhe, depois tente conversar com um adulto sobre seu desenho.

Saiba: inteligência é algo valioso. Mas a bondade do coração é ainda mais. Se, em algum momento, precisar escolher, escolha sempre o bem.

Ser "o melhor" da turma ou ter uma boa profissão é bacana. Mas ser honesto e justo é muito mais importante.

Escute o canto dos bem-te-vis. É tão bonito!

Cheire as flores. Faça um leve carinho nelas, elas também são seres vivos. Os animaizinhos de estimação também merecem cuidados (eu não sou muito acostumada com eles porque eu era alérgica e cresci com medinho. Mas jamais pensei algo mau sobre eles!).

Sonhe, de olhos abertos ou fechados. Acredite em todos os seus sonhos. Se tiver um pesadelo à noite, chore, conte para um adulto de sua confiança. Eu te juro que, assim, a dor vai passar.

Observe as pessoas e aprenda em quem pode confiar. Com o tempo, isso vai ficando mais fácil.

Sorria para os adultos, isso amolece o coração deles e deixa o mundo muito mais bonito.

Sabe, as coisas estão tão complicadas, que eu já li até que foi preciso inventar um curso de "desaprincesamento" para meninas. Vou tentar explicar: é que nem sempre a vida garante um final feliz, um encontro com o seu príncipe encantado. É verdade. Tem um ditado que diz: "é melhor estar só do que mal acompanhado". Eu tive sorte de encontrar um bom namorado que se tornou meu marido. Mas, acredite: ninguém merece sua companhia se não trata você com amor e respeito.

Tanto meninas quanto meninos merecem respeito. Não xingue a coleguinha, pense que poderia ser sua irmã. Pense bem no que diz. Quando eu era pequena, olha que brincadeira boba as meninas faziam na escolinha (e eu, bobinha, muitas vezes participava). Xingávamos os meninos assim: "mulherzinha, só falta uma calcinha", sem perceber que estávamos xingando a nós mesmas!!! Só fui notar isso mais tarde.

Depois de esclarecer isso, eu digo que lamento a gente precisar "desaprincesar". Meu pai me contava contos de fadas todas as noites e é uma lembrança tão linda que eu tenho dele! Ele já não está comigo, agora mora no céu. Não sei como é lá, mas imagino que seja como um lindo jardim.

Minha mamãe está por perto e foi ela que me fez lembrar, por esses dias, da música O Caderno. Isso acabou me inspirando este texto.

Eu ainda acho que a vida pode ter magia, sonho, encanto, bondade. Você acha? Se você achar, a resposta é SIM, porque VOCÊ é o futuro.

NÃO PERCA JAMAIS ESSE SABOR DE INFÂNCIA!!!

Sabe esse prazer que um simples galho de árvore pode trazer, se você, transformá-lo, por meio da imaginação, em ferramenta de um grande artista? 

Sabe o cheirinho de fruta saborosa? O pezinho na areia perto da água do mar? 

Sabe o poder de uma folha de papel que pode se transformar em barco ou avião, se você dobrar direitinho? 

Não perca isso. Saiba levar isso para a vida adulta. Você vai entender que as melhores coisas não são compradas com dinheiro. 

Pode ser que nem tudo do que eu disse esteja totalmente certo. Eu sou humana e também posso errar. Mas é de coração. Senti que minha missão deste dia era escrever para você.

Feliz Páscoa. Que o coelhinho traga muita paz e alegria para seu coração.
Um abraço carinhoso,

Érika de Moraes

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PS: Vou indicar um vídeo para você do Youtube, com a letra da música O Caderno, de Toquinho e Vinicius:


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