quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O Incrível Hulk Azul

O Incrível Hulk Azul
(Sobre crianças, trabalho, profissões...)

- Vem na minha casa, tia!
- A tia logo vai!
- Vem amanhã!
- A tia vai daqui uns dias, antes tem que trabalhar.
- Pra ganhar din din, né! Você traz um Hulk azul?

A mamãe dele já explicou que não é para pedir as coisas. Mas é compreensível, ele só tem dois aninhos. E eu faço parte do ainda pequeno círculo de pessoas que, ele sabe muito bem, o querem feliz e amado. E observem o que ele pediu primeiro: presença.
Claro que a titia apaixonada está doida para encontrar um Hulk azul (ele me disse que tem “na barraquinha”), mas parece que ele me escolheu para uma missão um pouco difícil (será que vale pintar um verde com tinta azul? Ou escolher um Smurf bem bravo com cara de Hulk?). Para quem não está atualizado, já existe Hulk vermelho, o que deve ter levado meu sobrinho a imaginá-lo de todas as cores.
A história do Hulk me fez pensar sobre como vamos construindo a ideia de trabalho nas crianças. O primeiro impulso do adulto é colocar o trabalho como algo necessário para ganhar dinheiro. Não deixa de ser: precisamos dele para nosso sustento e para realizar outros sonhos que necessitam de respaldo material. Mas já fiquei pensando em logo tentar explicar ao meu sobrinho sobre outras motivações. Em parte, ele já sabe, pois brinca de mecânico, engenheiro, médico, super-herói, dinossauro (mas, modéstia à parte, sua maior alegria - pelo menos na minha frente - e colocar-se atrás da cortina, com os pezinhos visíveis, e gritar: procura eu Ékataaaaaa!!!).
Enfim, explicar que a gente precisa, sim, do dinheiro, mas que o trabalho que escolhemos pode trazer realização, sentido de vida! Sem hipocrisia. Não quer dizer que trabalhamos somente por amor. Mas que, se escolhemos de acordo com nossas motivações, o trabalho pode trazer tanta satisfação quanto qualquer outra atividade prazerosa. E também não quer dizer que qualquer trabalho do mundo não tenha lá suas partes chatas.
Meu sobrinho é uma criança feliz, a família não é do tipo que compensa falta de afeto com coisas materiais - embora os tios babões não resistam dar presentinhos, ele fica tão feliz com um desenho numa folha de papel quanto com algo mais caro. Na verdade, fica muito mais feliz com coisas que o dinheiro não compra, como ver um arco-íris ou ganhar um pouco do nosso tempo.
Mas a gente sabe que tem aí uma geração de crianças que não está aprendendo muito bem sobre valores. Então, no nosso mundinho encantado, sei que o possível de minha presença é meu maior presente. E, como logo ele irá à escolinha, imagino que será mais fácil explicar a ele: a titia também é professora, também precisa dar atenção aos alunos! E, no seu mundinho encantado, ele vai me imaginar tão querida quanto as professorinhas da pré-escola. E, no meu mundinho encantado, isso vai me ajudar a me lembrar, todos os dias, por que vou continuar amando meu trabalho.
[... mesmo quando o Cláudio de Moura Castro escreve artigo denegrindo a imagem do professor, enquanto ninguém contesta o mérito das categorias com mega salários e auxílio moradia maior que o salário inteiro de muitos professores. Em terra de desvalorização da educação, professor é vilão.]
Por enquanto, tudo isso é um pouco complicado para meu sobrinho. Tudo tem seu tempo. É fase de sonhos: todas as profissões têm igual valor. É cedo demais para ele entender que alguns trabalham muito, outros lucram mais. Que a vida impõe sacrifícios, mas não igualmente para todos.
No mundinho encantado dele, a professora da escolinha será tão valorizada quanto a doutora médica, tão merecedora quanto os demais trabalhadores. Assim como a tia da merenda etc.
É tempo de Hulk azul para nós.
E tomem cuidado, seus malvados, pois, se continuarem se aproveitando dos mais fracos, o Hulk azul vai pegar vocês!!!!
Quem pensa que estou brincando, saiba que é mais fácil o Hulk azul aparecer na terra do que alguns corações serem dignos.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Reinos desunidos


O resultado do referendum inglês pela saída do Reino Unido da União Europeia – o chamado Brexit – trouxe ao mundo a sensação de estar presenciando um daqueles momentos históricos em que a linha do tempo irrompe em um marco. Em tais circunstâncias, não é difícil esquecer que a história de fato é constituída nas peculiaridades do dia a dia de cada cidadão.
Qual a semelhança entre a experiência inglesa e a brasileira nas últimas eleições? Ambas trazem à tona as benesses e as controvérsias da democracia: esta não é a vontade de todos, mas de uma maioria. É questionado, porém, o próprio conceito de maioria quando os resultados mostram sociedades divididas. Por um lado, a democracia tem a sua legitimidade (e qual seria a alternativa a ela, se não a de recair em regimes totalitaristas?), por outro, um resultado como o britânico – 51,9 a 48,1% – representa um empate técnico. E, havendo empate, existe realmente a vontade de uma maioria? Ou existem vontades opostas que convivem no mesmo tempo e espaço?
O mapa da votação britânica mostrou claramente uma divisão: Escócia optaria pela permanência na União Europeia, enquanto Inglaterra e País de Gales escolhem a saída do bloco. O governo escocês, então, já fala em um novo referendum pela independência da Escócia em relação ao Reino Unido, seria a desunião provocando mais desunião. Outra aparente divisão seria por faixa etária, conforme expressam os jovens, especialmente pelo termômetro das mídias sociais, ao lamentar que viverão o futuro escolhido primordialmente por uma população acima dos 65 anos.
Modelos existem. A Noruega, por exemplo, campeã no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano, não faz parte da União Europeia. Cidadãos europeus do bloco comum usufruem da livre circulação e, simultaneamente, experimentam dificuldades sociais como o desemprego e falhas nos serviços de saúde, além do fantasma do terrorismo associado, justa e injustamente, às facilidades da imigração. Pode ser, como dizem alguns analistas, que cidadãos do Reino Unido, ao vivenciar problemas que afetavam diretamente sua qualidade de vida, optaram por uma via diferente, sem saber se seria necessariamente melhor, e acordaram, de um dia para o outro, com a questão assustadora: e agora?
Fato é que o “golpe inglês” contra a União Europeia já representa uma ferida no mais belo – e utópico – ideal pós-guerra, o de um mundo sem fronteiras. É, porém, mais fácil desconstruir fronteiras físicas do que ideológicas. O que é união, se não respeito e convivência com concepções e vontades distintas? O avesso da união é a destruição do outro cujo pensamento é divergente. E, nesse viés, vale menos a contagem de votos do que quem tem a arma de fogo mais potente. Valem menos as vidas e a preservação da história, seja em Palmira, na Síria, em Paris ou numa casa noturna de Orlando.
Nesse momento (ou sempre?), há mais perguntas do que respostas. O que queremos para o mundo? O que queremos para o Brasil? Quais medidas são necessárias para que não prevaleçam decisões radicais? Como promover mudança sem radicalização? Em tempos de desunião (ou será esta uma característica da humanidade e não de nossos tempos?), é preciso muito cuidado com discursos radicalizadores baseados em preconceitos. É fácil para alguém mal intencionado pregar o preconceito com a falsa máscara do protecionismo de fronteiras físicas e ideológicas. Que seja esta uma lição para o Brasil, se houver tempo.

Érika de Moraes é Doutora em Linguística, com ênfase em Análise do Discurso, pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

Artigo publicado originalmente no Blog do Estadão em 27/06/2016.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Língua, ideologia e empoderamento

O dia da Língua Portuguesa (5/5) é uma oportunidade para refletirmos sobre o significado social e político da linguagem em nossas vidas. Língua (não só a portuguesa) não se resume a um conjunto de normas de padronização (embora tais normas tenham funções importantes em termos de unidade e historicidade).
Dizer que a língua não se resume às normas não implica negá-las ou minimizar a importância de aprendê-las, mas mostrar que seu conceito é muito mais amplo. Tomemos como exemplo o tema da aprovação, por deputados do estado de Alagoas, de lei que obrigaria professores a manter “neutralidade” em sala de aula, impedindo-os de “doutrinar” alunos em assuntos políticos, religiosos e ideológicos. Além da inconstitucionalidade, que pode ser discutida em âmbito jurídico, tal lei parte de um pressuposto equivocado, o de que existiria uma forma de linguagem desprovida de ideologia.
Com o nome “Escola Livre”, uma lei como essa, a rigor, imprime a censura nas salas de aula. Assim como a censura durante a ditadura militar instituía-se de forma arbitrária, somente por meio da arbitrariedade é possível decidir o que é ou não ideológico do ponto de vista linguístico-discursivo. Para quem se alinha a uma ideologia mais à direita, propostas voltadas ao social, à abertura de oportunidades mais igualitárias são vistas como ideológicas, esquerdistas, assistencialistas. Já para quem se identifica com ideias mais à esquerda, qualquer proposta que faça lembrar argumentos da direita - um exemplo, a defesa da meritocracia - será vista como equivocada e demonizada.
Ora, qual a ideia certa? Qual a errada? Equivocado é acreditar que exista uma visão ideológica, outra neutra. Errado, de um ponto de vista teórico-científico, é supor que exista alguma maneira de interagir com a língua desprovida de ideologia. Digo interagir (e não usar) porque a língua não é mera ferramenta, é elemento constitutivo da identidade dos sujeitos. É por meio dela (seja qual for o idioma) que o ser humano significa sua própria existência e o mundo ao seu redor. É por isso que o domínio pleno da língua materna é empoderador. E, provavelmente, é pela mesma razão que a valorização do ensino e do professor seja tão precária em nosso país (é preciso vontade política de empoderar).
Num Estado democrático e laico, os pensamentos religiosos e políticos devem ser livremente debatidos e opiniões divergentes devem ser respeitadas. Acreditar, porém, que existam argumentos neutros é pura falácia. A língua não é um instrumento promotor de ideologia, ela é ideologia, é vida. E isso não é um mal, é uma característica, da mesma natureza que o respirar. É redundante, portanto, dizer que alguém se comunica ideologicamente por meio da língua.
Em celebração ao dia da língua, tento mostrar que ela é assunto muito mais interessante - sério e necessário - do que fazem parecer os simples lamentos de que a mal tratamos com concordâncias equivocadas. Não defendo equívocos normativos - em cerca de doze anos de ensino fundamental e médio, as escolas deveriam ter condições para corrigi-los. Mais grave, porém, é essa visão deturpada do que seja linguagem, a exemplo de como a veem os deputados de Alagoas. Infelizmente, eles não estão sozinhos.

Érika de Moraes é Doutora em Linguística, com ênfase em Análise do Discurso, pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

***Artigo originalmente publicado no Estadão Noite de 3 de maio de 2016

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Do lar, da luta e da lua


O enunciado da revista Veja, causador de polêmicas e brincadeiras nas redes sociais, não teria tanta relevância se considerado isoladamente: exalta um tipo de mulher - a bela, recatada e do lar, esposa de um homem de sorte. A personalidade retratada na matéria merece todo o nosso respeito como ser humano, como todas as mulheres e homens o merecem, inclusive a esposa de um político ou a Presidente da República. Criticar o governo é um exercício democrático (poderíamos criticar suas bases, por exemplo, a aliança PT-PMDB); já ofender pessoalmente um governante, com xingamentos, é algo bem diferente.
Da mesma forma, ponderar o enunciado de Veja não significa desrespeito às mulheres belas (somos todas, em nossas lutas e biótipos), recatadas e do lar. Exercer uma profissão, aliás, não implica deixar de ter um papel fundamental no lar e, nesse aspecto, os maridos também são dos lares. Um dos dois, homem ou mulher, teria todo o direito de escolher exercer apenas uma das funções, mas os tempos são difíceis e, para a maioria de nós, esta possibilidade soa bastante irrealista. Hipoteticamente temos a escolha, porém, é do trabalho fora do lar que vem nossa renda, com os devidos impostos retidos na fonte. Assim, dividir a responsabilidade no sustento e no cuidado com o lar é mais do que uma opção para a maioria dos brasileiros, é uma necessidade.
A questão-chave, sobretudo, é inserir o enunciado em seu tempo, espaço e circunstâncias. Sabe-se que os direitos das mulheres são conquistas historicamente recentes. Sabe-se, também, que a referida revista tem um posicionamento ideológico claro (o que nem seria um problema), o qual busca referendar por meio das sutilezas da linguagem. A linguagem permite que se diga sem dizer, por meio dos implícitos, os quais podem ser reconstituídos com a inserção, nas análises, das condições históricas de produção dos enunciados.
Estabelecido o quadro, circulam fotografias de mulheres de todo o país, acompanhadas da hashtag #belarecatadaedolar. Do tema, já muito comentado, chamo a atenção para um efeito de sentido: de modo geral, a foto de bar tornou-se representativa da necessidade feminina de explicitar que pode ser o que quiser. Compreensível: a quebra de estereótipos exige rupturas drásticas que, ao menos temporariamente, constroem dualidades redutoras (algo em comum com Petralha X Coxinha). O ponto é: não seria outra forma (inconsciente) de dizer que ter liberdade é assumir certo papel, tipicamente associado ao mundo masculino?
A sociedade “aceitou” a mulher no mercado de trabalho (com as conhecidas restrições: salários mais baixos em média, menos mulheres em funções de liderança etc.), mas está longe de aceitar a sensibilidade (culturalmente associada à feminilidade). É como se eu precisasse dizer: “sou mulher, mas sou firme, não choro”. Avançado seria um mundo em que homens e mulheres se sentissem no pleno direito de chorar quando quisessem. Em que pudéssemos ser tão aceitos num dia de lágrimas quanto num dia de firmeza. Que não precisássemos negar o lar nem as lutas para nossa autoafirmação. E, licença poética, que pudéssemos apreciar a lua sem tantas preocupações.

Érika de Moraes é Doutora em Linguística, com ênfase em Análise do Discurso, pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

***Artigo originalmente publicado no Estadão Noite de 25 de abril de 2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

Minha carta às crianças do Brasil


Queridas crianças,


Escrevo para vocês.

Se ainda for pequena, papai, mamãe, titia ou algum responsável poderá ler para você.
Este mundo está complicado. Tem violência em toda parte. Brigas por política aqui no Brasil, atentados terroristas do outro lado do mundo. Tem mosquito, dengue e zika.
Mas, acalme-se.
Vou dizer por que vai dar tudo certo.
Vai dar certo por causa de VOCÊ. Você pode construir um mundo melhor.
Eu não sou mãe, mas sou titia, professora, amiguinha e tenho uma irmã mais nova. Brinquei com ela de tudo, de boneca a escolinha.
Sou professora dos maiores, dos jovens que já estão na faculdade. Também sou pesquisadora e escrevo alguns textos que poucas pessoas leem, mas sempre que alguém me diz que leu e aprendeu algo, fico muito feliz, porque não escrevo apenas para contar ponto no Lattes (não se preocupe em entender esse Lattes agora, é coisa do mundo dos adultos). Já escrevi sobre desenhos de crianças palestinas, sobre a Mona Lisa e outras coisinhas mais. Agora, é com você que quero conversar.
Tenha muito amor no seu coração porque o amor só traz de volta mais amor. Tente obedecer a seus responsáveis, porque eles querem o seu bem. Mas, se algum dia, papai, mamãe ou vovó gritar com você, pode ser que essa pessoa só esteja precisando de um abraço seu. Eu sei, é difícil de entender. Mas é que alguns adultos, às vezes, brigam com as crianças porque também precisam de amor. Tente fazer um cafuné na mamãe, dê um beijinho na testa do vovô. Eu não sei quem cuida de você, mas diga para essa pessoa que é bom tê-la por perto.
Não deseje a morte, não tenha ódio de ninguém. Você pode pensar diferente de outras pessoas, pode até não gostar de algumas, mas não pode desejar o mal. Não pode, porque todo mundo é um ser humano e merece respeito.
Você pode não gostar das ideias do outro. E é verdade que existem pessoas que praticam o mal, não quero que você seja uma delas. Porque se você, criança, for uma pessoa boa, um dia só teremos pessoas boas no mundo.
Pode ser que alguém já tenha magoado você muito, muito. Eu sei. É difícil entender. Mas saiba que todo mundo comete erros e, infelizmente, alguém pode ter errado com você.
Desejo, sinceramente, que você só tenha pessoas boas e amáveis ao seu lado. Tudo que você precisa nesse momento é de amor, de sorrisos, de alimento, de educação. Tenho alguns conselhos práticos para você.


CONSELHOS DE UMA AMIGA MAIS VELHA...

Estude. Estudar não é uma coisa chata que você deve fazer por obrigação. É algo maravilhoso, que vai abrir muitas portas e janelas pelo mundo. Estudando agora, mais tarde você vai ter mais chances de ter um bom emprego e de realizar sonhos, como viajar, conhecer lugares lindos. Há crianças que terão menos oportunidades do que você, agarre as suas e, se puder, ajude as outras.

Folheie livros de papel. Eu sei que a tecnologia é muito legal (eu mesma estou escrevendo em um tablet), mas não perca o encanto dos livros. Se você ainda não sabe ler, não tem problema. Folheie, invente suas próprias histórias com as figuras. E, quando puder ler, vai ver quanta coisa incrível poderá descobrir!

Tenha um caderno. Não deixe o caderno morrer! Mesmo que sua escola for ultramoderna e você utilizar computador, saiba que os cadernos são mágicos. Podem pular fadas e duendes de dentro deles, tudo depende da sua imaginação. Na voz de um poeta, o caderno faz um pedido a você: "só peço a você um favor, se puder, não me esqueça num canto qualquer". Você pode atender o pedido do caderno!

Treine a letra cursiva. Ela é linda, dá firmeza às mãos e aos pensamentos. Pode ser que alguém tenha dito que a letra manuscrita já não é importante ou necessária por causa do computador. Eu não concordo. Se alguém disser que a letra de mão não é útil, eu rebato: o mundo não precisa só de coisas úteis!

Esse é outro conselho. Duvide de que existe uma real separação entre o útil e o inútil. Não pense que só as coisas práticas e imediatas são importantes. Um exemplo: tomar banho e se alimentar é importante, é útil para a sua saúde. Ter um tempo sozinho ou sozinha, consigo mesmo(a), também é muito importante! É assim que as ideias aparecem, que você fica mais inteligente e criativo.

Deixe a imaginação rolar. Desenhe coisas bonitas e coloridas. Mas, se tiver vontade de desenhar algo triste, desenhe, depois tente conversar com um adulto sobre seu desenho.

Saiba: inteligência é algo valioso. Mas a bondade do coração é ainda mais. Se, em algum momento, precisar escolher, escolha sempre o bem.

Ser "o melhor" da turma ou ter uma boa profissão é bacana. Mas ser honesto e justo é muito mais importante.

Escute o canto dos bem-te-vis. É tão bonito!

Cheire as flores. Faça um leve carinho nelas, elas também são seres vivos. Os animaizinhos de estimação também merecem cuidados (eu não sou muito acostumada com eles porque eu era alérgica e cresci com medinho. Mas jamais pensei algo mau sobre eles!).

Sonhe, de olhos abertos ou fechados. Acredite em todos os seus sonhos. Se tiver um pesadelo à noite, chore, conte para um adulto de sua confiança. Eu te juro que, assim, a dor vai passar.

Observe as pessoas e aprenda em quem pode confiar. Com o tempo, isso vai ficando mais fácil.

Sorria para os adultos, isso amolece o coração deles e deixa o mundo muito mais bonito.

Sabe, as coisas estão tão complicadas, que eu já li até que foi preciso inventar um curso de "desaprincesamento" para meninas. Vou tentar explicar: é que nem sempre a vida garante um final feliz, um encontro com o seu príncipe encantado. É verdade. Tem um ditado que diz: "é melhor estar só do que mal acompanhado". Eu tive sorte de encontrar um bom namorado que se tornou meu marido. Mas, acredite: ninguém merece sua companhia se não trata você com amor e respeito.

Tanto meninas quanto meninos merecem respeito. Não xingue a coleguinha, pense que poderia ser sua irmã. Pense bem no que diz. Quando eu era pequena, olha que brincadeira boba as meninas faziam na escolinha (e eu, bobinha, muitas vezes participava). Xingávamos os meninos assim: "mulherzinha, só falta uma calcinha", sem perceber que estávamos xingando a nós mesmas!!! Só fui notar isso mais tarde.

Depois de esclarecer isso, eu digo que lamento a gente precisar "desaprincesar". Meu pai me contava contos de fadas todas as noites e é uma lembrança tão linda que eu tenho dele! Ele já não está comigo, agora mora no céu. Não sei como é lá, mas imagino que seja como um lindo jardim.

Minha mamãe está por perto e foi ela que me fez lembrar, por esses dias, da música O Caderno. Isso acabou me inspirando este texto.

Eu ainda acho que a vida pode ter magia, sonho, encanto, bondade. Você acha? Se você achar, a resposta é SIM, porque VOCÊ é o futuro.

NÃO PERCA JAMAIS ESSE SABOR DE INFÂNCIA!!!

Sabe esse prazer que um simples galho de árvore pode trazer, se você, transformá-lo, por meio da imaginação, em ferramenta de um grande artista? 

Sabe o cheirinho de fruta saborosa? O pezinho na areia perto da água do mar? 

Sabe o poder de uma folha de papel que pode se transformar em barco ou avião, se você dobrar direitinho? 

Não perca isso. Saiba levar isso para a vida adulta. Você vai entender que as melhores coisas não são compradas com dinheiro. 

Pode ser que nem tudo do que eu disse esteja totalmente certo. Eu sou humana e também posso errar. Mas é de coração. Senti que minha missão deste dia era escrever para você.

Feliz Páscoa. Que o coelhinho traga muita paz e alegria para seu coração.
Um abraço carinhoso,

Érika de Moraes

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PS: Vou indicar um vídeo para você do Youtube, com a letra da música O Caderno, de Toquinho e Vinicius:


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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

CRÔNICA - Dias claros como a neve

Crônica da estudante Larissa Borges Caliari (Jornalismo - Unesp) inspirada em notícia real.

Dias claros como a neve

por Larissa Borges Caliari

Acordo de manhãzinha e sinto o dia frio, ouço o papai chamando a mamãe para olhar a paisagem da janela. Ela se anima e ouço seus passos quando levanta da cama correndo. Os dois falam sobre a neve, em como ela deixou a paisagem branquinha durante a noite. Os dias mais frios são sempre muito animados aqui em casa. A voz da mamãe se torna mais doce e calma, e a do papai mais confiante e serena.
Fico imaginando como é a paisagem, me esforço para enxergar a mamãe e o papai, vejo o vulto deles, abraçados, olhando um para o outro. Então, eles caminham em minha direção, sinto o perfume do papai, que acabou de tomar banho para ir ao trabalho. Ele coloca um cobertor quentinho em cima de mim, enquanto a mamãe coloca a mamadeira em minha boca. Ouço o som de lenha queimando na lareira, de água fervendo para o chá, da batedeira funcionando. Logo em seguida, sinto o ambiente aconchegante, o cheiro de chá e de biscoitos assando.
Percebo tudo a minha volta, mas tem coisas que não são muito claras para mim. Como o cabelo brilhante da mamãe, que o papai diz que fica lindo com aquela touca azul-marinho, ou a diferença de cor entre o cabelo e a barba dele, que ela diz ser um charme único. As cores, formas e movimentos se confundem diante do meu olhar, mas sei que os dois são as pessoas mais bonitas que já vi.
O papai sai pra trabalhar logo de manhã, e mamãe vai perto da hora do almoço, quando a vovó chega com seus passos lentos e silenciosos e me pega no colo por horas, como todos os dias. A sua roupa é macia, o perfume suave e a voz sempre reconfortante. Hoje ela está mais feliz, percebo a ansiedade em seus movimentos e imagino que deve ser por causa da neve, que alegra os dias da família toda.
Percebo que está ficando tarde, os dois não chegaram na hora de costume. O dia já está se tornando noite e o frio aumenta com o repousar do sol. Então o portão se abre, ouço a conversa animada e os passos apressados. Mamãe entra e pergunta por mim para vovó, que aponta em minha direção. Eles vêm até o berço com uma caixinha embrulhada de presente. Estão conversando comigo, mostram o embrulho, desembrulham e abrem. Tiram de lá uns óculos, como o da vovó, e percebo que aqueles são pra mim quando papai traz em direção ao meu rosto. Ele prende atrás da minha cabeça e encaixa nos olhos.
Vejo tudo com clareza, as imagens são mais coloridas e brilhantes, papai e mamãe estão mais bonitos que antes, flocos branquinhos estão passando pela janela, é a neve! Vejo como é felpudo o casaco macio da vovó, como a pele macia da mamãe é branquinha e como o cabelo cheiroso do papai é encaracolado. Não consigo conter minha felicidade, sorrio para os três e eles sorriem de volta para mim! As risadas agora também são mais bonitas.


Notícia que inspirou esta crônica: campanha arrecada armações de óculos para pessoas de baixa renda.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

CRÔNICA - Vinte e três

Será que somos apenas um conjunto de números?
Ou seres humanos, com nomes, sonhos, planos, emoções e algo mais...
Texto singelo produzido pela estudante Clara Tadayozzi (Jornalismo - Unesp)

Vinte e três
por Clara Tadayozzi
  
- Ela era bonita? – perguntou, depois de certa hesitação.
- Para mim, a mais bela de todas – ele respondeu com visível ternura.
Naquele quarto frio de hospital, a visita diária às vezes trazia assuntos inusitados.
Ele prosseguiu relatando o pouco que sobrou de uma vida memorável.
- Nunca me esqueço do dia em que pedi sua mão. Namorávamos já havia algum tempo, às escuras. Ela era apenas um ano mais nova do que eu.
Nunca senti tanto receio em toda a minha vida; seu pai era tido com respeito, temido por todos os peraltas da cidade.
E eu, para a surpresa de todos, acabei sendo aceito naquela humilde família.
Logo criamos nossa pequena rotina, naquela vida adorável de recém-casados.
Aos fins de semana, costumávamos sair para comer fora e depois pegar um cinema. Pegávamos carona com o metrô e ficávamos entre curtas carícias durante o longo percurso.
Quando o filme terminava, eu já aguardava a doce pergunta: "Voltemos a pé?", e com um breve sorriso, assentia com a cabeça.
Logo pegava o seu par de sapatos, e saíamos a caminhar sob o céu noturno.
Não tínhamos pressa alguma, esperávamos o belo amanhecer naquelas familiares ruas de São Paulo.
Havia uma feira pela manhã, próxima a nossa singela residência. Eu comprava sempre dois pastéis para o desjejum. E então, voltávamos para casa e dormíamos até mais tarde.
Foram os dias mais felizes da minha existência.
Quando soube que ela estava grávida, tratei de encontrar um ofício a mais, e logo aumentei nossa pequena casa.
Providenciei tudo o que um pai poderia proporcionar a uma querida filha. Obtive ajuda de diversos amigos e, por fim, um mundo isento de necessidades e repleto de amor a aguardava, ansioso por conhecê-la.
Lamentavelmente, nunca teve a chance. Por um falho ato médico, subitamente perdi tudo o que tinha de valor neste mundo, até mesmo antes de ganhar. Um maldito fórceps, uma inestancável hemorragia.
Há quem me cobre processos jurídicos, mas dinheiro algum as traria de volta.
Foi como se o meu querido órgão cardiovascular se partisse em milhões de pedaços, que até hoje não consegui reunir. O lindo enxoval foi doado, com porções de minha alma embutidas.
Parei de viver por um eterno período de tempo. Nunca deixei de sentir a imensa dor que se apossa do corpo em grandes perdas.
Saí pelo mundo, a vagar por entre as cidades mal distribuídas; conheci os cantos deste país, e até de outros. Mergulhei em diferentes oceanos, presenciei acontecimentos inesquecíveis. Jamais algo me preencheu novamente.
A menina escutava comovida, sem saber como organizar as palavras que lhe surgiam na mente, para saírem adequadas da boca.
Lacrimejava, mas impedia que caíssem de seus olhos as gotas ansiosas por nascer.
Deu um sincero beijo em suas mãos calejadas e manteve-se em silêncio.
- Sou o número vinte e três da lista de transplantes – ele então lhe disse.