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O Incrível Hulk Azul

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O Incrível Hulk Azul (Sobre crianças, trabalho, profissões...) - Vem na minha casa, tia! - A tia logo vai! - Vem amanhã! - A tia vai daqui uns dias, antes tem que trabalhar. - Pra ganhar din din, né! Você traz um Hulk azul? A mamãe dele já explicou que não é para pedir as coisas. Mas é compreensível, ele só tem dois aninhos. E eu faço parte do ainda pequeno círculo de pessoas que, ele sabe muito bem, o querem feliz e amado. E observem o que ele pediu primeiro: presença. Claro que a titia apaixonada está doida para encontrar um Hulk azul (ele me disse que tem “na barraquinha”), mas parece que ele me escolheu para uma missão um pouco difícil (será que vale pintar um verde com tinta azul? Ou escolher um Smurf bem bravo com cara de Hulk?). Para quem não está atualizado, já existe Hulk vermelho, o que deve ter levado meu sobrinho a imaginá-lo de todas as cores. A história do Hulk me fez pensar sobre como vamos construindo a ideia de trabalho nas crianças. O primeir...

Reinos desunidos

O resultado do referendum inglês pela saída do Reino Unido da União Europeia – o chamado Brexit – trouxe ao mundo a sensação de estar presenciando um daqueles momentos históricos em que a linha do tempo irrompe em um marco. Em tais circunstâncias, não é difícil esquecer que a história de fato é constituída nas peculiaridades do dia a dia de cada cidadão. Qual a semelhança entre a experiência inglesa e a brasileira nas últimas eleições? Ambas trazem à tona as benesses e as controvérsias da democracia: esta não é a vontade de todos, mas de uma maioria. É questionado, porém, o próprio conceito de maioria quando os resultados mostram sociedades divididas. Por um lado, a democracia tem a sua legitimidade (e qual seria a alternativa a ela, se não a de recair em regimes totalitaristas?), por outro, um resultado como o britânico – 51,9 a 48,1% – representa um empate técnico. E, havendo empate, existe realmente a vontade de uma maioria? Ou existem vontades opostas que convivem no mesmo tem...

Língua, ideologia e empoderamento

O dia da Língua Portuguesa (5/5) é uma oportunidade para refletirmos sobre o significado social e político da linguagem em nossas vidas. Língua (não só a portuguesa) não se resume a um conjunto de normas de padronização (embora tais normas tenham funções importantes em termos de unidade e historicidade). Dizer que a língua não se resume às normas não implica negá-las ou minimizar a importância de aprendê-las, mas mostrar que seu conceito é muito mais amplo. Tomemos como exemplo o tema da aprovação, por deputados do estado de Alagoas, de lei que obrigaria professores a manter “neutralidade” em sala de aula, impedindo-os de “doutrinar” alunos em assuntos políticos, religiosos e ideológicos. Além da inconstitucionalidade, que pode ser discutida em âmbito jurídico, tal lei parte de um pressuposto equivocado, o de que existiria uma forma de linguagem desprovida de ideologia. Com o nome “Escola Livre”, uma lei como essa, a rigor, imprime a censura nas salas de aula. Assim como a censura...

Do lar, da luta e da lua

O enunciado da revista Veja, causador de polêmicas e brincadeiras nas redes sociais, não teria tanta relevância se considerado isoladamente: exalta um tipo de mulher - a bela, recatada e do lar, esposa de um homem de sorte. A personalidade retratada na matéria merece todo o nosso respeito como ser humano, como todas as mulheres e homens o merecem, inclusive a esposa de um político ou a Presidente da República. Criticar o governo é um exercício democrático (poderíamos criticar suas bases, por exemplo, a aliança PT-PMDB); já ofender pessoalmente um governante, com xingamentos, é algo bem diferente. Da mesma forma, ponderar o enunciado de Veja não significa desrespeito às mulheres belas (somos todas, em nossas lutas e biótipos), recatadas e do lar. Exercer uma profissão, aliás, não implica deixar de ter um papel fundamental no lar e, nesse aspecto, os maridos também são dos lares. Um dos dois, homem ou mulher, teria todo o direito de escolher exercer apenas uma das funções, mas os te...

Minha carta às crianças do Brasil

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Queridas crianças, Escrevo para vocês. Se ainda for pequena, papai, mamãe, titia ou algum responsável poderá ler para você. Este mundo está complicado. Tem violência em toda parte. Brigas por política aqui no Brasil, atentados terroristas do outro lado do mundo. Tem mosquito, dengue e zika. Mas, acalme-se. Vou dizer por que vai dar tudo certo. Vai dar certo por causa de VOCÊ. Você pode construir um mundo melhor. Eu não sou mãe, mas sou titia, professora, amiguinha e tenho uma irmã mais nova. Brinquei com ela de tudo, de boneca a escolinha. Sou professora dos maiores, dos jovens que já estão na faculdade. Também sou pesquisadora e escrevo alguns textos que poucas pessoas leem, mas sempre que alguém me diz que leu e aprendeu algo, fico muito feliz, porque não escrevo apenas para contar ponto no Lattes ( não se preocupe em entender esse Lattes agora, é coisa do mundo dos adultos ). Já escrevi sobre desenhos de crianças palestinas , sobre a Mona Lisa e outras ...

CRÔNICA - Dias claros como a neve

Crônica da estudante Larissa Borges Caliari (Jornalismo - Unesp) inspirada em notícia real. Dias claros como a neve por Larissa Borges Caliari Acordo de manhãzinha e sinto o dia frio, ouço o papai chamando a mamãe para olhar a paisagem da janela. Ela se anima e ouço seus passos quando levanta da cama correndo. Os dois falam sobre a neve, em como ela deixou a paisagem branquinha durante a noite. Os dias mais frios são sempre muito animados aqui em casa. A voz da mamãe se torna mais doce e calma, e a do papai mais confiante e serena. Fico imaginando como é a paisagem, me esforço para enxergar a mamãe e o papai, vejo o vulto deles, abraçados, olhando um para o outro. Então, eles caminham em minha direção, sinto o perfume do papai, que acabou de tomar banho para ir ao trabalho. Ele coloca um cobertor quentinho em cima de mim, enquanto a mamãe coloca a mamadeira em minha boca. Ouço o som de lenha queimando na lareira, de água fervendo para o chá, da batedeira funcionando. Logo ...

CRÔNICA - Vinte e três

Será que somos apenas um conjunto de números? Ou seres humanos, com nomes, sonhos, planos, emoções e algo mais... Texto singelo produzido pela estudante  Clara Tadayozzi (Jornalismo - Unesp) Vinte e três por   Clara Tadayozzi     - Ela era bonita? – perguntou, depois de certa hesitação. - Para mim, a mais bela de todas – ele respondeu com visível ternura. Naquele quarto frio de hospital, a visita diária às vezes trazia assuntos inusitados. Ele prosseguiu relatando o pouco que sobrou de uma vida memorável. - Nunca me esqueço do dia em que pedi sua mão. Namorávamos já havia algum tempo, às escuras. Ela era apenas um ano mais nova do que eu. Nunca senti tanto receio em toda a minha vida; seu pai era tido com respeito, temido por todos os peraltas da cidade. E eu, para a surpresa de todos, acabei sendo aceito naquela humilde família. Logo criamos nossa pequena rotina, naquela vida adorável de recém-casados. Aos fins de semana, costumávamos sair...