domingo, 14 de fevereiro de 2010

Vida de doutor é mais que BBB

Desde anunciado que haveria uma linguista da Unicamp no BBB, algumas pessoas me perguntam sobre “minha colega”. Já uma amiga de Brasília, por sua vez, contou-me que acharam que era ela. Na verdade, não conheci a Elenita, apenas somos doutoras pelo mesmo Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e, coincidentemente, defendemos tese no mesmo dia 19/12/2008.

Aviso que não pretendo esgotar o assunto e remeto ao blog de uma outra doutora, chamada Caroline e amiga de Elenita:
http://carolinguista.blogspot.com/2010/02/acaso-afortunado.html

Não que eu concorde com todas as suas palavras, mas creio que o texto, cuja força admiro, cumpre um papel importante ao oferecer uma visão alternativa ao rotulante artigo de Marcelo Marthe, de Veja (“Doutora em Barracos”), ao menos na blogosfera.

Cada um sabe bem o que faz da própria vida”, nesse aspecto penso exatamente como Caroline.

Quanto à aposta de que “muitos acadêmicos não perdem um capítulo do BBB”, pode até ser, só acho que não é uma regra geral. É que, como eu, vários acadêmicos estão, digamos, “ralando”, dando aulas em cursos noturnos, tendo outros empregos durante o dia, eventualmente estudando para concursos, preparando artigos para congressos...

Houve um tempo em que ter uma graduação era um diferencial. Hoje em dia, com o aumento do número de mestres e doutores, a carreira acadêmica, como outras, torna-se extremamente competitiva e é preciso muito esforço para alcançar algum “lugar ao sol”. Elenita escolheu um caminho alternativo - total direito dela - mas não é regra, é exceção. Não seria também papel da imprensa divulgar a vida “padrão” de um doutor?

Primeiro, o candidato enfrenta uma seleção concorrida para entrar num curso de doutorado. Pode conseguir ou não uma bolsa (CNPq, Fapesp), o que está cada vez mais raro; quando consegue, o auxílio financeiro (em geral, menor que a remuneração de uma atividade no mercado profissional compatível ao nível de formação) exige dedicação exclusiva para a pesquisa e cumprimento de prazos apertados.

No caso do meu curso (o de Linguística, do IEL), passamos por três exames de qualificação, sendo dois deles em áreas diferentes da área de tese, exame de aptidão em duas línguas estrangeiras (não podendo ser espanhol), entre outras exigências além da carga de disciplinas e da tese em si. Fiz isso trabalhando como jornalista e, na medida do possível, dando algumas aulas, por gosto e também por necessidade de “fazer currículo”.

Enfim, não é nada fácil seguir uma carreira acadêmica hoje. Mesmo que passar em um dos concursos de universidade pública (cada vez mais concorridos e exigentes), um doutor terá um salário menor que o de muitas profissões liberais que exigem apenas graduação (quem tiver curiosidade basta pesquisar editais). Acredito que a maioria dos acadêmicos seja movida pela sede de conhecimento, não por dinheiro (infelizmente, a “fita métrica” do “sucesso profissional”). Não se fala muito disso, porque, por definição, notícia é o inusitado, não o convencional.

Doutores são seres humanos, ora. Como acontece com qualquer profissão, entre doutores pode haver gente boa, gente ruim, gente esforçada, gente “folgada”. Sim, pois mesmo com tantas exigências, há quem consiga levar as coisas na “folga” para obter um “titulozinho”. Se um médico comete uma imprudência (e não estou afirmando que este seja o caso de Elenita, pois decisão pessoal não é imprudência), você generaliza e denigre toda a classe médica?

Estou cansada de ouvir uma visão estereotipada das ciências humanas (“pendor esotérico vigente nos departamentos de ciências humanas”). E isso precisa começar a mudar dentro da própria academia. Geralmente, na maioria das universidades e institutos, ficamos com o resto de equipamentos de informática, por exemplo, como se também não precisássemos de máquinas rápidas para pesquisa. Não temos salas privativas como ocorre com outros pesquisadores de biológicas e exatas. Certa vez, um colega da computação comentou sobre a “sala de jogos” da Universidade. Não, era um local para estudo, mas ele deu à sala também essa função. E não era um estudante de Humanas.

No ano passado, lembro-me de ter visto na TV o Padre Fábio (que também respeito), durante uma de suas lições de vida (não raras vezes, preciosas) dizer algo como “muitas pessoas se acham mais do que outras porque têm um doutorado”. Pensei: até, tu? Poderia ter usado algum outro exemplo: por ter um carro zero, usar uma roupa de marca... Daqui a pouco, precisaremos nos desculpar por ter um doutorado. Boa parte dos doutores que conheço não chegou até lá porque foi fácil, mas porque agarrou a oportunidade que a vida deu de estudar, por vezes a única que teve. Não digo isso sem reconhecer que muitos não têm essa oportunidade.

Não tenho tempo de ver BBB, pois chego a trabalhar cerca de 14 horas por dia: 6 como jornalista, 4 dando aulas e outras 4 preparando as aulas, corrigindo textos dos alunos, etc. Nas horas livres, tenho outros interesses. Mas fazia tempo que queria “espiar” a linguista. Liguei a TV na sexta e vi o pessoal da casa “esfregando o esponjão”. De fato, algo pouco educativo, que em nada contribuirá para uma sociedade mais sábia, capaz de ler e interpretar criticamente um texto jornalístico, por exemplo. Jornalistas não são donos da verdade - digo isso como jornalista, inclusive - mas não costumam deixar isso claro.

Mas, vejam só. Big Brother já se esgotou, é tudo um repeteco. Colocando lá uma doutora, despertaram a curiosidade até de alguém como eu que, desde o segundo ou terceiro BBB, já não aguentava mais. Não é uma boa estratégia para obter ibope?
Não terminei, mas já me estendi demais.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Jornalismo e Diploma

Quando "caiu" a exigência de diploma para jornalistas, a imprensa não cansou de noticiar o assunto. Mas passou meio batido que a exigência "voltou".
Republico artigo redigido por mim para o Jornal da Cidade, Bauru.

22/06/2009 - Opinião
Jornalistas agora sem diploma - estamos preparados para isso?

Independentemente de repetir argumentos sobre a queda da exigência do diploma para exercício do jornalismo, farei um relato. Acabo de voltar da Noruega, onde estive em intercâmbio de estudos patrocinado pela Fundação Rotária, tendo a oportunidade de vivenciar a cultura do país durante um mês e conhecer diversos veículos de comunicação. Naquele país, o diploma para jornalistas não é uma exigência. Mesmo assim, em todos os jornais em que estive (em Bergen, Stavanger, Sandnes, Haugesund, etc.), os jornalistas, sem exceção, têm formação universitária. A maioria cursou a faculdade de comunicação, especialmente os mais jovens, ou outras áreas de humanidades, como sociologia e literatura. Conversando com os profissionais noruegueses sobre o debate que então se passava no Brasil, alguns achavam engraçado (ou até autoritário) o Brasil ter uma lei que exigia o diploma para trabalhar como jornalista. De qualquer forma, eram unânimes em afirmar que o mercado é competitivo e o profissional precisa estar preparado para exercer a profissão. Por isso, é natural buscar o aprimoramento e a maturidade intelectual, o que passa pela formação universitária, embora não se limite a ela. O que é preciso para ser um bom jornalista? Entre outras coisas, “o desejo de mudar o que está errado”, responde André Jamholt, editor do jornal norueguês Sandnesposten. Talvez não precisemos do diploma, assim como a Noruega não precisa (só que, lá, os carros param para os pedestres atravessarem as ruas e as pessoas andam de bicicleta para poupar o meio ambiente). No entanto, é lamentável que se compare a profissão de jornalista a um conhecimento meramente técnico e intuitivo, quando é necessário pensamento crítico, agilidade de raciocínio, discernimento, ética e muito mais para exercê-la. É perigoso que, no Brasil, a não necessidade do diploma respalde o argumento dos despreparados, tal qual um silogismo, de que “qualquer um pode ser jornalista”. Daniel Cornu, no livro Ética da Informação (Edusc) traz uma luz a essa discussão ao tratar da diferença entre liberdade de expressão (todos têm o direito de dizer) e liberdade de imprensa (o exercício profissional e regulamentado do dizer, sobre o qual se responde, inclusive judicialmente). Acredito que é preciso muito mais do que um diploma para exercer uma atividade complexa como o jornalismo (é perigoso que o “muito mais” seja entendido como “muito menos”). Caberá à sociedade escolher entre uma geração de divulgadores de notícias superficiais ou profissionais que ajudem a combater a pior mazela de nosso país, que é a corrupção. Não posso deixar de fazer essa comparação: a Noruega é um dos países mais ricos do mundo e tem o primeiro IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), possuindo somente o petróleo. Não é pouco, mas nós também temos, além de uma certa quantidade de petróleo, um solo em que tudo se pode plantar (o solo norueguês é rochoso), um povo batalhador. O Brasil é um país maravilhoso, mas não avançamos por causa da corrupção. E o jornalismo ainda é uma das poucas armas para tentarmos combater esse mal em busca de um país melhor.

A autora, Érika de Moraes, é jornalista, doutora em Linguística e professora do curso de jornalismo da Universidade do Sagrado Coração, em Bauru
Érika de Moraes

Verão na Noruega

Mais sobre a Noruega, veja minha matéria no caderno de Turismo do JC (Jornal da Cidade, Bauru, 13/08/2009).

Minha viagem em símbolos e ícones


Representaçao pictórica que o aluno Sérgio Trivelato fez para minha viagem!

Cabeça de bacalhau

- The head of the codfish -



Os Noruegueses acham engracado saber que, no Brasil, todo mundo pergunta onde esta a cabeca de bacalhau. Eh que o peixe ja chega industrializado no Brasil. Entao, o Osvaldo (lider do grupo de Intercambio Rotary) fotografou essa no mercado de peixe. Mas, na verdade, nao estamos em epoca de bacalhau e nao tem muito por aqui atualmente. Tem mais salmao.
Mas eis ai a cabeca de bacalhau, direto from Norway. Erling me contou que eh possivel come-la, que as partes da face do peixe sao gostosas. Algumas pessoas dao para os animais comerem. E o Osvaldo contou uma historia assim: um amigo falava que tinha um carro, um Fusquinha, mas ninguem nunca havia visto o tal carro. Ate que um dia o cara apareceu com o Fusca, que ganhou o apelido de cabeca de bacalhau. E a gente comentou que tem muita coisa cabeca de bacalhau nesse mundo: namorada cabeca de bacalhau, diploma cabeca de bacalhau. Eu conheco ate quem tem carro zero pago com dinheiro cabeca de bacalhau...
Para mim, a Noruega nao fica como a terra do bacalhau. Dos sabores daqui, meus preferidos sao os morangos com creme, o wafer e o sorvete de palito de blueberries. Sverre, um amigo de Sandnes me chamou de Dessert Girl (uma garota que gosta de sobremesa). Confesso que prefiro os morangos aos frutos do mar. Os morangos daqui sao especiais por causa do clima frio e da maior quantidade de luz que recebem (ja que no verao escurece bem tarde, por volta de 23h, e amanhece cedo, antes das 4 da manha).
Fica tambem como a terra de pessoas muito gentis, de uma natureza linda e muito mais... Mesmo assim, para cada pessoa, nada melhor do que o lar. Muitas saudades do Brasil!!! Embora eu saiba que va levar para la as melhores lembrancas e as saudades da Noruega. Espero voltar um dia para ca, mas antes preciso buscar umas coisinhas minhas no Brasil: uns cachecois e especialmente meu amado.

Postado no meu blog do UOL em 06/06/2009 (From Norway)

Preikestolen


Cheguei ao alto do Preikestolen, em Stavanger, Noruega, com os amigos do Grupo de IGE - intercambio Rotary.
Uma experiencia muito diferente e especial. Certamente, mais um desafio vencido em minha vida, assim como foi vir de aviao do Brasil a Noruega. Sao 704m de altura, numa subida de cerca de 2h30 (mais o tempo de descida), com trechos bastante ingremes e rochosos.
Cada pessoa tem o seu topo de montanha para alcancar, por isso, quem sou eu para dizer que todo mundo TEM QUE ir ao Preikestolen. Alguns descreveram a sensacao como a emocao inigualavel de estar no topo do mundo. Eu curti, do meu jeito e de forma mais introspectiva. E tive com ainda mais conviccao a certeza de que, como diria Caetano, cada um sabe a dor e a delicia de ser o que eh. Eu senti uma alegria indescritivel no dia em que defendi minha tese de doutorado. Colhia um fruto de 5 anos de trabalho e me sentia segura diante das perguntas instigantes e desafiadoras da banca. Mas nao posso dizer que todo mundo tem que defender uma tese para ter essa sensacao. Muitas pessoas achariam isso extremamente boring, e eu respeito. Soh queria dizer que cada um sabe o que eh a SUA montanha, a emocao que busca, e merece ser respeitado como eh. Uns precisarao galgar montanhas, outros, talvez, simplesmente se realizem nos bracos de quem ama.
Mas eu nao resisti ao desafio e estive lah! Com meus medos e dificuldades, mas estive. No Preikestolen... Quer experimentar?

CURIOSIDADES:-
Apesar de parecer perigoso, os noruegueses dizem que o Preikestolen praticamente nao registra acidentes. Ha um ano, uma americana precisou ser resgatada de helicoptero porque feriu a perna.
- Alguns pais sobem com as criancas pequenas amarradas em cadeirinhas de colo.


O Preikestolen observado do fiorde, de barco. Foi la no alto que estivemos... Soh para constar: esse passeio de barco foi com uma familia muito especial de Sandnes, o casal Erling e Grete.

Postado no meu blog do UOL em: 03/06/2009 (From Norway = sem acentos)

Uma praia na Noruega


Uma praia na Noruega

Demorou um pouco, mas encontramos uma praia na Noruega, em Sandnes. Pouca areia, se comparado ao Brasil. E um frio... (este havia sido um dia quente, com Sol) Mas uma vista linda, com claridade às 11 da noite! A Lua de um lado, o Sol do outro...

Postado no meu blog do UOL em: 30/05/2009

Jornalismo na Noruega


No Estudio da NRK, uma rede de broadcasting norueguesa que produz conteudo para TV, Internet e Radio.

Tenho tido a oportunidade de conhecer alguns veiculos de comunicacao aqui na Noruega: em Bergen, Askøi, Stavanger... Eh muito interessante ver como a profissao funciona em outro pais.
Aqui, o diploma nao eh exigido para exercer a profissao. Mas, como o mercado eh competitivo, todo mundo tem ampla formacao. TODOS os jornalistas dos veiculos em que estive ate agora tem formacao superior, em jornalismo ou outra area de Humanas, como sociologia.
As pessoas gostam muito de noticias locais, e os jornais procuram ser o mais local possivel. Mesmo os jovens gostam de ler o jornal local no papel. Em Askøi, o editor me contou que eh muito comum as pessoas comprarem o jornal para lerem durante a travessia de Ferry Boat. Coluna social eh muito popular aqui tb. A profissao de jornalista pode nao ser a mais bem remunerada, mas em um jornal local o salario fica em torno de 300 mil Kronas Norueguesas por ano - aproximadamente, 8.300 reais por mes. Eh certo que na Noruega as coisas sao mais caras, mesmo assim, eh bem melhor que no Brasil. E esses jornais locais nao costumam ser diarios, tem mais ou menos 3 edicoes por semana, o que faz com que a vida de jornalista aqui nao seja a loucura que eh no Brasil. Tenho um montao de novidades para contar para meus alunos!!!!
Ja que falamos em salarios, seguem algumas curiosidades sobre os custos na Noruega:
- uma diaria em hotel 5 estrelas: 4500 Kronas (aprox. 1500,00 reais)
- Big Mac: 90 Kronas (Aprox. 30,00 reais)
- Leite Condensado em mercadinho com produtos internacionais: 24 Kronas (8 reais)
- Um ice capuccino brasileiro (!!!) : 50 Kronas (16 reais)
- Ice cream em massa (uma bola) : 40 Kronas (13 reais)
- Souvenirs: muito dificil achar um chaveirinho por menos de 60 Kronas (ou 20 reais)
- Agora, pasmem: para tirar habilitacao para motorista custa basicamente 7 mil reais! E os carros aqui sao muito caros, estacionamentos mais ainda. Um dos objetivos eh incentivar o uso de bicicleta.
- Os salarios, evidentemente, sao melhores. Visitamos uma importante fabrica de construcao de navios (Vicking) em Askøy, onde o salario dos operarios eh de 150 Kronas (ou 50,00 reais) por hora. Tem muito estrangeiro trabalhando no mercado de peixe porque eh muito vantajoso.
- Litro de gasolina: quase 12 Kronas
- Latinha de coca-cola no mercado : 13,50 Kronas (aprox. 4,50 reais)
- Restaurante: uma sopa de peixe para uma pessoa fica em torno de 150 Kronas (50 reais).

OBS.: estou na Noruega em Intercambio de Estudos patrocinado por Rotary.
Postado em meu blog do UOL em: 27/05/2009 (From Norway)

Brasil X Noruega - algumas curiosidades



Primeiro, eh necessario dizer que nao procede essa historia de que europeu eh frio... da mesma forma que o Brasil nao tem apenas carnaval... Os noruegueses sao educadissimos, absolutamente respeitadores e abrem o coracao para a calorisidade brasileira!
Seguem algumas curiosidades e peculiaridades sobre a Noruega e sobre minha viagem.
- Como sabem, o voo eh muuuuuito longo. De Brasil a Amsterdam, viajamos pela KLM, mais de 11 horas, depois fizemos a conexao para Bergen. Havia muitas opcoes de filmes no voo. Assisti a O diabo veste Prada, Vick Cristina Barcelona, ouvi muitas musicas... Curti as comidinhas do aviao e, qnd pensei que nao ia ter mais nada (ja tinha lanchado, jantado...) serviram ice cream.
- Por falar em ice cream, vale a pena experimentar o sorvete de massa de Bergen! Curti o de plomme (uma fruta de sabor fresco que combinaria com o Brasil) e o de valnott (nozes).
- O pessoal aqui costuma jogar o papel higienico no vaso sanitario, por isso, podemos encontrar banheiro que nao tem cesto de lixo. A gente que eh do Brasil estranha bastante. Vale lembrar que as descargas aqui sao bem mais potentes tb...
- Em Bergen, eh costume tirar os sapatos para entrar nas casas e o pessoal leva isso muito a serio. Acho um costume legal, bem higienico! Eu e o Ronaldo fazemos isso em casa, usamos chinelinhos... Mas o legal eh que as casas aqui tem um espaco especial para guardar os casacos e os sapatos das visitas. Poderiamos implantar isso no Brasil e disponibilizar umas pantufinhas para as visitas, que tal?
- Estamos em summer time, com 5 horas de diferenca do Brasil, para mais. Estamos bem pertinho do polo norte! Aqui, escurece bem tarde, quase as 11 da noite e o sol nasce cedo. Mas no inverno a noite comeca as 4h30 da tarde...
- Eu me adaptei facil com a alimentacao daqui, pois gosto de peixe, especialmente salmao. Mas precisei me acostumar com o salmao cru. Evito o camarao, pois jah tive alergia. Aqui come-se pepino e tomate no cafe da manha, entre outras coisas, como o Brown Cheese, que eh um queijo com cara de doce de leite. E consomem muito pouco acucar, cha e cafe sao basicamente servidos sem acucar. Alias, nos perguntaram: como vcs tem dentes bons consumindo tanto acucar?
- Todo mundo tem maquina de lavar louca por aqui... E as casas sao muito limpas especialmente porque nao tem poeira, jah que o solo eh rochoso.
- Eu fiquei maravilhada com os fiordes e as aguas limpidas do mar daqui. Mas logo percebi que faltavam as praias (mas dizem que existem algumas por aqui, embora diferentes do Brasil). E o nosso Sol brasileiro tb... O solo daqui eh rochoso, nao tem areia. Nao eh tao produtivo para plantar. Por isso, foi depois que descobriu o petroleo que esse pais ficou rico. A Noruega nao tem o solo riquissimo que temos no Brasil, mas teve a capacidade de se tornar o primeiro pais em Indice de Desenvolvimento Humano com o que encontrou, o petroleo. E o Pais soube usar isso com sabedoria e honestidade, por isso cresceu.
- Eh incrivel como olhar para o mar na Noruega eh igualzinho a olhar para um globo ou mapa-mundi. Eh tudo azulzinho com pedacos de rocha no meio. Parece que estamos olhando a Terra de longe, o que me fez me sentir praticamente uma astronauta. Depois de vir para a Noruega, posso embarcar no prox. voo com o Marcos Cesar Pontes...
- Ninguem eh perfeito, por isso, nos brasileiros, nao podemos perder nossa auto-estima. Cada pais eh muito especial, a sua maneira...

PS: sem acentos, pois estou em teclado noruegues, ok?
Postado em meu blog do UOL em: 27.05.2009 (From Norway)

Remember Norway

Liquimix in Norway!!!



Entre maio e junho de 2009, estive na Noruega, participando de um intercâmbio patrocinado pela Fundação Rotária (IGE). Fomos em um grupo de quatro brasileiras (não rotarianas) e um líder de grupo rotariano.

No domingo, 17 de maio, participamos das festividades do Dia Nacional da Noruega, em Bergen. É dificil descrever, fiquei admirada com o orgulho que o povo tem do país (seria bom se fôssemos um pouco mais assim...). Todo mundo usando trajes típicos nas ruas! Entramos no desfile com bandeirinha norueguesa e tudo! São quatro parades (desfiles), às 7 da manhã, ao meio-dia e no fim da noite. Aliás, com direito a Sol às 11 da noite!!!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Novos caras pintadas?

Por que será???

Do Uol Notícias, 13/08/2009:
"Um grupo de cerca de dez estudantes pediram nesta quinta-feira (13) a saída do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Eles foram conduzidos até a sede da Polícia Legislativa do Congresso para explicar o motivo da manifestação."

Nada sei especificamente sobre a biografia desses estudantes. Portanto, não se trata de apologia a eles. Já o histórico biográfico do Sr. José Sarney é publicamente conhecido. Então, pergunto: precisa mesmo explicar o porquê da manifestação? Algo a ver com atos secretos?

Postado no meu blog do UOl em: 13/08/2009.

Lei antifumo




Em matéria do Jornal da Cidade de Bauru (07.08.09), o presidente da OAB de São Paulo questiona a constitucionalidade da Lei Estadual nº13541, que proíbe o fumo em locais públicos:

“Independente da condição de ser fumante ou não, o fumo inegavelmente é um mal. Como também é a bebida e tantas outras atividades e sequer sobre elas se legisla”, define. (citação no JC)

A opinião acima (de alguém da área do direito) mostra que leis têm aspectos subjetivos e geram interpretações divergentes. Mas reflitamos. Ora, diferentemente de outros males (comer fritura em excesso, por exemplo), o cigarro afeta a saúde DO OUTRO, e não só de quem fez a opção por ele. O álcool afeta quem bebe e dirige, por isso se legisla sobre dirigir alcoolizado. Quem bebe e comete violência pode ser punido pelo Código Penal. Claro que o mundo seria perfeito se todas as pessoas tivessem consciência a respeito de cigarro, bebida, drogas em geral, etc.

O cigarro afeta diretamente a saúde alheia. Já sofri muito com o fumo passivo. Por fazer mal AO OUTRO, a quem não escolhe esse mal, o cigarro pode ser considerado um dos piores vilões. Por isso, a lei é pertinente e necessária. Só observei uma consequência negativa: mais pessoas fumando nas calçadas, nas quais temos necessidade de passar. Uma pena. Foram difícies meus momentos em pontos de ônibus. Um cigarro aceso aqui, outro ali, não sabia aonde ficar para me refugiar da fumaça. Em geral, arrumava algum cantinho debaixo de sol escaldante, enquanto os fumantes curtiam seu vício nos locais de sombra. "Os incomodados que se mudem". Um belo mundo. Leis ajudam a melhorar o mundo, mas só a inteligência e o respeito podem salvá-lo.

Postado no meu blog do UOL em: 10/08/2009

Brasil!!!!!!!!!!

Da Folha de São Paulo (09 de abril de 2009):

Senadores gastam média de R$ 6.000 mensais em celular
Conta da Casa em 2008 foi de R$ 8,6 mi; congressistas não têm limite de uso

O Senado gastou R$ 8,6 milhões com pagamento de contas de telefones celulares no ano passado, de acordo com dados do Siga Brasil (sistema de acompanhamento dos gastos de orçamento da Casa). Em média, o gasto por congressista foi de ao menos R$ 6.126 mensais, numa conta conservadora.
(...)
A Folha consultou as operadoras TIM e Vivo, que prestam serviço ao Senado, para saber quanto um cliente pessoa física pode falar ao celular gastando R$ 6.000 por mês. Pelo melhor plano, é possível usar o aparelho por 11 horas diárias por 30 dias em ligações no Distrito Federal. Naturalmente, o volume é apenas para fins de comparação, já que não faria sentido um senador só fazer ligações locais.”

Etc. Etc.

Quanto você, leitor, pode gastar por mês com seu celular? Quantos brasileiros dispõem de R$ 6.000,00 reais mensais para gastar com TUDO de que precisam (saúde, educação, alimentação, transporte, sonhos... será que sobra para os sonhos?)?
Eu uso celular pré-pago. Até poderia usar um pós-pago e continuaria atenta a meus gastos, já que sou uma pessoa responsável e sei muito bem de onde vem o dinheiro que gasto (do meu trabalho). Só que os R$ 6.000,00 mensais gastos por estes senhores com celular também vêm do MEU trabalho (do meu e do seu, leitor, que já temos nossos impostos retidos na fonte). Para que economizar com celular quando a conta é paga pelo Estado (entenda-se POVO), não é mesmo? Simples assim: o cargo oferece um salário de R$ 16.500,00 livres (mais “auxílios” e mais até R$ 15.000 de verba extra). Celular, transporte, viagens, etc. são pagos pelo “Estado”, já que, oras, eles usam o dinheiro para trabalhar por nós! Do nosso dinheiro, uma parte vai para os altos salários de políticos e seus assessores, outra parte vai para os mensalões e mensalinhos. Com o que sobra, tenta-se fazer algo pela saúde, educação, etc. Como sobra pouco, os serviços que deveriam ser dignamente prestados à população deixam a desejar (para usar uma expressão bem leve e não levar esse texto para o tom que o tema é capaz de suscitar). Como tais serviços “deixam a desejar”, quem pode (ou dá um jeito) paga à iniciativa privada pelos serviços que deveriam fazer parte do pacote de impostos.
Poderia indagar: como fazer para que nossos governantes entendam que o dinheiro que gastam não é deles, mas nosso? Mas a pergunta já traz a resposta: justamente porque a fonte é externa que não se mensura, gasta-se à vontade, como se a fonte fosse inesgotável. A lógica é: “não sairá do meu salário, logo posso gastar à vontade”. “Se vou pagar a conta, um cafezinho com pão de queijo está ótimo; se a conta é terceirizada, vou de lagosta”.
Oh, dirão: estas ligações são para negociações importantes para nosso país. E blá, blá, blá.
A vantagem de viver num país democrático é que ao menos posso expressar minha humilde indignação neste blog. Mas sou realmente livre? Gosto mais de escrever sobre filmes e outras coisas bonitas. Porém, na “democracia” em que vivemos, nem a inspiração é tão livre.
Pobre de quem morreu durante a ditadura por ESTE país. Ditadura, e não “ditabranda”. Veja bem, ninguém é perfeito: a Folha erra com o uso de uma expressão como “ditabranda”, mas cumpre seu papel ao escancarar para a sociedade os gastos de nossos governantes.
Só viveremos numa democracia verdadeira se, algum dia, governantes entenderem que nos representam para nos servir, e não para nos sugar. Algum dia?

Postado no meu blog do UOL em: 12/04/09

Flying


Visita ao Museu Asas de um Sonho em São Carlos, em 2007. Apaixonei-me por este avião!


Quando visitei o Museu da Aviação em São Carlos, em 2007, apaixonei-me por esta aeronave da foto. Foi a primeira projetada e construída por uma mulher, num tempo em que se pensava que os talentos do sexo feminino se resumiam à culinária e aos cuidados com o lar. Este modelo foi produzido em 1939 e importado pelo Brasil. Voou pouco: seu proprietário Joaquim Bicudo Ferraz solicitou o cancelamento da matrícula, por temer eventual requisição pelo governo para uso militar, em plena Segunda Guerra Mundial. O avião permaneceu desmontado por mais de 40 anos, até ser encontrado em um hangar em Itu, SP, quando foi incorporado ao museu – curiosamente, em troca de uma motocicleta (há outras histórias pitorescas no acervo).

A história desse avião, por um lado, confirma o estereótipo da criatividade e jogo de cintura femininos (a mulher, com poucos ingredientes, economiza e ainda faz um belo almoço...), já que ele antecipou um conceito de vendas de produto para montar (no estilo kit “faça você mesmo”). Por outro, deixa claro que a inteligência feminina sempre foi muito além.

Este American Flea Ship é o único exemplar do modelo na América Latina e, talvez, o único do mundo em condições de voo.

No museu, encontram-se as principais informações sobre a história de cada uma dessas aeronaves. No entanto, ao visitar o acervo, senti falta de um dado fundamental: o nome da inventora! O monitor não soube me dizer, mas passou-me o contato do responsável pelo museu (que por ele tem carinho especial, aliás). O Sr. João Amaro gentilmente me atendeu, repassando minha pergunta ao historiador Ian Comber. Fica minha sugestão: é muito válido acrescentar, na placa da aeronave, o nome da mulher que a projetou! Ou das mulheres envolvidas, já que, segundo o historiador Ian, a aeronave foi projetada pela americana Cassel de Hibbs, mas seu projeto em forma de kit parece ter sido de autoria de outra mulher, Lillian Holden. Detalhes que tornarão a história mais precisa e cuidadosa, valorizando a memória dessas figuras femininas.
O historiador pontuou ainda que há no museu outra aeronave que teve intensa participação feminina em seu projeto: o Miles Hawk M2H. Seu nome era Blossom Miles. Juntamente com o marido, George Miles, ela foi responsável pelo principal projeto do casal (um modelo avançado para a década de 1930), além de seu piloto de teste, tendo feito todos os ensaios de voo. Essa aeronave foi, mais tarde, responsável por um dos principais treinadores primários da Royal Air Force, Miles Magister. A fábrica da Miles na Inglaterra é considerada uma grande pioneira da aviação.
Para quem pensa que mulher deve saber fazer “pelo menos uma macarronada”...


Réplica do 14 Bis de Santos Dummond.
Atualmente fechado para uma grande reforma, o Museu merece ser visitado quando reinaugurado! (Escrevo sem patrocínio da Tam, rss...)

Postado no meu blog do UOL em: 16/03/09

Revolutionary Road

Foi apenas um sonho
e algo mais...



Kate e Leo não vieram apenas para serem os mocinhos. Merecidamente, ela leva o Oscar por The Reader. Poderia também ser por Revolutionary Road.

Em 1998, a química entre Kate Winslet e Leonardo DiCaprio rendeu um encanto especial às telas de cinema. Foram 11 Oscars para Titanic, visto e revisto incansavelmente pelos fãs apaixonados (eu fazia parte desse grupo). Num curso de extensão em antropologia, na Unesp, redigi um trabalho (com seriedade, juro) sobre o “fenômeno Leo DiCaprio”. Eu só queria pensar no filme, muito mais no romance do que no navio que naufragava. Pensar nas emoções, intenções e intensidades, entender as metáforas. Queria viver o filme, mas sem naufragar. Atire a primeira pedra quem nunca desejou o melhor dos lados.

Assistir a Revolutionary Road, inevitavelmente, traz um revival de Titanic. E, de repente, uma indagação sombria: se Jack sobrevivesse, teriam ele e Rose se tornado um típico casal americano ao modo de Frank e April Wheeler? Não, acho que não. J&R tinham o brilho e o fogo de viver que os Wheeler almejavam. Era isso que faltava ao segundo casal. Nas palavras de James Cameron, “the kind of love we all dream about, but seldom find”. Raramente. Será que, como em Revolutionary Road, só os loucos (ou os muito corajosos) podem ou conseguem dizer a verdade? Talvez. (o velho princípio de que loucura e responsabilidade são incompatíveis, lembraria Foucault - ver A Evolução da Noção de “Indivíduo Perigoso”)

April tentou gritar. Frank tentou ouvir. É tão triste que não tenham conseguido. Ressalvados todos os defeitos de ambos, acho que se amavam. Love, not hate (love and hate?). Mas sem entendimento.

Compreendo-a. Não disse que a isento ou aprovo, apenas compreendo-a. Eu teria lutado com mais forças pelo amor e pela vida, mas o que mais poderia uma mulher na década de 1950? Acho que ela desistiu quando ouviu dele que poderia buscar ajuda terapêutica para curar o vazio. Também o compreendo. Ele só queria cumprir o que supunha ser seu dever.

Quem consegue conforma-se. Quem não se conforma rebela-se, vai a extremos: sofre ou persevera (ou as duas coisas, alternadamente). Acredito verdadeiramente que valha a pena viver e lutar. Ninguém está dizendo que é fácil.

O papel de parede amarelo. Lembrei-me desse conto que tão bem descreve a que ponto pode chegar a incompreendida emoção feminina. The Yellow Wallpaper, de Charlotte Perkins Gilman, tido como um dos precursores da literatura feminista americana. Uma das aulas mais marcantes da professora Valéria Biondo no meu curso de Letras!

Triste a vida da mulher que tem suas emoções tolhidas. Se tudo é proibido, se tudo é impedido, só resta a obsessão pela única cor que se tem à frente. A cor ganha cheiro, ritmo, vida. Porque todas as outras cores lhe foram negadas.


Mesmo diante de um iceberg... If you are here, there’s nothing I fear!



But if you are far... or if you don’t understand... Tudo é “vazio e sem esperança”.

Postado no meu blog do UOL em: 26/02/09

Fortaleza Digital


Fortaleza Digital
De Dan Brown, autor de O Código Da Vinci.
Dan Bressan, valeu a dica, amigão!!!

Um dia, eu cismei que queria ter os poderes de Trinity. Meu amigo Danilo disse que, se eu gostei de Matrix, iria gostar de Fortaleza Digital. Então, eu li.
Entre aulas, estudos, trabalhos e afins, fui lendo nos intervalos. Como é gostoso aquele tipo de leitura que faz você querer voltar logo ao livro para saber o que vai acontecer!
Não sei como Hollywood ainda não descobriu o Fortaleza Digital. Renderia ótimas cenas de ação. E romance, claro (o que o cinema, evidentemente, exploraria).
Nos dois casos (Matrix e Fortaleza), há algumas facilitações. Algumas, no livro de Dan Brown, incomodaram-me bastante. Fui corretora de vestibular por vários anos e, seguindo os critérios de correção de redação, seria obrigada a tirar pontos de coerência do autor por algumas passagens. Tá, o cara escreveu um livro grande e eu nasci com o gene “cri-cri”. Mas sabe quando o vilão acerta a bala em todo mundo menos no mocinho? Ou, ainda, quando você precisa encontrar uma garota punk de cabelos azuis e vermelhos numa grande cidade e, num passe de mágica, depara-se com uma loirinha que acabara de tingir os cabelos (e, claro, era a punk...). Etc. Tão fácil assim, só na ficção. Às vezes, o autor conseguiu me surpreender. Outras, adivinhei rapidinho aonde ele ia chegar. Mas, o tempo todo, a leitura me prendeu.
Que Fortaleza Digital daria um bom filme, isso daria!David poderia ser interpretado por Keanu Reeves e Susan, por Carrie-Anne Moss, para repetir a dupla de Matrix. Também poderia ser Sandra Bullock. Ou Keira Knightley (apesar de jovem para o papel, mas ficaria bem).
Opcionalmente, Tom Cruise serviria para o papel de David (com aquela cara de espanto de Guerra dos Mundos).
John C. Reilly (O Aviador) ficaria bem como Stratmore. Eu escalaria Hugh Grant para Hale – ele ganha o papel por sua capacidade de despertar amor, ódio ou as duas coisas juntas (como em O diário de Bridget Jones). E Elijah Wood (O Frodo de O Senhor dos Anéis) para o papel do pobre jovem Phil Chartrukian, técnico de segurança.
Pronto, já posso ser cineasta, rs... Tenho roteiro e atores.
A ficção faz a gente sonhar: queria ter os poderes de Trinity!!!

Postado no meu blog do UOL em: 06/02/2009

Vírgula, e...

Um amigo me perguntou quando se usava vírgula antes de “e”. Pergunta boa, mostra que ele desconfia das generalizações do tipo “nunca use vírgula antes de e”. Vírgula não é sinônimo de pausa, mas, como numa melodia, o “compasso” da frase pode abrir a possibilidade para uma vírgula optativa. Outras vezes, a pausa parece ser uma certeza, mas alguma regra de norma padrão barra o uso da vírgula (ex. entre sujeito e predicado). Quanto ao “e”, várias possibilidades podem surgir conforme a produção textual. Rascunhei uma delas para o meu amigo, do jeito que me veio à cabeça:

Aquela praia me fazia relembrar a infância, cujo gosto era de morangos frescos, e me obrigava a recordar o olhar severo de minha avó.

Nesse caso, a vírgula que precede o “e” é exigida por uma oração intercalada. A “informação” principal do período é: “Aquela praia me fazia relembrar a infância e me obrigava a recordar o olhar severo de minha avó” (duas aditivas, na classificação tradicional). No meio, uma outra frase “qualifica” a infância (cujo gosto era de morangos frescos = o gosto da infância era de morangos frescos), por isso fica intercalada (entre vírgulas).

Este é apenas um dos casos de “e” precedido por vírgula que a escrita pode gerar. É bem mais legal ver isso na linguagem em funcionamento (o meu exemplo aqui é artificial). Fica a dica: é bom desconfiar das regras que soam muito categóricas.

PS: não conheci praia na infância (só mais tarde), não tive uma avó severa e já era adolescente quando aprendi a apreciar o sabor azedinho do morango. A escrita tem sua realidade própria. Por isso, adoro literatura.

Postado no meu blog do UOL em: 05/02/09

O Curioso Caso de Benjamin Button



Brad Pitt e Cate Blanchett estrelam o longa dirigido por David Fincher

Uma metáfora sobre o tempo, os desencontros, as mazelas humanas (“todos terminamos de fraldas”). Nascer e envelhecer é triste. Desenvelhecer, além de triste, é atípico, causa estranhamento. Carrega-se o fardo dos diferentes. Mas igual, quem é?
Tudo é efêmero, tal qual sucesso de bailarina. Parábola entremeada por fatos históricos. Como em Forrest Gump, a diferença traz um quê de inocência.

Postado no meu blog do UOL em: 19/01/09

Las Nubes



Ao lado da racionalidade, sempre tive um lado romântico. A primeira vez que assisti a Caminhando nas Nuvens (A Walk in the Clouds), amei. O filme e o Keanu. Gostei de tudo, do cavalheirismo, do amor incondicional, das plantações de uva, do humor bem dosado, da bela fotografia. Só não gostei de uma coisa: do incêndio. Eu queria tudo perfeito, sem tragédias. Hoje, assistindo ao DVD, tive uma outra visão. Tá vendo como a maturidade traz novas perspectivas? O incêndio era necessário. E, além do mais, foi menos um símbolo de tragédia do que de recomeço. E salvou o orgulho do menino órfão de raízes, que, a partir de então, poderia ajudar a reconstruir Las Nubes com seus próprios braços. Nisso, eu não mudei: ainda gosto de pensar que a história continua depois que o filme acaba.

Ontem, Ronaldo e eu vimos O dia em que a Terra parou. Depois, brinquei com meu amore que eu tinha visto um ET e ele me disse: “não era um ET, era um plantador de uvas!”.

Se as histórias continuam depois que o filme termina, será que Paul está feliz para sempre ao lado de Victoria, Neo está com Trinity ou Klaatu voltou para o espaço?

Postado no meu blog do UOL em: 17/01/09

Pra ser sincera...

“... eu não espero de você mais do que educação; beijo sem paixão; crime sem castigo, aperto de mãos”(Engenheiros do Hawaii, composição de Humberto Gessinger e Augusto Licks)

Às vezes, ao falar ou escrever, quando me vem o ímpeto de usar a expressão “pra ser sincera”, lembro-me de um comentário que faz pairar um fantasma.
Walter Longo, conselheiro de Roberto Justus no programa O Aprendiz, da Record (acho que foi em O Aprendiz 5 – O sócio) criticou um dos candidatos demitidos na temida sala de reunião devido ao uso da expressão “sendo sincero” ou variantes como “posso ser sincero?”. O conselheiro disse algo mais ou menos como: “olha, quando você diz isso, dá impressão que não está sendo sincero nos outros momentos”.
Crítica justa? Não sei. Não me lembro do contexto todo, tampouco sei que grau de credibilidade o candidato em questão (de cujo nome também não me lembro) inspirava. Evidentemente, critérios subjetivos fazem parte da avaliação sobre se uma pessoa é verdadeira, autêntica, etc. Trata-se também de uma questão de ethos: a imagem que se constrói de si, podendo ou não corresponder à realidade.
Mas o que me intrigou, desde que ouvi tal comentário, foi o seguinte: a acusação tem uma força de verdade respaldada na lógica: se, às vezes, preciso dizer que sou sincera, logo é possível (provável?) que, outras vezes, eu não esteja sendo (tão) sincera. Discordo, mas é aparentemente difícil contrapor um argumento “lógico”, não é?
Pois bem. Os estudos de Análise do Discurso (linha francesa) levaram à constatação de que os sentidos não estão nas palavras, não se originam nelas, mas se constroem conforme postos em circulação. Assim, uma palavra ou expressão pode significar coisas muito diferentes, dadas as variadas circunstâncias.
O que isso tem a ver com a sinceridade? Uma expressão como “pra ser sincero”, nas circunstâncias em que é utilizada, não costuma significar “neste momento, estou sendo o contrário de falso”. Essa interpretação só funcionaria se as línguas permitissem, apenas, um suposto sentido literal. Ocorre que o uso enfático de “ser sincero” parece significar muito menos “não ser falso” do que “ser enfaticamente sincero”, menos político ou diplomático, mais realista. Em tempos em que se cobram atitudes politicamente corretas, muitas vezes, ser autêntico (demais) é um problema.
Quem encara ser “bem sincero” o tempo todo, no dia-a-dia? As relações sobreviveriam? Nesse sentido, o “ser sincero” se torna algo mais raro, mas não significa que o “ser falso” seja o estado “normal” das coisas. Trata-se de uma forma de enfatizar: “estou abrindo mão se ser politicamente correto, diplomático, ainda que eu seja criticado por isso”.
É claro, se o “ser sincero” entra com exagero na fala de alguém (pode ter sido o caso do tal participante repreendido na sala de reunião do Roberto Justus), torna-se um cacoete.
Espero que o exemplo sirva de estímulo para, sempre que necessário, duvidarmos da aparente facilidade da lógica. Ou, pelo menos, suspeitarmos de que a realidade pode ser muito mais complexa. Procure a palavra “sincero” no dicionário, verá que sua definição não dá conta de todos os problemas que ela coloca.

Érika de Moraes
Doutora em Linguística pelo IEL/Unicamp

Postado no meu blog do UOL em: 11/01/09

Ano novo, novas regras ortográficas

Fato 1 = O que muitas manchetes alarmistas chamam de "reforma da língua portuguesa" trata-se de "reforma ortográfica". Ou seja, a língua não vai mudar de uma hora para outra (ao mesmo tempo, vai continuar se renovando a cada dia). O que mudam são alguns tópicos localizados de ortografia.

Fato 2 = Na opinião de alguns, a reforma é uma maravilha, vai tornar as obras em língua portuguesa e a cultura dos países envolvidos mais conhecidas e valorizadas. Na de outros, é um desastre, vai confundir a cabeça dos falantes e dos aprendizes. Nas duas posições, há uma boa dose de exagero.

Fato 3 = Continuará havendo controvérsias, como sempre houve. Aurélio grafa dona-de-casa, com hífen. Houaiss dona de casa, sem hífen. Questões de interpretação. Outras reformas já houve. Outras virão. Nunca será possível empacotar as regras ortográficas num envelope lógico.

Fato 4 = A falta de exatidão permanece (porque língua não é ciência exata MESMO). Um exemplo: segundo a nova regra, diz-se que o hífen deixará de ser usado em palavras compostas cuja noção de composição "se perdeu", ou seja, que os falantes "percebem" como uma só palavra, como: paraquedas (antes, pára-quedas), pararraios (antes, pára-raios). No entanto, micro-ondas (ex microondas) passa a ter hífen por causa de outra regra, palavra há muito tempo "percebida" como uma só (especialmente, quando se vai até o aparelho esquentar o lanchinho). Além disso, há exceções: manutenção do hífen em palavras "percebidas" como uma só, mas que "mantêm uma tonicidade própria", como arco-íris. Se você, leitor, não entendeu por que a "tonicidade própria" de tocafitas (ex toca-fitas) se perdeu e a de arco-íris se manteve, fique traqüilo: você simplesmente é normal.

Fato 5 = Vi a declaração de uma professora, num telejornal, preocupada, porque preparava as aulas com os livros que tinha em casa. Eis um fato positivo: sim, todo mundo vai ter que estudar! Como, aliás, sempre foi preciso. (OBS. não estou julgando as condições de a professora comprar novos livros. Sendo bem sincera, acho que os educadores deveriam/mereceriam ter uma verba destinada a isso).

Fato 6 = Ouvi de um amigo (mas ele não foi o único a expressar isso) a preocupação quanto ao aprendizado das crianças: com a queda do trema, como elas saberão a diferença de pronúncia entre linguiça e guitarra? Essa é fácil de responder: da mesma forma com que lidam com a diferença, digamos, entre os sons representados graficamente pela letra "x" (em xícara, em exceção ou em profilaxia, por exemplo. Aliás, também em exemplo). É um bom momento para notar que a ortografia nunca, NUNQUINHA, foi uma transcrição fiel da fala. A salada sempre existiu. Mas pode ser uma saborosa salada de frutas.

Fato 7 = Agora, sou mais brasileira. O "K" do meu nome deixou de ser estrangeiro! Quanto ao Liquimix, já nasceu moderno, sem trema.



Uma fila de uns 12 cm de livros me chama...

OBS.: Declaração da professora se refere à matéria do Jornal Hoje, Rede Globo, do dia 1/1/08.

Postado no meu blog do UOL em: 01/01/09

Novos desafios...

Cumpri minha principal meta de 2008! Defendi minha tese de doutorado na manhã do dia 19 de dezembro, na Unicamp. A banca foi instigante e me propôs questionamentos desafiadores. É isso o que enriquece, amadurece. Todo o ciclo foi uma experiência incrível, que acrescentou muito à minha vida. Terminei 2008 feliz, confiante, determinada. Meus sonhos nunca terminam: realizam-se ou transformam-se, e recomeçam!
E vem 2009! Ano em que, simultaneamente ao meu trabalho como jornalista, retorno à amada carreira de professora. Que eu estude, trabalhe, dance, ame, viaje, recomece, blogue, aprenda mais. Não seguirá aqui uma lista de promessas, mas toda a ação que couber no poema.
Desejo a todos saúde e disposição para lutar pelo que quer, e que seja pelo bem.

Postado no meu blog do UOL em: 01/01/09

Breve nota pelo dia da criança

Para mim, há uma impropriedade semântica no slogan “Criança não trabalha, criança dá trabalho”. O início está corretíssimo. Criança não tem que trabalhar, tem que brincar, dar risada, desenvolver a criatividade. Quando cresce um pouquinho, além disso, tem que estudar (bastante!), o que não deixa de ser um “trabalho”, ou seja, o estudo é o trabalho adequado a uma certa faixa etária. Também merece ter acesso a esportes, música, atividades culturais, para ir descobrindo do que gosta, com o que tem afinidade. Mas acho que a criança que não trabalha (não submetida à exploração infantil) não é necessariamente uma “criança que dá trabalho”. Pode até dar o trabalho “normal” que qualquer criança daria (criança é mesmo para ser cuidada e quem é responsável por uma criança sabe que precisa dedicar energia a ela). Mas dá muito mais prazer, alegria, gratificação. Quero dizer, uma criança bem-cuidada, que tem suas necessidades satisfeitas, que não é podada, mas aprende os limites e, acima de tudo, recebe muito carinho, tem tudo para ser muito mais uma criança que dá alegria do que trabalho. Pode até ser uma criança peralta (espuleta, capetinha, qual é a palavra da moda?), mas não creio que seja a criança que quebra os CDs da titia de propósito ou a futura pichadora de muro e aquela que ameaçará bater na professora. Então, suponho que a chave não é “dar trabalho”, e sim ter o direito de aprender a viver, o que inclui, entre muitas outras coisas, o aprendizado utilíssimo de lidar com o “não”, mas também o direito de experimentar o diferente. De pintar o Pica-Pau de preto quando todos o querem azulzinho como o do desenho animado.
(Eu me lembrei da minha amiguinha Heleninha. Ela é uma criança muito amada e bem-cuidada! Outro dia, levei para ela um desenho do Pica-Pau para pintar, e ela o pintou todo de preto. Acho que queria mostrar resultado rápido.)
Mas, ok, se for preciso escolher entre uma coisa e outra, que seja a criança que “dá um pouco de trabalho” e não a criança que “trabalha”. Mas é que ainda sonho com o mundo melhor do que é! Certas coisas passam a falsa impressão de que as escolhas são sempre entre apenas duas opções: sim ou não; certo ou errado; tudo ou nada, 8 ou 80. Acho que não. A visão de mundo centrada na dualidade ofusca a multiplicidade.



Não é que a Heleninha tinha razão?

Postado no meu blog do UOL em: 12/10/08

Notícias de uma doutoranda

(Original escrito em 03/08/08)

Alguns amigos me perguntam o porquê da ausência no blog. Não é intencional, mas sintoma de uma tentativa de concluir uma etapa importante de minha vida. É hora de ser firme no propósito de terminar meu doutorado até o fim deste ano. Fechar um ciclo para que outros possam se iniciar. Pesquisar é um prazer e uma paixão – se não fosse, não seria uma escolha. Mas também é árduo. Também é inquietante. Dá vontade de parar e escrever no blog, e dançar, e ver um filme, e comer um bombom, e ligar para uma amiga. Não que eu não faça tudo isso. Mas é momento de fazer mais tese do que tudo isso. Para depois poder fazer mais tudo isso do que tese. É hora de ter foco. De um pouquinho de silêncio. Porque é possível, quando há um objetivo, mesmo para quem ama o movimento e o barulhinho bom.
Aproveito para registrar que estive na Unicamp na última sexta, feriado em Bauru. Eu estava com muita saudade de lá... Desde que acabaram minhas aulas (resta a tese) e trabalho em Bauru, tenho ido muito pouco para lá. Uma pena. Confesso que quase abracei a Unicamp, aliás, metaforicamente, foi o que eu fiz. Não havia muitos alunos por lá devido às férias, mas alguns leitores nas bibliotecas ou nos banquinhos simbolizavam a vida estudantil. Senti uma enorme vontade de gritar para todo mundo que a Unicamp é simplesmente linda! Será nostalgia? Lembrança de uma época que quase chega ao fim? Caso de “dar valor ao que quase já não se tem”? Ao que está longe? Tudo isso junto e mais um pouco. Lembranças das épocas de aulas em que encontrava amigas e amigos tão queridos! As viagens para lá todas as semanas eram cansativas, mas tão compensadoras. E os pequenos grandes sabores estavam sempre ali, bastando buscá-los: de uma boa aula, uma boa conversa ou um livro recém-lançado ao suco natural (uhmm!!!) da barraquinha da Física! Anos que marcam uma “linda juventude” e já deixam saudade.
Depois da visita à Unicamp e do encontro com o orientador, fomos (eu e Ronaldo) conhecer a Livraria Cultura de Campinas. Divina, três pisos. Eu adoro colocar aqueles fones enormes nos ouvidos e ficar experimentando CDs e mais CDs. Se tivesse uma dessas em minha cidade (ou se eu morasse numa cidade que tivesse uma dessas), eu iria sempre, sempre.
Unicamp, te amo. Você me viu crescer de verdade. Fiz graduação em Bauru e só para o mestrado saí da terra-natal. Com todo amor que posso ter – e tenho – por Bauru, foi o mestrado que me trouxe, não só um diploma, mas a verdadeira descoberta de que o mundo é muito maior.

Érika – doutoranda em fase (quase) final...


Vista da biblioteca central, Unicamp. Seguindo em frente, fica o IA (Instituto de Artes), onde já fiz uma oficina de dança do ventre. Depois, o IEL (Instituto de Estudos da Linguagem), onde estudo. Lá tem um pequeno bosque que parece feito para poetas... Depois, o IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas que, aliás, deu origem ao IEL) e assim por diante...

Postado no meu blog do UOL em: 03/08/08

Desafio musical

Sue Ellen me passou este desafio:
Responder às perguntas SOMENTE com TÍTULOS de canções de uma banda/grupo/cantor escolhido por mim.

Aí vai!
Banda escolhida: The Beatles!




- Você é Homem ou Mulher? Another girl
- Descreva-se: I’ll follow the sun (às vezes, The fool on the hill)
- O que as pessoas acham de você? I’m happy just to dance with you (ops! Talvez seja I am the walrus)
- Descreva sua atual relação com seu namorado ou pretendente: It´s only love
- Onde queria estar agora? Magical mystery tour
- O que pensa a respeito do amor? Do you want to know a secret?- Como é sua vida? Flying
- O que pediria se pudesse ter apenas um desejo? Love me do
- Escreva uma frase sábia: All you need is love

Bacana a brincadeira, não? Então, estejam todos convidados a participar aqui pelo blog!
Escolha seu(s) músico(s) preferido(s)!
Aproveito para confessar minha Beatlepaixão.

Postado do meu blog do UOL: 26/06/08

Ensaio sobre a cegueira


Mark Ruffalo e Julianne Moore em cena de Ensaio sobre a Cegueira (Blindness), Fox Filmes. Direção de Fernando Meirelles.

Ensaio sobre a Cegueira
José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel

Cega o Primeiro Cego, atrapalhando o trânsito. Ao volante, parado no semáforo, a última imagem que vê é a luz vermelha do farol. Cega o médico oftalmologista que assistiu o Primeiro Cego. Cega o Ladrão, aquele que, sob o pretexto de ajudar, roubou o carro do Primeiro Cego. Cegam a rapariga dos óculos escuros, o rapazinho estrábico, o velho da venda preta, a empregada do consultório médico, a mulher do Primeiro Cego. Para que nomes? São todos eles, simplesmente, “os cegos”. A cegueira é branca, repentina, sem sintomas, sem indícios. Parece ser contagiosa. Cegueira pega? “A morte também não se pega, e apesar disso todos morremos”. Por precaução, o governo isola o grupo de cegos, numa tentativa de controlar a epidemia. Onde? Não à toa, um manicômio serve de morada para o grupo de cegos. O exército vigia, atira no cego que ousa se aproximar da saída. A comida – pouca – é deixada na porta para os cegos. No princípio, são seis. Depois, são 30. Depois, mais de 300 cegos em quarentena. Todos cegos, exceto uma pessoa: a mulher do médico. Esta mentiu estar cega para acompanhar o marido e espera o tempo todo pelo momento de sua cegueira que deverá chegar. Mas seus olhos permanecem iluminados. No começo, disfarça sua condição de vidente. Só ao final revelar-se-á a guia que ilumina o caminho dos amigos. Chega um grupo de cegos maus no manicômio. Exigem os objetos de valor dos outros cegos para dar-lhes comida. Depois, exigem as mulheres: violação, estupro. A mulher do médico mata com uma tesoura o chefe dos cegos maus – ato terrível, porém vingança justificada. Duzentas páginas depois, após um incêndio acidental, os cegos encontram os portões do manicômio abertos e saem, libertos. “Os loucos saem”, diz o narrador. A essa altura, todo o exército já está cego. Mais do que isso, toda a população está cega. Tudo é caos. Sistemas de energia e água não funcionam. Mercados e lojas foram saqueados, na luta por encontrar alimentos e roupas. As casas foram invadidas, pois quem não consegue chegar a sua casa, domina a primeira que vê (por direito de usucapião). A cidade fede. Lixo e fezes nas ruas. A mulher do médico, verdadeira guerreira, única testemunha ocular do caos, toma a frente na luta pela sobrevivência de seu grupo de sete. O rapazinho estrábico, há muito, já não pergunta mais pela mãe. Vão se acostumando à condição de não-humanos. Com tudo se acostuma... são as “brutidões egoístas que resultam da simples, porém imperiosa, necessidade de manter-se”; “quando a aflição aperta, quando o corpo se nos demanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos”. O cão das lágrimas consola a mulher do médico. Entram numa igreja e... loucura! Todos os santos de olhos vendados. Tudo no limite, alimento escasso. Trezentas páginas depois, a cegueira branca do Primeiro Cego torna-se negra. Ele abre os olhos e... Vê! Pouco a pouco, cada um vai recuperando a visão. Aí termina o livro. Não se diz o que acontece depois. É provável que os ex-cegos, agora videntes, empenhem-se no projeto de reconstruir a cidade, quem sabe passando a enxergar a vida de uma outra maneira, porque foi preciso cegar!

*** Enquanto aguardamos a estréia de Blindness nos cinemas (prevista para 12 de setembro de 2008), uma sinopse by Érika para quem gostou do livro de José Saramago.

Postado no meu blog do UOL em: 25/05/08

Poema

Muitos amigos já conhecem. Mas segue aí um poema que escrevi em agosto de 2000. Ainda gosto dele. Quem sabe, um dia, ainda me dedique à literatura...

Nascimento do Poema
Acordei no meio da noite
Com vontade de comer bolo formigueiro
(aquele de granulado)
E de compor um poema.
Coceira. Formiga. Inspiração.
O bolo só pode ser desejo do meu filho,
O poema. (...)
Poemas parecem mesmo bebês:
Adoram a madrugada
Nascem de uma dor singela
Nascem de uma alegria dolorida
A dor emociona e dilacera.
O chamado surge no meio do sono,
Dentro do sonho.
A poesia nasce de um jeito de ver o mundo.
Do desejo de viver o mundo.
Palavras nascem inocentes
E pecam sem querer pecar
São perfumadas as palavras
São feridas as palavras
e ferem sem querer ferir.
Incompletas, em construção.
Palavras, fonte de desentendimento
Assim, calei meus amigos.
Calei a mim mesma.
Rasguei as palavras.
Picotei-as. Desmontei-as.
Re-co-lei-as, cicatrizadas.
Ilusões quebradas.
Cacos de palavras. Pedaços remontados.
Meu Lego infantil.
Minha punição: a greve de palavras.
Abster-se?
Eu, diluída. Eu, dilacerada.
Sinto-me desnutrida
Porque fiquei sem palavras.
Nelas, nas palavras, estão as substâncias de que preciso
Para viver.
Eu, matéria dispersa.
Pensamentos fluidos, desconexos.
Abster-me das palavras?
Porque há palavras erradas...
Porque há palavras inexatas...
Porque há palavras imprecisas...
Não há palavras certas, exatas e precisas.
Como pareço com as palavras!
Elas são imperfeitas, imaturas,
Incompletas, em construção.
Silêncio, avesso das palavras
Silêncio, introspecção, reflexão sublime.
Só o silêncio diz mais do que as palavras.
Só o silêncio dói mais do que as palavras.
(...)
Tire-me meus sonhos,
E faça-me pequena, destituída de existência.
Prive-me das palavras, se quer matar minha alma.

Érika de Moraes.

VIVER... Apesar de. Além de!

Por quê?
Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
Ao sentido de viver, amar, morrer?
(Drummond)

Esses versos de Drummond abrigam a essência dos mais profundos questionamentos humanos. Lembro-me de ter associado essas palavras do poeta ao que diz Clarice Lispector em seu belo “Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” – livro em que a autora subverte a pontuação, iniciando-o com uma vírgula e terminando-o com dois pontos: a história é como a vida, não termina nem começa nos limites de um livro. Ulisses, o personagem-filósofo de “Uma aprendizagem...”, parece ter um “rascunho de resposta” para os questionamentos de Drummond:

"Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida."
(Clarisse Lispector, dando voz ao personagem Ulisses, em "Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres"

Talvez! Devamos viver, apesar de que vamos morrer. Viver, amar e morrer, apesar da falta de sentido do viver, amar e morrer. Houve um tempo em que concordei com essa “resposta”. Mas o tempo passou e descobri que vivo além de. Apesar de é pouco. Quero bem mais que o apesar de. Quero ultrapassar. E VIVER... além de! A vida, que não é banal. A vida, intensamente a vida! Além do apesar de. A vida além de! Vida cheia de emoções. Emoções verdadeiramente vividas. A plenitude, o pulsar da vida.

Postado no meu blog do UOL em: 14/4/08

Direito de escolha

Gosto muito dos livros de Maitena (Mulheres Alteradas, Superadas, Curvas Perigosas). Um dos motivos é que a autora traz à tona discursos que são cotidianamente silenciados. E o faz com muito bom humor. Raramente, encontram-se, nos espaços mais convencionais, discursos como estes sobre a amamentação:





Do livro “Mulheres Alteradas 5”, Maitena, Ed. Rocco. Trechos dos quadros “Aquelas coisas que ninguém te avisa na hora de você dar de mamar ao bebê”.

Por razões óbvias, tais discursos são apagados nas campanhas em prol da amamentação. Pertencem à região do interdito (aquilo que não se pode dizer). Mas não é “só” o discurso oposto que a obra de Maitena põe em circulação. Ela não nega nem exclui aqueles que são socialmente valorizados (o amor de mãe, a plenitude de se ter um filho, etc.). Nos quadros da autora, vários discursos convivem e, assim, explicitam a complexidade da realidade, que é muito mais rica e conflitante do que a visão maniqueísta quer fazer parecer.

É comum alguém se dizer indignado porque, por exemplo, uma mulher opta por não ter filhos. Tudo bem querer ter filhos. Tudo bem não querer. A falta de respeito à opção de uma pessoa apenas revela preconceito. Eu respeito quem quer ter filhos. Também respeito quem não quer. Só não consigo entender porque a decisão PESSOAL (ou a dois) de uma mulher (ou de um casal) deva indignar o outro.

Se algo me causa indignação, são os filhos colocados no mundo sem que os pais lhes ofereçam a menor estrutura. Muitos são postos para pedir esmolas nos semáforos. Também discordo das mães, pais ou casais que têm filhos para projetar neles seus próprios sonhos (sei que, em parte, isso é inevitável), que esperam deles aquilo que não conseguiram realizar. Que abrem mão de projetos pessoais para, depois, cobrar “tudo aquilo que fez por eles” ou “tudo que deixou de fazer por eles”. Que têm filhos (só) para não ter uma velhice solitária. Pobres essas crianças que já nascem com um “boleto de expectativas” para quitar, ainda que, às vezes, possuam até um plano de previdência desde recém-nascidas.

Também me soa autoritária uma afirmação do tipo “cesárea é um absurdo”. Escolher é legítimo e cada um é responsável por suas opções. Se a natureza é sábia, também proporcionou ao ser humano os avanços da medicina. [ESCLAREÇO: Contesto, especificamente, a afirmação “tal coisa é um absurdo”, que implica o julgamento “não deve ser feita”. Ou seja, não ponho em questão os benefícios do parto normal, apenas reitero a legitimidade de uma escolha.]

Ter ou não ter, eis a questão... Eu ainda não decidi. Poderão me lembrar que os óvulos não duram para sempre, mas ainda existe a adoção. Decido que, POR HORA, grávida de uma tese, seria cruel passar o estresse dessa fase para um bebê. Posso ser tachada de egoísta, segundo a noção clássica de egoísmo. Cada um paga um preço.

Também não sei que mundo os pequenos de hoje encontrarão pelo futuro. Com pouca água? Mais guerras? Mas eu juro que (ainda) não perdi toda a fé e esperança.

Outro dia, pensei numa coisa. A licença-maternidade foi uma conquista enorme da/para a mulher. Ainda precisamos brigar pelo aumento da licença-paternidade (que fosse pelo menos um mês!), tanto para que o homem possa vivenciar mais de perto o momento mágico de ser pai, quanto possa prestar mais assistência à sua mulher nesse período. E isso me fez pensar que, no mundo perfeito, também poderia haver a licença-tese. Por que essa também não poderia ser uma opção apoiada socialmente e até pelas leis trabalhistas?

Há três grávidas lindas no meu trabalho. Ou melhor, agora são duas, porque uma das minhas “sobrinhas” já nasceu. Admiro e respeito muito a escolha dessas minhas colegas.

Postado no meu blog do UOL em: 06/4/08

Ethos de “sabichão”

Circulou na internet um texto sobre “homens” cuja autoria é atribuída a Arnaldo Jabor. Seja ele ou não o autor (tenho dúvidas), o fato é que o escrito representa um ponto de vista a respeito dos gêneros masculino e feminino. Ou seja, como qualquer discurso, está vinculado a um posicionamento ideológico, o que implica uma conclusão óbvia: não se trata de uma “verdade”. Mas o texto (como qualquer outro que se pretende convincente sem compromisso teórico) trabalha a sua posição como “a” verdade.
O enunciador, previamente, já se armou contra quem discordasse dele: são as mulheres que se iludem. Ele constrói uma imagem de si como a de quem “sabe-tudo”, utilizando marcas, em seu discurso, de suposta “cientificidade”. Mas é só ler com atenção para ver que o texto não se sustenta. Exemplos:

“E digo com segurança: o que escrevo aqui se aplica a 99,9% dos homens baianos e brasileiros (sem medo de errar).”
A diferenciação entre brasileiros e baianos é só uma piadinha (alguém riu?). Já o dado estatístico apontado “com segurança” e “sem medo de errar” (olha a defensiva!) não se embasa em qualquer metodologia, assim como as observações (postas como verdades) que seguem:

“Não existe homem fiel. [...] Nenhum homem é fiel, mas pode estar fiel (ou porque está apaixonado, (algo que não dura muito tempo - no máximo alguns meses - nem se iluda) ou porque está cercado por todos os lados.
[...]
Não fique desencantada com a vida por isso. A traição tem seu lado positivo. Até digo, é um mal necessário. O cara que fica cercado, sem trair, é infeliz no casamento, seu desempenho sexual diminui (isso mesmo, o desempenho com a esposa diminui), ele fica mal da cabeça. Entenda de uma vez por todas: homens e mulheres são diferentes. Se quiser alguém que pense como vc, vire lésbica (várias já fizeram isso e deu certo), ou case com um viado [sic] enrustido que precisa de uma mulher para se enquadrar no modelo social.”

Já o trecho que segue repete chavões tão batidos que é de lamentar a falta de originalidade:

“A mulher se realiza satisfazendo o desejo maternal, com a segurança de ter uma família estruturada e saudável, com um bom homem ao lado que a proteja e lhe dê carinho. O homem é mais voltado para a profissão e para a realização pessoal e a realização pessoal dele vêm [sic] de diversas formas: pode vir com o sentimento de paternidade, com uma família estruturada, etc., mas nunca vai vir se não puder ter acesso a outras fêmeas e se não puder ter relativo sucesso na profissão.”
A idéia de que mulheres são voltadas “para o outro” e se satisfazem pela maternidade (exclusivamente), enquanto homens são voltados “para si mesmos” e buscam realização pessoal, sobretudo profissional, é uma construção cultural tão fortemente arraigada que pode passar despercebida, com máscara de verdade. Faz com que homens se sintam envergonhados diante de um gesto genuíno de entrega ou generosidade, que mulheres se percebam estranhas e culpadas mediante seus anseios pessoais. Enfim, que tais atitudes sejam consideradas excludentes.
Tal texto constitui um corpus significativo por mostrar como o discurso sexista funciona nos dias de hoje. O enunciador faz concessões, na tentativa de atualizar a “verdade machista”. Vejamos:

“Se vc busca o homem perfeito, pode continuar vendo novela das seis. (...) Os homens perfeitos de hoje são aqueles bem desenvolvidos profissionalmente, que traem esporadicamente (uma vez a cada dois meses, por exemplo), mas que respeitam a mulher, ou seja, não gastam o dinheiro da família com amantes, não constituem outra família, não traem muitas vezes, não mantêm relações várias vezes com a mesma mulher (para não criar vínculos) e, sobretudo, são muuuuuito discretos: não deixam a esposa (e nem ninguém da sua relação,como amigas, familiares, etc saberem).”
“Seu marido/noivo/namorado te ama, tenha certeza, senão não estaria com vc, mas trair é como um remédio; um lubrificante para o motor do carro. Isso é científico.”

Nos tempos atuais, não soaria politicamente correto afirmar, na lata, que é normal homem ter amante. Então, surge um novo discurso: os homens continuam traindo, mas “esporadicamente” e isso seria uma prova de amor (um silogismo). Não se fala em traição feminina, pois, segundo o ponto de vista adotado, a necessidade biológica de satisfazer desejos é exclusivamente masculina.

Talvez o instinto de poligamia seja realmente humano (masculino e feminino). E, talvez, seja por OPÇÃO que homens e mulheres possam escolher amar “sentimental-sexualmente” uma única pessoa.
Se é científico que trair é um “lubrificante” (segundo que teoria?), mulheres também podem precisar de tal “remédio”. Mas, justamente porque seres humanos não são carros, homens e mulheres podem prescindir dele. Podem escolher. Podem querer. Um querer racional, e ao mesmo tempo vinculado a sentimentos, que pode ser muito mais forte que o instintivo. Opcionalmente, pode-se querer seguir os instintos (quais? será que são únicos e iguais para todas as pessoas?). Homens e mulheres.

(Sue Ellen, permita-me emprestar uma citação do seu blog, de Nelson Rodrigues. Diálogo interblogs!)
"A maior tragédia do homem ocorreu quando ele separou o amor do sexo.
A partir de então passamos a fazer muito sexo e pouco amor.
(...)
Educação sexual deveria ser ensinada a éguas e cavalos, os homens precisam aprender a amar.”
(Nelson Rodrigues)


Postado no meu blog do UOL em: 22/03/2008

Três queixas

Coisa errada existe

Há algum tempo, Possenti escreveu o artigo “A leitura errada existe”. Deu polêmica. Numa época em que o papel ativo do leitor é valorizado, é preciso coragem para dizer que, sim, a interpretação X pode não ser cabível para o texto Y (o que não significa que Y possa ser interpretado de uma só forma). Mas nem é de linguagem que vou falar hoje. É da vida em geral, mesmo. (Só me lembrei do texto por causa do título)
Se eu tivesse de responder, numa enquete (como as das brincadeiras de infância), quais as três coisas de que menos gosto, minha resposta seria bem concreta:

Poluição.
Falta de seta no trânsito.
Cabeção de ‘atrasadinho’ no cinema.


Explico-me. Há mil coisas no mundo das quais podemos não gostar. A lista pode variar conforme a situação ou o humor do dia. Em geral, não gostamos dos substantivos abstratos. Observe as entrevistas com artistas: não gostam de mentira, falsidade, inveja... Eu também não gosto. Mas quem nunca cometeu um desses pecados imateriais, que atire a primeira pedra. Também não gosto de falar mal dos outros (e desconfio de quem vive a fazer isso), mas eu mesma, que sou humana, já falei, pois o limite entre isso e o desabafo é tão tênue. Mas acredito que o mundo poderia ser bem melhor se não fossem essas três coisinhas concretas.

A poluição. Não curto cigarro, mas, ok, sei que há o argumento sobre o direito de fumar. Já que não posso mudar o mundo, apenas tento fugir da fumaça e, às vezes, me privo da companhia de pessoas de que gosto e de ir a lugares bacanas. Opção. Num restaurante, recorro à área de não-fumantes, quando há. Já numa fila, penso que deveria prevalecer o bom senso. Não dá para aplicar a regra dos “incomodados que se mudem”, pois estar numa fila é sempre um caso de necessidade. Se seu avô fumava e morreu aos 105 de ‘velhice’, sorte dele. Minha respiração é sensível ao fumo passivo. E gosto dos meus cachos com cheirinho de xampu. E acho bem incoerente quando vejo algum defensor de árvores acendendo um cigarro.
Agora, se já é difícil fugir da fumacinha de cigarro, imagine da fumaçona das queimadas em terrenos baldios. Pois é, a lei proíbe, mas não tem jeito. É correr: fechar as janelas para que a fuligem e o cheiro cinza não se espalhem pela casa e borrem as roupas no varal. A gente perde o simples direito de secar a roupa com dignidade. Poderia ter mais fiscalização? Talvez, mas aposto que falariam de “indústria da multa”. O que falta mesmo é mais respeito com o próximo.



Vi e fotografei a pessoa ali, na minha cara, acendendo o fogo no terreno. Eis um exemplo de “coisa errada”: a mentalidade do tipo “dane-se o ar, dane-se a natureza, dane-se o outro”.

Falta de seta no trânsito. É divertido fazer o que se quer. Felizmente, há setores na vida em que tal liberdade é possível. A poesia, por exemplo. Você tem direito de escrever sobre o perfume, o cocô ou sobre o que quiser! Mas o trânsito precisa de regras e isso não é intransigência. É apenas uma questão de sobrevivência. Por isso, deixar de dar seta é outro exemplo claro de atitude errada. Assim como avançar a preferencial na placa de PARE como quem diz: “sai da frente que o bam-bam-bam quer passar”. Reclamar disso é intolerância minha ou uma questão de VIDA?
Motos, por favor, a seta vale para vocês também. Motoristas, não se esqueçam de que o lado de ultrapassagem é o esquerdo. E, por favor, a seta vem antes do ato de virar ou parar. O contrário não adianta.

Cabeção no cinema. Assumo, das três coisas citadas, essa é a menos grave, porque não mata. Só incomoda. Mesmo assim, vai para a minha lista. Não me refiro à pessoa alta sentada na poltrona da frente, mas sim a quem chega atrasado, no começo do filme ou nos trailers (gosto de ver os trailers, oras!) e chega, chegando, atravessando as fileiras na frente dos demais telespectadores, às vezes, até derrubando pipocas. Mas isso passa. Não é um comportamento exemplar (um pouquinho folgado, não acha?), porém, menos grave do que pôr fogo no mato ou mudar de faixa sem dar seta.

Fique à vontade para discordar da minha lista de 3 e, se quiser, aproveite os comentários deste post para fazer a sua.

Postado no meu blog do UOL em: 21/3/08

Intuição

Poderia escrever um texto sobre as qualidades femininas para exaltar a mulher, falar da beleza, da leveza, da maternidade, do sexto sentido. Ou poderia redigir um protesto, demonstrando a indignação por saber que, ainda hoje, em certos meios, a violência física contra a mulher é fato tão corriqueiro*. Mas vou aproveitar esse Dia Internacional da Mulher para dizer algo sobre um outro tipo de violência, mais sutil, a tirania do estereótipo.

Mulheres são doces e frágeis. Mulheres são pouco práticas, mas versáteis. Mulheres sonham com o Príncipe Encantado. Mulheres não têm boa noção de espaço, portanto, dirigem mal. São exageradas, angustiadas e neuróticas. Nasceram para ser mães. Fazem tempestades em copo d’água. Nem verdades, nem mentiras: estereótipos que, de tão repetidos, circunscreveram-se historicamente. Estereótipos poderosos e, às vezes, difíceis de desafiar. Tão bem mostrados nas charges de Maitena.

Bourdieu, no livro “A Dominação Masculina”, lembra que a distinção biológica entre os sexos é vista como penhor e “justificativa natural da diferença socialmente construída entre os gêneros e, principalmente, da divisão social do trabalho” (p. 20). É sempre fácil alguém argumentar a respeito das limitações da mulher com base nas diferenças biológicas dos corpos. E é fácil, também, esquecer que não foram as diferenças que construíram as desigualdades, mas estas – as desigualdades – é que foram historicamente justificadas pelas diferenças.

De todos os conceitos sobre a mulher, um que sempre considerei dos mais intrigantes é o da intuição feminina, também conhecida como sexto sentido ou associada à sensibilidade da mulher. Ao mesmo tempo em que instiga, causa um misto de orgulho sentir-se um ser iluminado, dotado de um certo encanto, uma certa magia inexplicável. Perguntei-me, diversas vezes, onde estaria a raiz histórica da construção da idéia da intuição feminina, qual a explicação que não se restrinja ao inexplicável. Encontrei um caminho para uma resposta em Simone de Beauvoir. No livro “O Segundo Sexo”, Beauvoir argumenta que a maior sensibilidade da mulher e sua percepção de sentimentos não advêm de uma determinação fisiológica, mas de uma construção cultural, já que, historicamente, num passado muito recente, enquanto o homem saía para trabalhar (ou para conquistar, etc.), ela ficava em casa e só lhe restava refletir sobre sua atual ou futura vida de esposa e mãe.

Ela [a mulher] tem uma preocupação extremada por tudo o que ocorre dentro dela; é desde o início muito mais opaca a seus próprios olhos, mais profundamente assaltada pelo mistério perturbador da vida do que o homem. (Beauvoir, p. 20)

Como fica claro, não se trata de negar que a tal “sensibilidade feminina” – que, como contrapartida, provocaria também angústias e instabilidades de humor – não possa existir de fato, mas não se trata (ao menos não integralmente) de um dado biológico e, sim, de uma característica que foi incentivada, estimulada pelas circunstâncias histórico-culturais:

A famosa “sensibilidade feminina” participa um pouco do mito, um pouco da comédia; mas o fato é, também, que a mulher se mostra mais atenta do que o homem a si mesma e ao mundo. (Beauvoir, p. 390)

Não quero ser a desmancha-prazeres que arranca do imaginário feminino a glória vitoriosa da intuição. Orgulhemo-nos dela. Presente divino, genético ou construção histórica, seja como for entendida, a temos. Quero, ao contrário, expressar a esperança. Se a intuição (ou a sensibilidade) pode ser aprendida, desenvolvida, quem quiser pode se beneficiar dela (mulheres ou homens). Da mesma forma, também podem ser aprendidas outras características como uma visão mais prática de mundo, útil em diversas situações. Enfim, pode-se desenvolver o discernimento de aproveitar o que há de melhor em cada circunstância. Mulheres e homens podem ser diferentes e complementares, sem deixar de aprender um com o outro.

Não quero destruir a idéia da intuição (ou quero e reluto? Num sentido específico, unicamente mágico, quero). Apenas defender que ela tem origem cultural (ao menos parcialmente, mas diria que em grande medida). Não é pura magia. Porque, como diz Beauvoir, “A idéia de magia é a de uma força passiva” (p. 78). PASSIVA!!! Percebam, então, queridas, o jogo que está por trás da associação da feminilidade ao universo encantado. Se entendermos que somos “culturalmente intuitivas”, nossos méritos se fortalecem, nos compreendemos mais ativas. Mais mulheres, mais pessoas.

Adoro ser mulher. Por isso, amo; por isso, danço. Por isso, estudo os efeitos dos discursos sobre a mulher.

Postado no meu blog do UOL em: 08/03/08

Ethos Discursivo




Com alegria, compartilho o lançamento do livro ETHOS DISCURSIVO, pela Editora Contexto, organizado por Ana Raquel Motta e Luciana Salgado. Nele, a intrigante questão do ethos (associado ao tom do discurso, aos traços de caráter que o interlocutor constrói, não necessariamente verdadeiros) é tratada por meio da análise de diversos tipos de discursos (político, artístico, jornalístico, autobiográfico etc.).

São autores:
Ana Raquel Motta; Luciana Salgado; Anna Flora Brunelli; Dominique Maingueneau; Edvania Gomes da Silva; Érica Scadelai; Érika de Moraes; Fabiana Miqueletti; Fernanda Mussalim; Graziela Zanin Kronka; Jauranice Rodrigues Cavalcanti, Jonas de Araújo Romualdo; José Luiz Fiorin, Marcela Franco Fossey; Márcio Antônio Gatti; Nilson Cândido Ferreira; Norma Discini; Sírio Possenti.

O capítulo de minha autoria, PAIXÃO PAGU – O ETHOS EM UMA AUTOBIOGRAFIA, trata da construção da imagem de si mesma desta que foi uma importante e controversa personalidade do modernismo brasileiro. Uma mulher de destaque, com seus defeitos, virtudes, coragens e fraquezas.

Postado no meu blog do UOL em: 07/03/2008

Flexionar ou não, eis a questão

Este é um ponto que costuma gerar dúvidas na hora da escrita: deve-se ou não flexionar um verbo no infinitivo? Não é em vão que essa dúvida é tão comum. Veja o que diz a gramática de Cunha e Cintra:

O emprego das formas flexionada e não flexionada do INFINITIVO é uma das questões mais controvertidas da sintaxe portuguesa. [...] Por tudo isso, parece-nos mais acertado falar não de regras, mas de tendências que se observam no emprego de uma e de outra forma no INFINITIVO. (Cunha e Cintra, p. 499)

Os autores apresentam as tendências e, ao final, concluem:

Trata-se, pois, de um emprego seletivo, mais do terreno da estilística do que, propriamente, da gramática. (Cunha e Cintra, p. 504)

Dificilmente haverá, portanto, uma resposta definitiva, em termos de certo ou errado, para a flexão (ou não) do infinitivo. O que não impede que, caso a caso, determinada forma soe melhor por questões de estilo. [P.S. Tampouco a visão que opõe gramática e estilística é definitiva! Ver observação do Prof. Sírio Possenti nos comentários deste post.]

Minha experiência como professora, corretora de vestibulares e revisora mostra que há uma tendência de quem escreve a flexionar o infinitivo, o que nem sempre implica a melhor solução textual. Tal tendência, parece-me, explica-se pelo fato de que a forma não flexionada, às vezes, pode causar a impressão (equivocada) de “erro de concordância”, provocando uma espécie de hipercorreção.

O leitor pode recorrer à gramática para obter orientações, embora não definitivas. No intuito de contribuir com a discussão, trago, abaixo, alguns exemplos da grande impressa (todos da Editora Abril) que revelam uma tendência pela forma não flexionada. Digo tendência, pois, na maioria dos casos, não é possível afirmar que a forma flexionada estaria “errada”. Vejamos:

1.
“Eu mesma, do alto dos meus tantos anos e duras lidas, não consigo resolver ou superar alguns de meus problemas nem ajudar pessoas que amo a se livrar de todos os seus.”
[Veja, 7/11/2007, Ed. 2033, texto: “Paisagem com problemas”, de Lya Luft, p. 26]

2. “Esse hábito desacostuma os bichos a exercer suas habilidades para conseguir o alimento, já que comer o que o humano oferece não exige esforço.”
(Por que não podemos dar comida aos bichos na natureza. Superinteressante ed. 247, 15/12/07, p. 41)

3.
“... eu me convenci de que o maior desafio do movimento ecológico hoje não é somente estimular as pessoas a abandonar as revistas ou então a concordar em recebê-las amassadas por não terem sido embaladas.” {Note que o verbo ter aparece flexionado, dada a proximidade com o complemento embaladas. Mas abandonar e concordar aparecem não flexionados, embora possam concordar com pessoas. Opção estilística.}
(Sérgio Gwercman, Superinteressante ed. 247, 15/12/07)

4.
“Eles acusam os religiosos de aproveitar a lacuna do conhecimento humano para preenchê-la com o pensamento mágico.” (Veja ed. 2040, ano 40, n.º 51, 26/12/07, p. 80)

5.
“(...) que não fizesse as crianças se revirar nas cadeiras do cinema” (Veja ed. 2040, ano 40, n.º 51, 26/12/07, Isabela Boscov, p. 117)

Os dados mostram que a preferência pela forma não flexionada – que pode soar estranha para alguns – é uma opção bem clara dessa empresa de comunicação. Fica o registro.

P.S. Os exemplos continuam:
6. “Se for caminhar muito, opte por modelos com alça transversal, que distribuem melhor o peso – e são ótimos, inclusive, para bater perna no shopping, já que liberam os ombros e as mãos para carregar as compras.” (Veja Mulher especial, Maio de 2008, p.48)

7. “Adiar o primeiro filho é uma tendência mundial, estimulada pelas aspirações profissionais e propiciada pela medicina, que hoje dá a mulher transbordando os 40 anos a oportunidade de se tornar mães.” (Veja Mulher especial, Maio de 2008, p.55)

Postado no meu blog do UOL em: 07/03/2008

Uma boa gramática

Acabo de adquirir a “Nova Gramática do Português Contemporâneo”, de Celso Cunha e Lindley Cintra, que está com nova edição (4ª) pela Editora Lexikon. Confesso que, ao receber meu exemplar (que comprei pela Internet), tive vontade de lê-lo inteirinho, do começo ao fim, como se faz com um romance. Contudo, como tenho minha tese para redigir, entre outras coisas, vou mesmo consultá-la, ao lado de outras obras de referência confiáveis como Aurélio e Houaiss.

Na introdução, Cunha e Cintra alertam para a “falsidade dos postulados em que a gramática logicista e a latinizante esteavam a correção idiomática” (p. 5). Sem cair em radicalismos, apontam que, numa língua, existe:

ao lado da força centrífuga da inovação, a força centrípeta da conservação, que, contra-regrando a primeira, garante a superior unidade de um idioma como o português, falado por povos que se distribuem pelos cinco continentes. (Cunha e Cintra, 2007, p. 4)

Nenhuma dessas forças deve ser desprezada, sob pena de simplificações. E, no que tange aos estudos de norma padrão, o que se espera é um mínimo de coerência quanto aos critérios adotados pelos próprios gramáticos. Nas palavras de Cunha e Cintra, a forma culta do português pode ser entendida como a

língua como a têm utilizado os escritores portugueses, brasileiros e africanos do Romantismo para cá, dando naturalmente uma situação privilegiada aos autores dos nossos dias. (Cunha e Cintra, 2007, p. xxiv)

Sobre a inconsistência de critérios de algumas gramáticas, ler o texto de Sírio Possenti “Se Veríssimo Escreveu...” (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2644194-EI8425,00.html).


Enfim, a quem interessar, recomendo Cunha e Cintra. Vai encontrar respostas para dúvidas de norma padrão, mas não pense que vai se defrontar com verdades estabilizadas. Também não suponha que será poupado(a) de um espírito investigativo, pois, antes da resposta, vem a pergunta bem-feita.

Comento duas das coisinhas que me encantaram, em tão poucas páginas (ainda) de leitura:

para alguns substantivos finalizados em -ão, não há ainda uma forma de plural definitivamente fixada, notando-se, porém, na linguagem corrente, uma preferência sensível pela formação mais comum, em -ões. (Cunha e Cintra, 2007, p. 197)
Os autores citam alguns, como anão (anãos ou anões), sultão (sultões, sultãos, sultães). Chamo atenção para o fato de que:
a) Existem algumas regrinhas para facilitar a vida, como a de que os monossílabos tônicos terminados em -ão fazem o plural com o simples acréscimo de um “s” (chãos, grãos, mãos e vãos). Há outras regrinhas básicas, mas fique claro que, em língua, nem tudo poderá ser resolvido à base das certezas matemáticas. As regras não excluem reflexões e interpretações.
b) Observe que, para os autores, é digna de nota a “preferência” na linguagem corrente. Ela constitui uma força que atua em favor de uma padronização.
c) O corretor do word não está aceitando “sultãos” e “sultães”. Ou seja, os programinhas tendem a estabilizar coisas que nem a gramática culta da língua estabilizou.

A segunda coisinha, entre as encantadoras:

“O emprego do HÍFEN é simples convenção” (Cunha e Cintra, 2007, p. 80)
Seguem-se várias regrinhas que ajudarão a resolver boa parte dos casos – mas nem todos, afinal, nem os gramáticos conseguem prevê-los. São tantas regras que é bem melhor consultá-las do que decorá-las. Com o uso, vai se acostumando com muitas delas. Mas é LIBERTADOR saber que tudo é uma questão de convenção. (E, só para reforçar o óbvio, hífens não resolvem problemas de conteúdo e estrutura textual – nisso sim as escolas precisam investir.) Eis um tema em que as reformas ortográficas poderiam pensar...

Tem muitas outras coisas (no meio do caminho de Drummond, também tinha uma pedra...), mas deixo você, leitor, com a gramática.

Postado no meu blog do UOL em: 07/03/2008