domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ano novo, novas regras ortográficas

Fato 1 = O que muitas manchetes alarmistas chamam de "reforma da língua portuguesa" trata-se de "reforma ortográfica". Ou seja, a língua não vai mudar de uma hora para outra (ao mesmo tempo, vai continuar se renovando a cada dia). O que mudam são alguns tópicos localizados de ortografia.

Fato 2 = Na opinião de alguns, a reforma é uma maravilha, vai tornar as obras em língua portuguesa e a cultura dos países envolvidos mais conhecidas e valorizadas. Na de outros, é um desastre, vai confundir a cabeça dos falantes e dos aprendizes. Nas duas posições, há uma boa dose de exagero.

Fato 3 = Continuará havendo controvérsias, como sempre houve. Aurélio grafa dona-de-casa, com hífen. Houaiss dona de casa, sem hífen. Questões de interpretação. Outras reformas já houve. Outras virão. Nunca será possível empacotar as regras ortográficas num envelope lógico.

Fato 4 = A falta de exatidão permanece (porque língua não é ciência exata MESMO). Um exemplo: segundo a nova regra, diz-se que o hífen deixará de ser usado em palavras compostas cuja noção de composição "se perdeu", ou seja, que os falantes "percebem" como uma só palavra, como: paraquedas (antes, pára-quedas), pararraios (antes, pára-raios). No entanto, micro-ondas (ex microondas) passa a ter hífen por causa de outra regra, palavra há muito tempo "percebida" como uma só (especialmente, quando se vai até o aparelho esquentar o lanchinho). Além disso, há exceções: manutenção do hífen em palavras "percebidas" como uma só, mas que "mantêm uma tonicidade própria", como arco-íris. Se você, leitor, não entendeu por que a "tonicidade própria" de tocafitas (ex toca-fitas) se perdeu e a de arco-íris se manteve, fique traqüilo: você simplesmente é normal.

Fato 5 = Vi a declaração de uma professora, num telejornal, preocupada, porque preparava as aulas com os livros que tinha em casa. Eis um fato positivo: sim, todo mundo vai ter que estudar! Como, aliás, sempre foi preciso. (OBS. não estou julgando as condições de a professora comprar novos livros. Sendo bem sincera, acho que os educadores deveriam/mereceriam ter uma verba destinada a isso).

Fato 6 = Ouvi de um amigo (mas ele não foi o único a expressar isso) a preocupação quanto ao aprendizado das crianças: com a queda do trema, como elas saberão a diferença de pronúncia entre linguiça e guitarra? Essa é fácil de responder: da mesma forma com que lidam com a diferença, digamos, entre os sons representados graficamente pela letra "x" (em xícara, em exceção ou em profilaxia, por exemplo. Aliás, também em exemplo). É um bom momento para notar que a ortografia nunca, NUNQUINHA, foi uma transcrição fiel da fala. A salada sempre existiu. Mas pode ser uma saborosa salada de frutas.

Fato 7 = Agora, sou mais brasileira. O "K" do meu nome deixou de ser estrangeiro! Quanto ao Liquimix, já nasceu moderno, sem trema.



Uma fila de uns 12 cm de livros me chama...

OBS.: Declaração da professora se refere à matéria do Jornal Hoje, Rede Globo, do dia 1/1/08.

Postado no meu blog do UOL em: 01/01/09

Um comentário:

  1. Comentários recebidos:

    [Rody] [rodrigo22oliveira@yahoo.com]
    Querida, adorei o texto! Você sempre muito pertinente... como na época da faculdade! rs. Eu precisei formatar meu computador e perdi todos os endereços da lista de favoritos, onde estava, entre outras coisas, seu blog. Que bom que passou novamente o endereço pelo grupo! Voltarei a ser assíduo. Abraço enorme. Ah! Gostei tanto do texto que vou enviá-lo por email a alguns amigos. É que andávamos discutindo as novas regras em mesa de boteco. rs.
    07/01/2009 14:04

    [danilo] [danilo.sanches@gmail.com] [http://francazona.wordpress.com]
    Da lista, pode tirar A fortaleza digital. hehe
    05/01/2009 11:42
    RESPOSTA:
    Viu que levei sua dica a sério, Dan! Agora, vamos ver se vou aprovar!

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