domingo, 7 de fevereiro de 2010

Breve nota pelo dia da criança

Para mim, há uma impropriedade semântica no slogan “Criança não trabalha, criança dá trabalho”. O início está corretíssimo. Criança não tem que trabalhar, tem que brincar, dar risada, desenvolver a criatividade. Quando cresce um pouquinho, além disso, tem que estudar (bastante!), o que não deixa de ser um “trabalho”, ou seja, o estudo é o trabalho adequado a uma certa faixa etária. Também merece ter acesso a esportes, música, atividades culturais, para ir descobrindo do que gosta, com o que tem afinidade. Mas acho que a criança que não trabalha (não submetida à exploração infantil) não é necessariamente uma “criança que dá trabalho”. Pode até dar o trabalho “normal” que qualquer criança daria (criança é mesmo para ser cuidada e quem é responsável por uma criança sabe que precisa dedicar energia a ela). Mas dá muito mais prazer, alegria, gratificação. Quero dizer, uma criança bem-cuidada, que tem suas necessidades satisfeitas, que não é podada, mas aprende os limites e, acima de tudo, recebe muito carinho, tem tudo para ser muito mais uma criança que dá alegria do que trabalho. Pode até ser uma criança peralta (espuleta, capetinha, qual é a palavra da moda?), mas não creio que seja a criança que quebra os CDs da titia de propósito ou a futura pichadora de muro e aquela que ameaçará bater na professora. Então, suponho que a chave não é “dar trabalho”, e sim ter o direito de aprender a viver, o que inclui, entre muitas outras coisas, o aprendizado utilíssimo de lidar com o “não”, mas também o direito de experimentar o diferente. De pintar o Pica-Pau de preto quando todos o querem azulzinho como o do desenho animado.
(Eu me lembrei da minha amiguinha Heleninha. Ela é uma criança muito amada e bem-cuidada! Outro dia, levei para ela um desenho do Pica-Pau para pintar, e ela o pintou todo de preto. Acho que queria mostrar resultado rápido.)
Mas, ok, se for preciso escolher entre uma coisa e outra, que seja a criança que “dá um pouco de trabalho” e não a criança que “trabalha”. Mas é que ainda sonho com o mundo melhor do que é! Certas coisas passam a falsa impressão de que as escolhas são sempre entre apenas duas opções: sim ou não; certo ou errado; tudo ou nada, 8 ou 80. Acho que não. A visão de mundo centrada na dualidade ofusca a multiplicidade.



Não é que a Heleninha tinha razão?

Postado no meu blog do UOL em: 12/10/08

Um comentário:

  1. Comentário recebido:
    [Sue ] [sueellen.cruz@gmail.com] [sueellencruz.blogspot.com]
    Ainda bem que a Heleninha não é ainda muito influenciada pelo imperialismo norte-americano que coloca suas cores em todos os personagens! hehehehe bjos, Erika!
    09/11/2008 16:13

    ResponderExcluir