domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ethos de “sabichão”

Circulou na internet um texto sobre “homens” cuja autoria é atribuída a Arnaldo Jabor. Seja ele ou não o autor (tenho dúvidas), o fato é que o escrito representa um ponto de vista a respeito dos gêneros masculino e feminino. Ou seja, como qualquer discurso, está vinculado a um posicionamento ideológico, o que implica uma conclusão óbvia: não se trata de uma “verdade”. Mas o texto (como qualquer outro que se pretende convincente sem compromisso teórico) trabalha a sua posição como “a” verdade.
O enunciador, previamente, já se armou contra quem discordasse dele: são as mulheres que se iludem. Ele constrói uma imagem de si como a de quem “sabe-tudo”, utilizando marcas, em seu discurso, de suposta “cientificidade”. Mas é só ler com atenção para ver que o texto não se sustenta. Exemplos:

“E digo com segurança: o que escrevo aqui se aplica a 99,9% dos homens baianos e brasileiros (sem medo de errar).”
A diferenciação entre brasileiros e baianos é só uma piadinha (alguém riu?). Já o dado estatístico apontado “com segurança” e “sem medo de errar” (olha a defensiva!) não se embasa em qualquer metodologia, assim como as observações (postas como verdades) que seguem:

“Não existe homem fiel. [...] Nenhum homem é fiel, mas pode estar fiel (ou porque está apaixonado, (algo que não dura muito tempo - no máximo alguns meses - nem se iluda) ou porque está cercado por todos os lados.
[...]
Não fique desencantada com a vida por isso. A traição tem seu lado positivo. Até digo, é um mal necessário. O cara que fica cercado, sem trair, é infeliz no casamento, seu desempenho sexual diminui (isso mesmo, o desempenho com a esposa diminui), ele fica mal da cabeça. Entenda de uma vez por todas: homens e mulheres são diferentes. Se quiser alguém que pense como vc, vire lésbica (várias já fizeram isso e deu certo), ou case com um viado [sic] enrustido que precisa de uma mulher para se enquadrar no modelo social.”

Já o trecho que segue repete chavões tão batidos que é de lamentar a falta de originalidade:

“A mulher se realiza satisfazendo o desejo maternal, com a segurança de ter uma família estruturada e saudável, com um bom homem ao lado que a proteja e lhe dê carinho. O homem é mais voltado para a profissão e para a realização pessoal e a realização pessoal dele vêm [sic] de diversas formas: pode vir com o sentimento de paternidade, com uma família estruturada, etc., mas nunca vai vir se não puder ter acesso a outras fêmeas e se não puder ter relativo sucesso na profissão.”
A idéia de que mulheres são voltadas “para o outro” e se satisfazem pela maternidade (exclusivamente), enquanto homens são voltados “para si mesmos” e buscam realização pessoal, sobretudo profissional, é uma construção cultural tão fortemente arraigada que pode passar despercebida, com máscara de verdade. Faz com que homens se sintam envergonhados diante de um gesto genuíno de entrega ou generosidade, que mulheres se percebam estranhas e culpadas mediante seus anseios pessoais. Enfim, que tais atitudes sejam consideradas excludentes.
Tal texto constitui um corpus significativo por mostrar como o discurso sexista funciona nos dias de hoje. O enunciador faz concessões, na tentativa de atualizar a “verdade machista”. Vejamos:

“Se vc busca o homem perfeito, pode continuar vendo novela das seis. (...) Os homens perfeitos de hoje são aqueles bem desenvolvidos profissionalmente, que traem esporadicamente (uma vez a cada dois meses, por exemplo), mas que respeitam a mulher, ou seja, não gastam o dinheiro da família com amantes, não constituem outra família, não traem muitas vezes, não mantêm relações várias vezes com a mesma mulher (para não criar vínculos) e, sobretudo, são muuuuuito discretos: não deixam a esposa (e nem ninguém da sua relação,como amigas, familiares, etc saberem).”
“Seu marido/noivo/namorado te ama, tenha certeza, senão não estaria com vc, mas trair é como um remédio; um lubrificante para o motor do carro. Isso é científico.”

Nos tempos atuais, não soaria politicamente correto afirmar, na lata, que é normal homem ter amante. Então, surge um novo discurso: os homens continuam traindo, mas “esporadicamente” e isso seria uma prova de amor (um silogismo). Não se fala em traição feminina, pois, segundo o ponto de vista adotado, a necessidade biológica de satisfazer desejos é exclusivamente masculina.

Talvez o instinto de poligamia seja realmente humano (masculino e feminino). E, talvez, seja por OPÇÃO que homens e mulheres possam escolher amar “sentimental-sexualmente” uma única pessoa.
Se é científico que trair é um “lubrificante” (segundo que teoria?), mulheres também podem precisar de tal “remédio”. Mas, justamente porque seres humanos não são carros, homens e mulheres podem prescindir dele. Podem escolher. Podem querer. Um querer racional, e ao mesmo tempo vinculado a sentimentos, que pode ser muito mais forte que o instintivo. Opcionalmente, pode-se querer seguir os instintos (quais? será que são únicos e iguais para todas as pessoas?). Homens e mulheres.

(Sue Ellen, permita-me emprestar uma citação do seu blog, de Nelson Rodrigues. Diálogo interblogs!)
"A maior tragédia do homem ocorreu quando ele separou o amor do sexo.
A partir de então passamos a fazer muito sexo e pouco amor.
(...)
Educação sexual deveria ser ensinada a éguas e cavalos, os homens precisam aprender a amar.”
(Nelson Rodrigues)


Postado no meu blog do UOL em: 22/03/2008

Um comentário:

  1. Comentários recebidos:

    ola Erika! foi um enorme prazer te achar por aqui. adorei sua abordagem sebro o texto escrito ( ou não ) pelo Jabor. achei inteligente a composição da analise. acho um tema muito complexo para expor o q acho assim de bate pronto. a discução se esstabelece pela traição simplesmente ou a questões de genero e conquista de espaço? e a traição o as condições que ela se estabelece? não sei. mas foi enorme prazer. abraços fraternais.
    junior oliveira | junioroliveira@hotmail.com | junioroliveira.blogspot.com | 06/04/2008 12:37

    Oi, Érica. A propósito: eu vi q vc já trabalho com a Pagu. Eu quis dizer que não traía no sentido de ter uma mulher oficial e várias amantes sucessivas. Realmente ele começou com a Pagu antes de terminar com a Tarsila e essa separação da Tarsila foi traumática: Mário de Andrade e Blaise Cendrars, amigos do casal, tenderam a tomar o partido de Tarsila e assim Oswald perdeu essas amizades, que fizeram falta. Ele nunca foi bom crítico do Mário e o prefácio do Serafim chamou Blaise, um deficiente (era maneta), de pirata. Abraços do Lúcio Jr.
    Lúcio Jr | lucio@bdonline.com.br | www.emiliojunior.zip.net | 03/04/2008 16:40

    Oi, Érika. Por um lado, preocupa-me a colocação do autor do texto (que ainda não estou certo ser Jabor, aliás, estou quase certo de que não seja), não pela opinião em si. Afinal, todos têm direito a uma opinião (mesmo que seja imbecil, ridícula e limitada). A preocupação é que tal opinião chegue aos olhos de leitores menos informados, pouco acostumados a questionar as informações. Bem, A natureza é sábia, colocou na Terra, pessoas limitadas como o autor do texto em questão, mas, por outro lado, trouxe ao mundo pessoas como nossa querida Érika, que coloca no ar suas posições, bem fundamentadas e ajuda leitores incautos a pensar. Obrigado, Érika.
    Glauco Arruda | barlebem@gmail.com | 03/04/2008 07:13

    Oi, Érika. Só para esclarecer um ponto: o texto (do anônimo) merece mesmo análise. Ele faz de conta (esse é o termo) que vai ajudar as mulheres. O Jabor se conforma, publicamente, em ser corno, escreve sobre isso, como quem diz: "sou, mas quem não é". Esclarecendo: não acho que todo homem trai, não. O Oswald de Andrade era um que não traía: deixava a mulher, separava-se, mas não tinha amantes. E, refletindo, esse texto do Nelson Rodrigues é também mais perigoso do que vc pensa. Educação sexual é importante, sim. Ele é de uma geração que imaginava que educação sexual era falar de sacanagem em sala de aula! Abraços do Lúcio Jr.
    Lúcio Jr | lucio@bdonline.com.br | www.penetralia-penetralia.blogspot.com | 02/04/2008 22:27

    Oi, Érica, acompanhei seu blog desde o começo. Vc jogou o blog como produção científica no Lattes? Quanto ao Jabor, ele é neocon em tudo. Só que ele, que eu saiba, aceita a traição feminina, pois sua vida particular já vazou para a mídia, vide entrevista em Caros Amigos do Pereio. O texto tenta impingir clichês, mas valeu sua análise. É um texto que, de qualquer forma, tenta ajudar as mulheres, ainda que de forma traíra. Abraços do Lúcio Jr.
    Lúcio Jr | lucio@bdonline.com.br | www.penetralia-penetralia.blogspot.com | 02/04/2008 19:29

    É, poderemos queimar mil sutiãs, o machismo ainda está bem longe de deixar de fazer parte da nossa realidade. Até mesmo as mulheres são machistas. Detesto quem tem uma visão tão determinista sobre relacionamentos, como se os instintos e o meio fossem determinantes sobre o sujeito. Ora, isso é só uma maneira de fugir da própria responsabilidade. Um dia, lendo uma reportagem, um homem disse: Não existe dessa vez aconteceu, mas sim, dessa vez eu quis. (referindo-se a traição)Não existem verdades, mas dentro do meu ponto de vista, essa é que a mais se enquandra! Como sempre, excelente texto, Erika! bjos!!
    Sue Ellen | sueellen.cruz@gmail.com | sueellencruz.blogspot.com | 31/03/2008 11:15

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