sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Jornalismo e Diploma

Quando "caiu" a exigência de diploma para jornalistas, a imprensa não cansou de noticiar o assunto. Mas passou meio batido que a exigência "voltou".
Republico artigo redigido por mim para o Jornal da Cidade, Bauru.

22/06/2009 - Opinião
Jornalistas agora sem diploma - estamos preparados para isso?

Independentemente de repetir argumentos sobre a queda da exigência do diploma para exercício do jornalismo, farei um relato. Acabo de voltar da Noruega, onde estive em intercâmbio de estudos patrocinado pela Fundação Rotária, tendo a oportunidade de vivenciar a cultura do país durante um mês e conhecer diversos veículos de comunicação. Naquele país, o diploma para jornalistas não é uma exigência. Mesmo assim, em todos os jornais em que estive (em Bergen, Stavanger, Sandnes, Haugesund, etc.), os jornalistas, sem exceção, têm formação universitária. A maioria cursou a faculdade de comunicação, especialmente os mais jovens, ou outras áreas de humanidades, como sociologia e literatura. Conversando com os profissionais noruegueses sobre o debate que então se passava no Brasil, alguns achavam engraçado (ou até autoritário) o Brasil ter uma lei que exigia o diploma para trabalhar como jornalista. De qualquer forma, eram unânimes em afirmar que o mercado é competitivo e o profissional precisa estar preparado para exercer a profissão. Por isso, é natural buscar o aprimoramento e a maturidade intelectual, o que passa pela formação universitária, embora não se limite a ela. O que é preciso para ser um bom jornalista? Entre outras coisas, “o desejo de mudar o que está errado”, responde André Jamholt, editor do jornal norueguês Sandnesposten. Talvez não precisemos do diploma, assim como a Noruega não precisa (só que, lá, os carros param para os pedestres atravessarem as ruas e as pessoas andam de bicicleta para poupar o meio ambiente). No entanto, é lamentável que se compare a profissão de jornalista a um conhecimento meramente técnico e intuitivo, quando é necessário pensamento crítico, agilidade de raciocínio, discernimento, ética e muito mais para exercê-la. É perigoso que, no Brasil, a não necessidade do diploma respalde o argumento dos despreparados, tal qual um silogismo, de que “qualquer um pode ser jornalista”. Daniel Cornu, no livro Ética da Informação (Edusc) traz uma luz a essa discussão ao tratar da diferença entre liberdade de expressão (todos têm o direito de dizer) e liberdade de imprensa (o exercício profissional e regulamentado do dizer, sobre o qual se responde, inclusive judicialmente). Acredito que é preciso muito mais do que um diploma para exercer uma atividade complexa como o jornalismo (é perigoso que o “muito mais” seja entendido como “muito menos”). Caberá à sociedade escolher entre uma geração de divulgadores de notícias superficiais ou profissionais que ajudem a combater a pior mazela de nosso país, que é a corrupção. Não posso deixar de fazer essa comparação: a Noruega é um dos países mais ricos do mundo e tem o primeiro IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), possuindo somente o petróleo. Não é pouco, mas nós também temos, além de uma certa quantidade de petróleo, um solo em que tudo se pode plantar (o solo norueguês é rochoso), um povo batalhador. O Brasil é um país maravilhoso, mas não avançamos por causa da corrupção. E o jornalismo ainda é uma das poucas armas para tentarmos combater esse mal em busca de um país melhor.

A autora, Érika de Moraes, é jornalista, doutora em Linguística e professora do curso de jornalismo da Universidade do Sagrado Coração, em Bauru
Érika de Moraes

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