domingo, 7 de fevereiro de 2010

Uma boa gramática

Acabo de adquirir a “Nova Gramática do Português Contemporâneo”, de Celso Cunha e Lindley Cintra, que está com nova edição (4ª) pela Editora Lexikon. Confesso que, ao receber meu exemplar (que comprei pela Internet), tive vontade de lê-lo inteirinho, do começo ao fim, como se faz com um romance. Contudo, como tenho minha tese para redigir, entre outras coisas, vou mesmo consultá-la, ao lado de outras obras de referência confiáveis como Aurélio e Houaiss.

Na introdução, Cunha e Cintra alertam para a “falsidade dos postulados em que a gramática logicista e a latinizante esteavam a correção idiomática” (p. 5). Sem cair em radicalismos, apontam que, numa língua, existe:

ao lado da força centrífuga da inovação, a força centrípeta da conservação, que, contra-regrando a primeira, garante a superior unidade de um idioma como o português, falado por povos que se distribuem pelos cinco continentes. (Cunha e Cintra, 2007, p. 4)

Nenhuma dessas forças deve ser desprezada, sob pena de simplificações. E, no que tange aos estudos de norma padrão, o que se espera é um mínimo de coerência quanto aos critérios adotados pelos próprios gramáticos. Nas palavras de Cunha e Cintra, a forma culta do português pode ser entendida como a

língua como a têm utilizado os escritores portugueses, brasileiros e africanos do Romantismo para cá, dando naturalmente uma situação privilegiada aos autores dos nossos dias. (Cunha e Cintra, 2007, p. xxiv)

Sobre a inconsistência de critérios de algumas gramáticas, ler o texto de Sírio Possenti “Se Veríssimo Escreveu...” (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2644194-EI8425,00.html).


Enfim, a quem interessar, recomendo Cunha e Cintra. Vai encontrar respostas para dúvidas de norma padrão, mas não pense que vai se defrontar com verdades estabilizadas. Também não suponha que será poupado(a) de um espírito investigativo, pois, antes da resposta, vem a pergunta bem-feita.

Comento duas das coisinhas que me encantaram, em tão poucas páginas (ainda) de leitura:

para alguns substantivos finalizados em -ão, não há ainda uma forma de plural definitivamente fixada, notando-se, porém, na linguagem corrente, uma preferência sensível pela formação mais comum, em -ões. (Cunha e Cintra, 2007, p. 197)
Os autores citam alguns, como anão (anãos ou anões), sultão (sultões, sultãos, sultães). Chamo atenção para o fato de que:
a) Existem algumas regrinhas para facilitar a vida, como a de que os monossílabos tônicos terminados em -ão fazem o plural com o simples acréscimo de um “s” (chãos, grãos, mãos e vãos). Há outras regrinhas básicas, mas fique claro que, em língua, nem tudo poderá ser resolvido à base das certezas matemáticas. As regras não excluem reflexões e interpretações.
b) Observe que, para os autores, é digna de nota a “preferência” na linguagem corrente. Ela constitui uma força que atua em favor de uma padronização.
c) O corretor do word não está aceitando “sultãos” e “sultães”. Ou seja, os programinhas tendem a estabilizar coisas que nem a gramática culta da língua estabilizou.

A segunda coisinha, entre as encantadoras:

“O emprego do HÍFEN é simples convenção” (Cunha e Cintra, 2007, p. 80)
Seguem-se várias regrinhas que ajudarão a resolver boa parte dos casos – mas nem todos, afinal, nem os gramáticos conseguem prevê-los. São tantas regras que é bem melhor consultá-las do que decorá-las. Com o uso, vai se acostumando com muitas delas. Mas é LIBERTADOR saber que tudo é uma questão de convenção. (E, só para reforçar o óbvio, hífens não resolvem problemas de conteúdo e estrutura textual – nisso sim as escolas precisam investir.) Eis um tema em que as reformas ortográficas poderiam pensar...

Tem muitas outras coisas (no meio do caminho de Drummond, também tinha uma pedra...), mas deixo você, leitor, com a gramática.

Postado no meu blog do UOL em: 07/03/2008

2 comentários:

  1. Comentários recebidos:

    Não sou professor nem linguista, mas, quando o assunto é lingua portuguesa, como apreciador, indico as obras de Luiz Antonio Sacconi, simplesmente porque no Brasil, se fala e escreve muito errado, (de presidente à jornalistas), e Sacconi, defende visceralmente o ensino correto da gramática nas escolas, no entanto, se optarmos para o lado daqueles que pregam a lingua sem preconceito, com certeza, estaremos inferiores os outros países que o português é culto.
    Daniel Silveira | danielfwr@yahoo.com.br | 21/05/2008 08:22

    Resposta do Liquimix:
    Cada um faz a escolha em que acredita. Como professora, lingüista e cidadã, opto pela leitura de diversos autores, inclusive Sacconi. Dê uma olhadinha em Cunha e Cintra e verá que esses autores estão longe de “pregar a língua sem preconceito”. Aliás, o que é “pregar a língua sem preconceito”? Não sei de quem seria essa postura, pois a de muitos lingüistas é a de propor o ensino da norma padrão (!) sem desconsiderar a compreensão dos fenômenos lingüísticos. Há a postura do deboche: por exemplo, rir de um texto que defende veementemente o “ensino correto”, mas usa crase sem que haja um artigo somado à preposição “a”. Outra é compreender o fato (quem sabe não é um mero equívoco de digitação, uma distração?), expor a regra e até alertar que, sim, num país tão cheio de preconceitos, é bom tentar diminuir a ocorrência desses tipos de “deslizes”. Além do “erro” de crase (à jornalistas), em “... estaremos inferiores os [em relação a?] outros países que o português é culto”, chama atenção esse “que” em lugar de “onde” ou “em que”. É, parece que o estudo de tal gramática não está funcionando... E se não funciona com um fã preocupado com o português, imagine com alguém negligente com o idioma... A propósito, e quais seriam esses países? Portugal? Moçambique, Angola, etc.? Acredita mesmo que o português seja puramente “culto” em algum lugar? Que tal rever seus conceitos?

    Não sou linguista, mas creio que a uma língua apenas para de modificar-se quando ela deixa de ser falada. A norma colta hoje exige conjugações verbais, acentuações, hífens e outras convenções, mas, acredito eu, que um dia, tais coisas tendem a desaparecer da linguagem.
    Marcel | marcel.vasconcelos@gmail.com | http://byronemgotas.blogspot.com | 03/03/2008 22:33

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  2. Pois eu acho a gramática do Prof. Sacconi o máximo. Passei num concurso estudando por ela e sou grato a ele. Mas também acho que todos devem escolher aquilo que mais lhes convém.

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