domingo, 7 de fevereiro de 2010

Vírgula, e...

Um amigo me perguntou quando se usava vírgula antes de “e”. Pergunta boa, mostra que ele desconfia das generalizações do tipo “nunca use vírgula antes de e”. Vírgula não é sinônimo de pausa, mas, como numa melodia, o “compasso” da frase pode abrir a possibilidade para uma vírgula optativa. Outras vezes, a pausa parece ser uma certeza, mas alguma regra de norma padrão barra o uso da vírgula (ex. entre sujeito e predicado). Quanto ao “e”, várias possibilidades podem surgir conforme a produção textual. Rascunhei uma delas para o meu amigo, do jeito que me veio à cabeça:

Aquela praia me fazia relembrar a infância, cujo gosto era de morangos frescos, e me obrigava a recordar o olhar severo de minha avó.

Nesse caso, a vírgula que precede o “e” é exigida por uma oração intercalada. A “informação” principal do período é: “Aquela praia me fazia relembrar a infância e me obrigava a recordar o olhar severo de minha avó” (duas aditivas, na classificação tradicional). No meio, uma outra frase “qualifica” a infância (cujo gosto era de morangos frescos = o gosto da infância era de morangos frescos), por isso fica intercalada (entre vírgulas).

Este é apenas um dos casos de “e” precedido por vírgula que a escrita pode gerar. É bem mais legal ver isso na linguagem em funcionamento (o meu exemplo aqui é artificial). Fica a dica: é bom desconfiar das regras que soam muito categóricas.

PS: não conheci praia na infância (só mais tarde), não tive uma avó severa e já era adolescente quando aprendi a apreciar o sabor azedinho do morango. A escrita tem sua realidade própria. Por isso, adoro literatura.

Postado no meu blog do UOL em: 05/02/09

Um comentário:

  1. Comentário recebido:
    Gustavo] [gustavobetanha@yahoo.com.br]
    Muito legal este post Érika! Parece que eu conheço esse seu amigo que fez a pergunta...rs bjs.

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