segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Uma foto para registrar Chá Líquido

Já visitei algumas cidades imaginárias.
Com a aluna Karina, conheci Chá Líquido.
Espiei-a pela janela do trem e voltei para cá.
Afinal, amanhã tenho aulas com esses alunos criativos!
Profa. Érika


Uma foto para registrar Chá Líquido

por Karina Francisco

Era dezembro na cidade de Chá Líquido, Ana estava caminhando pelas ruas a apreciar e fotografar os enfeites natalinos. Ela ainda não se adaptara totalmente à nova cidade, em que todos estavam sempre correndo, em busca do que comprar, do que consumir, do que fazer para ganhar dinheiro, fugindo de compromissos profundos demais. Era muito frio se comparado a Ferra Maciço, onde nascera. Mas ela tinha sua câmera, e com ela ficava horas registrando seus pensamentos e sentimentos.
Ana continuou seu caminho, seu namorado estava atrasado como sempre, parecia nunca se importar com horários, compromissos ou qualquer assunto que demorasse muito a acabar. Ana não ligava, achava engraçada essa aversão de seu namorado em se apegar a objetos ou indivíduos. Ele era uma boa pessoa mesmo assim, valia uma foto.
Desistindo de esperar no frio, Ana entrou na loja de sua mãe, que vendia quitutes e estava sempre cheia de ávidos consumidores imediatistas e ansiosos por devorar as comidas tão gostosas do lugar. Em meio a tantos gordinhos, Ana sempre se sentiu excluída, pois era magrinha e ativa, constantemente correndo para lá e para cá, em busca de uma boa fotografia.
Em sua escola, todos a achavam esquisita, perguntavam se ela não tinha nada para se ocupar, ou o que estudar. Todos estavam sempre apressados pelos corredores, mas corriam contra o tempo, pois havia muita tarefa a ser feita. Ana sempre investia em sua felicidade e suas fotos na antiga cidade. Tinha poucos amigos, os quais valorizava muito. As pessoas ajudavam umas às outras e sempre havia trabalho para todos em Ferro Maciço. Mas aqui, em Chá Líquido, as quantidades é que valiam, e ninguém parecia realmente se importar com o outro, pois a competição é que regia as regras da cidade.
Para ajudar sua mãe no movimento da loja, Ana foi fazer uma entrega especial na casa de um cliente, e após tirar algumas fotos com sua máquina, decidiu visitar seu pai na empresa onde tinha começado a trabalhar, motivo pelo qual toda a família teve de se mudar.
A empresa era grandiosa e, sem ser notada, Ana foi entrando. Mas seu pai estava ocupado demais para atendê-la, dizia a ela que alguém precisava ganhar dinheiro. Ana achou esquisito, para ela seu pai já tinha conseguido dinheiro demais em Chá Líquido, mas ele respondeu-lhe que “ainda era pouco, sempre é pouco.”
Mesmo assim, Ana gostava da cidade. Via oportunidades aos montes, outdoors sempre convidativos, muito entretenimento agitando o município. O lazer e o descompromisso pareciam reinar. Porém, a pressão era demais, seus pais e namorado queriam que ela se adaptasse, que buscasse ascender profissionalmente, ganhar muito dinheiro e comprar tudo que desejasse, além de largar a câmera, pois não havia futuro nela. Ana não desejava comprar nada, apenas correr livre pelos campos com suas fotos, mas não a deixavam.
Um dia, ao acordar, percebeu que sua máquina havia sumido. Foi procurar e não encontrou nem suas fotos, que com tanto amor arquivara. Desesperada, Ana começou a chorar, queria de volta sua câmera e seus álbuns, os quais tinham sido todos vendidos, lhe disseram. Em uma insensata e louca procura, ela andou a cidade toda, perguntou a todos que conhecia e não encontrou nem vestígios. Ana tinha medo de se esquecer do que estava nas fotos, sua antiga cidade e amigos, seus valores e felicidades.
Ana ficou sem rumo por um tempo, a andar no meio dos apressados, sozinha e deprimida. Seus pais, para fazê-la ocupar a cabeça, a matricularam na faculdade de Direito e em outros tantos projetos de trabalho. Ana se atarefou tanto que não teve mais tempo para lembrar de sua câmera. Ela, agora, tinha compromissos, aspirações, objetivos e nada do que viera ou fora antigamente importava mais.
Ana cresceu e conseguiu tudo o que queria desde que entrara na faculdade: casou, teve filhos, comprou casa e carro. E em um belo dia, remexendo no porão, encontrou sua câmera e seus álbuns escondidos embaixo do assoalho. Ao olhá-los, Ana gritou:

- Preciso de mais um saco de lixo aqui em cima, por favor!

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