quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O Incrível Hulk Azul

O Incrível Hulk Azul
(Sobre crianças, trabalho, profissões...)

- Vem na minha casa, tia!
- A tia logo vai!
- Vem amanhã!
- A tia vai daqui uns dias, antes tem que trabalhar.
- Pra ganhar din din, né! Você traz um Hulk azul?

A mamãe dele já explicou que não é para pedir as coisas. Mas é compreensível, ele só tem dois aninhos. E eu faço parte do ainda pequeno círculo de pessoas que, ele sabe muito bem, o querem feliz e amado. E observem o que ele pediu primeiro: presença.
Claro que a titia apaixonada está doida para encontrar um Hulk azul (ele me disse que tem “na barraquinha”), mas parece que ele me escolheu para uma missão um pouco difícil (será que vale pintar um verde com tinta azul? Ou escolher um Smurf bem bravo com cara de Hulk?). Para quem não está atualizado, já existe Hulk vermelho, o que deve ter levado meu sobrinho a imaginá-lo de todas as cores.
A história do Hulk me fez pensar sobre como vamos construindo a ideia de trabalho nas crianças. O primeiro impulso do adulto é colocar o trabalho como algo necessário para ganhar dinheiro. Não deixa de ser: precisamos dele para nosso sustento e para realizar outros sonhos que necessitam de respaldo material. Mas já fiquei pensando em logo tentar explicar ao meu sobrinho sobre outras motivações. Em parte, ele já sabe, pois brinca de mecânico, engenheiro, médico, super-herói, dinossauro (mas, modéstia à parte, sua maior alegria - pelo menos na minha frente - e colocar-se atrás da cortina, com os pezinhos visíveis, e gritar: procura eu Ékataaaaaa!!!).
Enfim, explicar que a gente precisa, sim, do dinheiro, mas que o trabalho que escolhemos pode trazer realização, sentido de vida! Sem hipocrisia. Não quer dizer que trabalhamos somente por amor. Mas que, se escolhemos de acordo com nossas motivações, o trabalho pode trazer tanta satisfação quanto qualquer outra atividade prazerosa. E também não quer dizer que qualquer trabalho do mundo não tenha lá suas partes chatas.
Meu sobrinho é uma criança feliz, a família não é do tipo que compensa falta de afeto com coisas materiais - embora os tios babões não resistam dar presentinhos, ele fica tão feliz com um desenho numa folha de papel quanto com algo mais caro. Na verdade, fica muito mais feliz com coisas que o dinheiro não compra, como ver um arco-íris ou ganhar um pouco do nosso tempo.
Mas a gente sabe que tem aí uma geração de crianças que não está aprendendo muito bem sobre valores. Então, no nosso mundinho encantado, sei que o possível de minha presença é meu maior presente. E, como logo ele irá à escolinha, imagino que será mais fácil explicar a ele: a titia também é professora, também precisa dar atenção aos alunos! E, no seu mundinho encantado, ele vai me imaginar tão querida quanto as professorinhas da pré-escola. E, no meu mundinho encantado, isso vai me ajudar a me lembrar, todos os dias, por que vou continuar amando meu trabalho.
[... mesmo quando o Cláudio de Moura Castro escreve artigo denegrindo a imagem do professor, enquanto ninguém contesta o mérito das categorias com mega salários e auxílio moradia maior que o salário inteiro de muitos professores. Em terra de desvalorização da educação, professor é vilão.]
Por enquanto, tudo isso é um pouco complicado para meu sobrinho. Tudo tem seu tempo. É fase de sonhos: todas as profissões têm igual valor. É cedo demais para ele entender que alguns trabalham muito, outros lucram mais. Que a vida impõe sacrifícios, mas não igualmente para todos.
No mundinho encantado dele, a professora da escolinha será tão valorizada quanto a doutora médica, tão merecedora quanto os demais trabalhadores. Assim como a tia da merenda etc.
É tempo de Hulk azul para nós.
E tomem cuidado, seus malvados, pois, se continuarem se aproveitando dos mais fracos, o Hulk azul vai pegar vocês!!!!
Quem pensa que estou brincando, saiba que é mais fácil o Hulk azul aparecer na terra do que alguns corações serem dignos.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Reinos desunidos


O resultado do referendum inglês pela saída do Reino Unido da União Europeia – o chamado Brexit – trouxe ao mundo a sensação de estar presenciando um daqueles momentos históricos em que a linha do tempo irrompe em um marco. Em tais circunstâncias, não é difícil esquecer que a história de fato é constituída nas peculiaridades do dia a dia de cada cidadão.
Qual a semelhança entre a experiência inglesa e a brasileira nas últimas eleições? Ambas trazem à tona as benesses e as controvérsias da democracia: esta não é a vontade de todos, mas de uma maioria. É questionado, porém, o próprio conceito de maioria quando os resultados mostram sociedades divididas. Por um lado, a democracia tem a sua legitimidade (e qual seria a alternativa a ela, se não a de recair em regimes totalitaristas?), por outro, um resultado como o britânico – 51,9 a 48,1% – representa um empate técnico. E, havendo empate, existe realmente a vontade de uma maioria? Ou existem vontades opostas que convivem no mesmo tempo e espaço?
O mapa da votação britânica mostrou claramente uma divisão: Escócia optaria pela permanência na União Europeia, enquanto Inglaterra e País de Gales escolhem a saída do bloco. O governo escocês, então, já fala em um novo referendum pela independência da Escócia em relação ao Reino Unido, seria a desunião provocando mais desunião. Outra aparente divisão seria por faixa etária, conforme expressam os jovens, especialmente pelo termômetro das mídias sociais, ao lamentar que viverão o futuro escolhido primordialmente por uma população acima dos 65 anos.
Modelos existem. A Noruega, por exemplo, campeã no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano, não faz parte da União Europeia. Cidadãos europeus do bloco comum usufruem da livre circulação e, simultaneamente, experimentam dificuldades sociais como o desemprego e falhas nos serviços de saúde, além do fantasma do terrorismo associado, justa e injustamente, às facilidades da imigração. Pode ser, como dizem alguns analistas, que cidadãos do Reino Unido, ao vivenciar problemas que afetavam diretamente sua qualidade de vida, optaram por uma via diferente, sem saber se seria necessariamente melhor, e acordaram, de um dia para o outro, com a questão assustadora: e agora?
Fato é que o “golpe inglês” contra a União Europeia já representa uma ferida no mais belo – e utópico – ideal pós-guerra, o de um mundo sem fronteiras. É, porém, mais fácil desconstruir fronteiras físicas do que ideológicas. O que é união, se não respeito e convivência com concepções e vontades distintas? O avesso da união é a destruição do outro cujo pensamento é divergente. E, nesse viés, vale menos a contagem de votos do que quem tem a arma de fogo mais potente. Valem menos as vidas e a preservação da história, seja em Palmira, na Síria, em Paris ou numa casa noturna de Orlando.
Nesse momento (ou sempre?), há mais perguntas do que respostas. O que queremos para o mundo? O que queremos para o Brasil? Quais medidas são necessárias para que não prevaleçam decisões radicais? Como promover mudança sem radicalização? Em tempos de desunião (ou será esta uma característica da humanidade e não de nossos tempos?), é preciso muito cuidado com discursos radicalizadores baseados em preconceitos. É fácil para alguém mal intencionado pregar o preconceito com a falsa máscara do protecionismo de fronteiras físicas e ideológicas. Que seja esta uma lição para o Brasil, se houver tempo.

Érika de Moraes é Doutora em Linguística, com ênfase em Análise do Discurso, pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

Artigo publicado originalmente no Blog do Estadão em 27/06/2016.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Língua, ideologia e empoderamento

O dia da Língua Portuguesa (5/5) é uma oportunidade para refletirmos sobre o significado social e político da linguagem em nossas vidas. Língua (não só a portuguesa) não se resume a um conjunto de normas de padronização (embora tais normas tenham funções importantes em termos de unidade e historicidade).
Dizer que a língua não se resume às normas não implica negá-las ou minimizar a importância de aprendê-las, mas mostrar que seu conceito é muito mais amplo. Tomemos como exemplo o tema da aprovação, por deputados do estado de Alagoas, de lei que obrigaria professores a manter “neutralidade” em sala de aula, impedindo-os de “doutrinar” alunos em assuntos políticos, religiosos e ideológicos. Além da inconstitucionalidade, que pode ser discutida em âmbito jurídico, tal lei parte de um pressuposto equivocado, o de que existiria uma forma de linguagem desprovida de ideologia.
Com o nome “Escola Livre”, uma lei como essa, a rigor, imprime a censura nas salas de aula. Assim como a censura durante a ditadura militar instituía-se de forma arbitrária, somente por meio da arbitrariedade é possível decidir o que é ou não ideológico do ponto de vista linguístico-discursivo. Para quem se alinha a uma ideologia mais à direita, propostas voltadas ao social, à abertura de oportunidades mais igualitárias são vistas como ideológicas, esquerdistas, assistencialistas. Já para quem se identifica com ideias mais à esquerda, qualquer proposta que faça lembrar argumentos da direita - um exemplo, a defesa da meritocracia - será vista como equivocada e demonizada.
Ora, qual a ideia certa? Qual a errada? Equivocado é acreditar que exista uma visão ideológica, outra neutra. Errado, de um ponto de vista teórico-científico, é supor que exista alguma maneira de interagir com a língua desprovida de ideologia. Digo interagir (e não usar) porque a língua não é mera ferramenta, é elemento constitutivo da identidade dos sujeitos. É por meio dela (seja qual for o idioma) que o ser humano significa sua própria existência e o mundo ao seu redor. É por isso que o domínio pleno da língua materna é empoderador. E, provavelmente, é pela mesma razão que a valorização do ensino e do professor seja tão precária em nosso país (é preciso vontade política de empoderar).
Num Estado democrático e laico, os pensamentos religiosos e políticos devem ser livremente debatidos e opiniões divergentes devem ser respeitadas. Acreditar, porém, que existam argumentos neutros é pura falácia. A língua não é um instrumento promotor de ideologia, ela é ideologia, é vida. E isso não é um mal, é uma característica, da mesma natureza que o respirar. É redundante, portanto, dizer que alguém se comunica ideologicamente por meio da língua.
Em celebração ao dia da língua, tento mostrar que ela é assunto muito mais interessante - sério e necessário - do que fazem parecer os simples lamentos de que a mal tratamos com concordâncias equivocadas. Não defendo equívocos normativos - em cerca de doze anos de ensino fundamental e médio, as escolas deveriam ter condições para corrigi-los. Mais grave, porém, é essa visão deturpada do que seja linguagem, a exemplo de como a veem os deputados de Alagoas. Infelizmente, eles não estão sozinhos.

Érika de Moraes é Doutora em Linguística, com ênfase em Análise do Discurso, pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

***Artigo originalmente publicado no Estadão Noite de 3 de maio de 2016

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Do lar, da luta e da lua


O enunciado da revista Veja, causador de polêmicas e brincadeiras nas redes sociais, não teria tanta relevância se considerado isoladamente: exalta um tipo de mulher - a bela, recatada e do lar, esposa de um homem de sorte. A personalidade retratada na matéria merece todo o nosso respeito como ser humano, como todas as mulheres e homens o merecem, inclusive a esposa de um político ou a Presidente da República. Criticar o governo é um exercício democrático (poderíamos criticar suas bases, por exemplo, a aliança PT-PMDB); já ofender pessoalmente um governante, com xingamentos, é algo bem diferente.
Da mesma forma, ponderar o enunciado de Veja não significa desrespeito às mulheres belas (somos todas, em nossas lutas e biótipos), recatadas e do lar. Exercer uma profissão, aliás, não implica deixar de ter um papel fundamental no lar e, nesse aspecto, os maridos também são dos lares. Um dos dois, homem ou mulher, teria todo o direito de escolher exercer apenas uma das funções, mas os tempos são difíceis e, para a maioria de nós, esta possibilidade soa bastante irrealista. Hipoteticamente temos a escolha, porém, é do trabalho fora do lar que vem nossa renda, com os devidos impostos retidos na fonte. Assim, dividir a responsabilidade no sustento e no cuidado com o lar é mais do que uma opção para a maioria dos brasileiros, é uma necessidade.
A questão-chave, sobretudo, é inserir o enunciado em seu tempo, espaço e circunstâncias. Sabe-se que os direitos das mulheres são conquistas historicamente recentes. Sabe-se, também, que a referida revista tem um posicionamento ideológico claro (o que nem seria um problema), o qual busca referendar por meio das sutilezas da linguagem. A linguagem permite que se diga sem dizer, por meio dos implícitos, os quais podem ser reconstituídos com a inserção, nas análises, das condições históricas de produção dos enunciados.
Estabelecido o quadro, circulam fotografias de mulheres de todo o país, acompanhadas da hashtag #belarecatadaedolar. Do tema, já muito comentado, chamo a atenção para um efeito de sentido: de modo geral, a foto de bar tornou-se representativa da necessidade feminina de explicitar que pode ser o que quiser. Compreensível: a quebra de estereótipos exige rupturas drásticas que, ao menos temporariamente, constroem dualidades redutoras (algo em comum com Petralha X Coxinha). O ponto é: não seria outra forma (inconsciente) de dizer que ter liberdade é assumir certo papel, tipicamente associado ao mundo masculino?
A sociedade “aceitou” a mulher no mercado de trabalho (com as conhecidas restrições: salários mais baixos em média, menos mulheres em funções de liderança etc.), mas está longe de aceitar a sensibilidade (culturalmente associada à feminilidade). É como se eu precisasse dizer: “sou mulher, mas sou firme, não choro”. Avançado seria um mundo em que homens e mulheres se sentissem no pleno direito de chorar quando quisessem. Em que pudéssemos ser tão aceitos num dia de lágrimas quanto num dia de firmeza. Que não precisássemos negar o lar nem as lutas para nossa autoafirmação. E, licença poética, que pudéssemos apreciar a lua sem tantas preocupações.

Érika de Moraes é Doutora em Linguística, com ênfase em Análise do Discurso, pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

***Artigo originalmente publicado no Estadão Noite de 25 de abril de 2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

Minha carta às crianças do Brasil


Queridas crianças,


Escrevo para vocês.

Se ainda for pequena, papai, mamãe, titia ou algum responsável poderá ler para você.
Este mundo está complicado. Tem violência em toda parte. Brigas por política aqui no Brasil, atentados terroristas do outro lado do mundo. Tem mosquito, dengue e zika.
Mas, acalme-se.
Vou dizer por que vai dar tudo certo.
Vai dar certo por causa de VOCÊ. Você pode construir um mundo melhor.
Eu não sou mãe, mas sou titia, professora, amiguinha e tenho uma irmã mais nova. Brinquei com ela de tudo, de boneca a escolinha.
Sou professora dos maiores, dos jovens que já estão na faculdade. Também sou pesquisadora e escrevo alguns textos que poucas pessoas leem, mas sempre que alguém me diz que leu e aprendeu algo, fico muito feliz, porque não escrevo apenas para contar ponto no Lattes (não se preocupe em entender esse Lattes agora, é coisa do mundo dos adultos). Já escrevi sobre desenhos de crianças palestinas, sobre a Mona Lisa e outras coisinhas mais. Agora, é com você que quero conversar.
Tenha muito amor no seu coração porque o amor só traz de volta mais amor. Tente obedecer a seus responsáveis, porque eles querem o seu bem. Mas, se algum dia, papai, mamãe ou vovó gritar com você, pode ser que essa pessoa só esteja precisando de um abraço seu. Eu sei, é difícil de entender. Mas é que alguns adultos, às vezes, brigam com as crianças porque também precisam de amor. Tente fazer um cafuné na mamãe, dê um beijinho na testa do vovô. Eu não sei quem cuida de você, mas diga para essa pessoa que é bom tê-la por perto.
Não deseje a morte, não tenha ódio de ninguém. Você pode pensar diferente de outras pessoas, pode até não gostar de algumas, mas não pode desejar o mal. Não pode, porque todo mundo é um ser humano e merece respeito.
Você pode não gostar das ideias do outro. E é verdade que existem pessoas que praticam o mal, não quero que você seja uma delas. Porque se você, criança, for uma pessoa boa, um dia só teremos pessoas boas no mundo.
Pode ser que alguém já tenha magoado você muito, muito. Eu sei. É difícil entender. Mas saiba que todo mundo comete erros e, infelizmente, alguém pode ter errado com você.
Desejo, sinceramente, que você só tenha pessoas boas e amáveis ao seu lado. Tudo que você precisa nesse momento é de amor, de sorrisos, de alimento, de educação. Tenho alguns conselhos práticos para você.


CONSELHOS DE UMA AMIGA MAIS VELHA...

Estude. Estudar não é uma coisa chata que você deve fazer por obrigação. É algo maravilhoso, que vai abrir muitas portas e janelas pelo mundo. Estudando agora, mais tarde você vai ter mais chances de ter um bom emprego e de realizar sonhos, como viajar, conhecer lugares lindos. Há crianças que terão menos oportunidades do que você, agarre as suas e, se puder, ajude as outras.

Folheie livros de papel. Eu sei que a tecnologia é muito legal (eu mesma estou escrevendo em um tablet), mas não perca o encanto dos livros. Se você ainda não sabe ler, não tem problema. Folheie, invente suas próprias histórias com as figuras. E, quando puder ler, vai ver quanta coisa incrível poderá descobrir!

Tenha um caderno. Não deixe o caderno morrer! Mesmo que sua escola for ultramoderna e você utilizar computador, saiba que os cadernos são mágicos. Podem pular fadas e duendes de dentro deles, tudo depende da sua imaginação. Na voz de um poeta, o caderno faz um pedido a você: "só peço a você um favor, se puder, não me esqueça num canto qualquer". Você pode atender o pedido do caderno!

Treine a letra cursiva. Ela é linda, dá firmeza às mãos e aos pensamentos. Pode ser que alguém tenha dito que a letra manuscrita já não é importante ou necessária por causa do computador. Eu não concordo. Se alguém disser que a letra de mão não é útil, eu rebato: o mundo não precisa só de coisas úteis!

Esse é outro conselho. Duvide de que existe uma real separação entre o útil e o inútil. Não pense que só as coisas práticas e imediatas são importantes. Um exemplo: tomar banho e se alimentar é importante, é útil para a sua saúde. Ter um tempo sozinho ou sozinha, consigo mesmo(a), também é muito importante! É assim que as ideias aparecem, que você fica mais inteligente e criativo.

Deixe a imaginação rolar. Desenhe coisas bonitas e coloridas. Mas, se tiver vontade de desenhar algo triste, desenhe, depois tente conversar com um adulto sobre seu desenho.

Saiba: inteligência é algo valioso. Mas a bondade do coração é ainda mais. Se, em algum momento, precisar escolher, escolha sempre o bem.

Ser "o melhor" da turma ou ter uma boa profissão é bacana. Mas ser honesto e justo é muito mais importante.

Escute o canto dos bem-te-vis. É tão bonito!

Cheire as flores. Faça um leve carinho nelas, elas também são seres vivos. Os animaizinhos de estimação também merecem cuidados (eu não sou muito acostumada com eles porque eu era alérgica e cresci com medinho. Mas jamais pensei algo mau sobre eles!).

Sonhe, de olhos abertos ou fechados. Acredite em todos os seus sonhos. Se tiver um pesadelo à noite, chore, conte para um adulto de sua confiança. Eu te juro que, assim, a dor vai passar.

Observe as pessoas e aprenda em quem pode confiar. Com o tempo, isso vai ficando mais fácil.

Sorria para os adultos, isso amolece o coração deles e deixa o mundo muito mais bonito.

Sabe, as coisas estão tão complicadas, que eu já li até que foi preciso inventar um curso de "desaprincesamento" para meninas. Vou tentar explicar: é que nem sempre a vida garante um final feliz, um encontro com o seu príncipe encantado. É verdade. Tem um ditado que diz: "é melhor estar só do que mal acompanhado". Eu tive sorte de encontrar um bom namorado que se tornou meu marido. Mas, acredite: ninguém merece sua companhia se não trata você com amor e respeito.

Tanto meninas quanto meninos merecem respeito. Não xingue a coleguinha, pense que poderia ser sua irmã. Pense bem no que diz. Quando eu era pequena, olha que brincadeira boba as meninas faziam na escolinha (e eu, bobinha, muitas vezes participava). Xingávamos os meninos assim: "mulherzinha, só falta uma calcinha", sem perceber que estávamos xingando a nós mesmas!!! Só fui notar isso mais tarde.

Depois de esclarecer isso, eu digo que lamento a gente precisar "desaprincesar". Meu pai me contava contos de fadas todas as noites e é uma lembrança tão linda que eu tenho dele! Ele já não está comigo, agora mora no céu. Não sei como é lá, mas imagino que seja como um lindo jardim.

Minha mamãe está por perto e foi ela que me fez lembrar, por esses dias, da música O Caderno. Isso acabou me inspirando este texto.

Eu ainda acho que a vida pode ter magia, sonho, encanto, bondade. Você acha? Se você achar, a resposta é SIM, porque VOCÊ é o futuro.

NÃO PERCA JAMAIS ESSE SABOR DE INFÂNCIA!!!

Sabe esse prazer que um simples galho de árvore pode trazer, se você, transformá-lo, por meio da imaginação, em ferramenta de um grande artista? 

Sabe o cheirinho de fruta saborosa? O pezinho na areia perto da água do mar? 

Sabe o poder de uma folha de papel que pode se transformar em barco ou avião, se você dobrar direitinho? 

Não perca isso. Saiba levar isso para a vida adulta. Você vai entender que as melhores coisas não são compradas com dinheiro. 

Pode ser que nem tudo do que eu disse esteja totalmente certo. Eu sou humana e também posso errar. Mas é de coração. Senti que minha missão deste dia era escrever para você.

Feliz Páscoa. Que o coelhinho traga muita paz e alegria para seu coração.
Um abraço carinhoso,

Érika de Moraes

* * * 

PS: Vou indicar um vídeo para você do Youtube, com a letra da música O Caderno, de Toquinho e Vinicius:


* * * 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

CRÔNICA - Dias claros como a neve

Crônica da estudante Larissa Borges Caliari (Jornalismo - Unesp) inspirada em notícia real.

Dias claros como a neve

por Larissa Borges Caliari

Acordo de manhãzinha e sinto o dia frio, ouço o papai chamando a mamãe para olhar a paisagem da janela. Ela se anima e ouço seus passos quando levanta da cama correndo. Os dois falam sobre a neve, em como ela deixou a paisagem branquinha durante a noite. Os dias mais frios são sempre muito animados aqui em casa. A voz da mamãe se torna mais doce e calma, e a do papai mais confiante e serena.
Fico imaginando como é a paisagem, me esforço para enxergar a mamãe e o papai, vejo o vulto deles, abraçados, olhando um para o outro. Então, eles caminham em minha direção, sinto o perfume do papai, que acabou de tomar banho para ir ao trabalho. Ele coloca um cobertor quentinho em cima de mim, enquanto a mamãe coloca a mamadeira em minha boca. Ouço o som de lenha queimando na lareira, de água fervendo para o chá, da batedeira funcionando. Logo em seguida, sinto o ambiente aconchegante, o cheiro de chá e de biscoitos assando.
Percebo tudo a minha volta, mas tem coisas que não são muito claras para mim. Como o cabelo brilhante da mamãe, que o papai diz que fica lindo com aquela touca azul-marinho, ou a diferença de cor entre o cabelo e a barba dele, que ela diz ser um charme único. As cores, formas e movimentos se confundem diante do meu olhar, mas sei que os dois são as pessoas mais bonitas que já vi.
O papai sai pra trabalhar logo de manhã, e mamãe vai perto da hora do almoço, quando a vovó chega com seus passos lentos e silenciosos e me pega no colo por horas, como todos os dias. A sua roupa é macia, o perfume suave e a voz sempre reconfortante. Hoje ela está mais feliz, percebo a ansiedade em seus movimentos e imagino que deve ser por causa da neve, que alegra os dias da família toda.
Percebo que está ficando tarde, os dois não chegaram na hora de costume. O dia já está se tornando noite e o frio aumenta com o repousar do sol. Então o portão se abre, ouço a conversa animada e os passos apressados. Mamãe entra e pergunta por mim para vovó, que aponta em minha direção. Eles vêm até o berço com uma caixinha embrulhada de presente. Estão conversando comigo, mostram o embrulho, desembrulham e abrem. Tiram de lá uns óculos, como o da vovó, e percebo que aqueles são pra mim quando papai traz em direção ao meu rosto. Ele prende atrás da minha cabeça e encaixa nos olhos.
Vejo tudo com clareza, as imagens são mais coloridas e brilhantes, papai e mamãe estão mais bonitos que antes, flocos branquinhos estão passando pela janela, é a neve! Vejo como é felpudo o casaco macio da vovó, como a pele macia da mamãe é branquinha e como o cabelo cheiroso do papai é encaracolado. Não consigo conter minha felicidade, sorrio para os três e eles sorriem de volta para mim! As risadas agora também são mais bonitas.


Notícia que inspirou esta crônica: campanha arrecada armações de óculos para pessoas de baixa renda.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

CRÔNICA - Vinte e três

Será que somos apenas um conjunto de números?
Ou seres humanos, com nomes, sonhos, planos, emoções e algo mais...
Texto singelo produzido pela estudante Clara Tadayozzi (Jornalismo - Unesp)

Vinte e três
por Clara Tadayozzi
  
- Ela era bonita? – perguntou, depois de certa hesitação.
- Para mim, a mais bela de todas – ele respondeu com visível ternura.
Naquele quarto frio de hospital, a visita diária às vezes trazia assuntos inusitados.
Ele prosseguiu relatando o pouco que sobrou de uma vida memorável.
- Nunca me esqueço do dia em que pedi sua mão. Namorávamos já havia algum tempo, às escuras. Ela era apenas um ano mais nova do que eu.
Nunca senti tanto receio em toda a minha vida; seu pai era tido com respeito, temido por todos os peraltas da cidade.
E eu, para a surpresa de todos, acabei sendo aceito naquela humilde família.
Logo criamos nossa pequena rotina, naquela vida adorável de recém-casados.
Aos fins de semana, costumávamos sair para comer fora e depois pegar um cinema. Pegávamos carona com o metrô e ficávamos entre curtas carícias durante o longo percurso.
Quando o filme terminava, eu já aguardava a doce pergunta: "Voltemos a pé?", e com um breve sorriso, assentia com a cabeça.
Logo pegava o seu par de sapatos, e saíamos a caminhar sob o céu noturno.
Não tínhamos pressa alguma, esperávamos o belo amanhecer naquelas familiares ruas de São Paulo.
Havia uma feira pela manhã, próxima a nossa singela residência. Eu comprava sempre dois pastéis para o desjejum. E então, voltávamos para casa e dormíamos até mais tarde.
Foram os dias mais felizes da minha existência.
Quando soube que ela estava grávida, tratei de encontrar um ofício a mais, e logo aumentei nossa pequena casa.
Providenciei tudo o que um pai poderia proporcionar a uma querida filha. Obtive ajuda de diversos amigos e, por fim, um mundo isento de necessidades e repleto de amor a aguardava, ansioso por conhecê-la.
Lamentavelmente, nunca teve a chance. Por um falho ato médico, subitamente perdi tudo o que tinha de valor neste mundo, até mesmo antes de ganhar. Um maldito fórceps, uma inestancável hemorragia.
Há quem me cobre processos jurídicos, mas dinheiro algum as traria de volta.
Foi como se o meu querido órgão cardiovascular se partisse em milhões de pedaços, que até hoje não consegui reunir. O lindo enxoval foi doado, com porções de minha alma embutidas.
Parei de viver por um eterno período de tempo. Nunca deixei de sentir a imensa dor que se apossa do corpo em grandes perdas.
Saí pelo mundo, a vagar por entre as cidades mal distribuídas; conheci os cantos deste país, e até de outros. Mergulhei em diferentes oceanos, presenciei acontecimentos inesquecíveis. Jamais algo me preencheu novamente.
A menina escutava comovida, sem saber como organizar as palavras que lhe surgiam na mente, para saírem adequadas da boca.
Lacrimejava, mas impedia que caíssem de seus olhos as gotas ansiosas por nascer.
Deu um sincero beijo em suas mãos calejadas e manteve-se em silêncio.
- Sou o número vinte e três da lista de transplantes – ele então lhe disse.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Como explicar pro Fernandinho?

Mais uma crônica para encarar preconceitos.
Texto da estudante Amanda Casagrande (Jornalismo, Unesp)

Como explicar pro Fernandinho?

por Amanda Casagrande Mela   

     Um homem, uma mulher e o filho. Era a tradicional família brasileira do século XXI. Os pais andavam preocupados em como explicar a situação pro filho de 8 anos. Nessa idade, a mentalidade ainda estava se formando e eles estavam  com medo que a notícia confundisse ou influenciasse o menino Fernando. Tão criança, não sabia nada da vida ainda, coitadinho. Precisava aprender a lidar com a situação.
     A mãe ficou indignada ao saber que sua irmã aceitou numa boa. Ela, por sua vez, levou dias pra digerir a situação e até relutou bastante diante da "escolha" do sobrinho. O pai de Fernandinho ficou pasmo no início, mas depois comentou com a mulher: "eu sempre soube que uma hora isso ia acontecer, o seu sobrinho sempre teve jeito pra essas coisas".
     Depois de algumas noites mal dormidas, o casal decidiu que seria o pai que contaria ao filho. Acharam que seria melhor o Fernandinho ouvir isso de uma figura mais imponente. Talvez ele nem fosse influenciado pela situação se um homem másculo o bastante lhe desse a notícia.
     - Filho, o papai quer te falar uma coisa. Seu primo William vai viajar com a gente, mas vai acompanhado.
     Os dois ficaram em silêncio. Fernandinho, que estava jogando UFC com o olhar fixo no videogame, nem deu bola pro que tinha acabado de ouvir. Mas o pai continuou mesmo assim:
      - Ele vai levar o namorado para o Guarujá com a gente.
    O jogo foi pausado quase que instantaneamente. Bastou o garoto apertar um único botão do controle que estava em suas mãos. Ele olhou pro pai com o rosto confuso.
     - Mas pai... Como assim?
     - Eu sei que é estranho, mas...
     - Muito estranho. A mamãe falou que íamos pra Ubatuba. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

CRÔNICA - O desfile das divas

Produção do meu aluno Wesley Anjos (Jornalismo, Unesp)
Um texto para enfrentar preconceitos!
profa. Érika

O desfile das divas

por Wesley Anjos

Todo final de ano era assim: as famílias reunidas na praia e a Zezé se metendo a falar do tal do feminismo. Lourdinha sempre torcia o nariz com desdém. Dessa vez, com cara de quem comeu e não gostou nadinha, pôs-se logo a argumentar:  “Credo! Deus que me livre dessa pouca vergonha. Outro dia vi uma tal Marcha das Vadias. Se elas gostam de se aparecer como vadias, por que não gostam de ser tratadas como tal? Safadeza, isso sim!”.
- Você reproduz o discurso que eles querem que reproduzamos, sem ao menos perceber.
-  Muito pelo contrário. Aprendi com a minha mãe, que aprendeu com a minha avó.
-  Que assim como você reproduziram sem reclamar o que os machistas queriam!
Sônia tratou logo de falar da beleza da praia. Queria era evitar que a discussão se estendesse. Todo ano era igual. Para que discutir? Para que arrumar mais problemas? As coisas não podiam ficar como estavam? Não podia, não! Não para Zezé, que acreditava que o machismo era uma doença que só podia ser curada se fosse medicada. Mas, devido à insistência de Sônia, as quatro acabaram entrando no assunto. O sol, o mar, a areia... Ah! Aquilo tudo era bom demais. Até que, espere aí! Foi Teresa quem se exaltou dessa vez:
- Olha o biquíni daquela rapariga ali, todo enterrado naquele lugar. Essa não é moça de respeito.
-  E o que seria uma moça de respeito?
-  Ora, sabemos muito bem que pra homem tem mulher pra casar e mulher só pra molhar o biscoito. Essas biscates servem pra isso.
- Por isso que tem tanto homem traindo. Culpa dessas vagabundas! – opinou Lourdinha.
Para quê? Zezé ficou com a cara de um bicho e tratou logo de contra-argumentar:
-  Pois fique sabendo que, no caso, quem se comprometeu com um casamento que tem de zelar por ele. Parem de reproduzir esses discursinhos machistas! Então querem dizer que o homem trai e não tem culpa por isso?
- Ora, agora preciso falar – Teresa tentava justificar. – Homem é homem. A gente sabe que homem tem a carne fraca.
- É sempre assim! Eles sempre usam essa desculpa e a culpa cai sempre nas nossas costas. Não percebem?
-  Ah, isso é – disse Teresa.
-  É bem verdade – concordou Lourdinha.
-  Pois queria eu ter esse corpinho para desfilar de biquíni – riu Sônia. – Depois dos quarenta a gente entrega pra Cristo.
Foi então que Zezé retirou a tanga e a blusinha. Exibiu o seu biquíni com orgulho. Como é que ela tinha coragem de mostrar aquelas estrias e celulites? Depois de dois filhos e certa idade, mulher nenhuma era mais a mesma, disseram logo as outras três.
-  As marcas do meu corpo são lindas, assim como ele. Elas refletem as mudanças que ele passou. E cada etapa dessa vida valeu muito a pena.
Pegou a sua bolsa. Retirou um estojo e um espelhinho. Passou um batom vermelho e distribuiu para as demais. Quando se deram conta, estavam todas passeando com as bocas pintadas e os corpos à mostra. Aquela brincadeira fez com que se sentissem divas. E o eram. Zezé não deixava de repetir que é preciso ter muita coragem e força para ser mulher nesse mundo, para lidar com os mistérios do seu corpo e com aqueles seres que mijavam em pé e queriam ditar as regras.
* * * * *
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

CRÔNICA - A morte e a letra "M"

A estudante Isabela Holl (Jornalismo, Unesp) escreve sobre o tempo, sobre a vida...

A morte e a letra “M” 

por Isabela Holl 

     João tinha 6 anos quando tirou a roupa, abriu a porta do box e ligou o chuveiro. Assim que a água tocou o seu corpo, seu coração disparou, sua respiração ficou mais rápida e, naquele momento, tomou consciência de uma coisa: um dia ele iria morrer. 
     Talvez você, leitor, já tenha experimentado esta sensação única e difícil de descrever. É quando seu organismo, seu cérebro e seu coração percebem que são efêmeros. O pânico se espalha aos poucos; célula por célula. É normal ter pensamentos como “Isso não é justo!”, “ Isso não pode ser verdade!” ou “Por que, Deus?”. 
     E, para piorar ainda mais, temos o Senhor Tempo. Ele não costuma ajudar, pois ele tem a mania de passar rápido demais. Atualmente, um estranho fenômeno acontece: o Tempo parece realmente ter perdido a paciência. Não se sabe muito bem o motivo, mas ele está correndo cada vez mais rápido. Isso faz com que as crianças logo virem adolescentes e os adolescentes virem adultos e por aí vai. 
     Assim aconteceu com João, já estava grandinho, mas ainda não tinha superado muito bem esse papo de morte. "Realmente não é justo, 9 meses de gestação, 22 anos na escola e o resto da vida construindo uma carreira. Por que, se vamos morrer?". Se revoltava, também, quando lia aquele clichê "vieste do pó e ao pó retornarás", João teimava: "não me lembro de ter vindo de pó algum e sim da barriga da minha mãe, onde estava bem úmido por sinal". Ele concluiu que era necessário aproveitar a vida, já que todos iríamos, um dia, chegar ao fim. 
     Mas ele foi se tornando adulto e daqueles bem ocupados. E foi esquecendo esse assunto, afinal, tinha muita papelada do escritório para analisar e aquela pós graduação que deveria fazer. Uma vez, uma mulher apareceu na sua vida, mas ela acabou indo embora, porque ele não tinha muito tempo para ela, assim como não tinha tempo para os finais de semana ou para qualquer outra coisa. 
     João tinha 50 anos quando olhou para o relógio, faltava meia hora para o fim do expediente. Assim que tirou seus olhos do relógio, seu coração disparou, sua respiração ficou mais rápida, e naquele momento, tomou consciência de uma coisa: um dia ele iria morrer. E se permitiu refletir um pouco sobre sua vida. Tinha passado tempo demais no escritório, pouco tempo viajando, vendo os amigos ou fazendo qualquer coisa ao ar livre. E tinha aquela moça, como ela chamava mesmo? Mariana? Márcia? Era alguma coisa com a letra “M”, não conseguia se lembrar há quanto tempo ela tinha ido embora. 
     Decidiu que iria recuperar o tempo perdido e, pela primeira vez, se permitiu sair mais cedo do trabalho. Andou pelo quarteirão animado consigo mesmo e sem pensar em nada. As pessoas na rua ouviram um estrondo e rapidamente olharam para ver o que tinha acontecido. Um letreiro velho decidiu que era a hora de despencar e justamente em cima do João. Ele ergueu o pescoço e pôde ver a letra que o acertara: era um “M”. Lembrou que o nome da moça era Mariana e não deu tempo de lembrar mais nada. 
     Realmente não é justo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

CRÔNICA - O ano em que avistamos uma nova primavera

Crônica politizada da minha aluna Gabriella Soares dos Santos (Jornalismo / Unesp) sobre o louco ano de 2015.
Profa. Érika

O ano em que avistamos uma nova primavera

por Gabriella Soares dos Santos 

Analisando as principais manchetes dos jornais de 2015, consigo observar que esse foi um ano dramático e que ficará marcado para todos, seja pelos seus momentos positivos, seja pelos negativos. Nesse sentido – e admito de início: assumo aqui uma postura positiva –, é impossível não perceber que esse ano significou um marco para os mais diversos movimentos e as mais diversas causas ao redor do mundo.
Vimos atentados terroristas abalarem os pilares da democracia ocidental ao mesmo tempo em que testemunhamos o maior movimento migratório desde a Segunda Guerra Mundial com suas trágicas consequências. Vimos a corrupção em sua forma mais clara, junto com o mar de lama que dela se originou, destruir fauna, flora e vidas. Observamos e sofremos com a violência policial, que, de tão frequente, se tornou impossível de ser ignorada, seja contra negros nos Estados Unidos ou contra professores e alunos no Brasil. Nesse ano, vimos um pouco de tudo.
Entretanto, foi também em 2015 que presenciamos uma nova primavera dos povos, como muitos colocaram. Mulheres, homossexuais, negros, trabalhadores, cidadãos: todos eles tomaram as ruas e promoveram ações para defender seus direitos assim como aquilo em que acreditam. A população tomou as ruas em São Paulo contra o aumento das tarifas de transporte; no Paraná, os professores lutam pelos seus direitos trabalhistas, enquanto no Chile são os alunos que tomam as ruas pela educação; as mulheres são firmes e constantes ao reivindicarem seus direitos individuais, políticos e sociais em todo o mundo e em Nova York vemos a questão negra voltar a ser central.
O sentimento que prevalece após esses acontecimentos é a esperança de que essa nova Primavera tenha um caráter muito mais duradouro do que suas antecessoras. Que as demandas expressas no ano passado não sejam colocadas em prática de forma tão efêmera e descompromissada como ocorreu nas revoluções liberais de 1848. Também é um desejo que vejamos resultados mais animadores do que aqueles que a maioria dos países que participaram da primavera árabe podem observar atualmente, seja no contexto político, social ou dos próprios direitos humanos. O melhor fruto que pode vir do protagonismo dos movimentos sociais nesse último ano é a possibilidade de não termos como voltar atrás, é a possibilidade de não retrocedermos; é o maior desejo de qualquer um que esteja lutando ou que saiba valorizar a luta por uma sociedade verdadeiramente democrática.
Quero acreditar que a única opção lógica que nos resta é seguirmos em frente. Não vejo como uma alternativa fecharmos os olhos, não agora que eles foram abertos, escancarados, mesmo nos momentos e para aqueles que não desejavam. Ignorar a violência policial não é mais a única opção, pelo contrário. Se os acontecimentos no Paraná, em São Paulo, no Rio de Janeiro e nos Estados Unidos nos ensinaram alguma coisa é que o silêncio não é mais viável, ou pelo menos não deveria ser.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Uma foto para registrar Chá Líquido

Já visitei algumas cidades imaginárias.
Com a aluna Karina, conheci Chá Líquido.
Espiei-a pela janela do trem e voltei para cá.
Afinal, amanhã tenho aulas com esses alunos criativos!
Profa. Érika


Uma foto para registrar Chá Líquido

por Karina Francisco

Era dezembro na cidade de Chá Líquido, Ana estava caminhando pelas ruas a apreciar e fotografar os enfeites natalinos. Ela ainda não se adaptara totalmente à nova cidade, em que todos estavam sempre correndo, em busca do que comprar, do que consumir, do que fazer para ganhar dinheiro, fugindo de compromissos profundos demais. Era muito frio se comparado a Ferra Maciço, onde nascera. Mas ela tinha sua câmera, e com ela ficava horas registrando seus pensamentos e sentimentos.
Ana continuou seu caminho, seu namorado estava atrasado como sempre, parecia nunca se importar com horários, compromissos ou qualquer assunto que demorasse muito a acabar. Ana não ligava, achava engraçada essa aversão de seu namorado em se apegar a objetos ou indivíduos. Ele era uma boa pessoa mesmo assim, valia uma foto.
Desistindo de esperar no frio, Ana entrou na loja de sua mãe, que vendia quitutes e estava sempre cheia de ávidos consumidores imediatistas e ansiosos por devorar as comidas tão gostosas do lugar. Em meio a tantos gordinhos, Ana sempre se sentiu excluída, pois era magrinha e ativa, constantemente correndo para lá e para cá, em busca de uma boa fotografia.
Em sua escola, todos a achavam esquisita, perguntavam se ela não tinha nada para se ocupar, ou o que estudar. Todos estavam sempre apressados pelos corredores, mas corriam contra o tempo, pois havia muita tarefa a ser feita. Ana sempre investia em sua felicidade e suas fotos na antiga cidade. Tinha poucos amigos, os quais valorizava muito. As pessoas ajudavam umas às outras e sempre havia trabalho para todos em Ferro Maciço. Mas aqui, em Chá Líquido, as quantidades é que valiam, e ninguém parecia realmente se importar com o outro, pois a competição é que regia as regras da cidade.
Para ajudar sua mãe no movimento da loja, Ana foi fazer uma entrega especial na casa de um cliente, e após tirar algumas fotos com sua máquina, decidiu visitar seu pai na empresa onde tinha começado a trabalhar, motivo pelo qual toda a família teve de se mudar.
A empresa era grandiosa e, sem ser notada, Ana foi entrando. Mas seu pai estava ocupado demais para atendê-la, dizia a ela que alguém precisava ganhar dinheiro. Ana achou esquisito, para ela seu pai já tinha conseguido dinheiro demais em Chá Líquido, mas ele respondeu-lhe que “ainda era pouco, sempre é pouco.”
Mesmo assim, Ana gostava da cidade. Via oportunidades aos montes, outdoors sempre convidativos, muito entretenimento agitando o município. O lazer e o descompromisso pareciam reinar. Porém, a pressão era demais, seus pais e namorado queriam que ela se adaptasse, que buscasse ascender profissionalmente, ganhar muito dinheiro e comprar tudo que desejasse, além de largar a câmera, pois não havia futuro nela. Ana não desejava comprar nada, apenas correr livre pelos campos com suas fotos, mas não a deixavam.
Um dia, ao acordar, percebeu que sua máquina havia sumido. Foi procurar e não encontrou nem suas fotos, que com tanto amor arquivara. Desesperada, Ana começou a chorar, queria de volta sua câmera e seus álbuns, os quais tinham sido todos vendidos, lhe disseram. Em uma insensata e louca procura, ela andou a cidade toda, perguntou a todos que conhecia e não encontrou nem vestígios. Ana tinha medo de se esquecer do que estava nas fotos, sua antiga cidade e amigos, seus valores e felicidades.
Ana ficou sem rumo por um tempo, a andar no meio dos apressados, sozinha e deprimida. Seus pais, para fazê-la ocupar a cabeça, a matricularam na faculdade de Direito e em outros tantos projetos de trabalho. Ana se atarefou tanto que não teve mais tempo para lembrar de sua câmera. Ela, agora, tinha compromissos, aspirações, objetivos e nada do que viera ou fora antigamente importava mais.
Ana cresceu e conseguiu tudo o que queria desde que entrara na faculdade: casou, teve filhos, comprou casa e carro. E em um belo dia, remexendo no porão, encontrou sua câmera e seus álbuns escondidos embaixo do assoalho. Ao olhá-los, Ana gritou:

- Preciso de mais um saco de lixo aqui em cima, por favor!

sábado, 23 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Surpresa de Ano Novo

Surpresa de Ano Novo

por Lívia Reginato

     Todo ano já sei que aquele momento está chegando, começo a pressentir pelo cheiro de panetone no ar, quando sinto o primeiro aroma de frutas secas, já vou me preparando psicologicamente...
     Chega parente de todo canto, a casa fica cheia, tem gente para brincar comigo e matar a saudade em todos os cômodos, é uma alegria só! Sempre fico feliz quando lembram de mim e ganho algum mimo. Corro de um lado para outro tentando dar atenção a todos, mas é uma tarefa difícil.
     Peixe assado, salada de lentilha, pernil, bacalhau, torta de romã, outros cheiros vão me animando ao passar dos dias. Às vezes, vou tentar pegar alguma bolinha da árvore de natal, mas tem sempre alguém para me tirar de perto de lá, acabo deixando para depois. Se eu der sorte, consigo pegar um pedaço grande de pernil, é só esperar com cautela, ficar no lugar certo, olhar com jeitinho para a pessoa certa e pronto: sempre funciona.
    Mas quando chega a noite e todo mundo vai dormir, me encolho na minha cama, sabendo o que está por vir. Tento não fazer nenhum barulho, a casa está cheia, não quero incomodar. Ano passado dei umas resmungadas e acordei um dos bebês, acabou que ninguém dormiu. Este ano vou me controlar, eu prometi.
     Os dias passam nesse clima agitado. À certa altura, minha mãe arruma a mesa de jantar com um pano bem bonito que era da vó dela. O dia é de fartura, todos muito felizes, tem comida boa e música o dia todo. Mas eu sei o que está por vir, mesmo que eu tente aproveitar, uma vozinha lá no fundo da minha mente me lembra, a noite vai chegar...
    Uma das crianças vem brincar comigo, como cresceu! Me distraio por uns segundos, mas o relógio começa a badalar: uma, duas, três, quatro. Já sei que chegou a hora: corro para debaixo da cama da minha mãe. Cinco, seis, sete. Cubro meus ouvidos com minhas patas, tento não chorar. Oito, nove, dez, onze...
     Doze.
     Todos gritam aclamando o ano novo, mas algo está diferente, escuto barulhos ao fundo, mas não são como nos outros anos. Minha mãe vem me buscar, eu não quero sair, pode ser que tenha atrasado, tenho medo.
    Ela consegue me tirar de debaixo da cama, me leva para a sacada da casa, tem mais gente lá brindando e se abraçando. Mas quando vejo o céu, ah! Que lindo é o céu! Cheio de luzes, brilhando por toda parte, escuto alguns estrondos, mas é só isso, e luzes e mais luzes piscam por todos os lados vindo do parque Vitória Régia. Eu lato com alegria, que coisa linda! Minha mãe faz carinho na minha cabeça.
     Que venha 2016!

* Pela primeira vez, a queima de fogos da cidade de Bauru utilizou explosivos que fazem menos barulho, para o bem-estar dos pets e das crianças.

****
Notinha da professora Érika:
Tenho algo em comum com os pets de estimação: nunca gostei do barulho dos fogos de artifício!!!
Esta foi uma ótima iniciativa da cidade de Bauru, que avançou pelo menos no que diz respeito a esta questão. É pena que muitos cidadãos continuem soltando rojões de maneira desastrosa e perigosa, sem preparo ou planejamento.

Lívia Reginato é estudante de jornalismo na Unesp, Bauru.
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Almas dançantes

Hoje, a crônica é da estudante Giovana Murça Pastori (Jornalismo, Unesp), uma reflexão poética sobre a vida e o cantar dos pássaros.
Boa leitura!
Profa. Érika

Almas dançantes

por Giovana Murça Pastori      

São 6 horas da tarde. Pela rua movimentada passam veículos barulhentos e a fumaça cinza anuncia o horário do rush.
Um ônibus sobe a rua do cemitério e, dentro dele, muitas pessoas se espremem a fim de somente voltar para casa ao final de mais um dia cansativo de trabalho. As pessoas vão com semblantes fechados, cansados e sérios, a maioria infeliz, descontente com tudo a sua volta e com sua vida.
O ônibus passa pelo cemitério e aquelas pessoas lembram-se de seus parentes falecidos, lembram que a vida é curta, e que aquele é o destino de todos: a morte. Mas somente lembram, passam e esquecem.
 Enquanto isso, dentro do cemitério, quanta ironia, um bando de passarinhos voa sem parar, de um lado para o outro, por cima das sepulturas, brincam com toda tristeza, melancolia, depressão de um lugar esquecido pelos vivos, zombam da morte, dançam alegremente sobre o choro de quem ficou.
E quem ficou agora está naquele ônibus que passa pelo cemitério, com cara de tédio e tristeza, e bem ali do outro lado estão os passarinhos como almas dançantes em cima das sepulturas, como uma festa dos mortos que passa despercebida.
Todos os dias, no horário do rush, aqueles passarinhos tentam mostrar a alegria da vida, o real sentido para viver, mas aquelas pessoas daquele ônibus nunca os percebem, e somente continuam voltando pra casa, como se não soubessem que um dia serão elas que descerão naquele ponto do cemitério e serão zombadas por um bando de passarinhos dançantes, que riem não só da morte, mas sim da falta de vida daquelas pessoas com semblantes fechados, naquele ônibus lotado de tanta vida sem vida.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

CRÔNICA - À labuta, filhos da escola

A crônica da estudante Beatriz Milanez (Jornalismo, Unesp) me fez lembrar de uma canção do Balão Mágico, lá da infância, que dizia assim:
Amigo, companheiro de colégio, hoje eu canto de alegria por de novo te encontrar. Nas férias, eu brincava todo dia, mas no fundo o que eu queria era mesmo estar aqui...
Vamos ler?
Nos próximos dias, tem mais.
Profa. Érika

À labuta, filhos da escola

por Beatriz Milanez

      Não foram poucas as vezes que ouvi aquele clichê: “passar no vestibular é fácil, o difícil mesmo é sair da faculdade”. É de se confessar que custei a acreditar, e só fui me dar conta de que era a verdade assim que o despertador tocou pela terceira vez, quando cansei de apertar o botão “soneca”. Os cinco minutinhos a mais tinham se transformado em quase quinze. Só quinze. Ainda com a voz embargada e a cara amassada, tentei contar quantos dias ainda faltavam pro final. Tentativa falha, claro. O sono era demais.
      No começo, as coisas são mais fáceis. Até mesmo os dias de ócio – as tão famigeradas férias –, reclamando sobre me sentir inútil e estar desesperada para fazer algo, me deixaram saudade. No fim, falta de tempo e inúmeras xícaras – quando não, copos – de café. Chego até a me questionar se realmente gosto da cafeína ou se foi ela que finalmente tomou conta do meu corpo, assim, sem pedir licença. Pilhas de textos a ler; listas infinitas de contas a fazer; seminários à espera de atenção acompanhados do medo da exposição frente ao professor e aos amigos; medo que acaba em frio na barriga e suor gelado, daquele que arrepia a espinha. Provas, tcc, textos, listas, tcc, provas... Parece não ter fim. Quantos dias faltavam pro final?
      “Mas você só estuda”. Talvez seja esse o pensamento dos professores. A teoria de que eles acreditam que só existe a matéria deles também é aceita. Uma pena não ser a realidade, não é mesmo? Seria ótimo se dedicar a uma única coisa, sem deixar acumular outras e outras e mais outras. Sim, quase me esqueci dela, a procrastinação. Quantas foram as coisas que deixei pra depois? Tantas, que até perdi a conta. Quase sempre bate um arrependimento. “Deveria ser mais organizada e ter feito antes” ou “no próximo semestre vou mudar” são palavras que passam em qualquer cabeça agora, inclusive na minha. Mas sei que elas vão me deixar, assim que acabar, quase que instantaneamente.
     Ser estudante não é tarefa fácil. Os bastidores da labuta são refletidos no espelho, literalmente. O que dizer sobre o tamanho das olheiras? E das dores nas costas? E olha que ainda somos jovens. Sim, somos tão jovens. Renato Russo tinha razão. Mas acredito que se esquecera de cantar – ou avisar – que o futuro bate na porta rápido demais, sem dar tempo de pensar. Assim, lancei outra teoria: a nossa preguiça é apenas um modo de evitarmos o que nos espera lá na frente. Não estamos preparados, estamos? Acho que faz sentido.
     Agora, acabou. O mundo saiu de nossas costas e podemos, enfim, dormir sem nos preocupar com o acordar. Horas a fio destinadas a nada. Nada. Horas, dias, semanas e, em alguns casos, meses para fazer nada. É tempo de relaxar, jogar conversa fora – seja com os outros ou com a própria mente – e esperar. Ainda tem mais, muito mais. No entanto, por hora, é isso. Quem é que se cansa de férias? Mente vazia, sem correria, sem noites em claro, sem festas, sem reclamações, sem a zoeira com os amigos, sem professores pra reclamar, sem... Ah. E agora, quantos dias faltam pro final?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

CRÔNICA - Filhos da Pátria

Meus alunos do curso de Jornalismo (Unesp) produziram belas crônicas para a aula de Técnica Redacional II, cada um com seu lirismo e estilo.
Pedi autorização deles para divulgar aqui no blog e, assim, guardá-las também como lembrança.
Vamos começar com a da estudante Amanda de Assis Araújo, que deu voz ao nosso Pai-Filho-País.
Profa. Érika

PS: outras turmas também produziram ótimos textos. Agora, veio a ideia de mostrar por aqui, em vez de guardar para "algum dia montar um livro".

Filhos da Pátria
por Amanda de Assis Araújo

Cada dia vivo com inúmeros problemas de saúde: sejam eles econômicos, sociais ou políticos e, infelizmente, sempre preciso de outras pessoas para resolvê-los por mim. Atualmente, meu maior problema está na área da política, porque sofro com corrupção, desvio de verbas, falta de governabilidade e as pessoas escolhidas para resolverem esses problemas para mim não estão dando conta. Uma delas tem o título de Presidente da República Federativa do Brasil e é considerada minha maior cuidadora, mas não a única, como a maioria das pessoas imaginam. E, no caso, Brasil sou eu.
Estou passando por um novo e, ao mesmo tempo, velho problema: o mesmo que ocorreu em 1992, mas com motivos e dimensões diferentes. Naquele ano, ocorreu o impeachment, aquele negócio todo complicado que procura tirar um dos meus filhos da Pátria do poder, o Presidente, que nessa época era o Fernando Collor. Esse impeachment foi motivado, entre outros fatores, pelo fato de que Collor estava confiscando o saldo das poupanças bancárias de toda a minha população, com o argumento de acabar com a inflação, além de muitos outros problemas que estavam ocorrendo na época. Não concordei com nada disso e, mesmo assim, não tinha o que eu fazer. Porque foi esse mesmo povo que escolheu esse Presidente para tomar conta de mim.
Agora estou enfrentando novos problemas. Dilma Rousseff foi escolhida para ser a pessoa que possui o cargo mais importante no que diz respeito a cuidar de mim, o Brasil. O povo foi lá, votou, ela ganhou pela segunda vez e, agora, a maioria está infeliz e quer fazer esse tal de impeachment de novo. Mas o que as pessoas não entendem é que a dimensão do que está acontecendo comigo hoje é totalmente diferente do que aconteceu em 1992. Estou vivendo uma fase em que meu problema não está só com minha maior cuidadora, a Presidente, e sim com inúmeras outras pessoas que também cuidam de mim, em graus diferentes da Dilma e que também foram escolhidas para os papéis que estão representando.
Para esse novo impeachment, que pode ou não acontecer, os motivos são: imperícia, negligência, imprudência, pedaladas fiscais, omissão sobre alguns assuntos da Petrobrás. E eu estou ficando cada vez mais confuso e irritado com tudo isso. As pessoas não percebem que a Presidente não é a única que não está sabendo cuidar direito de mim e que outros indivíduos fazem parte desses problemas que tenho diariamente, inclusive os que somente me habitam e não possuem uma função de governar.
Tudo isso me faz refletir: será que todos os meus problemas podem ser curados apenas com a saída da Presidente? Ou será que todos que foram eleitos para serem responsáveis pela minha saúde deveriam sair e começaríamos tudo de novo com pessoas novas? Ou, talvez, será que eu cuido melhor de mim mesmo sem a ajuda deles?